Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A alcunha

O menino chega em casa novamente triste e a mãe nem nota. Ele é sempre assim. Não tem amigos, porque, cá entre nós, é chato e desinteressante; e a sua mania de machinho afasta todos os que tem bom coração. E isso é um problema. Afinal, quando somos crianças, todos temos bom coração.

Ele vai pro seu quarto, pega a caixa cheia dos brinquedos que ele próprio quebrou e a leva pro quintal pra descontar sua agressividade mal dirigida. Ele os golpeia com um martelo; os amarra em bombinhas e os explode; os queima com lupas e sol, com álcool e fósforos. Sorri. Imagina que está fazendo isso com aqueles que não consegue amar. Quando somos crianças, todos temos bom coração. Apesar da idade, o menino não é e nunca foi uma criança.

Todo dia a raiva dele tem um motivo diferente. Ele culpa os outros por tudo. Por serem mais bonitos, mais inteligentes, mais carismáticos, mais interessantes. Não aceita que a culpa seja dele, por ser feio, burro, chato e sem graça. Todo o dia ele culpa os outros, mas tem, lá no fundinho, a sensação de que o ódio que sente é injustificado. Mesmo assim ele fica com raiva e os odeia do fundo do seu coração.

Hoje não foi diferente, colocaram nele uma alcunha, um apelido, que ele não gostou. Como tinha tudo a ver com a realidade, pegou, e ele foi obrigado a ficar ouvindo o dia inteiro o chamarem de e cantarolarem aquele nome que tanto lhe incomodou. O menino se ressentiu do apelido, pois ele fala à sua alma. É quem ele é. Por isso é tão perfeito e tão ofensivo. Por isso ele não quer ouvir essa palavra nunca mais.

Ele lembra de como foi chamado o dia inteiro e tem uma ideia. Resolve fazer uma cova para cada um de seus brinquedos e imagina estar enterrando todas as crianças da escola. Uma a uma. Cada uma por uma causa diferente. Tiro, doença, angústia, fome. A sua imaginação é pródiga quando se trata de conceber desgraças. Quando estão todos enterrados, ele sorri. Agora ele quer ver eles o chamarem daquilo; agora ele quer ver se debaixo da terra eles terão fôlego e forças para chamá-lo de Genocida mais uma vez.

A alcunha do menino se tornou uma profecia auto-realizável.

Recomeços

Todo recomeço precisa de um marco. Desde uma mudança de estado ou país, até um pão doce comido num fim de noitada. Só a intenção não basta.

Todo recomeço precisa de um fundo de poço. Um momento tão dolorido ou, inversamente, anestesiado, que você se sente compelido a se mover. O excesso ou a ausência de sensação e sentimento lhe mostram que do que jeito que está não dá mais pra ficar.

Todo recomeço precisa de um cenário. Uma casa destruída, uma mudança de móveis no apartamento, uma infiltração. É necessário que a figura que agoniza, você, no caso, se misture ao fundo e nessa nulidade busque novamente se destacar, se sobressair.

Todo recomeço precisa de incerteza. O movimento visceral tem que ser feito sem garantias de que funcionará, sem ganhos, apenas contenção de danos. A firmeza de propósito de sair de onde está justifica a mudança e a falta de benefícios a torna moralmente válida.

Todo recomeço precisa de solidão. Ninguém recomeça em grupo, no meio de uma festa ou numa reunião plenária. A mudança surge da autorreflexão solitária quando percebemos que estamos melhor sozinhos do que como personagens das histórias alheias.

Todo recomeço é preciso e necessário. Ele tem propósito e é vital. Sem essa ação clara e sincera você morrerá. Fisica, moral ou espiritualmente. Por isso é preciso que nesse processo seu sim seja sim, e seu não, não. Recomeços não tem retorno.

Sejam bem vindos, deixem todas as suas esperanças à porta pois daqui não tem como retornar. Mas não se preocupem, tenho certeza que vão adorar.

Escrevendo o tal do Tao

Algo se quebrou ou se consertou em mim durante a pandemia. Depois de anos de um longo e aparentemente interminável- perdão pelo plágio, Fran Lebowitz- embargo de escritor, simplesmente acordo e escrevo.

Não me importa mais se vai ficar bom ou ruim. Simplesmente escrevo, pois é isso que faço. Todos os dias.

Parece fácil, mas levei uns bons 25 anos pra retomar esse ímpeto. Lembro que fazia isso dos meus 12 aos meus 21 anos. Era simples. Algo se ligava em mim e eu escrevia. Em cadernos, folhas soltas, na máquina de escrever, nas paredes. Compulsivamente e sem expectativas.

Um dia isso parou. Como se algo tivesse morrido em mim. Eu senti essa morte, mas não enlutei. Continuei vivendo como se estivesse tudo normal e tentando recuperar esse instinto perdido.

Nesse período cheguei a ser um, abre aspas, “escritor profissional”. Acordava e escrevia, para sobre-viver. Mesmo embargado. Não me importava o que me mandavam escrever: artigos sobre  tecnologia, livros de vendas, jogos educativos, procedimentos, discursos, manuais, o diabo. Eu acordava e escrevia. Mas não era a mesma coisa.

Por mais que sentisse que plantava pequenas pistas pro escritor que há em mim nesses textos sem amor, essas pequenas autoindulgências não eram suficientes. Eu sentia que algo me faltava e, sem saber o que era, comecei a achar que o problema era meu. Até era, mas não da maneira que eu imaginava.

Por isso comecei a ler compulsivamente sobre narrativa, roteiro, literatura e a fazer cursos tentando me enganar que eu não sabia escrever. Era como um pássaro fazendo curso de piloto. Eu queria, mas tinha desaprendido ou me recusava a voar com as minhas próprias asas. E comecei a colocar a culpa nas recompensas que não vinham para não fazer o que simplesmente tinha que fazer. Comecei a acreditar que escrevia pra agradar os outros e não para mim. Esqueci que nunca foi sobre o destino. Eu esqueci de trilhar o caminho.

Mas agora, não sei exatamente como, lembrei.

Algo se quebrou ou se consertou em mim durante a pandemia. E agora me sinto no meu caminho, no meu tao. Se bem que só cheguei aqui por conta dos desvios da vida. Que eu não me desvie mais. Jamais. E que eu continue a escrever. Sempre. Dessa vez para viver.

Arte

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