Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A Alta

Depois de 74 dias internado, meu pai recebeu alta. Mesmo afastado da família, por razões longas demais para esse texto curto, acompanhei o processo. Minha irmã fazia questão de me dar informes de hora em hora por áudio, texto e vídeo. Eu ignorava a maioria.

A notícia da saída do meu pai do hospital foi mais difícil de ignorar: 34 mensagens e 7 ligações em menos de 2 horas. A última, eu atendi. Recebi essa nova informação com a mesma animação que recebi as outras: nenhuma. Minha irmã, por outro lado, estava esfuziante. Considerava que essa seria uma oportunidade ótima para uma reconciliação:

– Vem receber ele em casa. Deixa essas amarguras no passado e vem dar um abraço no papai. Vai ser uma surpresa muito legal. Aposto que ele vai adorar.

Tinha certeza que não, mas menti e disse que ia pensar. Acabou que não pensei e, talvez por isso, fui recebê-lo.

Cheguei no prédio na hora combinada, cumprimentei alguns porteiros da velha guarda, e subi com muita resistência para o apartamento dos meus pais. Todas as memórias evocadas pelos corredores escuros do edifício me diziam que eu não deveria ter vindo. Era tarde demais para ouvir os seus conselhos.

Toquei a campainha e minha mãe abriu a porta. Jogou os braços ao céu como se estivesse recebendo Jesus no domingo de Ramos.

– Agora, sim, esse é um dia abençoado. A família estará unida! Finalmente, unida.

Ela me abraçou apertado e me deixou sentado no sofá, enquanto resolvia as últimas providências para a chegada do meu pai. Na sala, a TV passava um programa sensacionalista que se pretendia noticioso. Espirrei enojado. O mofo e a poeira continuavam os mesmos. Assim como os seus péssimos gostos e posições políticas.

Barulho na porta. Minha irmã surgiu empurrando meu pai numa cadeira de rodas.

– Ele chegou! Ele chegou! – ela gritava.
– Louvado seja o Senhor- minha mãe respondia.- Ele ouviu as minhas preces. Louvado seja Deus.

Fiz menção de me levantar, mas quando vi meu pai, com o rosto caído, desisti. Ele não me percebeu, ocupado em não ouvir as louvações das duas; o que era basicamente impossível. Para piorar, do corredor do prédio, surgiram várias pessoas estranhas, provavelmente vizinhos, de chapéus de festa, carregando bolas de encher e soprando pequenos apitos.

– Ele é um bom companheiro, ele é um bom companheiro, ele é um bom companheeeeeeirooooo! Ninguém pode negar.

Depois do coro improvisado, forçando uma intimidade inexistente, os vizinhos passaram pela cadeira rodas cumprimentando meu pai com beijos e abraços.

– Que susto, hein?
– Que bom te ter de volta.
– Não faz mais uma dessas, não.
– Você ficou em qual hospital, mesmo?

Excitadas, minha mãe e minha irmã jogavam os braços pro alto, entremeando detalhes vexatórios sobre a internação e os problemas de saúde do meu pai com gritos de “Aleluia”.

Os vizinhos, quando me notaram, me cumprimentaram à distância e de forma tímida, mas não sem tentar me constranger:

– Olha, quanto tempo?
– Você engordou, hein.
– Tá ficando a cara do seu pai.
– Por que você sumiu por tanto tempo?

Naturalmente, aos poucos, a festa improvisada se transferiu para a cozinha e todos esqueceram de mim. E de meu pai. Ele, na sua cadeira de rodas, eu, no sofá. Abandonados. Como sempre.

Finalmente, na sala vazia, meu pai achou seguro levantar os olhos e me viu. Não esboçou nenhuma reação, assim como eu, acho, não esbocei. Nos olhamos por alguns momentos trocando telepaticamente ofensas e memórias ruins, até que eu desisti de participar desse jogo.

Fiz menção de levantar do sofá para escapar da sala, mesmo temendo as conversas e gritos que vinham da cozinha, mas meu pai me impediu. Em silêncio, balançou a cabeça em negativa e baixou os olhos. Ele tinha razão, lá ia ser pior. Eu assenti com a cabeça, sentei novamente no sofá e peguei o controle remoto para aumentar o volume da televisão e tentar abafar os sons da cozinha. Foi inútil, mas ninguém pode dizer que não tentamos.

4:33

O sinal fechou.

Ele freou o carro em cima da faixa. Por pouco não conseguiu passar. Bufou e checou o celular. Ainda nenhuma mensagem, mas ele sabia que ela ia mandar uma. Ou, pior, ligar. “Cadê você? Você não vem?”. “Sim, sim. Eu vou, eu vou” ele responderia.

Olhou pro relógio. Sete e onze da noite. Pelo que lembrava, e já tinha cronometrado, esse sinal demorava quatro minutos e trinta e três segundos para abrir. Porquê? Não tinha a menor ideia. Só sabia que esse era o sinal mais demorado da cidade. E, o pior, numa rua escura e cheia de árvores. Um perigo.

Por que não arredondar o tempo de espera para baixo ou mesmo para cima? Quatro minutos e meio ou cinco fariam mais sentido. Mas para que as coisas precisam fazer sentido mesmo?

Aproveitando a longa espera, dois meninos surgiram do nada e se posicionaram em frente ao seu carro fazendo malabarismos com bolas. Um terceiro surgiu do lado do carro e bateu no vidro lhe pedindo dinheiro. Ela ligou. Sete e doze. Ele fez sinal para o menino esperar e atendeu:

– Alô.
– Alô, você tá vindo?
– Tô, tô.
– Tá, tá. Só queria saber. O pessoal tá esperando bolo.
– OK. OK. Eu sei.

Desligou. O menino bateu novamente na janela do carro. Ele olhou pra conferir o bolo no banco de trás e percebeu que era o único carro parado no sinal. O show era particular. Fez um sinal para o menino continuar esperando enquanto procurava uns trocados nos bolsos. Os meninos na frente do carro, agora, tinham deixado os malabares de lado, e faziam acrobacias pulando uns sobre os outros e por dentro de bambolês.

Ele achou uma nota amassada no bolso, abaixou o vidro, e a entregou ao menino que foi em direção aos amigos sorrindo excessivamente satisfeito. Ele desconfiou. Tentou mesmo à distância ver de quanto era a nota que tinha entregue. Tinha se enganado, tinha dado dinheiro demais.

Colocou a cabeça pra fora e acenou para o menino voltar. Os três acenaram de volta agradecendo. Estavam sendo sonsos? Ele acenou mais vigorosamente e um dos meninos veio em sua direção enquanto os outros dois buscavam uma garrafa de querosene e tochas.

– Menino, acho que te dei dinheiro demais.
– Deu não, tio. Brigadão.
– Você não entendeu, menino. EU DEI dinheiro demais. Deixa eu trocar essa nota com você.

O celular tocou. Era ela. De novo. Sete e treze. Ele fez sinal pro menino esperar e atendeu:

– O que é?
– Tô só ligando pra te lembrar das velas.
– Não esqueci. Eu sei. Tá comigo.
– Tá, eu só queria dizer…
– Eu sei. Eu sei.

Desligou o telefone e enfiou a mão no bolso, de onde tirou umas moedas, e as entregou ao menino.

– Aqui, ó. Agora me dá a nota.
– Dou, não, tio. Não é justo. Isso é muito pouco.
– É justo, sim. O dinheiro é meu.
– Não é mais. Você me deu.

Enquanto eles discutiam, os meninos na frente do carro, talvez empolgados pela gorjeta polpuda, se preparavam para fazer um show de cuspir fogo. O celular deu um toque. Ela mandara uma mensagem de texto. Sete e quatorze. “Amor, não fica chateado. Só falo pelo nosso bem”. Ele se irritou:

– Aqui, ó, menino, não quero mais discutir. Me dá a nota e fica com essas moedas.
– Quero, não. Eu te devolvo,se você me der pelo menos metade da nota.
– Tá doido? Você não vê que eu tô com pressa?
– O sinal demora, tio. Pode procurar.

Os meninos começaram a cuspir labaredas um em direção ao outro e queimavam as pontas das folhas das árvores da rua que desciam sobre o asfalto como vagalumes. Ele procurou nos bolsos, abriu a carteira e nada. Não tinha nenhuma nota pra oferecer pro menino.

– Achou, tio?
– Não achei, não…
– Então, tio, nada feito.

O menino sorriu e, debochado, fez uma mesura de agradecimento. Isso não caiu bem. Ele fez menção de gritar pela janela do carro, mas se assustou com as línguas de fogo que saíam das bocas dos meninos. O menino com a nota agora a exibia aos amigos vitorioso, dançando entre eles enquanto cuspiam fogo como dragões. O telefone tocou. Era ela de novo. Sete e quinze. Faltava pouco pro sinal abrir. Ele atendeu:

– Que diabo! O que você quer agora?
– Amor, você tá chateado comigo? Você sabe que eu te amo…

Na frente do carro os três meninos dançavam como menestréis medievais cuspindo fogo e exibindo o dinheiro que tinham ganho.

– Amor, tá tudo bem? Por que você não me responde? Você comprou o bolo de sorvete que a gente combinou?

Ele chegou ao seu limite. Revoltado, atirou o celular pela janela em direção ao menino que dançava com o dinheiro. O menino, com presteza, se abaixou e o celular foi direto no queixo do outro menino que cuspia uma labareda para o céu. O fogo, como uma fênix, fez uma curva atingindo a copa das árvores e retornando para a cabeça do menino que começou a arder como uma das velas do bolo que ela esperava receber.

À distância, paralisado, ele ouviu o telefone tocar insistentemente, enquanto galhos em chamas caíam sobre o carro, derretendo o bolo de sorvete, e os meninos tentavam acudir o companheiro que pegava fogo. Não atendeu.

O sinal abriu.

Raiva

Durante um período de 2010, eu viajei pelo interior do país visitando diversas obras e plantas industriais para entender quais eram a cultura e o processo de aprendizagem da empresa onde trabalhava. A equipe era pequena. Além de mim, tinha um coitado que cuidava do curso dos “líderes”; o gerente, que vivia em pânico de ser demitido; e um espertalhão, que usava o dinheiro da empresa para fazer contatos nos exterior e empurrar a sua carreira acadêmica.

Enquanto eu estava amassando barro nas obras, o gerente e o espertalhão contrataram uma consultoria caríssima dos Estados Unidos para fazer o plano de ação da área. Sempre fui contra. Se eu fui contratado para um trabalho, minha missão era cumprir, e não terceirizar, a minha responsabilidade. Mas eu não era o gerente, então…

Calhou que o último dia da consultoria bateu com uma sexta-feira, quando voltei ao escritório de uma dessas inúmeras viagens, e me chamaram para a reunião de fechamento. Reunião em inglês, numa sala com acolchoamento até nas paredes, num hotel chique, com coffee break e o escambau.

Quando os consultores começaram a apresentar os resultados, me espantei. Eles estavam pintando um mundo dos sonhos, onde havia respeito pelas opiniões alheias, tolerância ao erro e diálogo em todas os níveis. Um mundo completamente diferente do que eu conheci: um ambiente de medo, hierarquia pesada e acobertamento de informações. Do alto da minha inocência, fui obrigado a me manifestar:

– Sorry, mr. consultor, mas quem vocês entrevistaram para fazer esse retrato?

Eles explicaram a metodologia e os públicos trabalhados, e aí entendi de onde vinha a distorção. O espertalhão, querendo fazer bonito, botou eles pra falar só com as lideranças que nunca iam dar a real. Do alto da minha inocência, fui obrigado discordar:

– Sorry, mr. consultor, mas não é bem assim que a banda toca…

E relatei o que tinha descoberto nos meus seis meses de viagem de campo. O ruim e o bom, as barreiras e as oportunidades, a realidade e as fantasias. Os consultores ficaram em polvorosa e começaram a dizer que os resultados da pesquisa tinham que ser revistos com essa nova informação e que o plano, criado, considerando uma maturidade muito maior da empresa, ia precisar ser mudado. Ao invés das diversas viagens ao exterior para fazer benchmarking na NASA, no Google e nos diabos que os carreguem, ia ser preciso intensificar o trabalho de campo e base que eu já estava fazendo.

O espertalhão viu seus sonhos caírem por terra. Sem apresentações de trabalhos em congressos internacionais, sem contatos com gente que aparecia na Você S.A., seus planos de carreira iam atrasar uns 10 anos, e, pior, ele ia ser obrigado a fazer o trabalho para o qual foi contratado. O horror, o horror.

Os consultores começaram a me pedir mais informações e no meio de uma explicação, o espertalhão tentou reverter o rumo da prosa:

– Ele não sabe o que está dizendo pois é novo na empresa- me diminuiu.

Não costumo ser dessas coisas, mas, no calor do momento, respondi:

– E ele, que está aqui há muito tempo, conduziu o trabalho de forma desonesta pois já está institucionalizado.

O sangue subiu à cabeça do espertalhão e ele, sedento do meu sangue, partiu na minha direção gritando:

– Shut up. Shut UP! SHUT UP!

Óbvio que a reunião foi encerrada na hora e todos voltamos ao escritório em silêncio. Não sei o que passava na cabeça de cada um, mas sabia que o gerente agora tinha certeza absoluta que seria demitido.

Deu o horário de sair e corri pra ir pra minha análise. No hall dos elevadores, esbarrei com o espertalhão. Ele sorriu pra mim, deu um tapa nas minhas costas e me perguntou sobre a minha camiseta. Respondi:

– É de um web comic sobre um Xamã detetive na época de Genghis Khan.
– Legal, legal. Bom fim de semana.

Quando saí do prédio algo se alterou em mim. Senti meu rosto aquecer, minha cabeça doer e minhas extremidades começarem a ficar dormentes. Ao mesmo tempo que queria me sentar, queria andar por horas, sem parar. Era como se estivesse tendo um surto psicótico, um ataque cardíaco e um derrame cerebral ao mesmo tempo.

Por que diabos aquele cara tinha me abalado tanto? Um sujeito oportunista, incompetente e desrespeitoso, jogando por terra todo o trabalho que eu tinha feito por conta de caprichos e desejos egoístas. E, para ele, todo aquele embate escandaloso não tinha passado de uma luta de telecatch, um teatro para fazer valer as suas vontades sobre as necessidades da comunidade. Ele representava tudo o que eu abominava e abomino. Era o maior exemplo do que eu não quero ver no mundo: mau-caratismo, falta de educação e desonestidade moral e intelectual. Por que diabos aquele cara tinha me abalado tanto? Eu tinha minhas razões.

Eu não saquei na hora, mas estava sentindo raiva. Uma coisa com a qual até hoje não estou acostumado. Sem saber o que fazer com esse ódio, parei numa lanchonete, pedi uma coca cola bem gelada e a bebi quase num só gole. A bola baixou um pouco, peguei meu celular, mandei uma mensagem pra um colega do meu antigo trabalho pra ver se tinha como me contratarem e, de repente, passou. Acontecesse o que acontecesse, o problema estava endereçado.

Fui para a minha análise e, como o espertalhão desejou, tive um bom fim de semana. Como dizem, a vida é muito curta pra ser passada com gente que te incomoda. E pra sentir raiva.

Reencontros na estrada

A primeira vez que o encontrei foi nas páginas do Círculo do Livro. Todo mês o rapaz ia lá em casa levar a revista da vez e trazer os livros que a gente tinha encomendado no mês passado. Não tenho certeza até hoje se o Círculo do Livro funcionava assim. Acho que o vendedor queria mesmo era conversar. Ele era estudante de Letras e a minha mãe, professora de Filosofia, batia altos papos com ele. Eu, do alto dos meus 12 anos, tentava acompanhar. Não conseguia, mas também não fazia feio.

Minha mãe escolhia os livros dela e me deixava escolher uns pra mim. Depois de ter completado a coleção do Monteiro Lobato, do Sherlock Holmes, e enveredado pela ficção científica, queria algo diferente; por mais idiota que isso possa parecer, eu queria algo mais adulto. E lá estava você: um livro clássico, considerado obsceno quando foi lançado, escrito num arroubo de espontaneidade, poesia e vida. Pelo menos era o que dizia na revista. Escolhi você.

Quando você chegou no mês seguinte, passei por cima da sua capa dura e enfrentei suas mais de 500 páginas de fluxo de consciência num misto de espanto e tesão. A vida que queria pra mim estava alí: liberdade, aventura, amizade, existencialismo, tristeza e decepção. Mirei em algo adulto e acertei na adolescência pura. A vida, enfim, não te dá o que você quer, mas o que você precisa.

Fiquei tão empolgado que lhe recomendei e lhe emprestei a todos que podia. Meu amor era tão grande que você se perdeu nesse meu movimento de cantar a nossa paixão. Foi-se.

Poucos anos depois estava na faculdade, fazendo um curso sem propósito, e, durante uma das minhas longas caminhadas no centro da cidade vazio dos fins de semana, nos revimos. Eu, cheio de ansiedades e dúvidas, você, plácido, sobre uma lona no chão, sendo vendido por um cara que com certeza não sabia o seu valor. Quis comprá-lo na hora, mas não tinha dinheiro.

– Você guarda ele pra mim?- implorei ao dublê de livreiro.
– Guardo, mas volta logo.

Peguei o metrô, cheguei em casa, pedi dinheiro aos meus pais e em menos de meia hora estava de volta para comprá-lo.

– Deu sorte, é um livro raro- o dublê de livreiro me disse enquanto o colocava numa sacola de supermercado.

Eu sabia. Talvez o livreiro não fosse tão dublê assim.

Eu o reli uma, duas, inúmeras vezes. Mandava cartões postais a amigos distantes tentando imitar a sua prosa e reclamando por não estar vivendo nas estradas.

Um dia encontrei um grupo de pessoas que o apreciavam e chegamos a planejar uma viagem aos moldes das que você descreve. Dei com os burros n’água. Um a um, os possíveis companheiros de viagem foram desistindo. Reclamei disso com outros amigos e, veja só, acabamos indo do Rio ao Piauí de carro numa viagem memorável que me transformou tanto quanto você. Considerei que a nossa missão estava cumprida e assentei.

Deixei de ser um jovem adulto e comecei a fazer força para deixar para trás a minha adolescência. Um erro. Tive alegrias e tristezas, altos e baixos. Num deles fui obrigado a vender minha biblioteca e você foi junto. Chorei, mas sabia que ia lhe reencontrar. Aconteceu.

As mesmas pessoas que compraram meus livros se tornaram meus sócios, abrimos uma livraria e, um dia, durante uma compra de livros, lá estava você. Descumpri os nossos regulamentos e o comprei para mim. Não iria fazer tanta diferença para a minha livraria. Naquela época você já tivera diversas novas edições, inclusive em pocket, e a sua raridade, enquanto publicação, tinha ficado pra trás. Porém você continuava raro e especial. Pelo menos para mim.

Mais uma vez o reli e, durante esse novo momento, um amigo se matou. Você me fez repensar a minha vida e se tinha acertado em tentar me tornar adulto. O problema, cheguei à conclusão, não era ser adulto, mas como ser “adulto”. Vendi a minha parte da livraria, abri um novo negócio, me casei e mais uma vez você me acompanhou.

Nesses quase 20 anos, esbarramos várias vezes e você foi amarelando junto com muitos dos meus sonhos. Outro dia, angustiado com o país, com a rotina, com a vida e com a pandemia, me perguntei onde você estava e não o encontrei. Talvez eu o tenha emprestado, talvez você tenha criado pernas e partido pelas estradas sozinho, mas, tenho certeza, quando precisar sair numa nova jornada, você irá aparecer e me acompanhar. Hoje, repensando novamente o que fazer e para onde seguir, sinto que a hora do nosso reencontro está chegando. Será hoje? As estantes e as estradas nos esperam.

Comédia menos tempo

E aí? Quanto tempo, cara! Caramba, que saudades. Quantos anos faz? 7, 8? E aí? Ainda está trabalhando lá naquele inferno? Sério? Achei que você tinha saído também. Todo mundo meio que saiu, né?, quando teve a demissão em massa. Que bom que você escapou. Aposto que teve que puxar um bando de sacos. HAHAHA.

É, eu saí antes, mas foi por conta de outras razões. Não sei se você lembra, mas o Amâncio não era muito meu fã. É, tinha aquelas reuniões particulares semanais de 3 horas. Você lembra? Ele me chamava na sala de reunião e ficava me descascando. HAHAHA, que engraçado. Teve uma vez, numa avaliação anual de desempenho, que ele inclusive disse que eu só tinha dois problemas: ser competente e bem articulado. Lembra como a gente chamava essas reuniões? Ao invés de feedback, era fodeback. HAHAHA, o Amâncio era uma figura mesmo. Um imbecil total, mas não era má pessoa.

E quando ele me demitiu? Você lembra? Minha filha tinha acabado de nascer, minha mãe ainda estava se recuperando do infarto e o país estava entrando naquela crise braba. O pessoal até achou que era o início da demissão coletiva. É, eu fiquei na maior merda. Tive que vender parte da minha biblioteca e mudar de estado, mas tudo bem. Acontece, acontece.

É, gastei a maior grana na mudança e até arrumei uma posição legal com a ajuda de uns amigos, mas logo depois deu a maior merda. É, eu estava naquela empresa que sofreu a investigação. Já viu né? A maior sorte… As coisas até iam muito bem lá, mas um ano e pouco depois cortaram todos os contratos de terceirização e fiquei desempregado de novo. E com os custos altos na casa nova, a filha pequena e a mulher sem trabalhar foi bem difícil.

Mas logo, logo, arrumei uma outra coisa. Bom, não era um troço, assim, legal, legal. Era um trabalho chato, temporário e com clientes difíceis. Aquele tipo de projeto feito para dar errado, saca? É, nesse não durei muito. Apesar de trabalhar pacas, uma das clientes encrencou comigo pois dizia que eu só trazia notícia ruim. HAHAHA, imagina só. Mas fazer o quê? Um projeto todo errado, subdimensionado e que nem a liderança achava que ia vingar. Já viu, né? Não deu sete meses, fiquei sem emprego de novo. Mas tudo bem. Bom, mais ou menos.

Tive que mudar para aquele apartamento vazio do meu pai, fazer uma reforma nele, cortar custos, botar a menina numa escola pior e tal. Eu até arrumei uns frilas, alguns legais, outros nem tanto, mas no fim das contas precisei consumir todas as minhas reservas. É, até o dinheiro da aposentadoria foi embora. No fim de 2 anos e meio, já estava com a corda no pescoço mas na última hora rolou um novo trabalho e agora está tudo bem. O emprego é bem legal e está tudo indo bem. Por enquanto. HAHAHA. Sabe como é, a vida.

E, você, como está lidando com a pandemia? Nós estamos bem. Pegamos CoVid mas foi tranquilo. Uns amigos não tiveram tanta sorte. Lembra do JM? Ele era ótimo, né? Uma comédia. Não sabia? Ele morreu, vai fazer um ano. É, sinto a maior saudade dele. Já tinha um tempo que ele não estava bem, mas é sempre difícil. Estou até pensando em fazer um documentário para recuperar as histórias legais que vivemos com ele. É, a vida é um apanhado de pequenas tragédias, mas tudo passa. Tudo passa. E ficam as alegrias. Como dizem mesmo? A comédia é a tragédia mais tempo? Então no fim das contas tudo também é tragédia se a gente tirar o tempo. HAHAHA, essa é boa, deixa eu anotar aqui.Tragédia igual a comédia menos tempo.

E você, o que conta? Tá com mais ou menos tempo pras tragédias da vida? Diz aí? Sério? HAHAHA, só você mesmo. É, vamos rir pra não chorar. Pra não chorar.

Os últimos dias do Le Bon Sebon

A nossa falência, como preconizada por Hemingway, aconteceu gradualmente e, então, de repente. Em uma semana éramos um negócio simpático com dificuldades, na outra íamos fechar definitivamente.

Claro que houve uma preparação. Avisamos aos clientes que tinham crédito na loja para trocar seus vales por mercadorias, mandamos mensagens à imprensa sobre o nosso fracasso e chamamos alguns colegas do comércio para comprar o nosso lote de mercadorias. Apesar de todos lamentarem nosso fechamento, só um deles se animou para fazer uma avaliação.

Discretamente, ele chegou no início da noite enquanto ainda tínhamos alguns clientes na loja. Sem pressa, esperou até eu fechar para começar a fazer a autópsia da minha tristeza.

– Uma pena, uma pena- ele balançava a cabeça enquanto olhava o lote maravilhoso de livros que ia comprar por uma pechincha.

Com um prazer sádico, ele ia rearrumando as estantes ao seu bel prazer enquanto enumerava as razões do meu insucesso:

– Você sempre comprou bem, mas botar preço nunca foi a sua especialidade. Olha só esse Lacan, tá de graça.

Não podia deixar de lhe dar razão.

Depois de fazer a revista em todo o estoque, ele ficou no meio do salão batendo no queixo e fazendo o teatro usual para sugerir um preço. Quando finalmente fez a oferta, eu aceitei sem regatear. Não queria sair por cima, nem levar vantagem. Só queria sepultar o morto.

– Então, vamos ensacar os livros?- fez a proposta indecente que eu aceitei sem reclamar.

*

No dia seguinte fui cedo pra loja esperar o pessoal do frete levar o que havia restado da loja para o seu novo lar. Abri a loja e fiquei sentado atrás do balcão como um barman num saloon de filme de faroeste. Sem função, sem motivo pra existir.

Um cliente bateu na porta e me tirou do meu transe:

– Já estão fechando? Posso dar uma última olhada?

Não havia nada para se ver, mas assenti. O cliente andava pela loja olhando as prateleiras quase vazias em busca do que não estava lá. Quando finalmente se deu conta do ridículo da situação, me perguntou:

– Quanto quer nesse móvel de CDs?

Eu não tinha ideia, mas queria me livrar de tudo, então joguei um preço lá embaixo. Ele aceitou.

Enquanto eu esperava o frete, outros clientes apareceram e foram levando os móveis e prateleiras, por dinheiro ou cortesia, deixando nuas as paredes que guardaram meus sonhos por um ano. Quando a loja esvaziou, o frete apareceu e levou os livros como se eles nunca tivessem estado lá. Fechei a loja pela última vez e o motorista do frete me ofereceu uma carona. Recusei, eu ainda precisava velar o morto.

Fui ao bar do lado da loja, que em breve também fecharia as suas portas, e comecei a beber.

*

Dois anos depois eu estava trabalhando num lugar totalmente diferente e terminando de pagar as dívidas que a loja me deixou. Numa quinta de noite, saí com o pessoal do trabalho e fomos num bar próximo do escritório. Quando pedimos a conta, o garçom me interpelou:

– Aí, você não era dono de um sebo lá na Conde de Bernadotte?

Confirmei e me espantei que ele me conhecesse.

– Eu era garçom no bar do lado da sua loja. Eu tava lá no último dia. Nunca vi alguém beber tanta cerveja sozinho. Deixa eu te dar uma saideira por conta da casa.

Sim, era eu mesmo. Ele realmente estava lá. Aceitei a sua gentileza. Era bom saber que de alguma forma torta havia marcado a vida de alguém.

*

Já faz quase 15 anos do fechamento do Le Bon Sebon, mas, por mais que suas portas tenham se fechado e o espaço abrigado uma série de negócios mal sucedidos, é como se nunca tivesse entregue as chaves da loja. Dentro da minha alma, ela ainda existe, aberta e pronta a receber os clientes como fazia antes. Os nossos empreendimentos e sonhos, isso Hemingway não me avisou, não fecham, nem fracassam, eles apenas mudam de seus endereços físicos para os nossos corações. Só cabe a nós decidir se eles irão apodrecer nossas almas ou se tornar a terra que alimentará o nosso futuro.