Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Robôs fascistas não sabem o que é arte

Desde 2018, o Tumblr, alguém ainda lembra que ele existe?, depois de ter sido adquirido pelo Yahoo, que nunca soube o que fazer com ele, foi transformado num “campo seguro”, sem pornografia e outras coisas perigosas como exaltação da Anorexia e afins. Não dá pra negar que lá era terra de ninguém. Merecia algum tipo de moderação, sim, mas a forma como foi feita não foi a melhor.

Tenho um blog lá, onde posto basicamente fotos legais que acho pela web, e fui, óbvio, afetado pelo processo. Entendi o esforço e a preocupação, mas a aporrinhação de ter posts suspensos por motivos incompreensíveis, me fez abandonar a plataforma durante um ano, sem perspectivas de voltar. Mas voltei.

No meio da pandemia, comecei a esbarrar com imagens, vídeos e fotos que queria guardar numa memória auxiliar, e, como distração, acabei retomando o seu uso. Por um bom tempo, não tive problemas. Ontem, como as coisas parecem estar abrindo no hemisfério norte ocidental e a normalidade retorna junto, comecei a receber um bando de mensagens de suspensão de posts, mas agora com um viés diferente.

Ao invés do clássico “aqui tem mamilos femininos ou quase”, que me bloqueava os stills de filmes franceses dos anos 90, ilustrações pulp dos anos 30, quadros naturalistas do final do século XIX, ensaios de pin ups dos anos 50,  e publicidade brega da Pirelli e outras marcas eurotrash dos anos 80, umas coisas que nada tinham a ver com isso começaram a ser bloqueadas: arte sem nudez, arte com nudez aparente ou coberta, quadrinhos sobre direitos trabalhistas, imagens anti-nazifascistas, mensagens contra violência obstétrica.

É impossível passar por isso e não pensar no desmonte da cultura no Brasil, na destruição da biblioteca da Fundação Palmares, e em tantos movimentos conservadores que estão dominando o nosso planeta. Apesar das suas lideranças estarem, aparentemente, saindo dos holofotes, as máquinas institucionais, os robôs e algoritmos que programaram continuam em atividade. Como viver num mundo em que conferimos “inteligência” a algo artificial sem esperar que ele precise também adquirir sensibilidade? A quantos passos estamos desses algoritmos acéfalos porém mal intencionados começarem a definir o que é arte “degenerada” ou arte “nacional heróica”?

Assim, sob os auspícios do tecnopólio do estado policial, os robôs, com o pretexto de identificar crimes sexuais, pornografia e afins, trabalham 24/7 pela construção de um mundo “limpo” e censuram nossa arte e nossa expressão sem pudor e sem chance de diálogo ou revolta além de um clique de um botão. Enquanto isso, o ódio político e a violência contra a população, pagos por ela própria, são endeusados e cantados em versos tortos e prosa ruim para todos ouvirem em cadeia nacional no YouTube.

Como dizia Fellini, a censura é a propaganda de Estado; como nos dizia Jack Nicholson, filmes com homens beijando seios são censurados, enquanto filmes de pessoas sendo degoladas são censura livre. Coloque robôs incansáveis e moucos nessa equação. É impossível não temer pelo nosso futuro.

Mais respeito com as palavras cruzadas

Prezada Gabriela Goulart,

Lamento lhe incomodar com isso, mas tem horas que a gente chega num limite.

Sou assinante do jornal e tenho relatado muitos problemas com as suas palavras cruzadas por mensagens que muitas vezes esbarram em caixas lotadas e e-mails inexistentes da sua equipe no Segundo Caderno.

Ontem tivemos mais um: vocês simplesmente imprimiram as mesmas palavras cruzadas de sexta na edição de sábado. 

Imagino que nesse mundo digital, onde até as cruzadas foram pro celular, nós, apreciadores da sua versão analógica, somos um público de menor importância para vocês. Cá entre nós, eu acho um erro essa visão “digital first”. Afinal a relação física com o jornal é um importante catalisador da sensação de pertencimento a um grupo de leitores e, porque não?, a uma comunidade de praticantes.
 
Como um grande amante das palavras cruzadas, considero esses repetidos erros um desrespeito com toda a comunidade de entusiastas dessa atividade que completou 100 anos em 2013, como lindamente mostrado na Graphic Novel de Paolo Bacilieri, Fun.

Por isso, lhes faço uma proposta. Se hoje em dia, cuidar das palavras cruzadas é um fardo, do qual não cuidam com o carinho merecido, me passem essa responsabilidade. Estou pronto para verificar e corrigir eventuais erros diários nesse que é um passatempo incrível e menosprezado.

Espero seu retorno.

Att.

Lisandro Gaertner

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Se você também é um amante de palavras cruzadas, me ajude a fazer essa mensagem chegar à editora do Segundo Caderno de O GLOBO.

A comunidade de palavras de cruzadas agradece. 

Números da Vacina

Exatamente um ano e três meses depois da OMS declarar CoVid uma pandemia, fui tomar a minha primeira dose da vacina. Se você esquecer que vivemos num país desgovernado há dois anos e meio por um genocida que promove a doença e dificulta a imunização, dá até pra dizer que foi rápido; mas não foi. Foi uma eternidade; e nesse período perdemos pessoas queridas das nossas vidas e importantes para a nossa coletividade. Como não quero ser uma delas, como não quero ser mais uma das vítimas da campanha negacionista da milícia dos zero-zeros do Vivendas da Barra, fui me vacinar.

Ansioso, preparei uma bolsa no dia anterior com tudo que eu ia precisar: carteira de identidade e CPF; os dois atestados médicos de comorbidade e o exame positivo de CoVid para justificar estar entrando na repescagem; um livro, um fanzine, e uma graphic novel para me ocupar sem precisar ficar olhando pro celular; e uma caneta pro caso de querer escrever algo nas margens dos livros. Nunca se sabe que ideias podemos ter ou que curiosidades podemos presenciar.

Acordei às quatro e vinte e seis, bem mais cedo do que preciso, como sempre, e tentei matar o tempo até a hora de partir pro posto de vacinação: ouvi a Rádio Acoustika FM de Rio das Ostras; tolamente li os jornais, só pra me dar mais raiva do país, dos tiranetes fascistas que nos oprimem e seus seguidores acéfalos; e tentei tirar o gosto ruim de desamparo da garganta com uma overdose de palavras cruzadas. Sem sucesso.

Sete horas da manhã, me vesti; dei um beijo na minha mulher, que fez um infrutífero esforço para acordar; coloquei duas máscaras, uma cirúrgica e uma de tecido; e chamei um Uber para curtir uma fila. Cheguei na frente do Museu da República às sete e doze, e, óbvio, não era o primeiro. Na minha frente, vinte e uma pessoas esperavam, tomando café, conversando, fumando, como se estivessem aguardando para entrar numa boate. Li o fanzine, a graphic novel, quarenta e três páginas do meu livro, disse não a dois pedintes sem máscara, e logo deu oito da manhã, quando o posto deveria abrir, mas não abriu. No longuíssimo minuto e meio em que as portas demoraram para ser abertas e impediram os funcionários do posto de vir organizar a fila, mandei duas mensagens e meia reclamando da demora.

A fila andou e nos colocaram sentados em quatro filas de quinze cadeiras cada. Eu era o sétimo da segunda fila. Uma funcionária da secretaria de saúde passou por nós perguntando as idades ou as comorbidades que nos permitiam tomar a vacina: cinquenta e quatro, doença autoimune, cinquenta e sete, cinquenta e oito, obesidade, deficiência permanente, doença renal crônica, cinquenta e quatro, cinquenta e quatro, pressão alta, cinquenta e quatro, pressão alta. De três em três éramos encaminhados para duas mesas onde anotavam nossos nomes, cpf, identidades, idades, e as datas quando devemos voltar para a segunda dose. Pra mim, quatro de setembro. Uma espera de oitenta e quatro dias.

Segui pelo salão ministerial, observado pelos quadros de oito ex presidentes brasileiros, até uma saleta onde uma enfermeira me esperava. Ela pegou a ampola de cinco mililitros de Astrazeneca, encheu a seringa, pediu pra eu subir a manga direita da camisa, relaxar o braço e, pronto, estava vacinado. Ao mesmo tempo, tudo era diferente, e nada parecia ter mudado.

Agradeci à enfermeira, e saí do Museu da República segurando o algodão no meu braço, o único sinal de que algo havia acontecido ali. O sol bateu nos meus olhos e fiquei desorientado. Por um segundo senti todos os possíveis efeitos colaterais da vacina, febre, dor no corpo, cansaço, dor de cabeça, mas logo passou. Olhei pro céu azul e senti grossas gotas de chuva sobre o meu rosto. De onde viriam? Tive noventa e sete porcento de certeza que as coisas iam melhorar. Ainda havia, óbvio, muito o que esperar antes de melhorar, mas, definitivamente, menos que ontem; um dia a menos, pelo menos. E um dia, às vezes, faz toda a diferença. Hoje fez.

Os cacos

Os cacos pequenos são os piores. Dizem que eles duram por anos, escondidos, entre as frestas de tacos, nos rejuntes dos pisos, nas quinas embaixo dos móveis, até que um dia, quando você menos esperar, eles furarão o seu pé e você sangrará, lembrando do copo que se foi.

Se o copo era grosso e forte é pior. Dizem que um corte profundo no pé, no lugar certo, ou, melhor, no lugar errado, pode lhe matar. Se pegar numa veia, ou numa artéria específica, você pode se esvair em sangue até morrer. Parece exagero, e, cá entre nós, deve ser, mas vai que, mas vai que.

Os copos finos e leves são outro problema. Você pode pisar nos seus cacos, sentir uma picada leve, não sangrar e esquecer. Enquanto isso, essas pequenas farpas mortais de vidro caminham lenta e silenciosamente pelo seu corpo, até apunhalar a sua mente ou o seu coração. E quando você vê, ou não vê, morreu de copo quebrado.

Mas o pior mesmo é a lembrança. A lembrança do copo que se foi. A lembrança evocada pelo sangue, pela dor, pelo medo da morte. Afinal, um copo não simplesmente quebra, um copo tem uma história. O dia em que vocês se encontraram, por acaso ou desejo; o que ocorreu para ele fazer parte da sua vida, foi um presente ou uma compra?; quando foi a primeira vez que o usou, de forma festiva ou rotineira, e como se sentiu ao segurá-lo; como cuidou dele, teve carinho ou desleixo?; a primeira vez que ele quase quebrou, afinal nenhum copo quebra de uma só vez; se você se preocupou em perdê-lo ou não; e, enfim, o dia em que ele quebrou.

O dia em que o copo quebra é mais importante que o exato momento em que ele se estilhaça, é um dia cheio de momentos premonitórios. Há toda uma mise-en-scène, uma preparação espiritual para que ele finalmente cumpra o seu fim.

Tudo pode começar com uma briga, causada pelo copo ser a herança de uma ex; por vocês terem ganho ele de um desafeto; por conta da vez em que você quase o quebrou; ou porque você nunca soube como lavá-lo direito. Então, no seu último dia o copo se tornará o assunto de longas conversas; será utilizado de uma maneira pouco usual; despertará admiração ou asco; presenciará um aumento de tensão entre os personagens do seu drama; e, enfim, se quebrará. Um belo momento de metalinguagem, em que o objeto estético que demarca o fim de algo mais experimenta, ele mesmo, o seu fim.

O copo poderá quebrar em pedaços minúsculos, em grandes nacos ou apenas rachar superficialmente. Seja como for, ele sempre deixará cacos invisíveis que irão assombrá-lo por toda sua vida, para lhe lembrar que nada termina, até o que terminou. E um dia, sem perceber, você irá pisar neles e sentir que o tempo passou, mas pouco mudou, pois a sua memória permanece e ela, como os cacos, é impossível de ser extinguida.

O que fazer? Se esse reencontro é inevitável, não tenha medo. Pise forte no chão da cozinha e nas suas memórias, e receba com amor e gratidão as lembranças quebradas e os cacos íntegros que formam a ilusão de ser você.

Os Segredos do Universo

No fim do século XX eu estava virando um adultinho. Tinha 3 empregos legais mas mal pagos; o dinheiro era curto, mas eu conseguia morar sozinho num quarto e sala de Copacabana; e sofria existencialmente para terminar na faculdade os dois créditos que me dariam o diploma que nunca quis. Meus dias eram ao mesmo tempo lotados de atividades e oportunidades para o ócio. Claro que eu reclamava da vida, quem não reclama?, mas eu tinha consciência da rara paz de espírito que me acometia naquela época. Porém a paz de espírito do meu vizinho parecia muito maior e isso me incomodava horrores.

Quando o dia terminava ou na troca de turno entre um emprego e outro, eu sempre esbarrava com ele no botequim embaixo do nosso prédio. De short, chinelos e sem camisa, jogando porrinha no balcão pra não pagar cerveja, expediente ao qual também recorri diversas vezes, ele me notava, a gente balançava a cabeça um pro outro e sorria. Eu, timidamente; ele, de forma ostensiva, quase pornográfica.

Quem podia lhe culpar por ser tão feliz? Pelo que o Bigode, o porteiro da noite, fofocou, ele estava com o boi na sombra. Dependendo da semana ele era o modesto herdeiro de uma fortuna, um contrabandista sob proteção à testemunha ou um aposentado de um banco estadual do sul por conta de uma doença crônica, tipo epilepsia ou algo que o valha.

Inválido ou não, ele era o retrato da saúde; sempre bronzeado, com aquela eterna pinta de estar indo pra ou vindo da praia. Apesar de odiar ir à praia, eu o invejava. Se eu tinha paz de espírito no meio de um furacão, ele a aproveitava numa rede em frente a uma praia deserta vendo o sol se pôr e curtindo a brisa que vem do mar para terra encerrando o dia. Enquanto eu era um artigo técnico sólido numa revista chata, ele era poesia escrita por Vinícius de Moraes num guardanapo de bar.

Apesar dessa inveja, a gente se dava bem. Dividíamos umas cervejas no botequim e ocasionalmente nos ajudávamos em pequenas tarefas um na casa do outro. Na verdade, eu sentia que ele tinha algo a me ensinar, mas eu tinha vergonha de pedir que ele me contasse o segredo do universo de viver com tranquilidade sem fazer nada e sem ter uma forma visível de renda. Eu queria que ele me ensinasse a ser um copacabanense de verdade. Um dia quase rolou.

Eu estava saindo de casa numa noite de sábado pra um programa chato mas obrigatório quando esbarrei com ele apoiado no umbral da sua porta tremendo.

– Opa, cê tá bem?
– Tô, não. Ajuda? Ajuda…

Corri em sua direção e o apoiei. Ele tremia bastante e jogou seu peso em cima de mim em busca de apoio. Apontou para o sofá me indicando para onde queria ir. Eu o deitei e fiquei parado no meio da sua sala sem saber o que fazer:

– Posso te ajudar com mais alguma coisa? Quer que eu ligue pra alguém?
– Isso, ligar pra alguém. Ligar…

Indicou onde estava o telefone e me pediu pra discar. Começou a ditar um número longo, com certeza um interurbano, o qual errou várias vezes. Enfim consegui que alguém atendesse e lhe passei o telefone. Ele começou a bater boca com alguém do outro lado da linha, aparentemente recuperado, e, apontando pra cozinha, me disse:

– Se quiser, pega um uisquinho aí no balcão.

Ele não estava passando mal. Estava bêbado. Menos mal.

Aceitei a sua oferta e fui encher um copo. No balcão, além da garrafa e dos copos, tinha uma pilha de livros. Todos do mesmo autor: ele. Nas contracapas, a mesma foto: ele, bronzeadíssimo, de camisa havaiana, óculos escuros com uma praia idílica ao fundo. O fotógrafo realmente captou a sua essência.

Ele desligou o telefone e fiz a pergunta idiota que precisava fazer:

– São seus?
– Sim, todos eles- respondeu vindo pra cozinha se servir de mais um copo.
– São sobre o que?

Ele encheu um copo generoso, tomou um belo gole e sorriu como se me contasse um segredo:

– Não dá pra ver? Autoajuda.

Os títulos não deixavam dúvida: Como viver sem ninguém lhe aporrinhar, Ponha a culpa nos outros, Escape dos seus credores sem medo, e assim por diante.

– São à sério?
– Claro, eu faço o que professo. É preciso liderar pelo exemplo.

Dei uma diagonal nos títulos e 3 me chamaram especialmente a atenção. Parecia ser uma trilogia chamada Os Segredos do Universo e cada um dos volumes tinha um subtítulo mais instigante que o outro: Como não Fazer Nada, Como Viver sem Dinheiro e Como não se Preocupar com o Futuro.

– E essa trilogia? É sobre o que?
– Como posso resumir? Bom, a maioria dos nossos problemas surgem pois temos a necessidade de validação externa. Queremos que pessoas, grupos e instituições nos amem. Esse amor vem na forma de símbolos sociais, como compromisso, status e dinheiro. Porém, mesmo quando nos entregam esses símbolos falsos de afeição, continuamos ansiosos, insatisfeitos e com medo que esse amor não seja real. Os livros falam sobre como não fazer nada pelos outros, já que eles não merecem sua atenção; como não se preocupar com dinheiro, a medida enganosa do amor capitalista; e como cagar pro dia seguinte, afinal, ele pode nem chegar.
– Uau- foi tudo o que pude dizer.

O interfone tocou e ele foi atender:

– Fala, Bigode. Quem é? Pode mandar subir.

Desligou o interfone e, com pressa, veio apertar a minha mão:

– Cara, muito obrigado pela ajuda. Agora você precisa ir que eu vou atender uma “pessoa”. Sacou? Passa outro dia pra gente tomar mais um uísque e conversar.

Antes que pudesse falar qualquer coisa, estava no corredor. Meio desorientado, retomei o rumo pro meu programa de sábado e, no caminho para o elevador, passei pela “pessoa” loira e mignon, metida num vestido preto de látex obscenamente justo, que iria lhe visitar. Com certeza ele teve um fim de sábado bem melhor do que eu.

Nas semanas seguintes fiquei com os seus livros na cabeça. Será que ele realmente explicava como viver como ele, sem fazer nada, sem se preocupar com dinheiro ou com a aceitação alheia ou mesmo se estaria vivo amanhã? Tomei coragem e bati na sua porta trazendo uma garrafa de uísque. Uma velhinha, que eu nunca tinha visto, atendeu. Perguntei dele e ela me esclareceu:

– Ah, meu filho, eu não sei. Mudei semana passada e já não tinha nada nem ninguém por aqui. O pessoal da imobiliária disse que o inquilino anterior sumiu sem avisar e deixou um bando de dívidas de aluguel e condomínio. Desculpa não poder ajudar.

Perguntei se por acaso o morador tinha deixado algum livro pela casa e ela lamentou, mas disse que não.

– Melhor sorte da próxima vez- ela resumiu minha cara de frustração.

Lá se foi a minha chance de conhecer Os Segredos do Universo nessa encarnação.

Às vezes, ainda hoje, 20 anos depois, num fim de dia duro e cansativo, eu me lembro desse vizinho, e vou nos sites de livros usados procurar pelos Segredos do Universo. Estou, como todos, em busca de uma saída, em busca de esperança, em busca de ajuda, mas até hoje nunca os encontrei. Esses foram segredos que o século XXI nos fez esquecer.

Não é você; sou eu, o comunista

Era batata. Sempre entre a quinta e a sexta cerveja, o espírito liberal na economia e conservador nos costumes, que possuiu seu corpo depois de uma desilusão amorosa, tomava controle. E não importava o assunto; futebol, novela, política, desenhos animados, tudo era justificativa para ele começar a desfiar o seu rosário do mal.

– Tá vendo só?- ele apontava algo que o desagradava.- Tá na cara que (insira posição política, orientação sexual, opinião artística) é influência de (comunismo, marxismo cultural, ideologia de gênero, organizações Globo, vereador de esquerda do Rio de Janeiro, ). O mundo está perdido. Perdido!

Eu discordava totalmente das suas opiniões. Primeiro porque eram basicamente preconceituosas, racistas, homofóbicas e reacionárias; segundo, pois eram burras ou simplesmente não faziam sentido. No início, por boa vontade, eu até tentava trazê-lo à razão, mas era inútil:

– O teu problema é que você lê demais- ele se defendia.- Todos esses conhecimentos de esquerda acabam te deixando mole e hippongo. Empatia é o caralho! O mundo é uma guerra. Uma Guerra!

Eu tentava relevar. Achava que era uma fase. Depois que a dor de cotovelo passasse e ele arrumasse uma nova namorada, as coisas iam melhorar. O tempo passou, ele eventualmente arrumou uma namorada, mas a doideira permaneceu e ele acabou terminando o relacionamento por conta das suas próprias fantasias políticas.

– Vê só se eu ia aceitar aquilo- ele contava a sua versão da separação.- Ela (escolha: votava no PSOL, lia Martha Medeiros, assistia novela da Globo, curtia Pablo Vitar). Isso não é pra mim. Eu preciso de uma mulher cristã. Cristã.

Dizia o homem que quase foi reprovado no catecismo.

Com o passar do tempo, como era impossível conviver com ele e eu não sabia se devia dar fim a uma amizade de quase 40 anos, comecei a me afastar. Ele chamava pra tomar cerveja na sexta, eu inventava um compromisso; dizia que ia passar no meu trabalho para a gente voltar juntos, eu ficava no escritório fingindo fazer serão; ele aparecia na porta do meu prédio… bom, nesse caso não conseguia me safar e acabava sendo obrigado a ouvir mais uma vez a sua cantilena protofascista.

– Eles querem acabar com o Brasil- ele profetizava.- Querem acabar com a propriedade privada, com a religião, com a nação. Querem nos tornar comunistas. Comunistas!

Numa última tentativa, busquei entender melhor a sua visão de mundo:

– Mas o que você quer dizer com isso?
– Como assim?- ele se espantou de eu ter reagido.
– O que seria esse tal comunismo?
– Ah, deixa eu te explicar. Primeiro todo mundo vai ser igual. Se você é mais competente que os outros, vai receber a mesma coisa. O preguiçoso e o sujeito bem sucedido, como eu, ganham o mesmo. Acabou a competitividade. Ninguém tem mais estímulo para ser mais produtivo. Totalmente igualitário. Igualitário!

Como considero a produtividade um mito tóxico e tenho certeza absoluta que se a humanidade fizesse menos viveria melhor, confesso que o começo me agradou.

– Continua. Continua.
– Vou continuar. Imagina só, viver num mundo que considere tudo válido. Todas as religiões e crenças têm o mesmo valor. Mas ao mesmo tempo considere que essas crenças não devem interferir na vida comunal. Todo mundo acredita no que quer, mas tem que viver em comunidade de forma secular. Um mundo sem Deus. Sem Deus!

Mais um ponto pro tal do Comunismo. Viver com pessoas que têm o direito de acreditar no que querem e sabem que aquilo é uma crença, e não uma realidade, é realmente tentador.

– E pra piorar,- ele se adiantou sem eu pedir- acabar com as nações. Todo o planeta, todo universo sob um só governo, uma só bandeira, desrespeitando as tradições locais e nacionais e ignorando as histórias e glórias das nações soberanas. Uma anarquia global. Global!

Essa me remeteu à ficção científica que lia na infância. Uma utopia, um mundo unido, sem guerras motivadas pela ambição de poucos ou justificadas pelas fantasias de destinos manifestos de países inventados. Um mundo igualitário, secular e global. Ele abriu os meus olhos:

– Sabe, cara,- eu declarei- acho que eu sou comunista.

Ele riu amarelo, meio fingindo que era brincadeira, percebeu que eu falava sério e mudou de assunto. Pela primeira vez em muito tempo, o espírito que possuía seu corpo se aquietou e pudemos ter uma conversa normal, entre seres humanos, e não entre estereótipos políticos da sociedade brasileira do século XXI.

Isso foi antes da pandemia e ele não mais me ligou. Nem eu o procurei. Vez ou outra ele me manda uma mensagem querendo chamar para uma aglomeração, mas eu recuso sem explicações e ele entende: sou comunista.

Não sei como será após a pandemia. Não sei se a amizade irá sobreviver ao meu comunismo ou se ele vai finalmente ter superado o coração partido e tirado essa mistura fatal de Paulo Guedes e Bolsonaro do seu coração. Se ele não mudar, pelo menos tá aí uma coisa que ele pode botar de verdade na conta do comunismo: o fim de uma amizade.