Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O crepúsculo dos deuses auto irônicos

Com dez anos de atraso, comecei a ler a “nova” série de quadrinhos do Gavião Arqueiro. Confesso, mais pela arte do David Aja do que por qualquer outra coisa. Não me arrependi. Pela arte, pelo ritmo e pela diagramação. Pela história… aí já é, bem, outra história.

Desde o final dos anos 90, após o massacre cognitivo, estético e moral da Image, começou um movimento brabo dos quadrinhos mainstream se tornarem autorreferenciais. Se os heróis tinham se tornado pastiches de si mesmos, como ciborgues cromados bidimensionais de seis braços e armas para cada um dos dedos, que sentido fazia ser um cara que botava collant para sair às ruas e lutar contra o crime por conta de algum trauma de infância? 

Os heróis precisavam, sim, de terapia, mas os autores resolveram transformá-los em sujeitos fracassados e amargos que recorriam ao sarcasmo para sobreviver. E foi interessante. Por um tempo. Lembro de ter acompanhado com bastante atenção o primeiro ano de Alias, com a Jessica Jones, mas depois comecei a ficar cansado. “Que diabo, será que ela não consegue mudar nem um pouquinho?”.

Não, não conseguia. Ao tentar subverter o estilo narrativo tradicional, esse movimento meio hipster de heróis auto irônicos repetia os próprios erros do gênero que tentava criticar. E, como os heróis dos anos 50, presos em ciclos grandiosos onde as maiores mudanças eram resolvidas com “tudo não passou de um sonho”, esses novos ou renovados heróis do século XXI continuavam paralisados pelos seus problemas, mas dessa vez justificavam tudo com um simples “putz, recaí”.

Sei que nos anos 80 foram feitas experiências bem interessantes e bem sucedidas de subverter o gênero. Zenith e Homem Animal do Morrison, as historinhas de super heróis dentro de Locas do Jaime Hernandez, The Jam, Concreto, As Tartarugas Ninjas e até a Orquídea Negra do Gaiman conseguiram botar um pouco de auto análise na figura do super herói. Porém, essas experiências tinham duas características que faltam a esses quadrinhos atuais: tinham início, meio e fim; e humor.

Os heróis sarcásticos de hoje, que lamentam suas vidas, suas escolhas, e vivem questionando a razão de “botarem collant para sair às ruas e lutar contra o crime por conta de algum trauma de infância” tentam apenas ser engraçados, sem a satisfação da auto-análise, enquanto continuam vítimas de um mercado que demanda a eterna continuidade dos seus títulos. Um bando de sísifos tristes. 

Assim, como personagens de um sitcom ruim, mas que cita filósofos e músicas pop, eles tentam questionar o que são ao mesmo tempo que prometem que nunca irão mudar. Por isso, por mais linda que seja a arte do David Aja, acabei abandonando a série. De coisas que não mudam e das quais a gente ri pra não chorar já me basta o noticiário político brasileiro.

Haikus

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Uma detox (quase) radical

De tempos em tempos, me pego fazendo O Caminho do Artista, um programa de 12 semanas de detox criativa. Ao invés de considerar que estaria salvo depois de ter feito apenas uma vez, desde 2009, eu repito de quando em quando a jornada pra dar uma limpeza nos meus dutos artísticos e confrontar minhas inúmeras e persistentes resistências. Aí repito, sem pudor, os exercícios semanais, sempre com outro olhar e em outro contexto, aproveitando pra aprender um pouco mais sobre quem sou naquele momento.

Dentre as doze semanas, tem uma que o pessoal morre de medo, mas que eu curto bastante: a semana 4, a semana da privação da leitura. Desde a primeira vez que fiz O Caminho, não levei muito a sério. A Julia Cameron, autora do livro, sugere que a gente fique sem ler e consumir mídia passivamente pois o excesso de distrações nos impede de entrar em contato com o que pensamos e desejamos. Eu concordo com ela, mas hoje em dia, considerar que ler é uma maneira de se distrair chega a ser ridículo. Afinal vivemos num mundo de notificações e de conteúdo sendo empurrado pelos nossos olhos e ouvidos o tempo inteiro. Assim, ao invés de parar com tudo, eu fiz uma releitura dessa semana.

Considero que o problema está justamente na questão distração, uma atividade que só serve para nos impedir de viver o momento. E disso o mundo está cheio: procurar e não achar algo pra assistir no Netflix ou na TV a cabo; ficar olhando pros feeds das redes sociais em busca de alguma salvação; ouvir podcasts um atrás do outro; ou simplesmente sentar no botequim esperando um desconhecido pra prosear. Distração pode ser um bando de coisas, mas leitura não é uma delas. Quer dizer, desde que você a faça conscientemente.

Taí o mistério da semana 4 pra mim. Ao invés de simplesmente cortar toda a mídia, corte aquilo que você consome passivamente. Você pode ler? Sim, desde que esteja prestando atenção no que lê e a leitura brote de um desejo seu. O mesmo pode se aplicar a um filme, que você já sabe que deseja ver antes de abrir os apps de streaming; ou para música. Há quanto tempo não deita no sofá pra ouvir e prestar atenção de verdade num álbum, seja em CD, Vinil ou mesmo em streaming? Ao invés de se distrair, como dizia minha mãe, trair duas vezes, viva plenamente a experiência, seja ela andar de bicicleta, pintar sua casa, cozinhar pra família ou ler, ouvir ou assistir a algo.

Trato a semana 4 não como uma privação de leitura, mas como uma semana para viver plenamente e isso inclui o consumo de mídia consciente orientado pelos meus desejos. E, óbvio, redes sociais estão fora dessa semana completamente.

Entendo se você discordar de mim, mas, cá entre nós, O Caminho do Artista não é um trilho, é uma trilha. E você pode fazê-lo como quiser. É só se manter consciente durante todo o processo. Se privar da leitura e ficar alheio ao mundo não vai lhe fazer bem nenhum. Se remover todos os pings e buzzes do dia a dia, tenha certeza, já vai poder se ouvir pensar e descobrir que quer ler algo ou simplesmente comer alguns amendoins.

3 de fevereiro e a angústia das marmotas

Ontem, como boa parte da humanidade, comemorei o dia do santo secular mais popular dos últimos tempos: Phil Connors, protetor do entediados e mártir do dia da Marmota. Desde que O Feitiço do Tempo, estrelado por Bill Murray, foi lançado em 1993, o 2 de fevereiro virou sinônimo de repetição, rotina, marasmo e da esperança de vencê-los. Um problema mais contemporâneo do que picadas de cobras e outros bichos peçonhentos.

São Phil Connors, orai por nós!

Porém, ao assistir o filme novamente, na bem sacada maratona da Paramount, que o colocou em todos os horários até às 6 da manhã do dia 3, me caiu uma ficha diferente. Feitiço do Tempo não é um filme sobre paralisia emocional, é um filme sobre angústia existencial.

Assim como temos os estágios do luto, que nos permitem lidar com a morte, os estágios da angústia existencial nos ensinariam a lidar com a vida. Especialmente a que vivemos no momento presente.

Phil, como todo santo, é um pecador que vive fora do seu tempo. Morre de ódio do seu passado (e de si mesmo) e só pensa em como será sua vida no futuro (e no seu eu idealizado). É uma vítima da culpa e da ansiedade, assim como todos nós, seus devotos.

Quando ele aparentemente fica preso no dia 2 de fevereiro, ele está recebendo uma benção e não uma maldição da qual precisa se livrar. Pela primeira vez em muito tempo ele precisa, e pode, prestar atenção ao seu redor, às pessoas com quem convive e, o maior dos dramas, se comunicar com elas.

Seguindo a cartilha dos santos, ele não compreende a sua missão de imediato. Assim, precisa atravessar um martírio até chegar à iluminação. Primeiro bate o desespero do absurdo da vida; quando percebe que há benefícios no seu martírio recai num misto de niilismo e hedonismo; após um tempo, se cansa de tanta auto indulgência e busca se aproveitar do mundo de forma pragmática, mas continua vazio; e, enfim, percebe que todo dia é, de fato, igual e foca em seu bem estar e em melhorar o mundo.

Mesmo se frustrando, ele acaba aceitando essa realidade e, finalmente, quando se desprende da expectativa de resultados do futuro e dos rancores do passado, o dia 3 de fevereiro chega. Ao invés de se sentir “livre” e partir, acho que nem todo mundo lembra desse detalhe, ele decide ficar em Punxsutawney, e aproveitar a beleza que existe ao seu redor.

“It’s so beautiful. Let’s live here! We’ll rent to start.” – Phil Connors

O recado é claro. Phil não está livre pois se torna uma pessoa melhor, mas, sim, por perceber que faz parte de um todo e que não há o que esperar do amanhã pois só há o hoje. Phil se torna, assim, uno com o seu destino justamente pois não quer ser o seu mestre, mas por aceitar seguir um caminho que é seu e do mundo. O tal do Tao. Por isso não faz sentido sair da sua suposta prisão. Afinal, onde ele estiver, lá ele estará. Simples assim.

Nos anos 90 tivemos um boom desse zen-taoismo light no cinema. Desde o Feitiço no Tempo, passando por O Balconista, até Beleza Americana, vemos protagonistas presos a realidades que precisam aceitar pois, se as suas vida são miseráveis, a culpa não é do externo, mas deles mesmos por não prestarem atenção ao que há de belo ao seu redor.

Entendo total a sensação. Há 7 anos passei por um 2 de fevereiro digno de Punxsutawney. Minha mulher estava em trabalho de parto por mais de 24 horas e minha filha não nascia. A angústia era grande e eu só lembrava de Phil Connors. Era como se fosse eu preso no dia da Marmota. Mas o problema não era do dia, nem da minha mulher, nem da minha filha. Era meu. Eu estava segurando as pontas do passado e do futuro, sem ver a beleza que estava na minha cara no momento presente. Alícia ia nascer na hora que era pra nascer, e, assim foi: às 3 e 54 da matina ela chegou ao mundo.

Habemus Alícia na hora e no lugar certos.

Como aconteceu com Phil, aquele, pra mim, foi um momento de iluminação. Eu não precisava ser nada diferente nem ir para lugar algum. Onde eu estivesse, e onde ela estivesse, seria o que era e eu estaria em casa.

Hoje, ela completa 7 anos, e percebo que  mais importante que o 2 de fevereiro é o dia 3. O dia em que ela nasceu e em que nós nascemos juntos com ela. Assim como fazemos todos os dias. Num lugar tão lindo, onde queremos viver por todas as nossas vidas, mesmo que seja de aluguel. 😉

Parabéns pela sua iluminação, São Phil, e um feliz aniversário pra você, Alícia, minha filha querida.

Que tenhamos, todos, um excelente e eterno 3 de fevereiro onde estivermos. Pois é lá que estaremos. Sempre.