Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O Reveillon que (não) houve

Ontem foi estranho, mas muito bom. Acostumado, mas resistente, às infindáveis comemorações de anos novos passados, comemorar esse reveillon em casa, só com a minha mulher e minha filha, foi um alento. Já tínhamos feito isso uma vez de 2013 pra 14 em BH, mas a menina ainda estava na barriga, e no ano passado viramos o ano só nós três mas em São Paulo. Essa foi a primeira em casa com ela do lado de fora.

Confesso que esse foi um dos poucos pontos positivos da pandemia. Como não podíamos aglomerar, não precisei me arrumar, não tive que me preocupar com a logística da ida, com estratégias de volta, onde dormir caso tudo desse errado, que cerveja levar, nem como impedir que outros as tomassem; vocês sabem, o de sempre. Mas ontem não teve o de sempre. Éramos só nós com uma ceia pequena mas bem gostosa, uma quantidade suficiente de cerveja boa, e o direito de fazer o que quiséssemos.

E foi aí a porca torceu o rabo. Como se perguntava o famoso filosófo Alexandre Pires: o que íamos fazer com essa tal liberdade?

Eu não sabia, mas já estava me sentindo livre o suficiente para considerar que podia cochilar até às 23:30 e pedir pra ser acordado para “ver” a virada. Minha mulher e minha filha, por outro lado, estavam meio indóceis. Tenho certeza que festeiras e rueiras como elas são, estava sendo bem difícil para elas.

Para compensar o isolamento, resolveram transformar a casa numa festa. Decoraram tudo com estrelas, luzes, guirlandas e umas bolas que insistiam em não ficar penduradas onde deviam. Montaram também colaborativamente uma playlist improvisada no Youtube onde o Rock BR dos anos 80 competia com o KPop atual num conflito moderado por uma estranha combinação de New Wave/Punk Gótico e Funk Carioca.

No início até que funcionou, mas um determinado momento alguém perguntou que horas eram e caímos na real que ainda teríamos muito tempo pra matar até a virada. O fato é que o Reveillon sem aglomeração, sem pessoas chatas e sem as complicações que o Reveillon normalmente tem é uma festa onde não há muito a se fazer.

Eu e minha filha resolvemos descer pra portaria do prédio e ver como estava a movimentação na praça São Salvador, onde desconfiávamos haveria uma festa ilegal. Não havia. Uns 10 gatos pingados e 3 ambulantes tentavam criar um clima de animação, mas falharam. Voltamos para casa e continuamos a colocar música alternadamente transformando a playlist, que pouco sentido fazia, numa ecletíssima trilha sonora de novela dos anos 90. Comemos um pouco, ligamos para pessoas, conversamos sobre o que se passou em 2020 e o que esperamos fazer em 2021, mas o tempo não passava. Aí a sabedoria infantil da minha filha sugeriu:

– Posso botar o pijama meia hora antes do ano novo?

Não vimos por que negar. Assim, simplesmente aceitamos que esse Reveillon era só um exercício de esperar o tempo regulamentar até o ano virar. Óbvio que deu até uma certa excitação nos dois minutos finais de 2020, mas o grito de um cara num megafone mandando a besta fera que foi eleita presidente indo tomar na parte da anatomia de onde saem seus “pensamentos” e comentários nos lembrou que muitos dos problemas de 2020 ainda vão ser herdados por 2021.

2021 chegou, nos abraçamos, beijamos e desejamos o melhor uns para os outros. Da mesma forma que fazemos todos os dias, mas um pouco mais alcoolizados e melhor vestidos. Nessa hora me lembrei de um artigo mezzo sério mezzo piada que rolou na New Yorker esse mês sugerindo o cancelamento eterno do Reveillon. E comecei a lhe dar uma certa razão.

A virada do ano se tornou um evento místico/motivacional obrigatório que demanda muito mais exacerbação de papéis sociais do que emoção verdadeira. Vê só: abraços exagerados em gente que você muitas vezes só vê no reveillon; desejos de sucesso, saúde e prosperidade padrão para todo mundo, desde os desafetos secretos até os afetos declarados; uma sensação brutal de urgência artificial por conta de uma data que, no frigir dos ovos, é só a véspera da circunsição de cristo; enfim, não há muito o que se comemorar. Mas até aí, nenhuma festa tem justificativa pra acontecer.

Porém, mesmo que o hábito continue, afinal festejar é preciso, talvez a pressão por comemorar o reveillon mereça ter um alívio. Não comemorar o Reveillon deveria ser uma opção aceitável, ao invés de uma surpresa taxada com um estigma social exagerado. Vamos ver se em 2021, espero eu, já vacinados, poderemos fazer, sem medo de julgamento social, a escolha de ficar apenas com os nossos mais próximos sem fazer nada, como fomos, no meu caso, agradavelmente obrigados nesse Reveillon. Eu não me incomodaria. E você?

Resoluções, Metas e Rotinas para 2021

Uma das (des)vantagens de ficar velho é lembrar de tempos em que as coisas eram diferentes. O Ano Novo é um desses casos. Uma das coisas que mudou dos anos 90 pra cá é que, em vez de metas e objetivos para o ano vindouro, a gente fazia resoluções. Pode parecer a mesma coisa, mas era bem diferente.

As tais metas e objetivos de hoje vêm de uma cultura corporativa baseada em eficiência, requisitam planos de ação, métricas e governança para punir os culpados pelos fracassos e exaltar os responsáveis pelos sucessos. No começo dos anos 90, o Ano Novo, ao contrário de um período de prestação de contas, balancetes, frustração, e apresentação de planos estratégicos, era uma época mística para explicitar seus desejos ao Universo. Eram as tais resoluções que, interpretadas literalmente, não passavam de decisões.

“Em 1995 vou emagrecer, arrumar um novo emprego, amar novamente”. As tais resoluções eram desejos transformados em decisões. Definir como elas iam ser executadas não estava bem nas nossas atribuições. Parte da responsabilidade de torná-las reais era, sim, nossa, mas boa parte também era entregue ao destino. Enfim, eu decidi, vou me esforçar, mas, ô, destino, dá uma ajuda aí. Por mais que houvesse um horizonte para as resoluções, havia um sentimento bem forte de “se rolar, rolou”. Era uma época mais relaxada onde o que importava era o “eu quero”, ao invés da pressão de hoje do “eu tenho que”.

Ontem, um amigo veio me perguntar quais seriam as minhas metas de 2021, o que me fez lembrar dessa mudança nos desejos e programações do Ano Novo. Na hora não me veio nada. Se tem uma coisa que 2020 me ensinou foi a não ter planos muito detalhados. Tenho, sim, alguns desejos e até umas resoluções, mas não tenho metas.

Sem ter o que compartilhar com ele, disse que queria novas rotinas.

Além dos desejos, mas aquém das metas, acho que o máximo que podemos pedir para o Ano Novo é ter novas rotinas. Os resultados dessas rotinas muitas vezes estarão fora do nosso controle, mas num mundo onde a incerteza é a única certeza, pedir pra controlar o seu dia talvez seja o máximo de ambição que podemos nos permitir.

Assim, em vez de almejar perder 20 quilos, mudar para o exterior, arrumar um emprego que pague o dobro do seu salário atual, ou encontrar o amor da sua vida, crie uma rotina como se tudo isso já tivesse acontecido. Se exercite, coma melhor, estude uma nova língua, divulgue seu trabalho e busque gente que seja do seu interesse. O resultado, se tiver que vir, virá. E se não vier, deixe pra lá. Pelo menos a sua parte deu pra fazer. A do destino a gente torce que ele irá providenciar.

Então, o que posso nos desejar em 2021 é que, controlando esses pequenos pedaços do nosso dia, não necessariamente realizemos todos os nossos desejos, nem atinjamos todas as nossas metas, mas que, pelo menos, aumentemos a resolução das nossas imagens, melhorando o foco para descobrir que somos melhores do que parecemos. E se isso rolar, já vai ser muito bom.

Um feliz 2021 a todos em que possamos ser mais nós mesmos, e que o destino, olha lá a responsa, mestre, continue a nos ajudar. Nos vemos em 2021.

Narrações intermináveis da sua vida interior

Ainda tenho guardados os cadernos e diários da minha adolescência que provam que eu tinha uma vida interior. Converso com amigos da época sobre os acontecimentos que vivemos e estão registrados neles, e, do seu lado, não há lembranças:

– Sério que isso aconteceu?- eles me perguntam

– Sério. Seríssimo- respondo com uma ponta de dúvida.

Releio as histórias e passagens e me pergunto: se ninguém além de mim lembra, eu realmente vivi aquilo tudo? O drama, a cor, o amor? Não posso simplesmente ter uma memória melhor que a dos outros. Ou posso?

Compartilhei essa minha preocupação e um amigo me trouxe uma explicação: nem todo mundo narra a sua vida internamente. Segundo um artigo que ele compartilhou, narrar a sua vida continuamente é mais uma exceção do que a norma, e ainda me confidenciou:

-Eu mesmo não narro a minha vida.

Fiquei tão assustado que fui estudar o assunto mais a fundo e descobri que 3 entre 4 pessoas não estabelecem esses constantes diálogos internos. Que muitas ficam dias ou semanas sem ouvir a própria voz em suas mentes. Imagine só: tocar a vida sem ter aquela companhia constante na sua cabeça transformando tudo em uma história. Será uma benção ou uma maldição?

Não tenho ideia, pois desde que me dou por gente, eu não consigo parar de narrar. Minhas angústias, minhas esperanças, meus medos, meus desejos, desde a minha mais tenra infância, sempre foram parte de histórias. Quando aos 12 anos desenvolvi uma paixonite por Cindy Lauper, lidava com isso burilando uma história sobre uma sósia sua de 17 anos que morava em um prédio abandonado e me tirava de casa de forma dramática, mas eventualmente era mal sucedida. Quando vivenciei o câncer da minha mãe, mesmo com 6 anos, juntei os pedaços de lembranças da época e criei uma história de começo, meio e fim. Iniciava numa pedreira onde ela foi consultar uma vidente que a condenou a morte; pulava pros longos dias que vivi circulando no quarto e no refeitório do hospital; tinha um momento de alívio cômico sobre a inabilidade do meu pai de cuidar de mim, que fez o teto da cozinha ficar cheio de milk shake de amendocrem por dias; e encerrava com a volta da minha mãe pra casa quando lhe presenteei com pantufas vermelhas compradas na Amor Perfeito do Rio Sul.

As memórias, ou as histórias, são tão vividas na minha mente que me pergunto se realmente aconteceram dessa forma ou se apenas lembro das histórias que contei pra mim mesmo. Narrar a minha vida é um suporte para a minha memória ou um perigoso caminho pra mitomania que acometia meu pai?

Não tenho respostas, mas nos últimos tempos, nesse período de isolamento, me espanto o quanto, quando confrontado por alguns assuntos, consigo tirar da manga textos onde relato momentos da minha vida relacionados ao tema.

Isso parece tão incomum aos outros que inclusive ouço os seguintes comentários:

E me pergunto, temeroso, se isso não é, ao invés de uma qualidade, algum sinal de anormalidade.

Certo ou errado, é assim que eu sou: eu narro a minha vida. O que aconteceu, e o que não aconteceu; o que eu quero, e o que eu não quero, que aconteça. Viver sem a minha voz na minha cabeça é tão fora da realidade para mim que nem consigo conceber quem tenha momentos, ou mesmo dias, sem ouvir a sua própria voz.

Isso me lembra um conto que escrevi na adolescência sobre um jovem que misticamente conseguia contar histórias que realizavam os desejos das pessoas, mas ele mesmo, inundado por anseios e narrativas alheias, não conseguia descobrir o que queria. Assim, entre se apropriar do desejo alheio esteticamente e viver dentro de um deslumbrante vazio emocional, ele levava uma existência angustiante porém bela e útil. Era assim que eu vivia? É assim que eu vivo?

É uma pena que não tenha uma cópia dessa história, mas pelo menos eu me lembro dela e posso narrá-la para mim mesmo quando eu quiser. A pergunta é: isso é bom ou ruim? Não sei, mas é o que é. E isso já basta. Não? O que você me diz, voz interior? Vamos conversar…

Romeu e Julieta para a meia idade

Mês passado, no Clube do Livro de Teatro comandado pela Joana Poppe, fizemos a leitura de Romeu e Julieta e confesso que estou ainda impactado. Não pelo plot, óbvio. Já tinha lido a peça há muitos anos e as diversas adaptações ou derivações não nos deixam esquecer a história: jovens apaixonados vindos de famílias rivais lutam contra tudo e todos e, surpresa, pagam com as suas próprias vidas pela esperança infrutífera de realizar seu amor.

O que me surpreendeu dessa vez foi que, frente a essa aparentemente bela e inspiradora história, digamos, romântica, só consigo ver um alerta e uma crítica enormes à insanidade que é essa construção que chamamos de amor.

Sim. O amor romântico é uma construção social. Ainda na época de Shakespeare, por exemplo, a maioria dos casamentos e relacionamentos não eram guiados pelo tal amor. Se você tinha dinheiro, posses ou poder ia casar por conta de acordos e alianças; se não tinha, ia casar basicamente com quem estivesse lá e a sua família indicasse. Existia tesão, desejo e afins, claro, mas o tal amor, como o concebemos hoje, não era a justificativa padrão para a união entre as pessoas, mas sim uma novidade que lhe prometia ser arrebatado pela paixão e agir de forma irresponsável e prejudicial com você e com a sua comunidade. Exatamente como prometem alguns comerciais de carro ou fast food hoje em dia.

Em pleno século XXI, parece até estranho desnaturalizar o amor romântico já que a maioria da humanidade, excetuando as mocinhas das novelas da Glória Perez, pode escolher livremente seus parceiros regulares, pseudo-permanentes ou ocasionais. Ao contrário do que acontece em Romeu e Julieta, hoje em dia, o tal do amor romântico, como motivador para os relacionamentos, não é mais surpresa, virou commodity e não suscita conflitos significativos ou objetivos.

A situação chegou a tal ponto que se olharmos bem para as atuais comédias românticas elas não são sobre os problemas que o amor gera, pois ele não gera mais problemas, mas, sim, se a escolha do objeto amado é eficiente e eficaz. Ou seja, são obras sobre gestão do tempo e consumismo. Estarei fazendo o investimento certo nesse objeto libidinal? Vou perder meu tempo ou desgastarei minha imagem? Esse produto é o fit certo pro meu perfil?

Já em Romeu e Julieta a banda toca de forma diferente. Romeu, em busca de uma outra garota que não corresponde o seu interesse, uma tal de Rosalina, vai ao baile da família rival, se encanta com Julieta e depois de trocarem meia duzia de belas palavras são tomados por uma paixão arrebatadora. Para eles não há escolha. E, sem escolha, assim eles agem.

O engraçado é que agora, como um velho em formação, achei totalmente despropositada toda a confusão criada por essa paixão. Sei que, quando jovens, os hormônios e a falta de paciência e experiência fazem tudo parecer urgente e vital. Tanto que o tal conflito entre os Montéquios e os Capuletos me pareceu dessa vez bem controlado depois das ações do Príncipe, e só continuava mesmo por conta de alguns jovens membros das famílias rivais. Ou seja, mais uma vez, tudo culpa da juventude.

Pra piorar, você precisa lembrar que Julieta só tem 13 anos e consegue fazer Romeu perder a cabeça totalmente em dois dias. Ela o convence a se casar com ela em segredo, o joga no meio de uma luta com seu primo, cuja morte não lhe abala em nada, e ainda conspira com um Frei para fingir um suicídio e se livrar da família. No mínimo ela parece uma megerinha mimada, mas não estaria errado considerá-la também como um projeto de sociopata.

E o Romeu, cá entre nós, também não é boa bisca. Desde o início da peça é apresentado como um sátiro interessado em qualquer rabo de saia, lembrem da Rosalina, que, cego por uma paixão arrebatadora por uma sociopata de 13 anos, joga a cidade num conflito sem fim, mata o primo da namorada, provoca a morte do Mercúcio, seu grande amigo e única voz sensata da cidade, é exilado, volta escondido, mata o prometido da sua esposa, e se mata sem nem pensar duas vezes. Imagino que se tivesse demorado uns dois dias a mais no exílio talvez tivesse deixado Julieta de lado por uma nova paixão. Mas isso é só uma conjectura.

Talvez eu esteja ficando velho, mas não achei nada disso bonito, nem romântico. Achei temeroso e preocupante. Talvez esse sentimento venha de um medo crescente que a gente vai adquirindo com a idade dos ímpetos da juventude, afinal, já sofremos o suficiente para saber que, como dizia Steve Allen, as tragédias insuperáveis da vida se somadas ao tempo não passarão de comédias.

Enfim, depois de ler Romeu e Julieta, só tenho um conselho aos jovens do mundo: não envelhecei, pois é ruim pacas; mas, por favor, pelo menos tenham um pouco de paciência. Com o passar dos anos vocês aprenderão que encarar a vida como comédia é bem melhor do que como tragédia.

Por falar nisso, fiquei me perguntando: o que diabos aconteceu com a Rosalina? É, a menina sensata que deu o bolo no Romeu. Aposto que teve uma história de vida muito mais feliz e interessante que a dos inconsequentes de Verona. É, “O que aconteceu com Rosalina?”, taí uma peça que eu gostaria de assistir.

10 de espadas

Foi sem querer.

Estava numa tarde de sábado preguiçosa inundado na quantidade de coisas para não ver no Netflix, quando decidi rever o primeiro episódio de Halt and Catch Fire. É, aquela série sobre o mercado de informática, desde o PC até o início da internet. Agora, 3 semanas depois, acabei de re-assistir ao seu último episódio, e, confesso, estou novamente maravilhado. Mas por razões diferentes daquelas da primeira vez.

Como dizem, você nunca passa pelo mesmo rio duas vezes. Ou mudou o rio, ou mudou você. Com séries e qualquer outra manifestação artística é a mesma coisa. Se você busca a mesma sensação ao resgatar uma experiência, desculpa, mas isso não se chama prazer estético. Tá mais pra dependência psicológica.

Revisitar uma obra de arte é estabelecer um novo diálogo onde, por mais que o seu interlocutor pareça, e muito grifo no pareça, estar dizendo a mesma coisa, você quer se surpreender com as suas próprias respostas. E descobrir o que mudou em você.

Na primeira vez que assisti a Halt and Catch Fire estava num momento muito ruim, angustiado. E foi isso o que a série me passou: uma sensação de ansiedade e medo que não se completou quando Joe MacMillan terminou a série da mesma forma que começou.

As batalhas e sucessivas derrotas dos protagonistas pareciam apenas um destino inescapável e sem sentido. Como o meu. Na época.

Agora, 3 anos depois ouço Joe MacMillan dizer as mesmas palavras e elas ecoam de forma diferente em mim. Mudou a série ou mudei eu?

O nome da série vem de um comando que joga a máquina numa competição interna entre suas funções o que pode destruí-la ou paralisá-la requisitando um reboot. É uma óbvia referência a competição desenfreada no mercado de tecnologia que torna reis em párias de uma hora pra outra e está coalhada de histórias de reinvenção, mas é também um lembrete das forças do destino. O destino que, como uma avalanche, uma bola de neve, é uma força impossível de parar e cujo fim todos nós sabemos. Será?

Por mais que, ao contrário do que lhes vendem nas fantasias corporativas ou de auto-ajuda de meritocracia e crescimento constante, a vida não seja um eterno melhorar, os ciclos que vivemos, apesar de aparentemente sem sentido, estão aí para nos mudar e ao mesmo tempo nos tornar cada vez mais nós mesmos. Como boa ficção, a nossa vida é uma eterna dança entre plot e exposição de personagem. Nunca percebeu isso? Sério? Então para e presta atenção. Está acontecendo a todo momento. Inclusive agora.

Na série, isso fica bem representado pela sua estrutura não circular, mas em espiral. Joe continua inquieto, mas diferente. O que o torna curioso está lá, mas a forma como ele lida com isso mudou. Bos, ainda é o boss, mas de pai tirano se torna a figura paternal e frágil que nos abraça no final. Donna e Cameron, como as forças criativas que representam, renascem, mais uma vez. E Gordon faz a sua transformação através das gerações e das construções que deixa como legado.

Não é a toa a quantidade de citações budistas ou referências taoistas na série. Estamos, sim, falando de (im)permanência. De relações, sonhos, empresas, tecnologia. Nada continua, mas não continuar é uma constante. Por isso é preciso sempre renascer. Mais do que iterações, acontecidas em que cada um desses ciclos de mudança e descoberta, são as interações que importam, pois nada acontece no vácuo, e aqueles que nos acompanham em nossa jornada são os espelhos onde nos veremos, nos construiremos e renasceremos, como a Fênix.

Por isso, o título do episódio final, 10 de espadas, é tão apropriado e tão rico em significado. 10 de espadas é um dos arcanos menores do Tarot que no baralho desenhado pela Pamela Colman Smith tem a imagem de um homem caído no chão apunhalado por 10 espadas enquanto ao fundo o sol nasce cheio de esperanças. Aparentemente um paradoxo, mas claramente uma passagem.

A vida, a carta nos lembra, não é um catálogo de vitórias. Essas mentiras você pode deixar pras entrevistas de emprego e perfis em redes sociais. A vida é um darumá. Como o tradicional boneco japonês, o nosso objetivo não é sempre estar por cima, mas ter forças para se levantar 8 vezes após cair 7. Como fizeram os protagonistas de Halt and Catch Fire, como nós fazemos todos os dias. 

Deixem-me terminar fazendo uma pergunta…

Melhor não. Não quero ouvir respostas. Desculpe, foi sem querer.

Será?

Tudo água

Aí, já pensou nisso? Se vivermos apenas uma vez, passaremos mais tempo sendo tudo do que sendo apenas alguma(s) coisa(s). Vê só. Primeiro você está em lugar nenhum e, ao mesmo tempo, em todos os lugares. Você (se é que podemos falar de “você”) é parte de um todo indiferenciado. Do universo, se você preferir.

Aí, por conta da união de 2 gametas você se torna algo: um feto. Mas, mesmo assim, para o choque não ser tão forte, te deixam dentro da sua mãe num caldeirão de líquido primordial. Seguro, quentinho, uno (com a sua mãe, nesse caso), até estar pronto para você ser uma coisa separada.

Aí você nasce e é sempre complicado. Afinal quem quer sair de lá e encarar a dureza de ser algo separado? E, pior, sozinho. Você, que antes era tudo, vai ser obrigado a ser uma coisa só. Por isso você grita, esperneia e chora. Mas, por pior que seja, sempre tem uma história sobre como seu o nascimento foi glorioso, heróico, surpreendente, mágico, poético, cômico ou dramático. E em geral é. É tudo isso, ao mesmo tempo.

Aí você cresce e estranhamente esse movimento entre ser uma coisa só e ser tudo continua. É como se você estivesse nascendo a todo momento. Primeiro você acha que sua mãe é parte de você até que te desmamam e você precisa se alimentar sozinho. Aí te põem numa escola pra você ser igual a todos ou, pelo menos, a parte de um todo, até que consiga sair da sua família pra ser algo diferente, e, surpresa, formar a sua própria família, onde tudo vai ser igual ou bem parecido. É como se, mesmo  após nascido, você estivesse buscando (ou sendo forçado a fazer parte de) simulacros desse líquido primordial. Uma nostalgia do que já foi.

Aí um dia você descobre que, apesar de se sentir sozinho, você já foi parte de tudo. Nesse ponto a crise existencial te leva à neurose, ao divã, ao desespero, à religião, ao vazio, ao “Thanks, God, it’s friday”. Você, antes compelido pelo mundo, agora começa a buscar ativamente pelas fantasias do sentimento oceânico que te permitiriam voltar a se sentir um com o todo, ou, melhor, não sentir nada. Esse desespero por fazer parte é tão grande que as pessoas brigam e matam umas às outras pois sentem que os outros ameaçam suas fantasias de patriotismo, espiritualidade e família que resgatam a saudade de não serem nada. E serem tudo. Ao mesmo tempo.

Aí você se liga que vai morrer e tem medo. Estranho. Afinal passou boa parte da vida tentando fazer parte de tudo de novo e, quando descobre que isso vai ser inevitável, não sabe o que fazer. Talvez porque você tenha passado tanto tempo fazendo parte de “todos” falsos que não incluíam tudo de verdade. Agora que será obrigado a voltar a fazer parte do “todo” mesmo, você quer que esse “todo” seja igual ao que você é sozinho. Coitado. E soberbo.

Às vezes me pego pensando nisso e imagino que a gente não aproveite esse momento da vida de verdade. Que outra oportunidade a gente tem experimentar o mundo por apenas um ponto de vista? É, porque a gente não deixou de fazer parte do todo. A gente simplesmente está vivendo a oportunidade de experimentar as conexões das quais somos feitos de um ponto específico da rede, ou como dizia Bill Hicks na sua história positiva sobre LSD:

“Today a young man on acid realized that all matter is merely energy condensed to a slow vibration, that we are all one consciousness experiencing itself subjectively, there is no such thing as death, life is only a dream, and we are the imagination of ourselves. Heres Tom with the Weather.”

Por isso quando me sinto sozinho e a melancolia bate, eu lembro que estou nesse mar celestial onde somos tudo e nada. Lembro que nada é permanente, que tudo é interconectado, e que o Nirvana é uma simples questão de percepção e desapego. Mas enquanto ele não chega, tudo o que me resta é sair desse mar, abrir a canga, deitar e olhar o mundo desse ponto tão particular. O meu.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.