Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner
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Uma detox (quase) radical
De tempos em tempos, me pego fazendo O Caminho do Artista, um programa de 12 semanas de detox criativa. Ao invés de considerar que estaria salvo depois de ter feito apenas uma vez, desde 2009, eu repito de quando em quando a jornada pra dar uma limpeza nos meus dutos artísticos e confrontar minhas inúmeras e persistentes resistências. Aí repito, sem pudor, os exercícios semanais, sempre com outro olhar e em outro contexto, aproveitando pra aprender um pouco mais sobre quem sou naquele momento.
Dentre as doze semanas, tem uma que o pessoal morre de medo, mas que eu curto bastante: a semana 4, a semana da privação da leitura. Desde a primeira vez que fiz O Caminho, não levei muito a sério. A Julia Cameron, autora do livro, sugere que a gente fique sem ler e consumir mídia passivamente pois o excesso de distrações nos impede de entrar em contato com o que pensamos e desejamos. Eu concordo com ela, mas hoje em dia, considerar que ler é uma maneira de se distrair chega a ser ridículo. Afinal vivemos num mundo de notificações e de conteúdo sendo empurrado pelos nossos olhos e ouvidos o tempo inteiro. Assim, ao invés de parar com tudo, eu fiz uma releitura dessa semana.
Considero que o problema está justamente na questão distração, uma atividade que só serve para nos impedir de viver o momento. E disso o mundo está cheio: procurar e não achar algo pra assistir no Netflix ou na TV a cabo; ficar olhando pros feeds das redes sociais em busca de alguma salvação; ouvir podcasts um atrás do outro; ou simplesmente sentar no botequim esperando um desconhecido pra prosear. Distração pode ser um bando de coisas, mas leitura não é uma delas. Quer dizer, desde que você a faça conscientemente.
Taí o mistério da semana 4 pra mim. Ao invés de simplesmente cortar toda a mídia, corte aquilo que você consome passivamente. Você pode ler? Sim, desde que esteja prestando atenção no que lê e a leitura brote de um desejo seu. O mesmo pode se aplicar a um filme, que você já sabe que deseja ver antes de abrir os apps de streaming; ou para música. Há quanto tempo não deita no sofá pra ouvir e prestar atenção de verdade num álbum, seja em CD, Vinil ou mesmo em streaming? Ao invés de se distrair, como dizia minha mãe, trair duas vezes, viva plenamente a experiência, seja ela andar de bicicleta, pintar sua casa, cozinhar pra família ou ler, ouvir ou assistir a algo.
Trato a semana 4 não como uma privação de leitura, mas como uma semana para viver plenamente e isso inclui o consumo de mídia consciente orientado pelos meus desejos. E, óbvio, redes sociais estão fora dessa semana completamente.
Entendo se você discordar de mim, mas, cá entre nós, O Caminho do Artista não é um trilho, é uma trilha. E você pode fazê-lo como quiser. É só se manter consciente durante todo o processo. Se privar da leitura e ficar alheio ao mundo não vai lhe fazer bem nenhum. Se remover todos os pings e buzzes do dia a dia, tenha certeza, já vai poder se ouvir pensar e descobrir que quer ler algo ou simplesmente comer alguns amendoins.

3 de fevereiro e a angústia das marmotas
Ontem, como boa parte da humanidade, comemorei o dia do santo secular mais popular dos últimos tempos: Phil Connors, protetor do entediados e mártir do dia da Marmota. Desde que O Feitiço do Tempo, estrelado por Bill Murray, foi lançado em 1993, o 2 de fevereiro virou sinônimo de repetição, rotina, marasmo e da esperança de vencê-los. Um problema mais contemporâneo do que picadas de cobras e outros bichos peçonhentos.

São Phil Connors, orai por nós!
Porém, ao assistir o filme novamente, na bem sacada maratona da Paramount, que o colocou em todos os horários até às 6 da manhã do dia 3, me caiu uma ficha diferente. Feitiço do Tempo não é um filme sobre paralisia emocional, é um filme sobre angústia existencial.
Assim como temos os estágios do luto, que nos permitem lidar com a morte, os estágios da angústia existencial nos ensinariam a lidar com a vida. Especialmente a que vivemos no momento presente.
Phil, como todo santo, é um pecador que vive fora do seu tempo. Morre de ódio do seu passado (e de si mesmo) e só pensa em como será sua vida no futuro (e no seu eu idealizado). É uma vítima da culpa e da ansiedade, assim como todos nós, seus devotos.
Quando ele aparentemente fica preso no dia 2 de fevereiro, ele está recebendo uma benção e não uma maldição da qual precisa se livrar. Pela primeira vez em muito tempo ele precisa, e pode, prestar atenção ao seu redor, às pessoas com quem convive e, o maior dos dramas, se comunicar com elas.
Seguindo a cartilha dos santos, ele não compreende a sua missão de imediato. Assim, precisa atravessar um martírio até chegar à iluminação. Primeiro bate o desespero do absurdo da vida; quando percebe que há benefícios no seu martírio recai num misto de niilismo e hedonismo; após um tempo, se cansa de tanta auto indulgência e busca se aproveitar do mundo de forma pragmática, mas continua vazio; e, enfim, percebe que todo dia é, de fato, igual e foca em seu bem estar e em melhorar o mundo.
Mesmo se frustrando, ele acaba aceitando essa realidade e, finalmente, quando se desprende da expectativa de resultados do futuro e dos rancores do passado, o dia 3 de fevereiro chega. Ao invés de se sentir “livre” e partir, acho que nem todo mundo lembra desse detalhe, ele decide ficar em Punxsutawney, e aproveitar a beleza que existe ao seu redor.

“It’s so beautiful. Let’s live here! We’ll rent to start.” – Phil Connors
O recado é claro. Phil não está livre pois se torna uma pessoa melhor, mas, sim, por perceber que faz parte de um todo e que não há o que esperar do amanhã pois só há o hoje. Phil se torna, assim, uno com o seu destino justamente pois não quer ser o seu mestre, mas por aceitar seguir um caminho que é seu e do mundo. O tal do Tao. Por isso não faz sentido sair da sua suposta prisão. Afinal, onde ele estiver, lá ele estará. Simples assim.
Nos anos 90 tivemos um boom desse zen-taoismo light no cinema. Desde o Feitiço no Tempo, passando por O Balconista, até Beleza Americana, vemos protagonistas presos a realidades que precisam aceitar pois, se as suas vida são miseráveis, a culpa não é do externo, mas deles mesmos por não prestarem atenção ao que há de belo ao seu redor.
Entendo total a sensação. Há 7 anos passei por um 2 de fevereiro digno de Punxsutawney. Minha mulher estava em trabalho de parto por mais de 24 horas e minha filha não nascia. A angústia era grande e eu só lembrava de Phil Connors. Era como se fosse eu preso no dia da Marmota. Mas o problema não era do dia, nem da minha mulher, nem da minha filha. Era meu. Eu estava segurando as pontas do passado e do futuro, sem ver a beleza que estava na minha cara no momento presente. Alícia ia nascer na hora que era pra nascer, e, assim foi: às 3 e 54 da matina ela chegou ao mundo.

Habemus Alícia na hora e no lugar certos.
Como aconteceu com Phil, aquele, pra mim, foi um momento de iluminação. Eu não precisava ser nada diferente nem ir para lugar algum. Onde eu estivesse, e onde ela estivesse, seria o que era e eu estaria em casa.
Hoje, ela completa 7 anos, e percebo que mais importante que o 2 de fevereiro é o dia 3. O dia em que ela nasceu e em que nós nascemos juntos com ela. Assim como fazemos todos os dias. Num lugar tão lindo, onde queremos viver por todas as nossas vidas, mesmo que seja de aluguel. 😉
Parabéns pela sua iluminação, São Phil, e um feliz aniversário pra você, Alícia, minha filha querida.
Que tenhamos, todos, um excelente e eterno 3 de fevereiro onde estivermos. Pois é lá que estaremos. Sempre.
Em defesa de O Hobbit
Cometi o maior pecado que um jogador de RPG podia cometer nos anos 90: eu não gostava de Senhor dos Anéis. E olha que eu tentei.
A primeira vez que arrisquei ler foi uma edição da Artenova em 6 volumes que tinha na biblioteca Machado de Assis em Botafogo. Quando chegou na morte do Boromir, eu me indignava: “Que diabos! Esse homem tá todo flechado e continua falando por páginas e páginas?”. Desisti. Na segunda tentativa peguei a edição da Europa América, aquela de capa preta chique, na biblioteca do colégio e avancei até ao “congresso” do Ents. A cada parágrafo eu balançava a cabeça e pensava: “Cacete, como essas árvores falam”. Desisti novamente. Pra não sair muito feio dessa história, li o Hobbit. Achei legal mas bem desconexo, como as histórias que às vezes invento pra botar a minha filha pra dormir, mas foi só isso. Graças a Deus, o mundo do RPG mudou, Vampire chegou e os rpgistas migraram pra Anne Rice e A Entrevista com o Vampiro, que, confesso, só li até a morte da Cláudia por revolta, porque o Louis é chato demais.
Por isso, quando o Peter Jackson começou a lançar os filmes de Senhor dos Anéis, eu não tinha muitas expectativas. Não era um fanzoca, mas confiava que ia ser bom. Acho Almas Gêmeas uma obra prima e Espíritos é um filme sui generis mesmo que comercial. Também o que esperar de um cara que começou fazendo filmes trash gore de propósito? Tudo que ele criava, mesmo que fosse ruim, tinha que ser proposital e impressionante.
Imagino como ele ralou pra fazer os filme da trilogia. Cá entre nós, em quase mil páginas só tem um fiapo de plot, várias situações são totalmente sem nexo e a única forma de se criar algum tipo de empatia com os personagens unidimensionais é imaginar jogando eles num RPG. OK, a história de fundo e o mundo são imaginativos pacas, mas cadê o drama? Muitas vezes eu me perguntava se Sauron e Saruman não estavam fazendo o certo acabando com aquele povo chato e pernóstico de Rohan e Gondor. Assim, fui pros filmes sem o menor temor. E amei.
Peter Jackson tomou, óbvio, enormes liberdades com a obra. Limou coisas queridas dos nerds, e.g. Tom Bombadil, e conseguiu inexplicavelmente criar drama e conflito onde não havia. Deu uma história de verdade a uma narrativa fraca passada num cenário riquíssimo e elaborado. Uma conquista inquestionável, na minha opinião.
Todo mundo curtiu também, ele ganhou Oscar e tudo, mas Nerd é Nerd, e, com o passar do tempo, o pessoal começou a se prender a detalhes pra falar mal do filme. Como não era um fã dos livros, passei ao largo dessa discussão. Porém, quando Peter Jackson disse que ia produzir o Hobbit com o Guillermo del Toro dirigindo, o debate se tornou inescapável.
Tinha os que adoravam a ideia, tinha os que odiavam. Eu, confesso, gosto do Hobbit. É um conto de fadas bem legal. É quase como um amigo de RPG das antigas descrevia as suas aventuras: uma enorme quantidade de encontros complicados em sequência que dão a impressão de ser uma narrativa coesa e serão resolvidos num Deus Ex Machina fora da vista dos personagens. Pessoalmente tinha dúvidas se era adaptável e se o estilo dark do Del Toro ia casar bem com o material já consolidado pela trilogia de filmes anterior.
O tempo passou, a produção dos filmes virou uma novela; Del Toro saiu do projeto, Peter Jackson assumiu; os dois filmes viraram três; e, pimba, quando menos esperávamos tava nos cinemas.
Não é uma obra prima, e nem chega perto dos divertidos filmes da trilogia anterior, mas, na boa, o desafio era muito pior. Um livro curto, sem estrutura, cheio de umas canções e poemas doidos. Não dava pra tornar numa narrativa cinematográfica com qualidade sem tomar muitas liberdades. E foi isso o que Peter Jackson fez: tomou muitas liberdades. Dessa vez incluindo coisas que não estavam no livro.
Aí o povo se empombou. Pior que limar Tom Bombadil era: dar uma história e um arco dramático pro Bard, que só aparece no livro pra dar aquela flechada; incutir alguma motivação nobre naqueles anões mercenários; estabelecer algum tipo de personalidade pro Bilbo; tornar Azog, quase uma nota de rodapé no texto, num vilão razoável; e dar um tema pra história. Sim, ele conseguiu até dar um tema pro Hobbit: a ganância versus o senso de comunidade. Mas na cabeça dos nerds da internet, ele estava dessacralizando o livro da sua infância, que uns 80% dos que reclamavam não leram.
Então, numa história que parecia quase uma confusão típica de Sessão da Tarde, Peter Jackson conseguiu introduzir um tema que costurou toda a narrativa. Os anões partem em sua aventura para recuperar a sua terra natal e sua comunidade, mas acabam, pelo menos seu líder, consumidos pela ganância; Smaug, sentado naquele enorme tesouro, nos lembra do que move os seres humanos e como a cobiça nos torna solitários; a Cidade do Lago vivia controlada por homens gananciosos contra os quais Bard se colocava pelo bem comum; Legolas e Tauriel, que não estavam na história original, tentam criar algum tipo de harmonia entre os povos enquanto os velhos líderes são guiados por antigas rusgas por despeito e desejo de poder; e o Gollum… preciso falar dele? Acho que não. Seja como for o Hobbit enfim tinha um tema.
Tá, concordo, não foi bem desenvolvido. O quase romance de Tauriel e Kili ficou quase cômico; Bilbo, que de arrombador deveria passar a conciliador, é quase um espectador passivo do drama; e a introdução da história do conselho pra dar liga com a trilogia do Senhor dos Anéis foi ao mesmo tempo demais e de menos. Enfim, os filmes tiveram vários problemas, mas nenhum deles tira o mérito de se conseguir dar uma estrutura onde não havia quase nada.
Por isso, quando vejo a galera malhando O Hobbit, sempre o defendo. Não é um grande filme, mas admiro muito o trabalho criativo e conceitual que foi feito nele. Quem nunca sentou pra escrever e vive reclamando que o Batman do filme tal não é o verdadeiro, pois nunca ouviu falar de Bat-Mite, nem de Ace, o Bat-cão, tem todo o direito de achar o filme ruim, mas não pode desmerecer as conquistas narrativas realizadas em cima de um material difícil e, pior, popular. Escrever e criar não requerem somente desejo de agradar os outros e de sucesso financeiro, envolvem na verdade muito trabalho, análise e coragem. E nesses quesitos O Hobbit, com todas as suas falhas, é uma grande conquista.