Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Não pense em elefantes

Tarde demais. Pro inconsciente não existe negação. Quando você não quer pensar em algo, pronto!, já pensou. Um, dois, uma manada de elefantes. Melhor pensar em outra coisa, mas no quê? Elefantes? Ai, meu Deus! Aí é autossabotagem demais. Melhor tentar não “não pensar”, mas me afastar lentamente do tema. Isso, assim, vou tentar gastar todas as minhas lembranças de elefantes pra não conseguir mais pensar em nenhum deles. Como se estivesse remando de uma margem de um rio à outra. Devagar. Só esperando não encontrar nada no caminho. Encontrei. O quê? Preciso dizer? Você sabe… Mas, relaxa, é um processo. Vamos devagar. Lembra do primeiro? É, do primeiro elefante. Será o Dumbo? Provavelmente. Se você não vive na África, esse deve ser o primeiro elefante que todo mundo lembra. Ou seria na Ásia? Segundo esse artigo na wikipedia tem nos dois continentes. Que doido. E ainda teve o Aníbal que atravessou os Alpes com elefantes de guerra. Elefantes de guerra, que conceito… Mas teve algo parecido no Senhor dos Anéis, não? É, o Legolas inclusive matou um enorme. Mas não chamava elefante. Como era o nome mesmo? Olifante? Acho que era isso. Olifante. Por isso é que não dá pra parar de pensar neles. Tem elefante em tudo o que é lugar.  Mas estou desviando da minha missão. Estou aqui tentando não pensar sobre elefantes. Certo? Vamos manter o foco, então. E depois? Que outro elefante? Deve ter sido no zoológico, mas não lembro de nada em particular. Quando era pequeno só me interessavam os grandes felinos e o macaco Tião. O zoológico não vai me ajudar. Elefantes, elefantes… Sei lá, lembro do clipe do Duran Duran, o Save a Prayer. Esse tinha um bando de elefantes. E, ah, o homem elefante. Que de elefante não tinha nada. Um cavaleiro, obrigado a pensar em elefantes a toda hora, pois o povo o comparava com um. Imagina só: ser obrigado a pensar em elefantes o tempo inteiro. Que terror. Então, foi isso. Acho que foram essas as minhas “interações” com elefantes. Ufa, até estou me sentindo melhor. Não estou pensando tanto em… neles, você sabe. Mas, engraçado, agora uma coisa me veio à cabeça. Tem aquele filme com o Will Smith, o Seis Graus de Separação, onde a Stockard Channing fala várias vezes sobre esse conceito, o de não conseguir parar de pensar em elefantes. O quanto das nossas mentes é de fato controlada pela gente? Será que não precisamos começar a considerar que a mente, a memória, e tal, por mais que façam parte da gente, não são A gente? Talvez assim fique mais fácil conviver com os elefantes que surgem na nossa imaginação e tanto nos angustiam. Sim, como se estivéssemos num carro percorrendo uma estrada, quando, de repente, uma pequena manada de elefante passa na nossa frente. Adianta torcer pra que eles não existam? Não, é inútil. Deixa eles passarem. Como é melhor deixar passar os elefantes que atravessam sua mente, sem ansiedade, sem medo. Uma hora, tenha fé, a gente nem vai lembrar deles. Assim como não vou lembrar da Stockard Channing. Ela tava nesse filme, mas ela fez um outro filme famoso. Qual foi ele mesmo? Ah, foi o Grease, mas, caramba, ela fazia papel de adolescente e já devia ter uns 30 anos. Deixa eu ver aqui na Wikipedia. Jesus, 34. Tinha 34 e se passava por 18.  Ai, ai, por que essa Stockard Channing não sai da minha cabeça. Vamos lá. Como faço mesmo pra parar de pensar num negócio? Pensei nisso exatamente agora. Tinha a ver com a… Stockard Channing. Ai, Deus, e lá vamos nós de novo. Não pensar na Stockard Channing me lembrando pra não pensar em elefantes.  Bom, em que filmes ela atuou mesmo? Deixa eu lembrar… tinha um que falava de elefantes. Você lembra desse? Vamos com calma, o primeiro filme que vi com ela foi…

Não pense em elefantes… ou em mim.

Duas segundas

Uma segunda qualquer em 2015. Eu acordava cedo com uma leve ressaca. Tinha fome mas a guardava para um momento especial. Tomava um banho quente e demorado, me vestia, e pegava o 434 pra ir pro trabalho.

Saltava na Mem de Sá e, ao invés de seguir pela Rua dos Inválidos, eu rumava pela Ubaldino do Amaral que me levaria mais próximo do meu destino. Ao lado da Caixa Econômica da Henrique Valadares numa rua quase de pedestres, lá estava ela: a padaria.

Era cedo, mais cedo do que meu horário de entrada no trabalho, mas ela já estava cheia. As pessoas se moviam freneticamente pelo espaço restrito, esbarrando entre si e com produtos velhos que ficavam em gôndolas esquecidas. O que as pessoas queriam de verdade estava do outro lado do balcão.

Havia várias tribos: o pessoal do suco de goiaba e sanduíche natural; os que queriam um salgado, ou dois; os que enfiavam o pé na jaca e já pediam um chessburger com coca; e o meu povo, o do misto com ovo. Buscando um alívio físico para a ressaca de domingo, e um suporte espiritual para aguentar a semana, o nosso pedido era sempre o mesmo:

– Um suco de laranja, um misto quente com ovo no pão francês e 100… não, 200 gramas de pão de queijo.

Com o adendo:

– Pra viagem. Aceitam ticket?

Pedido feito, era hora de navegar pelo mar de corpos que me impediam de chegar ao balcão e entregar a notinha ao chapeiro.

– Posso botar manteiga?- ele sempre perguntava.

– Capricha- a gente sempre respondia.

Ansiosos, esperávamos pela vez que o nosso sanduíche fosse pra chapa. Depois desse… será que… agora vai. E ia. Eventualmente. Não demorava nada, mas parecia uma eternidade. Sanduíche pronto, suco no copo para viagem e o saquinho de pão de queijo.

– Olha o misto com ovo do amigo! – ele avisava que estava na minha hora de ir trabalhar.

Equilibrando meu café da manhã, eu passava pelas catracas, chamava o elevador e chegava até a minha mesa. Ninguém ao meu redor. Ligava o computador e, enquanto ele zunia baixinho iniciando seus sistemas e ventoinhas, eu abria meu banquete. Beliscava um pão de queijo, dava um gole no suco e uma generosa mordida no misto com ovo. Ele descia quente até a minha barriga e me dava uma sensação gostosa de voltar para casa. Abria o e-mail, e, entre uma mordida e outra, eu começava a trabalhar. Estava tudo bem.

Hoje, uma segunda feira em 2021. Acordei cedo. Uma ressaca similar a de 6 anos atrás, mas, ao mesmo tempo, completamente diferente. Não tenho pra onde ir. Me arrisco a fazer um misto com ovo, eu mesmo. Não fica ruim, mas não é a mesma coisa que o da padaria. Não falta só habilidade, falta contexto.

Na despensa que transformei em armário office, ligo o computador, que inicia muito mais rapidamente do que há seis anos, e começo a trabalhar. Entre uma mordida e outra, sou transportado para a padaria. Seus cheiros e sons, suas emoções e sensações. Sinto saudades. Me pergunto se a padaria ainda está aberta após todas as crises que vivemos, incluindo a pandemia. Recorro ao Google Maps. Diz que está aberta, mas a foto, de 2019, mostra uma porta fechada com uma placa de aluga-se.

Eu me atrevo a ligar para o número que consta ao lado do endereço:

– Não foi possível completar sua ligação. Por favor, verifique o número e tente novamente.

Será que depois de tudo o que passamos, não teremos mais um lar pra voltar? Dou uma outra mordida no misto, já frio, e ele desce com um gosto amargo. Ainda há trabalho a se fazer, graças a Deus, mas não há mais o sabor de tempos atrás. Será que se eu fizer um pão de queijo, as coisas vão melhorar? Claro, pão de queijo sempre torna tudo melhor.

Ad Infinitum

Você se lembra do que fez? Lembro. E aí? Desculpa. Me diz por que você fez isso. Desculpa. Responde a minha pergunta. Não sei. Não sabe o quê? Não sei a razão. Então você faz as coisas sem razão? As vezes, eu acho. Eu fiquei muito magoada, sabia? Imagino. Imagina nada. E agora? E agora, o quê? Tá tudo bem? Tudo bem, nada! Mas já passou. Passou, mas eu não estou conseguindo me sentir melhor. O que você quer que eu faça? Fica quieto e me deixa pensar.

(….)

Vai fazer de novo? Claro que não. Então, promete. Eu prometo. Promete o quê? Prometo que não vou mais fazer isso. Hump. O que houve? Acho que você não prometeu com sinceridade. Prometi, sim, eu juro. Tá jurando que prometeu? Tô, ué. Quem jura mente. Ah, não vamos começar de novo. Começar de novo? É, vamos parar com essa discussão. Quem é que está errado aqui, hein? Sou eu, desculpa. Tá bom, agora fica quieto.

(…)

Ok, tá desculpado. Ah, que bom. Vai fazer de novo? Não, eu ju… Você o quê? Nada, deixa pra lá. E, agora, o que vamos fazer? Não sei, o que você quer fazer? Você está fazendo de novo. De novo o quê? Aquilo. Ah, meu Deus. Vai dizer que não fez? Tá, eu fiz, desculpa. Desculpa? É, desculpa. Parece que você não lembra do que fez. Eu lembro, sim. E aí? Desculpa. Você não tem jeito mesmo. Eu sei, eu sei.

(ad infinitum)

Feriado, ainda que tardio

Nem parece feriado. Quem trabalha presencial vai trabalhar, pois o feriado foi antecipado. O mesmo vale para as escolas, que ficaram fechadas durante o recesso sanitário. Agora, pra quem, como eu, trabalhou remoto é folga. Para comemorar o quê, mesmo? Ah, Tiradentes.

Era melhor terem cancelado o feriado logo, ao invés de antecipar. Nem faz mais sentido comemorar a fracassada Inconfidência Mineira num país onde o governo conspira para assassinar a população de fome, guerra ou peste. Ou talvez agora faça mais sentido do que antes. Precisamos, sim, de liberdade, mesmo que tardia. Não para sair de casa, como ambicionam os genocidas negacionistas, mas sim para ficar nela. Protegidos. Em todos os sentidos. Mas até isso nos é negado em nome de um arremedo de meritocracia inventada para perpetuar uma elite no poder e continuar escravizando todo um povo sob a falácia que o trabalho enobrece e sob a fantasia que seu esforço e sua competência farão diferença.

Frente a esse cenário, só vejo uma saída. Como com os portugueses na colônia, não há espaço para negociar e precisamos acabar logo com esse mal que nos acomete: o trabalho. É, ao invés de lutar por uma sociedade onde todos possam trabalhar, precisamos ter uma sociedade onde ninguém precise trabalhar. E não é difícil; quer dizer, é, mas não é impossível. Só precisamos automatizar a maioria dos trabalhos, reduzir o nosso consumo, dar condições básicas e confortáveis de vida a todos, e acabar com o acúmulo de capital. Dessa forma, o trabalho não será mais uma necessidade de sobrevivência, mas uma maneira de nos doar a nossa coletividade. Seria bom, né?

Óbvio que não dá pra fazer isso do dia pra noite. Deve levar uns 50-100 anos, mas se não começarmos hoje só vai demorar mais. Então, começamos taxando as grandes fortunas ou pela renda mínima universal? Que tal os dois? E se a gente aproveitar e acabar também com as forças armadas no mundo todo?

BAM-BAM!

Que diabo foi isso? Calma, era só uma porta batendo. Bom, sinal de que é melhor eu ficar quieto hoje curtindo meu feriado. Afinal, se Tiradentes, que ambicionava bem menos, levou a pior há quase 230 anos, não sou eu, ainda não vacinado, que vou tirar onda de herói. Pelo menos não hoje. Mas amanhã, ah, de amanhã, pode escrever, essa revolução não passa; olha, que não passa mesmo.

BAM-BAM!

Pera aí, é impressão minha ou vocês também ouviram alguém mexendo na porta?

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