Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Em defesa de O Hobbit

Cometi o maior pecado que um jogador de RPG podia cometer nos anos 90: eu não gostava de Senhor dos Anéis. E olha que eu tentei.

A primeira vez que arrisquei ler foi uma edição da Artenova em 6 volumes que tinha na biblioteca Machado de Assis em Botafogo. Quando chegou na morte do Boromir, eu me indignava: “Que diabos! Esse homem tá todo flechado e continua falando por páginas e páginas?”. Desisti. Na segunda tentativa peguei a edição da Europa América, aquela de capa preta chique, na biblioteca do colégio e avancei até ao “congresso” do Ents. A cada parágrafo eu balançava a cabeça e pensava: “Cacete, como essas árvores falam”. Desisti novamente.  Pra não sair muito feio dessa história, li o Hobbit. Achei legal mas bem desconexo, como as histórias que às vezes invento pra botar a minha filha pra dormir, mas foi só isso. Graças a Deus, o mundo do RPG mudou, Vampire chegou e os rpgistas migraram pra Anne Rice e A Entrevista com o Vampiro, que, confesso, só li até a morte da Cláudia por revolta, porque o Louis é chato demais.

Por isso, quando o Peter Jackson começou a lançar os filmes de Senhor dos Anéis, eu não tinha muitas expectativas. Não era um fanzoca, mas confiava que ia ser bom. Acho Almas Gêmeas uma obra prima e Espíritos é um filme sui generis mesmo que comercial. Também o que esperar de um cara que começou fazendo filmes trash gore de propósito? Tudo que ele criava, mesmo que fosse ruim, tinha que ser proposital e impressionante.

Imagino como ele ralou pra fazer os filme da trilogia. Cá entre nós, em quase mil páginas só tem um fiapo de plot,  várias situações são totalmente sem nexo e a única forma de se criar algum tipo de empatia com os personagens unidimensionais é imaginar jogando eles num RPG. OK, a história de fundo e o mundo são imaginativos pacas, mas cadê o drama? Muitas vezes eu me perguntava se Sauron e Saruman não estavam fazendo o certo acabando com aquele povo chato e pernóstico de Rohan e Gondor. Assim, fui pros filmes sem o menor temor. E amei.

Peter Jackson tomou, óbvio, enormes liberdades com a obra. Limou coisas queridas dos nerds, e.g. Tom Bombadil, e conseguiu inexplicavelmente criar drama e conflito onde não havia. Deu uma história de verdade a uma narrativa fraca passada num cenário riquíssimo e elaborado. Uma conquista inquestionável, na minha opinião.

Todo mundo curtiu também, ele ganhou Oscar e tudo, mas Nerd é Nerd, e, com o passar do tempo, o pessoal começou a se prender a detalhes pra falar mal do filme. Como não era um fã dos livros, passei ao largo dessa discussão. Porém, quando Peter Jackson disse que ia produzir o Hobbit com o Guillermo del Toro dirigindo, o debate se tornou inescapável.

Tinha os que adoravam a ideia, tinha os que odiavam. Eu, confesso, gosto do Hobbit. É um conto de fadas bem legal. É quase como um amigo de RPG das antigas descrevia as suas aventuras: uma enorme quantidade de encontros complicados em sequência que dão a impressão de ser uma narrativa coesa e serão resolvidos num Deus Ex Machina fora da vista dos personagens. Pessoalmente tinha dúvidas se era adaptável e se o estilo dark do Del Toro ia casar bem com o material já consolidado pela trilogia de filmes anterior.

O tempo passou, a produção dos filmes virou uma novela; Del Toro saiu do projeto, Peter Jackson assumiu; os dois filmes viraram três; e, pimba, quando menos esperávamos tava nos cinemas.

Não é uma obra prima, e nem chega perto dos divertidos filmes da trilogia anterior, mas, na boa, o desafio era muito pior. Um livro curto, sem estrutura, cheio de umas canções e poemas doidos. Não dava pra tornar numa narrativa cinematográfica com qualidade sem tomar muitas liberdades. E foi isso o que Peter Jackson fez: tomou muitas liberdades. Dessa vez incluindo coisas que não estavam no livro.

Aí o povo se empombou. Pior que limar Tom Bombadil era: dar uma história e um arco dramático pro Bard, que só aparece no livro pra dar aquela flechada; incutir alguma motivação nobre naqueles anões mercenários; estabelecer algum tipo de personalidade pro Bilbo; tornar Azog, quase uma nota de rodapé no texto, num vilão razoável; e dar um tema pra história. Sim, ele conseguiu até dar um tema pro Hobbit: a ganância versus o senso de comunidade. Mas na cabeça dos nerds da internet, ele estava dessacralizando o livro da sua infância, que uns 80% dos que reclamavam não leram.

Então, numa história que parecia quase uma confusão típica de Sessão da Tarde, Peter Jackson conseguiu introduzir um tema que costurou toda a narrativa. Os anões partem em sua aventura para recuperar a sua terra natal e sua comunidade, mas acabam, pelo menos seu líder, consumidos pela ganância; Smaug, sentado naquele enorme tesouro, nos lembra do que move os seres humanos e como a cobiça nos torna solitários; a Cidade do Lago vivia controlada por homens gananciosos contra os quais Bard se colocava pelo bem comum; Legolas e Tauriel, que não estavam na história original, tentam criar algum tipo de harmonia entre os povos enquanto os velhos líderes são guiados por antigas rusgas por despeito e desejo de poder; e o Gollum… preciso falar dele? Acho que não. Seja como for o Hobbit enfim tinha um tema.

Tá, concordo, não foi bem desenvolvido. O quase romance de Tauriel e Kili ficou quase cômico; Bilbo, que de arrombador deveria passar a conciliador, é quase um espectador passivo do drama; e a introdução da história do conselho pra dar liga com a trilogia do Senhor dos Anéis foi ao mesmo tempo demais e de menos. Enfim, os filmes tiveram vários problemas, mas nenhum deles tira o mérito de se conseguir dar uma estrutura onde não havia quase nada.

Por isso, quando vejo a galera malhando O Hobbit, sempre o defendo. Não é um grande filme, mas admiro muito o trabalho criativo e conceitual que foi feito nele. Quem nunca sentou pra escrever e vive reclamando que o Batman do filme tal não é o verdadeiro, pois nunca ouviu falar de Bat-Mite, nem de Ace, o Bat-cão, tem todo o direito de achar o filme ruim, mas não pode desmerecer as conquistas narrativas realizadas em cima de um material difícil e, pior, popular. Escrever e criar não requerem somente desejo de agradar os outros e de sucesso financeiro, envolvem na verdade muito trabalho, análise e coragem. E nesses quesitos O Hobbit, com todas as suas falhas, é uma grande conquista.

Uma dose de esperança com duas gotas de pessimismo

Esse fim de semana me bateu que não vamos sair dessa tão cedo. “Dessa o quê?” você me pergunta. Bom, dessa tudo. Dessa Pandemia, dessa situação política, dessa crise econômica, desse home office, desse home schooling. Você sabe: dessas coisas. E, pra piorar, a esperança, cada vez mais distante, de “re-normalização” está nos dificultando assumir esse provisório como um, digamos, semi-permanente.

Não sei pra vocês, mas, pra mim, isso tem mexido bastante com a minha capacidade de dar uma ordem, pelo menos narrativa, na minha vida. Meu sentimento é que, como naquele poema do Bukowski, “the days run away like wild horses over the hills”. Um mês parece um ano; um dia some num minuto. As rotinas se misturam com os fatos especiais e tudo perde um pouco da cor. Aí, quando alguém me pergunta o que fiz ontem ou no ano passado, a resposta é quase sempre a mesma: “Não lembro, você lembra?”. Ninguém lembra.

Por isso, tenho me dedicado tanto a registrar meu dia a dia e ter um pouco mais de controle sobre as minhas memórias e, por que não?, sobre a minha vida. Nas páginas matinais do Caminho do Artista; em posts nesse blog; e em pequenos comentários na minha rede antissocial. Mas não estava dando vazão. Eu preciso de algo menos público e mais sucinto; não preciso de crônicas que transformem a minha vida em ficção; preciso de gatilhos que ativem minha memória e me lembrem que vivi.

Foi nessa busca que esbarrei com o diário de 5 anos.

É um pequeno caderno, com um dia em cada página. Cada página está dividida em 5 espaços, um para cada ano, onde posso escrever apenas algumas linhas sobre cada dia. É um exercício de tentar resumir o dia e uma maneira de, depois, relembrar o que de mais importante me aconteceu nesses intermináveis 5 anos de “tempos interessantes” que, acredito, iremos viver.

Pode parecer pessimismo considerar que esse período vai durar 5 anos, mas ao mesmo tempo esse diário é um símbolo da minha esperança que estarei aqui até ele terminar, e que haverá tinta e vontade para que eu preencha as suas páginas todos os dias.

Esperar pelo melhor e se preparar para o pior, ou, como no antigo provérbio russo, apropriado pelo Reagan: confiar, mas verificar. Acho que hoje em dia esse é o máximo de otimismo que nos resta, e que bom que ele ainda exista.

Dia 26 de janeiro de 2021: escrevi um post sobre o diário de 5 anos.

É um começo. O que escreverei em 25 de janeiro de 2026?

Não dê uma passadinha, compre!

Se tinha um negócio que já estava pra morrer e a pandemia jogou a pá de cal foram as livrarias físicas. Durante uma época, por conta das megastores e da Cultura, o povo ainda achou que as livrarias teriam uma sobrevida nos shoppings. Acabou que a Cultura e as megastores faliram antes das livrarias de rua e ficamos aí com meia dúzia de três ou quatro lojas tentando sobreviver por cada cidade. Das cidades grandes, quero dizer.

É triste, com certeza, mas vou te contar, se tem um troço que me deixa ainda mais chateado é o pessoal que fica consternado depois que a livraria fecha. Tipo isso:

Sei que o sentimento é verdadeiro e de coração. Mas, não. Esse não é mais um espaço que perdemos no Rio. É mais um espaço que nós matamos. É, eu, você, todos nós. Se os negócios fecham, a culpa não é da pandemia, dos conglomerados internacionais, do Trump, ou do diabo a quatro. A culpa é da falta de clientes. Só isso.

Eu sei do que estou falando. Tive duas livrarias e uma delas inclusive faliu espetacularmente. Não vou contar essa história de novo. Se vocês quiserem leiam aqui. Quando a loja fechou recebemos esse mesmo tipo de reação tanto dos clientes como da imprensa. E, cá entre nós, não adiantou nada. Depois que o negócio fecha, não tem “amante dos livros” que o salve. E o lance que acho pior nesse discurso é uma espécie de expectativa que o negócio tem que se manter sozinho para que a gente fique feliz que ele exista. Mesmo que seja só pra gente dar uma “passadinha” e não comprar nada.

Infelizmente não é assim que funciona. Livraria é comércio, precisa de clientes, negócios, di-nhei-ro. Até as bibliotecas, que na pandemia ficaram mais tempo fechadas que as boates, precisam ter público. Caso contrário vem o governo, que nunca foi lá muito afeito à cultura, e vrau! fecha uma a uma. Com as livrarias a banda toca de maneira bem similar.

Então, ao invés de ficar fazendo pose de campeão do necrológico no twitter, a gente devia parar de comprar um pouco na Amazon e prestigiar os negócios que não queremos ver morrer. Pode não nos dar diploma de defensores da moribunda cultura brasileira, mas vai fazer muito bem para o nosso karma.

Você troca a sua existência pelo bem de toda uma nação?

Lucas,

O lance não é bem contigo, mas, você há de convir, a culpa é toda sua. Quer dizer, não é sua, você é, na verdade, o resultado do evento que originou essa culpa. E a culpa desse evento, pode crer, é toda do seu pai e da sua mãe.

Sim, não adianta discutir, é. Quer dizer, é mais do seu pai, né? Ele sabia quem sua mãe era e podia ter previsto o que ia rolar. E, na boa, não tem desculpa de estar doidão. Até o chapa do teu pai, o Keith, por mais doidão que tivesse ia usar uma camisinha. Seu pai no mínimo foi negligente e taí o resultado: mais de 200 mil mortos e um país proscrito que vai ser o único onde não vai rolar vacina.

Depois de 9 meses, você vê o resultado

Não, não tô exagerando. Vê só: se sua mãe não tivesse engravidado, ela não teria sido alçada a essa condição de subcelebridade que lhe permitiu pegar o lugar da Adriana Galisteu no SuperPop. Sem ela no programa, o imbecil do Bozo não seria chamado pra dar opinião toda vez que um ex-BBB saísse do armário. Sem essa plataforma, os fascistas antigamente enrustidos não teriam se animado nem achado que tinham o direito de exercer e expressar todo o seu racismo e sua intolerância. Sem essa carta branca para serem imbecis, esse 1/3 reacionário do Brasil teria ficado quietinho e, tendo impeachment ou não, no máximo a gente teria acabado com um Amoêdo ou um Alckim, o que poderia parecer ruim na época, mas hoje parece ótimo.

O fato, Lucas, é que, se você não existisse, o país seria melhor. A ingenuidade vaidosa da tua mãe criou um palanque pra um genocida, e deu voz ao que havia de pior no país. Sei que agora é tarde, e, tá bom, a culpa não é bem tua, mas vamos fantasiar. Imagina que tipo no foguete do Domingo no Parque, um programa infantil antes da tua época, te perguntassem: você troca a sua existência pelo bem estar do Brasil?  Você aceitaria que apagassem a sua existência da história pra salvar centenas de milhares de pessoas? Você gritaria “SIM” bem alto, que nem as crianças faziam no programa?

Grita “SIM”, Lucas.

Deixa pra lá, esquece o que eu disse, a culpa não é sua. Não precisa responder, mas, desculpa, eu tô pensando pacas nisso por aqui. Pensando pacas nisso, mesmo.

O Fim do Mistério

Nunca soube jogar tarot direito. Eu entendia a história (presumida) do baralho, a origem dos símbolos, o significado dos arcanos, a lógica das suas relações e frequentemente tinha poderosas intuições estimuladas pelas cartas e sua disposição; mas me faltava um troço essencial: mise-en-scène.

Comecei a estudar Tarot depois que uma amiga da minha mãe tirou as cartas pra mim num domingo quente de verão. Sem muita cerimônia, na mesa da nossa sala, acompanhada de um caderninho, daqueles de jogo do bicho, ela ia tirando cartas, fazendo comentários e anotações como quem tenta resolver um problema matemático. Isso fazia parte do seu mise-en-scène. Ela era taróloga, estudante de filosofia e física teórica de formação.

Estimulado por aquela experiência, comprei uma revista de Tarot na banca de jornal que vinha com um baralho destacável. Nada menos glamouroso ou místico. A minha falta de jeito inclusive me fez danificar o fundo da carta do Eremita, o que estimulava algumas pessoas a evitá-la por temer, sem razão, seu significado.

Com o que eu pescava de revistas, livros e treinava com aquele baralhinho do Tarot de Marselha de papelão, eu ia tirando cartas pra mim e pra quem pedisse. Em cima de camas, em escrivaninhas, em bancos de praça, no curso de inglês e até nas mesas do finado Mr. Pizza do Largo do Machado. Qualquer lugar era lugar, qualquer hora era hora. Pra mim não fazia diferença, mas eu sentia que as pessoas se incomodavam. Faltava pra elas uma espécie de teatro pra mostrar que havia um grande mistério no que eu fazia. Pra elas faltava o mise-en-scène.

Por conta do Tarot, conheci uma família só de mulheres que tirava baralho cigano e comecei a estudar as cartas com elas. Na primeira vez que tiraram cartas pra mim a matriarca falou pra filha:

– Não esquece de cobrar dele.

Eu não entendi. Costumava tirar tarot sem cobrar pra ninguém e logo elas, aquelas mulheres que considerava minhas amigas, queriam cobrar de mim, como se fossem videntes trambiqueiras da rua do Catete? Questionei e a filha da matriarca explicou:

– Calma. É só uma questão de energia e desprendimento. Quando passo a energia pra você através das cartas, essa energia tem que passar de volta pra mim, por exemplo, na forma de dinheiro. E se você me paga eu não sou mais só uma amiga torcendo pelo seu futuro. Eu estou livre para falar o que eu de fato vir nas cartas e o que você deve ouvir. Tipo uma psicóloga. Entendeu?

Entendi. Fazia sentido de fato. Era parte do seu mise-en-scène. Ela e os consulentes precisavam daquilo para estabelecer uma relação especial e criar uma sensação diferente naquele momento mágico. O mise-en-scène era o custo da entrada num mundo além do real. Convencido pelos seus argumentos, paguei e ouvi ela prever o meu futuro.

Hoje, décadas depois de entender essa realidade, vou ter uma consulta de tarot online via whatsapp, e senti falta do mise-en-scène que nunca consegui fazer. Senti falta das salas escuras, das toalhas de mesa vermelhas, dos espelhos e velas, do cheiro de incenso e cigarro. Senti falta do mise-en-scène das trambiqueiras do Catete que só de olhar pra gente sabiam que sofríamos de amor não correspondido e que se vangloriavam de prever que os novos moradores de uma cobertura teriam problemas de infiltração. Senti falta do teatro. Senti falta de pagar o preço para entrar nesse outro mundo.

O que me parece é que, hoje, por conta do isolamento social, não tem mais mise-en-scène. Em quase nada. Os processos psicoterápicos, que, até bem pouco tempo, seguiam protocolos próximos aos de uma consulta de tarot, não tem mais setting e são realizados online. Os rituais corporativos passaram a ser realizados por pessoas mudas sem rostos em volta de telas projetando slides sem sentindo. E até os aniversários que, nas salas de videoconferência, tentam reproduzir as condições presenciais de alegria e excitação falham miseravelmente com seus “Parabéns para você” dessincronizados.

Quando falamos das questões místicas é pior. Não subimos mais montanhas para falar com oráculos mascarados nem visitamos florestas escuras nas sextas à noite para falar com bruxas debruçadas sobre seus caldeirões. Até para o que é fora do real, vivemos uma cultura pragmática e sem mistérios.

Mas talvez eu esteja exagerando. Talvez ainda haja mise-en-scène. Só ainda não o entendemos, pois ele é novo e está sendo construído em novos ambientes e em outros formatos. Por isso ainda não reconhecemos seus símbolos. O mistério sempre existe. Talvez hoje seja apenas diferente. Só nos basta acreditar.

Vamos, então, de coração aberto, ver qual mistério essa consulta ao futuro via whastapp, que encontrei no Instagram e foi paga via pix, irá me esclarecer.

O país e o museu do (não) amanhã

Ontem, pela primeira vez em 10 meses, uma pessoa que não é da família entrou aqui em casa.

Desde o início da pandemia, os canos do banheiro já estavam reclamando da idade e nos incomodando pelas madrugadas com gemidos espectrais e suores noturnos. Ontem, criei coragem, ou fiquei incomodado o suficiente com as infiltrações, para acionar o seguro residencial.

Como marcado, o bombeiro hidráulico chegou às 10 da manhã. Abri a porta temeroso, mas ele entrou aqui em casa como se estivesse no filme Outbreak. Protetores nos sapatos, luvas, máscara, face shield. Nós, daqui, seguimos protocolo similar. Na ordem de serviço já estava descrito o problema e assim nem precisamos nos falar. Ou quase:

– O banheiro?- ele pediu a indicação.
– Por alí- respondi.

Ele seguiu decidido como um cirurgião. Da sala ouvíamos os barulhos dos canos sendo batidos, trocados, mexidos. Mas não tínhamos coragem de ir lá. Da sala a gente gritava de 15 em 15 minutos:

– Tudo bem?
– Tudo. Tô quase terminando.

Não estava. Duas horas e meia depois ele passou pela sala, pediu um copo de água, balançou a cabeça pra informar que estava tudo resolvido e se preparou pra partir. Na porta, me disse:

– Você sabe que tudo o que fiz aqui foi só uma gambiarra… não sabe?
– Como assim?
– O problema nos canos vai voltar. Esse prédio está podre por dentro. Não tem como resolver. Se eu fosse você, mudava daqui.
– Do apartamento?
– É. E do país. É, talvez seja melhor mudar do país. Ele está podre também.

Fui obrigado a concordar. Fechei a porta, higienizamos o caminho que ele fez, lavamos o copo que ele usou, e demos um banho de álcool 70% no banheiro.

– Posso tirar a máscara, agora, pai?- minha filha pediu.
– Acho que sim. Acho que sim.

*

Ontem, pela primeira vez em 10 meses, fomos a uma (quase) aglomeração.

Estamos estranhamente de férias, mas trancados em casa. Continuamos agindo como se fosse tudo normal, ou, melhor, o normal da pandemia. De máscara e respeitando o distanciamento social, vamos ao supermercado, andamos de bicicleta na praça por meia hora quando o sol permite, mas é só isso. O resto do tempo passamos mesmo enclausurados, o que não é lá muito saudável pra mim, nem pra uma criança de 6 anos. Ontem, depois de diversos pedidos, atendi ao desejo da minha filha e a levei ao Museu do Amanhã.

O Museu está cumprindo diversas medidas de segurança. Todos os ingressos são digitais e comprados por hora para reduzir a circulação de pessoas. Mesmo assim sempre fica a sensação de que estamos correndo risco, um grande risco.

Graças a Deus, chegamos ao Museu e ele estava quase vazio. Poucas pessoas circulavam pela mesma exposição de sempre. Aquela exposição que fala do futuro. Porém, hoje em dia, esse futuro não faz mais sentido. Discutir um crescimento exponencial da economia no meio da maior recessão da história ou vislumbrar uma humanidade colaborativa ou a conquista do espaço enquanto somos governados por psicopatas negacionistas, se não é anacrônico, é um deboche.

– Deviam trocar a exposição, papai- minha filha sugeriu.
– Por que, querida?
– O mundo não é mais assim.

O mundo não é, nem vai ser, mais assim.

*

Ontem, pela primeira vez em 10 meses, não tive mais dúvidas que não haverá amanhã.

Óbvio, eu já desconfiava. Há tempos. Mas ontem, impactado por mais um sem número de rajadas de mentiras oficiais,  pelo cruel nascisismo da mediocridade que nos “governa, e pelo literal sufocamento do nosso povo, não tive mais dúvidas: não haverá amanhã.

O país do futuro, como o museu do amanhã, nunca se concretizou, nem nunca se concretizará. Se tornou apenas as ruínas do que poderia ter sido. As ruínas cuidadosamente orquestradas por um povo que escolheu a morte e o ódio no lugar do amor e da esperança.

E mesmo que consigamos nos livrar dessa repulsiva figura que nos desgoverna, não se engane, não há volta. Nós não merecemos mais ter um país. Pelas mais variadas razões. Uns não o merecem por ter apoiado ou continuar apoiando esse genocida; outros, por terem se omitido; outros por responderem a tudo com inúteis notas de repúdio; e todos nós não o merecemos por não termos feito o suficiente pela nossa coletividade que definha. E, por essa nossa falta, toda a geração dos nossos filhos pagará, e caro. Demais.

E o que seria suficiente, minha filha? Sinceramente, não sei, amor. Você me permite pensar um pouco? Será que o papai pode lhe responder amanhã? Oh, desculpa, eu sei, amanhã é tarde demais.

Infelizmente, vamos ficar lhe devendo essa resposta e esse amanhã. Desculpe, minha querida, mais uma vez por não termos feito o suficiente, seja ele o que for…