Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

STRANGEST GAMES

Todo ano é a mesma coisa. Enquanto as pessoas fazem resoluções de ano novo para correr maratonas, mudar de emprego, ou usar fio dental, seja o dentifrício ou o biquíni, eu sempre quero voltar a jogar RPG. E eu volto, sim, mas sempre é brevemente e não me deixa completamente satisfeito. E essa insatisfação, hoje, eu sei, é totalmente minha culpa.

Por mais que todo ano eu consiga reunir velhos e novos amigos para jogar, com o passar do tempo, ou eu vou perdendo o interesse na campanha, ou as sessões vão virando apenas oportunidades para o pessoal se  rever, o que, cá entre nós, não é nada mal. Porém, sempre fico com aquela sensação ruim que o lance não engrenou. E, como já disse, a culpa é minha.

A culpa é minha pois não deixo claro o que eu quero. Por exemplo, eu sei que é mais fácil reunir a galera pra jogar D&D (em especial a quinta edição) do que os jogos obscuros dos anos 80 que eu prefiro; que a promessa de uma campanha mais longa é mais atraente do que uma série de one shots doidões que eu quero fazer; e que fantasia medieval é o gênero que (quase) ninguém se nega a jogar. Assim, por facilidade, os grupos acabam sendo montados em cima desses não ditos e eu, apesar da empolgação inicial, vou aos poucos perdendo o gás. 

Na verdade eu quero um pouco mais do que esses não ditos usuais. Ou, melhor, eu quero algo diferente.

Então, para que 2021 não seja como os outros anos, escrevo e divulgo esse texto como um manifesto e um convite para explicar não quero só que eu quero ao voltar a jogar RPG, mas também deixar claro o porquê, o quê, e o como eu quero jogar.

Por que jogar?

O que sempre me atraiu foi a variedade de mecânicas e de cenários. Não é à toa que no auge das RPG RIO os únicos eventos que planejei e comandei sozinho foram justamente A TARDE DE JOGOS ESTRANHOS e o campeonato de RPG usando FLIGHT 13, uma bizarra aventura de GURPS. Além disso, em todos os eventos que participei,  sempre mestrava jogos menos conhecidos como It Came From the Late, Late Show; Marvel SAGA; Toon; Paranoia; Talislanta; Twerps; Amazing Engine; Chill; e TimeMaster; isso sem esquecer daquela mesa clássica de Teenagers from Outer Space com 40 jogadores que fechou a RPG RIO II. Vocês tinham que estar lá pra ver… Ou melhor, vocês podem embarcar nessa doideira agora.

O que jogar?

Já cheguei na meia idade e tenho mais RPGs do que provavelmente vou conseguir jogar até o fim da minha vida. Quero pelo menos dar uma chance de testar ou reexperimentar um pouco da maioria, incluindo fazer uma aventura de The Clay that Woke, aquele RPG sobre minotauros servos de uma humanidade decadente, e jogar mais uma vez o  Bond, James Bond RPG. E olha só que esses nem são os mais esquisitos.

Como  jogar?

Para conseguir dar conta de tantos jogos, vou focar em pequenas campanhas de um a dois meses, começando, quando possível, pelas aventuras prontas dos próprios jogos para chegar mais perto da experiência sugerida pelos seus criadores. Começaremos com uma sessão para construção de personagens e depois com a mini campanha. Não me nego a continuar no mesmo jogo depois desse trial, mas a troca de sistemas vai ser a norma.

E na prática?

Bom, as sessões regulares ocorrerão nas quintas feiras das 7 PM às 10 PM no Roll20 e começarão no dia 22 de janeiro.

Como acredito que nem todos irão querer participar de todas as mini campanhas, vou noticiar as sessões, atualizações e postagens a respeito dos jogos num grupo de whatsapp.  Aí quem quiser participar é só se apresentar. Se quiser receber esses informes, inscreva-se.

Irei também escrever sobre as sessões e jogos e postarei tudo num tumblr chamado Strangest Games.

EXTRA!!! EXTRA!!!

Como aquecimento e pré lançamento teremos 2 sessões especiais nos dias 10 e 17 de dezembro para jogar The Day of the Octopus do Clássico RPG da Marvel (FASERIP). 

Se tiver disponibilidade e quiser participar dessa primeira sessão, é só me mandar uma mensagem no grupo de whatsapp dizendo se deseja jogar essa aventura totalmente anos 80 com o Homem Aranha, a Capitã Marvel, o Capitão América ou o Coisa! (O que estiver riscado, já foi escolhido).

Então, é isso.

Espero ver vocês nessas mesas (virtuais) em 2021 para jogar os jogos mais estranhos!

Abraços e GAME ON!

O artista, o produtor e o pirata entram num bar

Começou a rolar uma discussão sobre a questão da pirataria no Grupo do Bobagens Mais Imperdíveis e me senti tentado a me pronunciar a respeito. Comecei a escrever uma mensagem, mas ela foi crescendo, crescendo, e virou esse post. Peço desculpas antecipadamente pelo meu desatino.

Acho doido o povo discutir o modelo comercial da arte no século XX como se ele tivesse nascido com o mundo. O processo de ter um gate keeper (editora, gravadora, produtora) que comercializa uma obra de arte física ou virtual (e suas reproduções) não nasceu com a humanidade. O processo de financiar a criação artística e o sustento dos artistas teve vários outros modelos. Durante muito tempo tínhamos o Mecenato; estúdios de escultores; guildas; comunidades rurais de artistas; e, antes das editoras, as próprias livrarias eram publishing houses. Em suma, ser artista nunca foi profissão regulamentada mas parte fundamental do nosso ser.

Quando a arte entrou no modelo industrial, artista, sim, virou profissão, quer dizer, emprego, e criou absurdos como Carla Perez ser tratada como artista, pois vende em atividade correlata a indústria de entretenimento, e seu vizinho que escreveu dois livros de poemas fodas e declama belamente quando está bêbado no botequim da esquina ser chamado de vagabundo.

A arte virou uma exclusividade dos que geram dinheiro (para si e para os outros) com ela. Uma bruta besteira criada pela indústria junto com o mito de que os artistas, como países a serem colonizados e brutalizados, precisavam ser descobertos. Não precisam, pois todos somos artistas. Sobre o tema, sugiro a leitura de A Greve da Arte de Stewart Home.

Mas voltando à vaca fria. A questão da pirataria não é novidade e vem de mãos dadas com a questão de copyright desde ao século XXVII, o Cory Doctorow tem excelentes observações sobre isso. Então, ao invés de discutir se pirataria é válido, bom, ruim ou uma forma de se posicionar contra grandes conglomerados capitalistas (uma racionalização exagerada cuja consequência pra mim é a mesma de botar fogo na casa do torneiro mecânico pois você é contra a indústria automobilística), devemos nos questionar o que isso ameaça e qual seu propósito. Pois pirataria não é fim em si mesmo, mas um sintoma.

Um sintoma da falta de recursos para consumir a obra, do número limitado de cópias, da dificuldade de acesso, da falta de repositórios públicos dessas reproduções, e até de uma sanha hiperconsumista. Afinal, pra que precisamos encher HDs com livros, filmes e séries que nunca iremos ler ou ver? Roubar pode ter várias justificativas, mas ainda é roubar. Mesmo que os demais elos da cadeia roubem também.

O fato é que a pirataria não é um problema da arte, mas do comércio e da indústria. E a “indústria da arte”, depois de tentar bloquear sem sucesso a disseminação das obras, passou a responder a isso apostando na transformação dos próprios artistas em produtos, que vivem da cultura da celebridade, da venda de memorabília, e não passam de garotos propaganda ou conteúdo filler entre comerciais na internet. Sério. E não é só na música. Já viram esses canais de booktubers ou entrevistas com escritores hoje em dia? Os extintos suplementos literários viraram apenas versões da Caras e do Shoptime para um público que se pretende intelectual pois compra livros.

Ah, mas e o artista? Como ele vai sobreviver? Bom, sobrevivendo. Tendo outros empregos, contando com o micro-mecenato, e recolhendo o que sobra da decrescente indústria de reproduções de obras de arte. Ou, como uma vez ouvi Luiz Ruffato dizer numa palestra, cobrando por tudo que faz. Sim, ou você acha que o mito do artista puro não foi criado pela própria indústria para acusar de vendido todos que desejam receber pelo valor que geraram?

Então, pirataria, na minha opinião, não merece discussão. Se você faz, está errado. Pode justificar como quiser, mas está errado. Discutir modelos de sustento da atividade artística e dos criadores, sim, é um tema válido e espinhoso, sobre o qual eu não tenho nenhuma certeza e adoraria conversar. Qual é a sua opinião a respeito?

Uôrque

Quando eu nasci, meu pai já estava aposentado, e, na infância, minha mãe tinha tantos empregos que  eu nunca consegui entender o trabalho de uma maneira normal. Nenhum dos dois saía de casa depois do café dizendo vou trabalhar e voltava no fim do dia para jantar. Era totalmente diferente do que eu via nas novelas ou nas casas dos amigos. Com eles era como se o trabalho fosse ao mesmo tempo tudo e nada em suas vidas.

Meu pai me buscava no colégio, fazia a ronda numa empresa na qual era sócio, ia a escritórios de imobiliárias entregar papéis e recolher dinheiro, e me confidenciava:

– Aqui tá todo mundo enrolando. Vamos tomar um sorvete.

Minha mãe me levava pra passear num determinado lugar e quando eu menos esperava estava sentado no fundo de uma sala onde ela dava aula para um grupo de pessoas que eu nunca tinha visto.

– Vai anotando os pontos que as pessoas mais perguntam- ela me pedia.

Espremido entre essas duas éticas do trabalho bizarras, óbvio que me tornei um jovem adulto com problemas. Trabalhava em excesso por nada, brigava com chefes em prol de clientes, e, quando comecei a ter as minhas empresas, organizava reuniões com os funcionários para levantar maneiras de pagá-los mais. Talvez por isso eu nunca entendi uma linha escrita na revista Você S.A. Para mim trabalho não era o caminho para status e fortuna, mas a única maneira de estabelecer relações e justificar minha existência no mundo.

Depois de anos sofrendo nessas relações comerciais e profissionais dramáticas que eram mais emocionais do que práticas, um dia, na análise, o meu psicanalista acertou na mosca:

– Você não consegue parar de trabalhar.

É verdade. Não consigo. Nunca consegui.

Todas as minhas relações, inclusive as pessoais, tem um quê de prestação de serviço. Conheço uma pessoa, me torno sua amiga, e, pimba!, temos um projeto juntas. Seja uma banca para vender revistas usadas, como fazia na infância; um fanzine ou associação de RPG, na minha adolescência; ou uma das inúmeras empresas que tive ou das quais participei na minha vida. Se você me conhece pessoalmente, me diz a verdade, não lhe dá a impressão às vezes que estou prestando uma consultoria?

Eu sei, é chato pacas. Você vem falar de um problema qualquer e eu já penso em como podemos transformar isso em algo: um podcast, um livro, um projeto, um evento. Parece até que estou ligado no 220, mas não estou. Eu simplesmente não consigo parar de trabalhar. Talvez daí venha a minha mania insuportável de dar palpite em tudo. Mesmo quando as pessoas só querem anuência, eu sempre tenho uma sugestão a fazer. Eu tento me controlar, mas, desculpem, é mais forte do que eu.

O tal psicanalista, que verbalizou o que eu nunca consegui, disse, na época, que o problema vinha de duas mensagens contraditórias que meu inconsciente reinterpretou. Meu pai dizia: não trabalha. Minha mãe dizia: não é trabalho. Mas o inconsciente, cheio de vontades, não entende “não”. Assim, interpretei na minha vida: “trabalha, é trabalho”.

Pra piorar, trabalho, pra mim, nunca teve a ver com dinheiro. Acho que se fosse milionário minha vida ia ser igual a que eu tenho hoje, pois continuaria fazendo a grande maioria das coisas que faço sem precisar me preocupar com dinheiro, um outro assunto problemático que não dá pra tratar aqui.

Durante muito tempo isso me angustiou, mas a idade vai te permitindo perceber que tem algumas coisas que não vão mudar em você, como aquela unha encravada crônica ou a mania de beber leite da caixinha. Então a gente precisa aprender a conviver com isso pois a opção é sempre pior.

Pra mim, por exemplo, não trabalhar é não estabelecer relações, é estar isolado do mundo, deprimido, sem função ou razão de viver. Por isso eu trabalho. O dinheiro, às vezes, é uma apreciada e necessária consequência, mas não é a razão de tudo. A coisa mais importante é, como dizia Andy Warhol, o uôrque.

Por isso, vou continuar a dar palpite na vida alheia, a montar planos de marketing, a revisar livros, a criar jogos,  a fazer listas de leitura, a montar sites, grupos de estudo e tudo mais que me faça me sentir útil. Tudo mais que concretize a minha experiência na Terra e me lembre que estive aqui para servir você. Mesmo que seja acordar às cinco da manhã para escrever um post num blog que ninguém lê.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.

“Os Cariocas que lutem”

Quando mudei pra BH em 2010, uma das minhas maiores satisfações era não precisar votar. Como meu domicílio eleitoral é no Rio e nunca me cocei pra mudar o título, toda eleição eu simplesmente justificava. Tinha uma vaga ideia do que rolava na minha cidade natal mas não me pertencia mais. “Eles que lutem”, como dizem hoje.

Cheguei a votar uma vez para governador no ano que me mudei, mas já não me ligava. Tinha muita vontade de tirar o Cabral do páreo, mas já não estava assim implicado na situação. Agora eu era uma espécie de exilado em Minas Gerais, com propriedade pra falar mal da cidade onde nasci. “Os cariocas que lutem”, eu dizia pros mineiros.

Mas não culpo só a minha mudança. Desde 2008 já estava meio desiludido, quando Paes ganhou por 1% depois que inventaram um feriadão no meio da eleição que levou boa parte dos eleitores do Gabeira pra Sana e Saquarema. Não gostava e não gosto do Paes. Achava seu choque de ordem exibicionismo histriônico e quando ele apoiou o fechamento da HELP pra botar no lugar o MIS, Monumento Interminavelmente Suspenso, senti que ele desferiu um golpe mortal no que é o coração do Rio de Janeiro. Tentou criar um Porto Madero no Cais do Porto e fez coro com a fantasia nacional de que o barril do petróleo ia se manter eternamente acima dos 100 dólares e viveríamos no “It’s a Small World” da Disney. Mesmo assim, não me cocei pra tirar ele em 2012. “Eles que lutem”. É assim que fala, né?

Mas o karma é cruel e em 2014 me vi obrigado a voltar. Encontrei exatamente o que eu imaginava: uma cidade de filme de faroeste. Um bando de tapumes bonitos escondendo uma realidade que ninguém queria ver. A cidade, todo mundo via, ia explodir. E explodiu. Mesmo quando estava claro que o milicianismo pentecostal elegeria um projeto de teocrata escatológico para governar uma cidade que sempre teve um pezinho no pecado sem culpa, não me mobilizei. Pra vocês verem, nem me indignei quando amigos comentavam nas redes sociais que iam encher a cara pra poder votar no Crivella sem culpa. Como dizem hoje, mesmo? “Eles que lutem”.

Eu estava errado. EU deveria ter lutado desde o primeiro momento. Se a gente não tivesse relaxado no período do super ciclo e lutado para que as coisas fossem melhores, não teríamos chegado nesse ponto em que Paes virou opção, pois em terra arrasada lata de fiambre é banquete. Essa postura Geração X de deixa pra lá é que nos trouxe até aqui. Por isso, hoje, faço o mea culpa e assumo minha responsabilidade que por tanto tempo reneguei: “Eu que lute”.

Espero te encontrar na luta também. Bom voto e FORA CRIVELLA.

Emily in the City

Há umas semanas, vi algumas pessoas comparando no twitter Sex and the City e Emily in Paris. Segundo um artigo na folha que o pessoal compartilhou ambas as séries seriam obras machistas, ou pelo menos não feministas, por terem um foco muito grande no relacionamento amorosos de suas protagonistas, e, portanto, as millenials mereceriam uma representante melhor. Fiquei intrigado com essa análise, assisti a série de uma vez só e tenho alguns questionamentos quanto a essas declarações.

O primeiro é sobre a comparação com Sexy and the City. Quando fala da série, o pessoal foca muito no draminha e no romance Carrie e Big que só começou a se tornar algo de fato a partir da 3a. temporada e esquece das duas primeiras temporadas que eram beeem diferentes. O conceito inicial se aproximava muito mais de um mockumentário antropológico sobre o dating game em Manhattan, no que se presumia na época ser um período pós feminista, que hoje não faz o menor sentido. Emily in Paris não pode entrar nessa comparação pois seu contexto histórico é bem diferente daquele do final dos anos 90 e o formato da série, bem mais tradicional, não se pretende a esse tipo de discussão, apesar de levantar muito en passant algumas questões identitárias.

O segundo é sobre a necessidade de toda obra de arte ter um papel de representação de um grupo. É fato que toda obra ficcional requer que haja algum nível de empatia com os seus protagonistas para que nos importemos com o seu destino e isso gere a tensão necessária para mobilizar a nossa emoção.

Quando falamos de representação, o esforço de identificação com as protagonistas é um trabalho muito maior da parte do espectador do que quando os autores buscam criar personagens nos quais o público consiga se enxergar ou se projetar. O sucesso da geração dessa empatia depende de habilidade e equilíbrio na escrita, o que, infelizmente, Emily não tem. A personagem, como as demais da série, é bem bidimensional, seus conflito seguem um padrão corporativo procedural, e inclusive me questiono se seus conflitos principais são amorosos ou de trabalho. Os episódios apresentam pequenos toques de romance, mas a questão sentimental não é o que mais angustia Emily e sim perder o emprego ou performar mal.

Será que Emily não está de fato representando as Millenials que precisam aprender a se libertar do jugo corporativo e do trabalho com propósito, seguindo dicas de europeus estereotipados? Será que o sucesso da série não está calcado em boa parte com a identificação do público com esse conflito laboral?

Não acredito que obra alguma deva ter função. Arte é do domínio do não utilitário. Emily em Paris é uma série simplória, mas bem divertida que te permite vivenciar conflitos corporativos cômicos e de baixo impacto num belo cenário com toques de história de amor. Abusa dos clichês, é repetitivo, mas como novela funciona. Pedir algo além dessa série ou de qualquer outra é absurdo.

Assim como Carrie Bradshaw não deveria ser encarada como modelo de comportamento, Emily não deveria arcar com esse fardo. A ansiedade por encontrar ideais vem não dos criadores mas do público. Ao invés de demandarmos isso da ficção, deveríamos nos perguntar qual o nosso problema para sentir tanto essa falta.

O Biscoito dá Sorte

No dia do ano novo chinês, o jovem e recente casal encerra a sua refeição naquele restaurante mezzo japonês, mezzo chinês, mezzo italiano da Avenida Atlântica. Satisfeitos e esperançosos com o novo ano, esperam também a conta. A namorada entediada suspira e descansa o olhar na linha do horizonte; o namorado parece esperar algo mais e quebra o silêncio:

– Será que vem biscoito da sorte?
– Deve vir. Porquê?
– Sei lá. Adoro biscoitos da sorte.
– Sério? Acho meio sem graça. Meio borrachudo. Nem doce, nem salgado.
– Não, tô falando do papelzinho que vem dentro. Sempre me sinto mega bem depois de ler a mensagem da sorte.
– Sério? Aquele bando de frases aleatórias? Lembro até que tinha um episódio do Barrados no Baile em que terminavam todas as frases dos biscoitos com “na cama” e elas continuavam fazendo sentido.
– Não, que absurdo. As mensagens não são de brincadeira. São traduções de antigas frases chinesas e eu acredito na sincronicidade. Se você abriu a mensagem, é pra você. Olha, lá vem o garçom com os biscoitos.
– E a conta. Dessa vez quem paga?
– Infelizmente, você, querida. Você sabe que eu…
– Tô sabendo.
– Mas tenho certeza que a sorte vai vir boa e vou dar uma virada nessa maré de falta de dinheiro.
– Vamos torcer.
– Então, qual biscoito eu escolho?
– Qualquer um, né? É sorte.
– Não, não. Tem uma questão aleatória, sim, mas é a nossa vontade que nos leva à nossa sorte.
– Boiei.
– Olha, nada é fruto da aleatoriedade sem a vontade.
– Continuei sem entender. De onde você tirou isso? De um biscoito da sorte?
– Ah, deixa de ser chata. O que eu quero dizer é que a gente escolhe a própria sorte.
– Sério? Se a gente escolhe, o papel deveria vir em branco pra gente escrever o que quisesse.
– Ai, você é muito chata. Pronto, vou ficar com esse.
– OK. Eu pego o outro. Deixa eu te fazer uma pergunta.
– O que é?
– E se eu roubasse o seu biscoito e lesse a sua sorte?
– Que é que tem?
– A sorte continuaria sua? Ou viraria minha?
– Ahn…não sei…
– Lembra do lance da vontade. Eu escolhi a minha sorte mas ela estava na sua mão. Aí a minha vontade de pegar a sua sorte é mais forte que a…
– Amor, por favor, deixa de complicar e abre a sua sorte.
– Tá. Tá.
– E aí? O que tirou?
– Tem uns números tipo de mega sena e uma mensagem dizendo: “Sua felicidade será do tamanho das suas companhias”.
– Hum…
– O que quer dizer? É tipo “Diga me com quem andas que te direi quem és”?
– Deve ser. Mas a interpretação também faz parte da sorte.
– Azar o meu.
– Para com isso.
– OK. E o seu?
– Deixa eu abrir. Que nervoso.
– Deixa de frescura e abre logo.
– Pera aí…
– O que houve?
– A sorte tá em branco. Só vieram os números.
– Como assim?
– Pô, você é burra? Só vieram os números. O resto do papel: ele tá em branco. EM BRANCO!
– Calma, Bete. Vai ver isso quer dizer algo. A interpretação, lembra, faz parte da sorte. Ou, melhor, faz a sua sorte e escreve o que quiser no papel. Olha que bom!
– Ah, não enche o saco! Garçom, Garçom!

A sorte estava certa.

Os números da mensagem da sorte em branco deram no concurso seguinte da mega sena e podiam ter resolvido os problemas de dinheiro do namorado. Mas, como ninguém jogou, ninguém ganhou.

Ela, que nem lembrava da sorte que tirou, logo depois abandonou o namorado supersticioso já que, além de não ser uma boa companhia, ele era muito baixo pra ela.

O dono do restaurante, depois do escândalo causado pela sorte em branco, teve uma ideia e começou a encomendar biscoitos com papéis em branco. Os clientes ganhavam uma caneta pra escrever a própria sorte e ainda a podiam levar como brinde. Por sorte, todos os clientes gostaram. Ou, como dizia o dono do restaurante, não existe sorte, a sorte é você quem você faz. Ou algo parecido que ele leu em algum biscoito da sorte.