Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Eu e Fran Lebowitz

Sou de outra época. De uma época em que não esperávamos que as coisas fossem perfeitas; de uma época quando ainda existia o acaso. Sou de uma época onde ser improdutivo é o que fazia a vida melhor. Sim, não havia coaches, TED Talks e autoajuda era o tipo de livro que só os desesperados liam. Sou não só de outra época; sou de uma época, perdoem o pleonasmo, diametralmente oposta à atual. Sim, sou de uma época onde pedíamos desculpas por usar figuras de linguagem.

Na minha época não tinha Tinder. As pessoas precisavam sair às ruas e prestar atenção para conhecer seus interesses românticos. A gente batia papo com desconhecidos e queria saber das suas vidas. A gente conhecia gente estranha e se apaixonava em ônibus, boates e lanchonetes. E mesmo que não desse “match”, a gente tentava. Afinal todo mundo era meio que igualmente ruim e ter relacionamentos sempre era dificultoso. Se tudo ia bem demais, com certeza tinha um problema. Então era melhor que não fosse muito bom. Onde já se viu buscar felicidade no amor?

Na minha época tembém não tinha Goodreads. A gente não buscava livros que fossem se encaixar em nossos gostos e nos agradar. Os livros nos encontravam e dominavam perversamente as nossas vidas. Ler era como estabelecer relacionamentos. Era cheio de amor e emoção, mas sempre tinha um porém e sempre era um risco. Por outro lado, não tinha ninguém nos vigiando para dizer se podíamos ou devíamos ler isso ou aquilo. Eu podia ler e gostar das mais variadas coisas sem precisar contar pra ninguém nem parecer esquizofrênico. Nossa identidade não era baseada em nossas predileções ou hábitos de consumo. Ter autores preferidos era algo mais próximo de manter um relacionamento romântico do que ser acionista de uma empresa.

Minha história com Fran Lebowitz, uma das minhas paixões literárias, não veio do Tinder nem do Goodreads, começou por acaso. Num sebo esquisito, nos fundos de uma galeria de Ipanema. Lá estava ela numa pilha de livros num chão; num pocket com uma capa feia e sem vida. Na contrapa, uma foto dela em frente a palavra “Author”.

Abri o livro, intrigado; li umas duas ou três histórias do Metropolitan Life sentado no chão do sebo; ri alto, sozinho; me identifiquei com seu mau humor e inadequação; e me apaixonei. Comprei o livro, fui pra casa correndo, o li todo no mesmo dia, mas não consegui colocá-lo na minha estante. Precisava carregar ela comigo.

Fran virou uma espécie de companheira de viagem. Eu, mesmo a tendo lido diversas vezes, a carregava para cima e para baixo para escapar quando as pessoas fossem chatas, o que acontecia muito, ou para citá-la quando encontrasse alguém que merecesse conhecê-la.

Essa relação obsessiva durou meses até que senti falta de ler algo novo dela. Foi só aí que descobri que, além do Metropolitan Life, ela só tinha escrito um outro livro, o Social Studies, tão curto quanto o primeiro. Pra piorar, ela sofria de um bloqueio de escritor terrível e não lançava nada novo há anos.

Me senti traído pela sua recusa em escrever, mas me mantive fiel. Se não podia ter nada de novo, a relia religiosamente e tinha o costume de citá-la mesmo quando não era apropriado. Muitos anos e releituras se passaram, quando Scorcese em 2010 fez um documentário sobre ela e, agora, onze anos depois, ele acabou de lançar Pretend It’s a City, uma minissérie extraindo ainda mais das opiniões de Fran. Assisti aos primeiros capítulos hoje e quase senti o que experienciei no nosso primeiro encontro. Não é o mesmo que lê-la, mas é algo. Algo a que temos direito nessa época.

Entendo que seja mais fácil falar do que escrever quando seus critérios de qualidades são tão altos como os de Fran, e é um alívio saber que alguém tão interessante e raivosa ainda está por aí colocando suas opiniões pra gente pensar. Mesmo que não consiga mais botar essas palavras no papel. Como ela fazia na sua época, que ainda é anterior à minha.

Mas, olhando pra minha cópia de Metropolitan Life, sim, a do nosso primeiro encontro em Ipanema há quase 30 anos, hoje sem capa e sem contra capa, por mais que eu adore vê-la e ouví-la, confesso que sinto falta de lê-la. Como sinto falta de ler diversos autores que, pelas mais variadas razões, se tornaram mais figuras midiáticas do que escritores. Mas as coisas não são mais como eram, sabe?, como eram na minha época.

Sei que hoje tudo mudou. Os escritores viraram os produtos e a internet facilitou o nosso acesso aos autores, o que gera, muitas vezes,  uma falsa sensação de proximidade. Mesmo sabendo disso, confesso: sinto falta de lê-los. Ouví-los falar pode ser um bônus, mas não é uma necessidade, nem substitui o cada vez mais raro encontro com o texto.

Hoje, ouvindo Fran reclamar do presente, da tecnologia, das pessoas, dos aviões, ônibus, celulares e jornais, relembrei o nosso encontro e reafirmei a nossa identificação, mesmo que, ironicamente, ela esteja se tornando algo tão característico da época que critica. Um destino do qual todos seremos vítimas.

Por isso, vi Pretend Its a City, com um gosto acridoce na boca, como num nostálgico reencontro romântico onde sabemos que mudamos e não nos merecemos mais. Mas isso é um problema meu. Como Fran Lebowitz, sou de uma outra época. Eu já lhes disse isso?

Um lar para uma geladeira carente

Olá, meu nome é Pedra de Fogo,

Sou uma geladeira nascida em 31 de janeiro de 1949 e desde então vivo num apartamento na São Salvador.

Dividi a minha vida em constante atuação com a mesma família até 2005, mas depois fui deixada sozinha no apartamento lamentando a minha aposentadoria.

Em 2016, para a minha surpresa, uma nova família adquiriu o apartamento e, por curiosidade, eles me botaram pra funcionar. Nem eu acreditei. Apesar dos meus quase 70 anos,eu ainda tinha vigor.

Os meus novos donos me mantiveram funcionando por um tempo mas não tinham como me reformar, a idade, vocês sabem, pesa, nem tinham a necessidade de duas geladeiras.

Não que eu não me dê bem com a minha nova colega. A diferença de idade é grande, mas conseguimos transpor o, como dizem?, gap geracional. Mas, confesso, sinto saudades de estar com colegas da minha idade.

Meus novos donos me contaram que várias famílias ou estabelecimentos comerciais poderiam se beneficiar da minha presença.

Assim, com a ajuda e apoio deles, estou escrevendo essa carta para saber se vocês me ajudariam a encontrar um novo lar.

Só precisam vir aqui me buscar e, se vocês puderem trazer umas cervejas pros meus donos se despedirem de mim, eles ficariam muito felizes 🙂 .

Para que vocês me conheçam melhor, seguem algumas fotos e minha certidão de nascimento.

Então, vocês podem realizar o sonho dessa bela e chique senhora? É só mandar um e-mail para os nossos donos e combinar de me buscar.

Aguardo suas mensagens, torcendo por uma resposta positiva,

Pedra de Fogo

Redescobrindo a Federação

*Contém Spoilers*

Discovery terminou a sua 3a. temporada e agora percebi o que estava me incomodando: finalmente ela entrou no esquema das demais séries de Star Trek.

Tem determinados padrões aos quais a gente se acostuma e nem sente. O de Star Trek está ligado a presença da Federação. Aquela enorme organização pacífica e racional que define o modus operandi dos nossos heróis e também direciona boa parte dos plots, definindo as missões que eles precisam cumprir.

Em Discovery, e em Picard, eles tentaram tornar a Federação, se não uma inimiga dos heróis, pelo menos uma pedra no sapato. É o espírito do tempo. Dos fascistas mais extremistas aos moderados mais relaxados, a confiança de todos nas nossas organizações políticas está abalada. E, óbvio, isso reflete nas nossas ficções.

Picard saiu para investigar a própria federação e fazê-la encarar o seu passado por esconder embaixo do tapete alianças espúrias e problemas que não conseguia resolver. E, em Discovery, demos um passeio temporal partindo de um período anterior à série clássica até 900 anos no futuro para estar a todo momento questionando as diretrizes, a atuação e a competência da Federação.

Em Discovery esse conflito se concentra na personagem de Michael Burnham. Ela, como Kirk, é uma rebelde, mas ao contrário do que acontecia com o Jim, ninguém passou a mão na sua cabeça. Ela já começa a série descumprindo ordens, sendo presa e tentando resolver tudo sozinha pois, fruto de uma tragédia e criada por uma família rígida e fria, não consegue confiar em quase nada e em quase ninguém. Assim como a gente que é obrigado a morar no Brasil.

Em Discovery, o ponto central é que a premissa da infalibilidade da Federação estava sendo subvertida. Na primeira e na segunda temporadas, a Federação não era ouvida e suas soluções eram em geral idiotas. Cabia aos rebeldes da Discovery resolver, a muito custo, seus próprios problemas considerando como lidar com  Impérios Racistas de outras dimensões ou Inteligências Artificiais de futuros distantes, respeitando dentro de certos limites, seus espaços. Parecia que a diversidade que havia dentro das naves da frota estelar estava sendo levada pra fora pela primeira vez.

Porém, agora, na terceira temporada, presos num futuro onde a Federação não é mais hegemônica, eles precisaram ser mais realistas que o rei e professar boa parte das regras com as quais não concordavam. Nesse novo ambiente, em especial no episódio da Terra, eles mostraram a face mais cretina da Federação: o colonialismo paternalista. Pode perceber. A Federação, em si, raramente tem problemas, e, como um Estados Unidos da Guerra Fria, ela sempre se mete nos problemas alheios, aparentemente sem interesses próprios, para aplicar sua imensa racionalidade e inteligência para resolvê-los.

Em Star Trek sempre foi assim. Lembro especialmente de um pocket da Nova Geração onde por páginas e páginas um planeta estava prestes a entrar num conflito sem volta e  foi só o Picard, que estava impedido de aparecer, falar meia dúzia de palavras que tudo foi resolvido magicamente. A premissa básica que move essas histórias é a mesma do colonialismo: meu papel é salvar os outros, e lucrar com isso, pois todos são imbecis e não sabem resolver seus próprios problemas.

Não admira, Discovery até a sua terceira temporada foi uma história de Recusa da Aventura. Michael é, desde a morte da Georgiou da “nossa” dimensão, claramente a mais apta a comandar a Discovery, mas ela não aceita essa resposabilidade. Toda trabalhada na psicanálise, nos seus conflitos familiares e na sua percepção basicamente correta das fraquezas da Federação, ela prefere “ajudar” ao invés de liderar. Surpreendentemente(?), muitas vezes essa “ajuda” coloca a nave em perigo para que Michael, depois de salvá-la mais uma vez, receba o carinho que Sarek não soube lhe dar.

No fim da terceira temporada, tudo mudou. Agora, depois que salvou toda a Federação, e recebeu carta branca pra ser como é, ela “se rendeu” a responsabilidade que deixou na mão de tanta gente inepta e se tornou a capitã da Discovery. E, como boa criança mimada que sempre foi, irá estender os domínios da sua vontade por onde seu motor de esporos permitir.

Se você achava a Federação colonialista e paternalista, imagina só como Michael vai agir depois que sentiu legitimada para assumir o poder. Deus tenha misericórdia do século XXXII.

A Campina de Genival

Todo Natal, até os meus 7 anos, a gente ia passar as festas na casa do meu avô em Campina Grande. No início dos anos oitenta era impossível não esbarrar com a onipresença de um dos filhos da terra mais queridos: Genival Lacerda. Das crianças aos adultos, todos conheciam e cantavam suas músicas com diferentes níveis de entendimento e maldade.

O vizinho de frente do meu avô, seu Cisso, que inclusive era sósia irmão do Genival, comandava a festa de final de ano da rua e o imitava seu clone quando não estava colocando Gretchen, sua obsessão, para tocar. Lembro que a casa dele foi o primeiro lugar onde vi um Globo Espelhado, bem no meio da sala iluminando diversos posters da rainha do bumbum que tinha nas paredes. Era um projeto de velho safado, como o personagem que o Genival representava.

Agora lembrando consigo fazer um paralelo entre os personagens das músicas do Genival e o pessoal da rua do meu avô. Desde a esquina da Birosca, até o depósito de gás, os personagens de Genival estavam todos, em maior ou menor grau, alí. A Severina Xique-Xique, o Pedro Caroço, o Velho Safado e até o Jegue Mordedor. Genival conseguia ser universal cantando a sua vila.

Genival morreu hoje e foi uma dessas figuras que representavam de forma histriônica seu lugar e seu povo, como o Bezerra e o Dicró foram, e o Zeca ainda faz um pouco mais esse papel pro Rio. Não temos muito mais disso. Talvez pois não tenhamos mais esse senso de comunidade. E quando morrem as comunidades morrem as lendas que nos tornam irmãos. O que fazer? Mate o véio

A Psicossomática das Máquinas

Tenho um grande amigo, e antigo sócio, que é um fiel crente na psicossomática. Impossível não ser. Num mundo fisicamente cada vez mais protegido, excetuando um vírus fora de controle ou outro, é normal que a fonte de boa parte de nossas doenças passe a ser emocional. Mas ele era fervoroso além da conta. Pra ele, tudo era psicossomático. E místico.

Quando ficava com frieira era um sinal de que estava pisando onde não devia. Quando precisou usar aparelho e sua boca sangrava quando falava demais era um sinal de que devia ficar calado. Quando seus triglicerídeos passaram, e muito, do padrão era um sinal de que estava ambicionando mais do que devia ou conseguia controlar. Não só ele acreditava que todas as doenças tinham fundo psicossomático, como acreditava que elas faziam parte de uma narrativa mística, espiritual, sei lá, que o alertava sobre o presente para proteger o seu futuro.

Era difícil não acreditar nele. Em geral, gente criativa e carismática, como é o seu caso, mesmo quando não escreve profissionalmente,  sabe como nos fisgar com as suas narrativas. E nós, que escrevemos, acabamos sendo as vítimas mais fáceis de seduzir.

Eu comecei a rezar tanto na cartilha dele que passei a acreditar numa variação um pouco mais bizarra das suas idéias: a psicossomática das máquinas. Ele dizia que não só o nosso corpo manifestava esses sintomas emocionais/místicos, como também as máquinas que eram ligadas a ele também sofriam. Ele não só professava isso como apresentava provas.

Toda vez que a nossa empresa assumia compromissos além do que a gente dava conta a casa dele tinha um problema de infiltração:

– Viu? Tá aí. Tamos cheios de trabalho e tá saindo pelo ladrão.

Sua relação com seu VHS, sim, isso tem tempo, era um capítulo a parte. Quando não conseguia rebobinar as fitas era um sinal de que precisava lembrar de algo importante que estava ignorando. Quando não conseguia adiantar os filmes, por outro lado, era visão do futuro que lhe faltava.

Nas poucas vezes que tentei questionar essa ideia radical, ele sacava um Pierre Levy e encerrava o assunto:

– Não são as máquinas que tem sintomas, elas é que passaram a fazer parte do nosso corpo. Somos ciborgues. Ciborgues!

Impossível discutir com ele, ainda mais quando comecei a sentir isso na pele, e na máquina. Uma vez passei 4 meses viajando a trabalho direto dando treinamentos do Rio Grande do Sul ao Amazonas e quando finalmente voltei pro escritório meu computador não ligava de jeito nenhum. Diagnóstico da TI: a fonte de energia secou. A minha e a da máquina.

Recentemente tive mais uma prova que esse meu amigo talvez não seja tão louco quanto parece. Desde que entrei de férias estou numa baixa de energia total. Consigo relaxar, ficar sem fazer nada, mas não descansar, do verbo tirar o cansaço, nem consigo recuperar a minha energia. Estranhamente meu celular entrou na mesma vibe. Demorava pra carregar, descarregava rápido, e, enfim, teve um problema qualquer na conexão de alimentação que sugou a sua bateria pra nunca mais. Ontem fui obrigado a comprar um novo.

Cheguei em casa, o botei pra carregar e nada. Tentei novamente e recebi o aviso:

Ao invés de pensar em falta de sorte, perseguição espiritual ou o que seja, lembrei do meu amigo e da psicossomática das máquinas. Óbvio que o problema não é a máquina, sou eu. Sou eu que estou exaurido pelo trabalho remoto, pela pandemia, por viver num país governado por loucos. Não admira que não consiga recuperar a minha energia. A preguiça, nesse caso, é quase uma estratégia de defesa contra esse baixo astral.

Daqui a pouco vou lá hoje trocar o celular e ver se algo mudou em mim. Afinal, se a questão é minha, se algo não mudar na minha postura, o celular vai continuar sem funcionar. Que a cura comece! Posso contar esse texto como parte do processo psicoterápico? Obrigado por me ouvirem, doutores.

A resolução incumprível

Fora as resoluções de sempre que eu não cumpro (emagrecer, melhorar a alimentação, me exercitar, etc), esse ano fiz mais uma que será impossível de cumprir: não comprar livros em 2021.

Sim, já sinto os dedos apontados pra mim e os risos de deboche na minha direção. Ok, ok, podem rir, não posso negar, é realmente hilário. Já se recompuseram? Ótimo, ótimo. Continuando…

Não sei se vocês sabem mas cumpro fielmente o Tsundoku e tenho mais livros do que consigo ler. Por isso, como até a minha filha de 6 anos já notou, a casa tem mais livros do que ela comporta. A situação é tão crítica que preciso de espaço em outros lugares para armazená-los. Tenho 3 prateleiras na casa da minha mãe com livros que ficaram no caminho das minhas diversas mudanças; no meu escritório, tenho duas pilhas de livros basicamente relacionados ao trabalho, e dos quais estou com saudades e afastado desde março; e até os livros que deixo nos sebos dos amigos são regularmente visitados, sempre na esperança de que ainda não tenham sido vendidos.

Viver entre livros é parte essencial da minha vida. Não à toa fui sócio de dois sebos e hoje em dia uma das minhas atribuições profissionais é gerenciar uma biblioteca. Não é só querência, é vocação.

Por isso, confesso, é bem estranho que eu faça uma resolução como essa. Logo eu que adoro parafrasear o Luís Fernando Veríssimo dizendo que ter mais livros do que se consegue ler é confiar na imortalidade. Mas há uma boa razão pra isso. Explico.

Nos últimos tempos, como muita gente, notei que meu foco e minha atenção para ler diminuiram. Culpei as redes sociais e cortei seu uso; culpei a pandemia e criei estratégias para me concentrar melhor; mas nada adiantou: continuei comprando mais e lendo menos. E muito disso porque boa parte das minhas relações reais e virtuais são baseadas em livros e ler.

A ansiedade para tomar parte de uma conversa que envolvia algo que eu não havia lido gerava uma urgência artificial para consumir. A compra do livro servia como um sedativo, a espera da entrega era uma distração, mas essa pequena odisséia não se concretizava com a leitura, e eu acabava simplesmente incluindo mais um item na infindável lista de “para ler”.

Outra coisa que percebi é que facilidade de acesso começou a tornar a minha leitura errática, pois, se um livro era mencionado no texto ou o tema me remetia a um outro, eu facilmente pulava de uma leitura para outra como se estivesse seguindo uma cadeia interminável de links. E, para selar essa tumba, o excesso de opções, na internet e até mesmo dentro de casa, tornava a tarefa de escolher a próxima leitura impossível.

Assim, para ler mais e melhor, resolvi que em 2021 não comprarei mais livros. Com essa resolução, aliada ao isolamento social, espero gerar uma redução artificial de oferta para ler o que já tenho em casa e, como acontecia no final dos 80 e 90, ter descobertas fortuitas com coisas interessantes que não planejei encontrar. E, se me lembro bem, foi assim que forjei boa parte das minhas preferências e paixões literárias.

Mesmo sabendo que não chegarei incólume ao final do ano, tenho certeza que será uma experiência interessante e me fará refletir melhor sobre a informação que consumo de forma geral. Afinal, vai ser impossível não precisar adquirir um livro ou outro, mas, prometo, não comprarei livros se não for extremamente necessário. O que “extremamente necessário” significa? Bom, não pensei nisso ainda. Esses critérios eu ainda preciso definir com mais clareza…  recomendam algum livro que me ajude a fazer isso?