Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Nós, os gatos

Acordamos no meio da madrugada com fome e vagamos esperando que nos alimentem. Algumas vezes vamos importunar alguém para que nos dê comida. Miados, cheiradas e até mordidas. Às vezes funciona. Às vezes, não.

Comemos o que há. Queríamos comida molhada, mas não tem. Lembramos daqueles snacks deliciosos. Hum, eram de quê mesmo? Não lembramos. Tudo parece tão igual. Então, por que não comer aqueles fios apetitosos saindo do sofá?

Chegamos à nossa caixa de areia e ela continua suja. Fazer o quê? Como os humanos, usamos o banheiro, de preferência a pia ou o bidê. Que opção eles nos deixaram? Nenhuma. E, no fim das contas, eles reclamam, limpam nossa sujeira, mas não fazem nada.

A casa começa a se movimentar e iniciamos o nosso trabalho. Nos escondemos dos humanos, encontramos lugares interessantes para dormir, vigiamos cantos esquecidos onde vivem os espíritos que eles não conseguem ver, ou os lembramos, durante as suas atividades sem sentido, que existimos. Imagine o que seria deles se não estivéssemos lá para afofar as suas barrigas, arranhar suas roupas ou cheirar suas bocas nos momentos inconvenientes? Eles iam acabar acreditando que as coisas que fazem tem importância. Coitados.

Finalmente limpam nossa caixa, nos dão comida molhada e podemos descansar. Infelizmente eles são seres vespertinos e cismam em tentar nos abraçar. Fugimos e olhamos pelas janelas através de redes tentando lembrar como era ser livre. Sem sucesso.

Enfim, os humanos vão descansar e escolhemos aqueles de nossa preferência para servir de colchão. Dormimos pouco. E não é porque dormimos o dia inteiro. Somos insones. Temos muitas preocupações em nossas mentes.

Voltamos para nossas janelas e novamente tentamos lembrar como era ser livre. Sim, temos conforto, comida e cuidados, e o que eles nos pedem é muito pouco, mas falta algo. Algo que nos lembre do que somos. Que somos gatos. Não somos?

A última pizza carioca

O que o paulista(no) não entende é que a pizza carioca precisa ser ruim. E, por isso, ela é boa.

Em primeiro lugar, pizza carioca não é a primeira opção da noite. Pelo menos não cronologicamente. Não me lembro de ter começado uma noite por ela, mas não é uma situação totalmente impossível. Por outro lado, era certo que, quando a noite terminasse, mal, como sempre, a gente fechava os trabalhos com ela.

Pra comê-la tem várias opções, mas um lugar icônico que deixa saudades é o Cine Ópera, um lugar daqueles que não se faz mais. Um misto de restaurante, pé sujo e lanchonete que servia refeições um tanto quanto suspeitas em mesas na calçada ao mesmo tempo em que vendia salgados num balcão. Ao contrário das lanchonetes, eles serviam chopp e, ao contrário dos restaurantes, vendiam coxinhas e joelhos. Um saco de gatos anacrônico que, se ainda funcionasse, seria fechado pelos pseudo especialistas em marketing do SEBRAE.

O engraçado é que vivia cheio e não tinha nada demais. A vista da praia de Botafogo era até legal, o chopp nem fedia, nem cheirava, e a pizza era aquela massaroca carioca de pão macio e queijo mussarela com ketchup e calabresa. Mas a gente gostava, comia e pedia bis. E se a pizza estivesse difícil de descer, o chopp auxiliava a deslizar o pão pela goela.

Não era o lugar mais chique do mundo mas tinha lá a sua mística e ficava aberto até o sol nascer. O que a gente podia pedir mais?

O Cine Ópera, como a pizza carioca, surgia como um sinal de que era hora de encerrar a noite. Fim de madrugada, já tínhamos gasto quase tudo nas boates e bares de Ipanema e Leblon, ou jogado nossa dignidade fora nos inferninhos de Copacabana, e no ônibus da volta, derrotados, alguém avistava o Cine Ópera e convocava:

– Saideira no Ópera!

Sem pestanejar, o bando descia na praia de Botafogo pra comer aquela fatia gordurosa e massarocuda de calabreza com o(s) último(s) chopp(s). E era alí, mascando e molhando a pizza com cerveja que a gente fazia o nosso debriefing: falávamos das tristezas da noite e da falta de sentido da existência; tentávamos extrair alguma sabedoria dos nossos fracassos; e nos entorpecíamos o suficiente para conseguir ir a pé pra casa e dormir sem pensar na nossa falta de propósito. E para isso a pizza carioca era a companhia perfeita.

O que o paulista(no) precisa entender é que a pizza carioca não é simplesmente comida. Ser massuda, sem gosto e necessitar de litros de ketchup é uma forma divina de punir o carioca pelos fracassos que viveu na madrugada; é o ápice de uma noite ruim. E, nisso, ela é insuperável e perfeita.

Mas, não podemos esquecer, a pizza carioca pra ser realmente aproveitada requer contexto e setting. Pode ser comida, quer dizer, engolida de manhã, após uma ressaca moral ou física; à tarde, após uma notícia ruim ou no processo de reconhecimento da sua própria incompetência; ou mesmo no começo de noite, em casa,  em frente à TV, enquanto os pratos sujos de duas semanas lhe lembram que você não sabe cuidar de si mesmo. A pizza carioca, repito, não é só(?) comida, é terapia.

Há boas pizzas no Rio? Sim, claro, e a elas chamamos de pizzas paulistas, pois a verdadeira pizza carioca não pode ser boa, já que a sua missão não é gastronômica e, sim, espiritual.

Por isso, não vale ficar nessa comparação, já que estão em categorias diferentes. A pizza paulista satisfaz a matéria, enquanto a carioca conforta a alma. E saiba que eu estou pronto a defender essa ideia até a última fatia de pizza com meu tubo de ketchup contra sua garrafa de azeite.

En garde?

O futuro não acabou

Há mais de 30 anos, na extinta TV Manchete, eles tinham um programa nos sábados de tarde que apresentava duas bandas. Não passava de uma série de clipes, sem explicação, a não ser os nomes das músicas e umas frases sobre as bandas. Pra quem não tinha MTV quebrava o galho. Não era bom, mas ao mesmo tempo era ótimo.

Graças a esse programa conheci muita coisa boa: Elvis Costelo, Iggy Pop, Lou Reed e R.E.M., antes de Losing My Religion, num programa onde o parearam com a sua conterrânea de Athens, Georgia, o B-52s, que já conhecia desde o primeiro Rock In Rio.

Nesse programa em especial, exibiram um clipe que nunca tinha visto: Song for a Future Generation.

Fiquei maravilhado. Com 14 anos tudo o que eu tinha era futuro. E ele sempre parecia melhor que o hoje, de então. Então, se definir pelo seu signo astrológico e sonhar em ser Capitão da Enterprise, Presidente de Moscou ou qualquer coisa que o valha só não era divertido, como parecia extremamente possível.

Hoje esbarrei com essa música na minha playlist e senti nostalgia de ansiar pelo futuro. Em tempos tão incertos onde cada dia parece pior que o outro, pode parecer anacrônico ter esperança ou mesmo sonhar com o futuro. Mas não é.

Se vamos sair dessa é importante que a gente recupere essa capacidade, caso contrário nada do que fizermos hoje terá sentido. Mindfulness e viver o momento pode parecer bonito como bla-bla-bla de coach, mas o que nos move de fato é saber que há algo diferente e melhor amanhã. E, confie, há.

O que podemos sonhar de bom sobre o amanhã? Ou sobre os próximos 200 anos? Diz aí, vale tudo.

Vida longa, Bolsonaro

Se enganam aqueles que desejam a morte do Bolsonaro. Ele não deve morrer. Não agora. Não ainda. Ele precisa viver. E muito.

Precisa ser processado e perseguido com vigor; ver seus filhos presos e seu clã dizimado; ser sabatinado e humilhado por horas pelo Centrão que o trairá. Ser retirado do cargo, desmoralizado, e perceber que aqueles que o apoiavam nunca o amaram de verdade. Precisa ser julgado por um tribunal internacional pelo genocídio que planejou e executou. Precisa pedir ajuda aos seus amigos ditadores e receber um não.

Então, num estranho movimento do destino, o tribunal não o condenará à morte que tanto idolatra, nem à tortura que deseja para tantos. O tribunal o condenará a viver até o fim de seus dias aqui, entre nós da São Salvador.

Ele será colocado para morar num quartinho de fundos numa das casas antigas da Senador Corrêa. Aos domingos será obrigado a trabalhar na barraca do Bigode entregando pastéis e caldos de cana que não poderá consumir. Às quartas feiras deverá auxiliar o projeto social da praça, ouvindo e alimentando tantos que ele ajudou a jogar de volta na miséria. Nos fins de tarde irá circular os bares ajudando com pequenos serviços para poder comprar seu leite condensado e seu pão francês com as esmolas que lhe daremos. E de noite ele se recolherá, mas não conseguirá dormir, ouvindo o povo comemorar, rindo, feliz por viver num país onde ele não (des)manda nem importa mais.

Ele verá a nossa alegria, nossa gentileza e perceberá que o nosso ódio se tornou pena. Que, quando olhamos para ele, apenas vemos todos aqueles amigos e parentes que, por medo, ignorância e soberba, se entregaram ao mal. Sentiremos pena, sim, mas não o perdoaremos. Nunca. Como não perdoaremos aqueles que o apoiaram.

E um dia, quando a idade e o dia certo chegarem, ele vai morrer de causas naturais, não sem antes entender todo o mal e dor que causou. E a culpa que sentirá em seus últimos momentos de vida será tão grande que abrirá uma fissura na existência expulsando toda a maldade da Terra por mil gerações. E, enfim, estaremos livres dele e de tudo que ele representou.

Por isso lhe desejo uma longa vida. Uma morte rápida o tornará um mártir que só prolongará a sombra que projeta. Uma longa vida de tormento e expiação o tornará uma lição e nos fará melhores.

Muitas infelicidades, Bolsonaro, e muitos, longos e excruciantes anos de vida.

Sonhos e camas

Camas carregam sonhos. Depositamos nossos sonhos nelas. Se a cama é sua, os sonhos são seus. Se não, os sonhos são de outro alguém.

Por isso, sempre me disseram: não compre camas e, especialmente, colchões usados. Você vai sonhar o sonho de outras pessoas, como se ele fosse seu. Acredite. Eu sei disso, pois já cometi esse erro e paguei caro por ele. Melhor não entrar em detalhes.

O mesmo vale para hotéis.

As camas de hotéis carregam os sonhos de todos que dormiram nelas. Por isso os sonhos que sonhávamos em viagens, de trabalho ou de lazer, quando elas haviam, sempre eram confusos, como se o inconsciente de alguém estivesse adentrando o nosso, ou vazios, como se o excesso de experiências e desejos que por lá passaram gerassem um ruído branco surgido da combinação de todos os sonhos da Terra.

Talvez seja por essa razão que aqueles que viajam profissionalmente vão adquirindo aos poucos um olhar vazio, como se não soubessem mais o que querem, esperando reencontrar seus sonhos na próxima cama onde forem deitar.

Já me senti assim. Já fui um caixeiro viajante da educação.

Depois de longas semanas dando treinamentos em lugares distantes, quando voltava de viagem e deitava novamente na minha cama, sentia como se os meus sonhos, os meus próprios, voltassem com mais força. Neles surgiam pessoas esquecidas e os conteúdos, antes latentes, ficavam cada vez mais manifestos. Eu lembrava quem eu era e sempre me surpreendia. Para o bem e para o mal.

O ideal é que tivéssemos camas descartáveis onde pudéssemos depositar sempre sonhos inéditos; camas que nos permitissem acordar sempre novos e prontos para uma vida diferente. Infelizmente, os sonhos, como as camas, são pesados. Cheios de memórias e identidades que assumimos pelos caminhos que nos levaram a elas. Esses sonhos não podemos abandonar.

Assim, só nos resta depositá-los a cada noite entre as costuras de nossos colchões e torcer que eles fermentem durante o dia para nos dizer, durante o nosso descanso, para onde devemos caminhar quando acordarmos.

É com isso que sonho.

A independência da São Salvador

Bom, já passou da hora, mas ainda é tempo. Por meio desse post, nesse blog que quase ninguém lê, proclamo a independência da República Socialista da São Salvador e adjacências.

Caramba, foi mais fácil do que eu imaginava. E não precisou de cavalo nem de espada. Pronto, estamos fora do Brasil. Sem Bolsonaro e sua familícia. E sem um outro bando de desafetos e almas sebosas que nem vale mencionar. Prontos pra começar, quase do zero, uma nova experiência nacional.

Como vão funcionar as coisas? Bem, não sei. A República Socialista da São Salvador de fato não vai ter um governante. Na verdade, ao invés de socialista, a gente devia ser uma espécie de comuna anárquica. Pronto, melhor. República Anárquica da São Salvador. Ou quem sabe, República Supimpa da São Salvador, ou algo parecido. Podemos decidir depois. Afinal, o que significa um nome?

Para começar precisamos de um território. Isso já está definido. Vamos do Cosme Velho até à Praia do Flamengo, pegando todo bairro das Laranjeiras e pedaços do Flamengo, Catete e Santa Tereza. Nossas fronteiras vão até e incluem ao sul o Belmonte, por conta da empada de camarão, o sebo Beta de Aquarius, ao norte, e a casa Roberto Marinho, ao oeste. Temos escolas, livrarias, hospitais, cinemas, um time de futebol (com estádio), uma estação do corpo de bombeiros, e uma boa leva de bons botequins e restaurantes. De que mais um país precisa? Ah, de uma embaixada. Sem problemas, o baixo Gávea serve.

Os símbolos nacionais? Ainda há muita controvérsia sobre a bandeira e o hino, mas nosso dinheiro já está definido: vai ser a Cássia. E deve ser uma cryptomoeda. Conto com a ajuda de algum cidadão programador para nos ajudar a colocar ela no ar. Se puder dar uma força nesse ponto, é só me mandar um e-mail.

Não teremos poder executivo, nem legislativo. Todo cidadão pode resolver suas tretas com os outros no papo e de forma pacífica. Mas para não deixar o povo totalmente sem rumo, teremos uma constituição composta por dois artigos:

  1. Não seja babaca
  2. Em caso de dúvida veja o artigo primeiro

No mais, ajude os outros de boa; não se meta em suas vidas se não requisitado; e seja humano. Humano de verdade. Assim, tipo ao contrário de uns 30% dos brasileiros.

Aqui abraçamos todos os credos, crenças, etnias, orientações sexuais e baratos e afins. No caso de discordância entre os cidadãos, eles serão convocados a discutir tomando uma cerveja no Salvatore Café. Se não chegarem num acordo, Marlene decide o que achar melhor e está ótimo. É o máximo de sistema judicial que pretendemos ter.

Se quiser fazer parte da nossa nação, e receber seu passaporte personalizado, entre com seu pedido de cidadania agora e venha viver num país de verdade. Eu sei, parece estranho. Faz tempo que não sabemos o que é isso. Mas, garanto, você vai gostar.