Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Meu Processo

Tenho ideias. À beça. Umas me enchem mais o saco que outras. Essas, mais insistentes, mesmo que não pareçam tão boas, acabam vencendo a corrida de prioridades e me comprometo com elas. Mas, confesso, sou um consorte relapso.

Eu as deixo anotadas em cadernos, falo delas com os amigos nos botequins, mas demoro pra me mover. Poderia dizer que estou fazendo pesquisa, mas não se parece nada com isso. É uma espécie de procrastinação gourmet, durante a qual esbarro continuamente com a ideia sem a mínima ideia do que estou fazendo.

Mas as ideias são espertas. Elas me conhecem melhor do que eu mesmo e continuam insistindo. Às vezes elas se juntam e vem de bando; vez ou outra, uma morre esquecida depois de dois parágrafos; outras, mais malandras, se aglutinam e viram uma terceira coisa que eu não sei bem o que é. Elas se movimentam enquanto eu claramente fico na retranca. Enfim, um dia, depois de tanta pressão, acabo fisgado.

Nessa hora, acuado, eu escrevo. Compulsivamente. Tão compulsivamente que nem sinto o tempo passar. Quando estou exausto, paro; leio, releio, e não gosto de nada. Não me admira. Nesse primeiro encontro, nada foi planejado. Sorvete de sabor indefinido sempre tem gosto ruim.

Nessas horas lembro que escrever, pra mim, não é dar forma a ideias. Escrever, pra mim, é tentar descobrir o que eu penso a respeito de algo. Aí, cheio de autoindulgência, eu leio, releio, e tento descobrir o que eu penso a respeito do que eu acho que eu escrevi a respeito. E quando encontro algum fiapo de sentido, eu me agarro a ele e reescrevo. Uma, duas, muitas vezes.

Uma hora eu desisto. Seja porque cansei de revisar ou porque cheguei a conclusão que nunca ficará bom mesmo; e abandono o texto em lugares públicos como um órfão indesejado. Em mensagens e postagens na internet; em livros eletrônicos que ninguém lê; em fanzines de uma página distribuídos na praça na frente da minha casa,

Então, quando me livro desse filho sempre maldito, tudo acaba e eu me acabo. Volto pra casa, me deito sozinho no quarto escuro, cheio de saudades do momento da criação e lamentando não ter feito mais essa ou aquela alteração; até que eu me conformo, e, enfim, descanso. Mas não dura muito. Logo, eu sinto, chegará uma próxima ideia, uma próxima inquietação da qual, novamente, não vou conseguir me livrar.

E, como num seriado ruim dos anos setenta, aparece a temível legenda To be continued…

Fazer o quê?

As outras lgaertner

Como numa linha cruzada digital, vez ou outra, eu recebo e-mails destinados a duas mulheres que eu nunca vi na vida, uma americana e outra alemã. Aparentemente existe um sufixo googlemail ou algo similar que se confunde com o meu gmail e, pimba!, toda semana eu recebo mensagens direcionadas a elas.

Quando a confusão começou eu até tentei ser polido. Avisava que o e-mail veio pro lugar errado e evitava prestar atenção ao conteúdo. Mas, vocês vão me entender, era impossível não ler. Acabava que a gente, quer dizer, eu lia os e-mails e ficava imaginando suas vidas.

A americana se divorciando, sim, eu recebi os divorce papers dela; buscando empregos em diversos estados diferentes para refazer a vida, enquanto vivia um conflito intenso com o treinador de baseball do Mark, o filho dela. Seria essa uma relação de amor e ódio? Eu não tinha indícios suficientes para saber.

A alemã, provavelmente aposentada, sempre envolvida com diversos grupos beneficentes; reformando a cozinha, duas vezes; e tirando férias com a família nas Bermudas e no Tahiti. Dava quase para ver suas coxas brancas e reluzentes sob o sol inclemente de resorts cafonas ficando vermelhas como camarões cozidos.

Acabou que estabeleci uma relação. Não tinha como, nem queria, entrar em contato com elas, mas a gente, quer dizer, eu comecei a me afeiçoar e me preocupar com essas duas senhoras.

Ficava com raiva do técnico que não deixava o pequeno Mark jogar, da mesma forma que ficava preocupado com os custos altíssimos do mármore que ia ser colocado na cozinha. Mas ao mesmo tempo que sentia um tipo de, sei lá, carinho, eu me frustrava com elas, como quando a americana se inscreveu nos mailing lists da National Rifle Association e do Make America Great Again e a alemã recebia inúmeras mensagens da filha pedindo que a perdoasse; mensagens que, pelo jeito, mesmo que as recebesse, ela não iria responder.

Essa semana a nossa relação sofreu um certo choque. A americana recebeu um e-mail de um laboratório com um link para os resultados do seu teste de CoVid. Fiquei tentado a abrir, mas respeitei, pelo menos dessa vez, a sua privacidade. Será que ela está bem? Na hora lembrei que há muito não recebo mensagens para a alemã. Será que ela passou por essa pandemia incólume?

Assim, como parte dessa família de lgaertners, percebi como comecei a me solidarizar com essas mulheres sem rosto e que nunca irei conhecer. Porém, de mãos atadas, a única coisa que posso fazer é desejar é que me cheguem mensagens positivas sobre e para elas.

Que o pequeno Mark esteja arrasando como arremessador, que ela tenha conseguido mudar para um bom estado e que esteja num ótimo emprego. Que, em breve, ela possa receber na sua cozinha belamente reformada a filha para um jantar onde, depois de passarem pelo susto da pandemia, coloquem seus conflitos de lado e lembrem que mais importante que as mágoas passadas são os laços que unem a todos nós.

Mesmo que esses laços sejam apenas o mesmo nome de usuário numa conta de e-mail. Força, lgaertner.

Amanhecer na terra de Casimiro

Acordar com o sol nascendo pois, no quarto onde te colocaram, as janelas não têm cortinas. Sair do quarto com cuidado para não acordar as meninas. Passar na ponta dos pés pela sala, e se questionar, pela milionésima vez, como alguém consegue construir uma seleção de CDs como a exposta no rack.

Abrir a porta da geladeira, encher um copo de água, e notar que conseguiram, conseguimos(?), acabar com toda a cerveja de ontem. Ir pro quintal e usar o banheiro de fora, pois o da casa não tem a pressão de água necessária para suas necessidades matinais.

Ligar o computador da garagem e colocar, baixinho, numa web rádio local. Ler um resto de jornal velho que alguém abandonou numa cadeira de praia, enquanto fuma o primeiro cigarro do dia. Apagar o cigarro, terminar de ler as notícias vencidas e fechar os olhos curtindo a eclética seleção musical. Sentir-se em paz. Sentir-se vivo. Sentir-se com fome.

Voltar pro quarto pra pegar carteira, celular e chaves e sair de casa em busca de alimento.

Caminhar pelo praião vazio sob uma garoa invisível, ou será a maresia?, contando os quiosques abandonados e as casas orfãs de turistas. Entrar na rua de esquina da padaria e caminhar até a rodovia. Se assustar com os caminhões que passam como foguetes a caminho de lugar nenhum levando cargas fantasmas.

Entrar na padaria na esperança de encontrar algo diferente e se deparar com o mesmo de sempre. Pão; mortadela; aquele queijo minas, que se finge canastra; e o pão de queijo ruim que alimenta o coração. Complementar a culpa gulosa na forma de refrigerantes e isotônicos para curar as ressacas dos anfitriões e convidados.

Voltar, cheio de preguiça, pela beira da estrada, vendo se esbarra com um lugar onde comprar um jornal para fingir que se importa com o que está acontecendo no mundo. Achar apenas o Valor Econômico e comprar assim mesmo. Pelo menos ele é grosso e vai matar seu tempo até a hora do churrasco.

Chegar perto da casa e ouvir os cachorros soltos, anunciando que a casa já acordou e os libertou do canil. Abrir o portão com cautela, pros cachorros não fugirem, e encontrar todos na mesa esperando pelo café que, sabiam, você iria trazer.

Beijos e abraços de bom dia. Alguém aumenta o volume da rádio e uma música que faz parte da história de todos toca. Vocês a ouvem em silêncio, enquanto enchem a boca de refrigerante, pão, mortadela e amor. O pão de queijo continua ruim, a casa continua hospitaleira.

Amanheceu.

Poesia precisa de prefácio?

Esse texto foi escrito para abrir o livro Passione Poética: & Poemas Entrecortados de Marcos Khan, já disponível na Amazon. Vou dizer pra vocês, nada mais difícil que escrever um prefácio. Sempre sai errado. Vejam aqui o quanto errei.

Hoje, flagrar alguém escrevendo poesia é como pegar um familiar num ato de perversidade sexual:

“Mas logo você? Por quê? POR QUÊ?”

Nessa época em que todos nos tornamos gera-dores de conteúdo para encher os vazios imencionáveis da nossa existência pós-pós-pós, a poesia foi a única forma de manifestação humana que não mereceu uma rede social exclusiva para se aproveitar do nosso trabalho digital escravo. Por quê? Eu tenho minhas suspeitas.

Poesia requer tempo. Tanto do autor como do leitor. Uma vez, numa oficina de contos na saudosa estação das letras, ouvi o grande Paulo Scott declarar:

“Ler poesia requer disponibilidade para embarcar na viagem do outro”

Fato. E num mundo cheio de espelhos, a quem importa tentar vivenciar e embarcar na subjetividade alheia?

Poesia não quer nada. E quer tudo. Por isso não tem objetividade, nem funciona como o tão desejado “call to action” das agências de publicidade (ainda existe isso?).

Ao terminar de ler um poema, você não sente vontade de consumir nada. Quando muito de dar um longo suspiro e pensar na pessoa amada.

E por último, poesia é… poesia… enfim, poesia é poesia.

E, por mais que nos Instagrams da vida, vez ou outra, surja um poeta de pé quebrado, rimando mulher com colher, e esperando ser convidado para declamar em festas de 15 anos de futuras socialites prafrentex, poesia deixou de ser um esporte popular. Tanto para assistir, como para praticar.

Então, ao descobrir Marcos Khan como poeta, me fiz a mesma pergunta que o mundo faz a qualquer poeta: “pra quê?”

Pra que escrever sobre o cotidiano de casais apaixonados?
Pra que expor seus encontros de civitate andante com as mazelas da cidade?
Para que nos lembrar que é possível sentir falta dos outros e degustar o sabor da saudade?
Pra que usar rima, métrica e redondilhas, nos fazendo fazer acrobacias verbais e orais em aliterações, numa linguagem de emoções que não cabe em 280 ou 140 caracteres?
Pra que exacerbar o sentimento e capturar os momentos do amanhecer e do anoitecer na espera do corpo da sua paixão?
Pra quê?
Pra quê?
Pra quê?

Eu lhe digo pra quê.

Marcos Khan, seguindo o conselho do melhor pior professor do mundo, Mr. Keating, faz o uso da linguagem pura, para o que ela foi inventada: cortejar as mulheres, e, por tabela, o mundo que nos cerca.

Há missão mais nobre que essa? Não precisa responder, leia seus poemas e veja o que ele tem a nos dizer sobre isso.

Então, saia de suas redes sociais, desligue seu celular e demais eletrônicos, e se permita viajar pela sua subjetividade, tomando o seu papel, ou o papel da sua musa, Cristiane, e o encontre andando sobre os versos que cobrem seu caminho pelas ruas de um Rio de Janeiro que não existe mais, mas deveria.

Pra quê? Você quer mesmo que eu repita?

Mr. Rooney’s day of… work

Ontem estava passando Curtindo a Vida Adoidado e quisemos mostrar pra nossa filha. Óbvio que não prendeu a sua atenção. Primeiro porque ela só tem sete anos, e ainda não compartilha da fantasia da fuga da escola como processo de amadurecimento, e segundo porque é um filme onde nada acontece. Nesses tempos onde tudo tem que ser, ou, melhor, parecer alto, inédito, surpreendente e espetacular para competir com algo que se diz mais alto, mais inédito, mais surpreendente e mais espetacular, assistir a um dia em que um garoto resolve matar aula para fazer nada pode parecer bem entediante.

E, é. Ele toca clarinete, brinca no computador, faz um montão de estruturas mecânicas para enganar os pais, fala no telefone à beça, almoça, muda suas notas, passeia de carro e visita vários lugares sem muito propósito. Excetuando os passeios externos, é muito similar à rotina de quem está um ano em aula online. E, sinceramente, tirando o breve conflito familiar específico do Cameron, o único personagem com um arco dramático de verdade, tudo fica basicamente na mesma do início do filme.

Minha filha perdeu o interesse logo no início, mas eu não. Fazia muito tempo que não assistia a esse filme e reencontros cinematográficos sempre me trazem um olhar diferente sobre paisagens comuns. Dessa vez percebi que comecei a prestar mais atenção ao Mr. Rooney e a sentir pena dele.

Enquanto Ferris esfregava seu hedonismo inconsequente na nossa cara, confesso, entendi totalmente a crise e o comportamento do Mr. Rooney. Diretor de uma escola cheia de professores chatos e alunos idiotas, ele leva a uma vida confortável sem um trabalho realmente desafiador, já que boa parte da rotina de trabalho está automatizada. Preso ao marasmo do cotidiano, cercado de jovens, ele sofre pela sua própria juventude perdida. Tem certeza que poderia ter sido mais, porém é a todo momento lembrado pela sua secretária que seu tempo já passou.

Assim, como um Capitão Gancho perseguido pelo Jacaré TicToc, que representa a própria morte, ele se lança à busca do único aluno relapso de uma escola extremamente bem administrada. Ignora os 99% do corpo discente que segue as regras e recebe uma boa, porém maçante, educação. Não está em busca de corrigir um erro, mas da própria juventude.

Não é difícil pensar que Ferris esteja realmente doente em casa enquanto tudo que acontece com ele não passe de uma fantasia de Rooney, que deseja, ele mesmo, não estar na escola. E, se aproveitando da sua autoridade, também escapa dela com uma justificativa totalmente sem sentido.

Rooney, como um Alexandre, o Grande, dos subúrbios de Chicago, se desespera pois olha em sua volta e não tem mais horizontes a conquistar. Sem propósito, caça inimigos imaginários e ataca moinhos de vento, cavando a sua própria ruína.

No final, quando, derrotado, ele descobre que os alunos não estão presos com ele, mas que ele está preso com os alunos, me senti triste por todos nós, que já conseguimos ser Ferris durante dois dias ou duas semanas num verão atípico no início dos anos 90, mas precisamos ser Rooney por décadas. Ferris, como Peter Pan, não envelheceu, mas eu, como Ronney, sim.

Quando vou aprender que preciso deixar o senso crítico e a sensibilidade de lado para assistir a esses clássicos dos anos 80? Perdão, é a falta de férias falando.

Os Bullies de Bolsonaro

Acho que entendo a fascinação de 30% da população por Bolsonaro.

Quando eu estava no colégio, eu tinha o péssimo hábito de me interessar pelo que era ensinado. Não quero dizer que eu gostava de estudar para as provas ou tinha responsabilidade pelo meu sucesso estudantil. Na verdade eu era bem relapso. Estudava de véspera; fui repreendido várias vezes por ler quadrinhos e livros de ficção durante as aulas; até tinha boas notas, mas não era um dos melhores da turma. O que me diferenciava da maioria é que eu tinha curiosidade real pelo que os professores traziam para a sala de aula. Essa postura me aproximava muito deles e os estimulava a aumentarem, vamos dizer, suas intervenções pedagógicas.

Por conta de algumas sugestões minhas, professores nos colocaram para criar jogos sobre a Guerra do Vietnã durante as férias de julho; mexiam nos temas das redações, incorporando o barroco e o hiper romântico como inspiração; e até uma vez nos fizeram ler um longo texto medieval em francês para o trabalho final de Cultura Clássica. Não preciso dizer como era odiado e como eu apanhava por conta disso.

Muitos desses alunos que me espancavam não eram ruins, nem irresponsáveis, eles só tinham uma visão diferente da vida. Queriam o máximo de ganho, com o mínimo de esforço. Muitos vindos de famílias com negócios estabelecidos ou herdeiros de posições de status só aguardavam passar por todo esse período de estudo para assumir o seu papel na elite a qual acreditavam pertencer. Eram pragmáticos na utilização das vantagens estruturais que tinham.

Por isso eles me odiavam. Eu representava para eles a falta de propósito e o desrespeito a uma hierarquia na qual eles queriam reinar. Eu, quase como um Diógenes, vivia num barril, no caso na biblioteca do colégio, fazendo pouco do rei sol que eles acham ser com a minha vontade de aprender e conhecer. Eu, explicitamente, declarava “Eu não sei”, o que revelava a ignorância geral e nos forçava a aprender. Por isso eles me odiavam.

Essa é a mesma origem do ódio dos bolsonaristas pelo restante do país. Empoderados pelas suas pequenas autoridades, como empresários, policiais, comerciantes, motoqueiros, milicianos, pastores, militares, eles sentem que o restante da população está tirando deles direitos aos quais ninguém deve ter direito. O direito de humilhar e ameaçar; o direito de ter escravos; o direito de não se importar com o meio ambiente, a segurança coletiva ou a vida alheia. O direito de matar os pobres que não lhes servem e de se meter na vida sexual dos outros. O direito de ser ignorante sobre a arte, a cultura e a vida. O direito de ter, sem saber, simplesmente por se acharem ungidos por sei lá o quê. Afinal, aos herdeiros da Terra Devastada e adoradores do bezerro dourado, tudo é permitido. Aos outros, uma escolha: a servidão ou o extermínio.

Quando vejo bolsonaristas, eu lembro dos bullies do meu colégio e sinto pena. Vazios de amor e sonhos, só lhes restou a violência e a ilusão de um ego fraturado e carente. É triste perceber que hoje somos governados por aqueles que rasgavam os livros da escola, humilhavam os professores e nos batiam na hora do recreio. Quando iremos crescer e sair desse torturante colégio da ditadura?