Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Verde ou Vermelho?

Uma das maiores curiosidades sobre mim e também um dos maiores definidores da minha personalidade é o daltonismo. Sim, sou daltônico. Dos clássicos, de verde e vermelho.

Descobri o daltonismo quando tinha uns quatro anos. Estava fazendo prova pra entrar no pré de uma escolinha e troquei todas as cores:

– Seu filho é inteligente. Provavelmente, deve ser daltônico. Leva ele num oftalmologista- a professora da nova escola sugeriu.

E lá fomos nós descobrir se eu era daltônico. Exames feitos, o médico confirmou:

– Seu filho é daltônico.
– O que é daltônico?- perguntei na maior inocência.
– Se você soubesse, não andaria vestido assim- ele rebateu se referindo à combinação de laranja, roxo e amarelo que minha mãe liberal nos costumes e na educação me deixava usar.

Desde então só visto preto, branco e cinza. Tenho duas camisas azuis e uma vermelha que deixo para momentos especiais como o nascimento da minha filha. No mais finjo que vivemos num mundo monocromático. Mas é impossível manter essa ilusão.

Toda vez que alguém descobre o daltonismo sou inundado de perguntas como se eu fosse um alienígena. Ninguém parece acreditar que é possível ver o mundo de forma diferente. É como se eu estivesse enganando os outros. Aí começam os testes:

– Isso é verde ou vermelho?
– Como você vê isso?
– Impossível que você não esteja vendo esse número.
– Como é ser daltônico?

Não parece ser fácil pras pessoas imaginarem um mundo diferente daquele em que elas vivem. Um mundo onde o vermelho pode ser quase igual ao verde e vice versa.

O engraçado é que ninguém percebe que nada é vermelho ou verde. Essas são apenas palavras que convencionamos utilizar de comum acordo para nos referir a essa ou àquela matiz. Se me faltam recursos fisiológicos, biológicos ou anatômicos para participar desse acordo, isso não é um problema meu. O problema é aceitar a ilusão do mundo sem se questionar. O daltonismo, fico feliz, me tornou um cético.

Como não tenho um aparato que me permite deslizar com facilidade nos acordos coletivos da humanidade, passei a duvidar. De tudo. Comecei a questionar se as coisas são ou se somente entramos num acordo que elas “deveriam” ser assim. Passei a rejeitar crenças coletivas e busquei explicações sempre provisórias que sustentem as decisões que tomo na vida. Rejeitei o empirismo puro e me joguei no mundo das ideias, onde toda a possibilidade é (im)possível, inclusive o verde ser vermelho.

Por isso, quando vejo esses vídeos de daltônicos ficando maravilhados ao descobrirem um mundo diferente ao colocarem esses óculos de correção, por mais que fique emocionado e, confesso, curioso, sinto uma certa tristeza.

Por que abrir mão da incerteza que nos permite pensar tanto e desconfiar de tudo? Por que nos resignar a essa visão coletiva que não é certa nem errada, mas apenas normalizada? Por que não imaginar que os daltônicos são os outros e tudo pode ser diferente? Por que parar de perguntar “porquê”?

Os óculos de correção podem ser um grande avanço cientifico, mas do que estarei me privando ao abdicar da forma diferente com a qual interajo com o mundo?

Sim, ser daltônico, pelo menos pra mim, dá trabalho, mas vale a pena. O que não vale a pena é abrir mão desse lembrete para exercer continuamente a racionalidade pela fantasia de me sentir “normal”.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.

Melhor que ontem

Acordei do cochilo pós almoço de sábado num mundo diferente. Finalmente o resultado da eleição americana saiu e foi satisfatório. Tá, o Biden não é um santo, nem sequer uma boa opção para comandar a maior potência econômica e militar do planeta. Pensando bem, ninguém é. A existência dessa Roma moderna em si já é um absurdo, mas fazer o que? Não podemos negar a realidade que vivemos. Portanto, o negócio é aprender a lidar com isso.

Porém, a derrota do Trump, sim, já é uma melhoria. Isso não podemos negar. Atualmente estou indo muito pela linha da Protopia do Kevin Kelly. Me nego a me afundar nas distopias, buscando, como diz o Zizek, o ponto de ruptura onde vamos começar de novo; nem me uno à fantasia coletiva de que existe uma Utopia no fim desse arco íris preto e branco de filme expressionista alemão que vivemos. Contudo, me comprometo a agir para que o amanhã seja melhor que ontem e assim continuamente. Melhor que ontem. Isso já me basta.

Agora vamos falar da nossa terra. Graças a deus, não precisarei ir a uma guerra, como o meu pai fez para derrubar o Getúlio, mas precisamos aproveitar esse abalo ideológico, provocado pela perda do Trump, na estrutura dos milicianos fundamentalistas pentecostais que dominam o executivo federal para tirá-los do poder. Ah, mas botar fulano ou sicrano ainda é ruim. Sim, mas, excetuando Cabo Daciolo, qualquer coisa vai ser melhor que hoje. Talvez até o Daciolo não seja tão ruim… brincadeira.

É hora de aprendermos a lição americana e retomar o trabalho democrático. Depois de 35 anos do fim da ditadura, sim, relaxamos. Achávamos que a democracia era uma coisa, um espaço existente, um estado governamental propiciado por eleições livres. Não é. Erramos e acabamos cercados de fascistas por todos os lados. Democracia é um verbo e precisamos retomar o trabalho de democratizar.

É hora de desarquivar os grupos de whatsapp de família e amigos e começar a ter conversas difíceis. É hora de perceber que erramos quando deixamos tios e avós assistirem o energúmeno do presidente no Super Pop pois era engraçado. Não era. Não é. É hora de não deixar passar nenhum deslize ou oportunidade. Tudo deve ser discutido. É hora de tratar a sério o que todo mundo trata como piada e implicar aqueles dão suporte aos protofascistas brasileiros nos erros dos governos e pessoas que apoiam. Até o ponto em que a gente consiga virar o jogo e expulsá-los mais uma vez.

Mas o trabalho não vai terminar aí. O preço da democracia é a eterna vigilância e a constante militância. Precisamos ensinar, por quanto tempo for necessário, à população que é preciso ter respeito ao outro, às suas escolhas, origens e ideias; respeito às instituições e aos mecanismos que promovem a nossa discussão aberta, a justiça e a liberdade de ser, pensar e falar. Vai ser uma utopia? Tudo vai ser resolvido num passe de mágica? Não, mas se o amanhã for melhor que hoje e continuarmos fazendo o nosso trabalho, em 2022, as coisas vão ser bem diferentes. E pra melhor.

Parabéns ao povo americano que conseguiu expulsar aquele verme da Casa Branca e boa sorte no trabalho que ainda precisa ser feito. Vão fazendo o seu aí, que faremos o nosso aqui.

Sejamos todos bem vindos à Protopia.

Não dá ideia

Não lembro da primeira ideia que tive, mas minha mãe ainda tem o registro da minha primeira execução de uma ideia. Numa fita cassete cheia de chiados dá pra me ouvir cantar aos 3 anos de idade:

A bandeira do Brasil era boa
Um dia ela rasgou
Depois quebrou o pau
Depois não tinha nem mais pau

Num pseudo ritmo e sem rimas, eu tentava contar as desventuras da bandeira do Forte do Leme que eu conseguia ver pela janela do meu quarto. Segundo minha mãe, fiquei angustiado por semanas quando, após uma série de ventanias, a bandeira rasgou e aos poucos foi se desgastando até ser substituída. Minha mãe achava que era uma manifestação da musicalidade que ela sempre desejou que eu tivesse mas nunca tive; meu pai já achava que era uma crítica precoce ao regime militar que entrava no período da anistia. Não era nem uma coisa, nem outra. Era uma ideia. Como tantas que tive e tenho. Como as tantas que até hoje me perseguem.

Ideias que me fizeram desenhar por 2 anos uma tira diária chamada ABOBRIM sobre animais transmorfos que comentavam a política do governo Sarney. Ideias que me fizeram criar (e não lançar) dúzias de fanzines na adolescência. Ideias que eu escrevia em caderninhos até se tornarem algo, como poemas sobre freiras que chupavam dedos ou soldados numa guerra do Vietnam psicodélica. Ideias. De todos os tipos, formas e tamanhos.

Saudades de desenhar o ABOBRIM

Pode parecer que esse excesso de ideias me tornaria produtivo, mas não. As ideias, pelo menos pra mim, precisam de um longo e angustiante período de fermentação que, olhando de longe, ou  de perto, parece no melhor dos casos ócio criativo e, no pior, pura preguiça.

Desde que elas surgem, numa imagem, som ou associação cognitiva pouco usual, até cumprirem seu destino, leva tempo. Tenho ideias dos meus 10 anos de idade que ainda estão tomando forma e que retornam, dia sim, dia não, me perguntando: “E aí? Já está na hora?”. E eu respondo: “Ainda não. Ainda não”.

Sim, é demorado. O meu primeiro curta, que filmei aos 33 anos, surgiu como uma ideia para uma história em quadrinhos, aos meus 18 anos, na fila do banheiro da Academia da Cachaça do Leblon. Virou crônica, roteiro de quadrinhos, e depois 7 versões de roteiro cinematográfico, até ser filmado 15 anos depois. O pior é que não fiquei completamente satisfeito com o resultado final e vez ou outra penso em como retomá-lo. Fazer o que?

Mas não me angustio mais. Quer dizer, tanto assim. Minhas ideias precisam de tempo para maturarem adequadamente e nunca estão completas. São pequenas obsessões de longo prazo que culminam em surtos compulsivos, como aquele que tive no fim de semana em que escrevi 60 páginas da Bíblia e do Piloto da minha Sitcom baseada na minha experiência como livreiro, 18 anos depois de tê-la imaginado pela primeira vez.

Ou seja, se quiserem me diagnosticar, podem dizer que sou um obsessivo em tempo integral e um compulsivo bissexto. E está bom pra mim. Posso sofrer, um pouco, mas quem disse que quero ser curado?

Se for pensar bem, a culpa pelas ideias não é minha. Eu nunca tive ideias, elas é que me tiveram, me têm e, se deus quiser, ainda me terão por muito tempo. Tudo que preciso é saber conviver com elas, dar espaço e tempo para elas maturarem, e, quando concluídas, delas, nada esperar. Afinal, não criamos ideias, ou filhas, pelas recompensas que nos trarão. As criamos pro mundo e torcemos que elas, de alguma forma, o tornem melhor. Ou pelo menos mais interessante.

Por isso quando me perguntam pra que eu escrevo, desenho, crio, eu digo: “Não sei”. Mas se me perguntarem o porquê, eu posso responder: “As malditas ideias não me deixam em paz”. E eu adoro.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.

A Fisioterapia da alma

Depois de 7 meses em quarentena, começamos a esquecer das coisas simples, por exemplo de nós mesmos. Mas, o mundo taí pra nos lembrar. Avisaram no trabalho que vão mudar o plano dental e acabei me forçando a ir ao dentista antes da troca. Algo que ainda não dá pra fazer de casa. Ainda.

Infelizmente, pós CoVid, pra mim, sair de casa não é mais algo trivial. Trabalhando em home office, fazendo compras e interagindo com os outros exclusivamente pela internet, esqueci como se faz pra ir à rua. Tudo parece novidade e requer planejamento. Como aprender a andar de bicicleta, com a diferença que não é como andar de bicicleta. Sim, desaprendi a sair. Por isso uma simples caminhada de 7 minutos ao dentista requisitou dois dias de expectativa e ansiedade, uma agenda detalhada com horários de sair e chegar, itinerários para encaixar outras atividades externas que estava adiando, e protocolos sanitários na ida e na volta para casa. Foi um trabalhão, mas deu tudo certo. Ou quase.

No dentista, as notícias não foram muito boas. Além de descobrir que meu bruxismo está arruinando os dentes, preciso tirar 3 sisos para resolver 3 cáries que podem virar 3 canais. Mas o pior não foi a expectativa das cirurgias, mas, sim, a avalanche de compromissos que isso gerou. Raio X, farmácia, molde dos dentes, placa miorrelaxante, o escambau. Acabou que fui obrigado a ir à rua mais 3 vezes na mesma semana.

Em cada uma dessas saídas repeti o ritual de planejamento, mas, traído por uma saudade de outras vidas, incluí auto indulgências no meu trajeto. Uma ida à papelaria boa pra comprar canetas nanquim e um caderno; uma passadinha nos correios para enviar umas revistas em quadrinhos para um amigo cada vez mais distante; comprar esfihas no árabe da galeria Condor; e uma visita de leve à livraria Galileu, que não é essas coca colas todas mas é o que me restou no Largo do Machado.

Em cada uma dessas pequenas escapadas senti como se estivesse esticando os músculos da alma e reativando uma memória metafísica do que sou e do que me restou: ler, escrever, desenhar, mandar cartas e comer bem. Como numa fisioterapia da alma, voltei a me alongar e tentar regenerar o que sobrou de mim. Estalando e gemendo, mas, graças a Deus, ainda vivo.

Mas te digo, depois de 7 meses de quarentena, cumprida religiosamente, mesmo tomando todos os cuidados possíveis, ainda me senti culpado por esses “luxos”. Me incluí na mesma categoria dos indecentes do Leblon. Aglomerando sem necessidade, colocando a minha família e outros em risco por simples vaidade. Sim, sou exagerado, mas o sentimento não é despropositado. Cedi aos meus pequenos vícios.

Tento me convencer que não foi de todo mal. Tento me lembrar que não temos personalidade sem essas miudezas, sem esses pecadilhos. Se para uns o que faz a cabeça é simulação de ménage à trois em carro aberto, fazer micareta em meio à pandemia, participar de passeata em prol de fascista, ou pagar de moralista barraqueiro, ok, essas são suas falhas. As minhas são escrever, ler, desenhar e comer bem.

Se meus pecados são menores, e podem ser resolvidos no conforto do meu lar, isso não os torna melhores; apenas diferentes. E, confesso, foi bom sentir que eles estão lá no fundo da minha alma ainda dando a razão a uma existência que, sem erros e desejos vis, não faz sentido algum. Afinal pra ser cristão tem que nascer com o pecado original. Então, exercitemos os nossos pecados derivativos.

Mas de máscara, pelo amor de Deus.

A (in)esperada virtude da Gnose

A minha segunda maior satisfação com uma obra é entrar em contato com ela sem saber nada a respeito. Ontem essa satisfação foi com Birdman. Tá, eu sabia um pouco a respeito. Impossível não saber nada sobre um filme ganhador do Oscar. Eu sabia dos planos sequência, da história do ator que tinha interpretado um super herói mas parei por aí. Por conta desse desconhecimento, tenho certeza, a minha satisfação foi tão grande.

Atualmente estou participando de um grupo de estudos de dramaturgia e o recurso do plano sequência, limitado geograficamente ao entorno do teatro, acabou me parecendo mais teatral do que cinematográfico, o que só contribuiu com a temática. Graficamente o filme é muito bonito e as transições de gênero concentradas nos conflitos dos personagens funciona direitinho. O casting também foi cirúrgico, com Michael Keaton, Edward Norton e Emma Stone, figurinhas carimbadas de filmes de super heróis, num filme que os “critica”. Se bem que fica a dúvida: é possível montar um elenco com algum ator que nunca participou de uma dessas franquias? Um bom desafio.

Porém o ponto que mais me intrigou foi a relação do filme com o conhecimento. A incerteza e a ignorância são a tônica das relações. Ninguém sabe de nada. Não sabem o que fazer, não sabem o seu futuro, nem conhecem seu passado. Tudo está sob suspeição e quando as pessoas sabem de algo é um conhecimento impossível de ser explicado. Ou, como diz o personagem de Norton, o único momento em que ele é verdadeiro é quando está no palco. A falsidade é a verdade.

Frente a esse cenário onde ninguém sabe o que é arte e onde as pessoas que “decidem” o que é o fazem por motivos mesquinhos, não saber é o único caminho para saber. O fazer toma a frente do saber e o conhecimento se cristaliza pela ação inconsciente. 

É nesse momento divino de libertação quando o conhecimento se torna fato, e onde o hiperrealismo é o único caminho da arte, pois tudo que estiver na tela, na página, nos sons, é hiper real pois nos conecta, que  Birdman e eu alçamos vôo. Pra onde? Não sei.

O filme terminou e continuei sem saber. Não saber nada depois de assistir: a minha primeira fonte de satisfação com qualquer obra de arte.

Que sono?

Um amigo dizia que a maturidade chega quando você descobre que dormir não é punição, mas um privilégio. Nunca entendi isso.

Desde pequeno minha relação com o sono é complicada. Não curto dormir. Nunca curti. Até os seis anos tinha pesadelos com uma figura inspirada no Juarez Machado, aquele artista plástico e mímico que se apresentava no Fantástico. Lembra? Provavelmente não, mas eu lembro. Talvez só por conta dos pesadelos.

Normalmente era uma perseguição, onde ele queria me levar embora para um mundo paralelo acessível por paredes secretas no meu apartamento. Antes do sonho concluir, eu sempre acordava no meio da noite em pânico, mas não conseguia pedir ajuda aos meus pais pois no meio do caminho tinha um quadro da Mona Lisa que, posso jurar, me seguia com os olhos. Com medo da minha cama e sem poder atravessar o corredor, eu ia pra sala e adormecia no sofá.

Algum tempo depois esse terror infantil se resolveu num sonho do qual me lembro até hoje; na mesma época meus pais se livraram da Mona Lisa; e eu, tirando os intermediários do meu processo de sono, passei a dormir direto no sofá. Quando o meu peso ainda permitia, minha mãe, antes de dormir, me transferia para a cama. Isso em pouco tempo ficou impossível e, sem ter o que fazer, todos simplesmente aceitaram que eu ia dormir direto no sofá. Dormir? Melhor seria dizer: viver no sofá.

Eu chegava do colégio e me esparramava no sofá pra ler e ver TV. Ao meu lado, pilhas de quadrinhos, livros, brinquedos, cadernos, lápis e canetas. Eu tinha, sim, um quarto, mas, como podem perceber, vivia mesmo no sofá.

Preocupados com isso, meus pais me levavam de tempos em tempos para escolher camas que pudessem me levar de volta ao quarto. Beliches, camas com escrivaninhas, com prateleiras, com até, pasmem, aquários. Dessas, tive todas. Mas elas acabavam se tornando apenas os seus apêndices. Eram playgrounds, depósitos de livros, espaços de trabalho, simulações do mundo marinho; tudo menos camas. Dormir sempre ficava pro sofá.

Quando fiz 15 anos, eles já tinham desistido. Na época, eu até tinha uma cama no quarto, que me foi doada por alguém, mas nunca foi usada. Era velha, pesada e estranha. Um objeto fazia mais sentido no cenário de um quarto de viúva do que no quarto de um adolescente.

Nunca dormi nela, mas era um lugar pra deitar acordado, ouvir músicas, escrever poesia, assistir a videoclipes na TV e a filmes em VHS nas madrugadas. Não para dormir. Dormir eu reservava para o sofá, e para uma cadeira de praia que também me foi doada por alguém. Pra mim, dormir nunca foi planejado. Era uma espécie de ataque de exaustão que me acometia entre um dia e outro. Não era uma necessidade, mas uma fraqueza.

Um dia, sem aviso, essa cama quebrou e não me lembro de sequer termos cogitado consertá-la. Ficou assim até que fui morar sozinho e, no chão da sala, joguei um colchão que me servia de futon, sala de estar e espaço para desmaiar.

Assim permaneci até os meus 25 anos. Sem camas. No máximo tive estrados no chão que suportavam um colchão. Eram espaços para assistir TV, ler, dar festas(!!!) e desmaiar de exaustão. Camas, e o sono, eram conceitos estranhos para mim.

Quando conheci minha mulher e comecei a trabalhar fui obrigado a encarar o sono de maneira diferente. Eu não dormia mais sozinho e meu tempo não era mais só meu, Precisei me alinhar aos hábitos dela e aos horários da fábrica. 8 horas de trabalho, 8 horas de diversão, 8 horas de sono. Sono? Quero dizer, 8 horas de cama.

Nunca cumpri essas 8 horas. Se deitava cedo e conseguia dormir, acordava na madrugada sem saber o que fazer. Sem pesadelos, mas numa espécie de pânico indescritível. Um medo do amanhã, um medo de ainda ser ontem. Se não conseguia dormir, contava as horas como portões, com a certeza que a única cura para a insônia, a única coisa que iria me trazer o sono pelo qual ansiava e temia era a luz do sol.

Abandonei a pós adolescência e o cansaço gerado por 25 anos de noites mal dormidas cobrou o seu preço à vista. Sem crédito tento pagar em prestações. Assim, nos últimos 20 anos resolvi encarar o problema do sono mais seriamente. Fiz terapias, exames, comprei relógios inteligentes e baixei aplicativos que monitoram a minha vida. Sempre tentando encontrar uma maneira de dormir melhor.

O problema é que eu não sei o que é dormir melhor, nem acredito nisso. Se eu pudesse não dormir, confesso, eu não dormiria. Temos tanto a ler, a escrever, a assistir, a desenhar, a ouvir, a conversar e a sonhar acordados, que o sono, como na infância, ainda me parece uma fraqueza. Mesmo com o sono curto, eu sonho muito, e tudo que não seja parte dessa psicodelia orgânica, me parece pura perda de tempo.

Mas não sou mais tão jovem e o corpo pede o descanso. Começo o dia cedo e, quando bate a noite, já estou cansado. Resisto e me arrasto por períodos de baixa de energia e blackout total, tentando encontrar algum método alternativo para realmente descansar. Porém, como a menina da música da Marisa Monte que toma hipofagin mas sonha em comer bolo de chocolate em todas as refeições, eu ainda sonho em não ter sono.

Hoje eu tento manter uma rotina. Dá dez horas eu deito. Na maioria das vezes durmo rápido. Me condicionei. Tem músicas, filmes e sons que me colocam no estado de relaxamento que me permite atravessar a noite. Mas essa noite sempre acaba antes do sol nascer e desperto antes da hora do mundo acordar. Durante muito tempo lutei contra isso, me desesperei e sofri. Hoje, ao invés de lutar, tento usar melhor esse tempo com o que me faz feliz, por exemplo, escrevendo sobre o sono. Continuo cansado, mas tenho um sorriso relaxado no rosto. Não dormi, mas sonhei, mesmo que acordado.

Um amigo dizia que a maturidade chega quando você descobre que dormir não é punição, mas um privilégio. Quando lembro disso, me pergunto se realmente cresci. Pois crescer não é se adequar ao tempo alheio, mas respeitar o seu próprio tempo e saber que de um dia pro outro mudamos, morremos e renascemos para uma realidade que não é a mesma de ontem. Dormir é abraçar sem medo essa transformação. Dormir é não ter medo que o Juarez Machado vai te levar pro mundo paralelo das paredes e nunca mais voltar. Dormir é ter confiança que o passado ficou para trás e que o futuro vai te receber de braços abertos. Dormir é se libertar da culpa e da ansiedade. Se viver é estar no momento, dormir é se permitir não estar aqui ou, melhor, estar nesse lugar nenhum, o u-topos. A Utopia.

Nessa busca, deu 10 horas, me deito, fecho os olhos, respiro fundo e me deixo ser jogado em direção ao futuro nessa viagem psicodélica. O que me esperará?

Bons sonhos. Durmam bem. Espero vê-los do outro lado.