Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A (in)esperada virtude da Gnose

A minha segunda maior satisfação com uma obra é entrar em contato com ela sem saber nada a respeito. Ontem essa satisfação foi com Birdman. Tá, eu sabia um pouco a respeito. Impossível não saber nada sobre um filme ganhador do Oscar. Eu sabia dos planos sequência, da história do ator que tinha interpretado um super herói mas parei por aí. Por conta desse desconhecimento, tenho certeza, a minha satisfação foi tão grande.

Atualmente estou participando de um grupo de estudos de dramaturgia e o recurso do plano sequência, limitado geograficamente ao entorno do teatro, acabou me parecendo mais teatral do que cinematográfico, o que só contribuiu com a temática. Graficamente o filme é muito bonito e as transições de gênero concentradas nos conflitos dos personagens funciona direitinho. O casting também foi cirúrgico, com Michael Keaton, Edward Norton e Emma Stone, figurinhas carimbadas de filmes de super heróis, num filme que os “critica”. Se bem que fica a dúvida: é possível montar um elenco com algum ator que nunca participou de uma dessas franquias? Um bom desafio.

Porém o ponto que mais me intrigou foi a relação do filme com o conhecimento. A incerteza e a ignorância são a tônica das relações. Ninguém sabe de nada. Não sabem o que fazer, não sabem o seu futuro, nem conhecem seu passado. Tudo está sob suspeição e quando as pessoas sabem de algo é um conhecimento impossível de ser explicado. Ou, como diz o personagem de Norton, o único momento em que ele é verdadeiro é quando está no palco. A falsidade é a verdade.

Frente a esse cenário onde ninguém sabe o que é arte e onde as pessoas que “decidem” o que é o fazem por motivos mesquinhos, não saber é o único caminho para saber. O fazer toma a frente do saber e o conhecimento se cristaliza pela ação inconsciente. 

É nesse momento divino de libertação quando o conhecimento se torna fato, e onde o hiperrealismo é o único caminho da arte, pois tudo que estiver na tela, na página, nos sons, é hiper real pois nos conecta, que  Birdman e eu alçamos vôo. Pra onde? Não sei.

O filme terminou e continuei sem saber. Não saber nada depois de assistir: a minha primeira fonte de satisfação com qualquer obra de arte.

Que sono?

Um amigo dizia que a maturidade chega quando você descobre que dormir não é punição, mas um privilégio. Nunca entendi isso.

Desde pequeno minha relação com o sono é complicada. Não curto dormir. Nunca curti. Até os seis anos tinha pesadelos com uma figura inspirada no Juarez Machado, aquele artista plástico e mímico que se apresentava no Fantástico. Lembra? Provavelmente não, mas eu lembro. Talvez só por conta dos pesadelos.

Normalmente era uma perseguição, onde ele queria me levar embora para um mundo paralelo acessível por paredes secretas no meu apartamento. Antes do sonho concluir, eu sempre acordava no meio da noite em pânico, mas não conseguia pedir ajuda aos meus pais pois no meio do caminho tinha um quadro da Mona Lisa que, posso jurar, me seguia com os olhos. Com medo da minha cama e sem poder atravessar o corredor, eu ia pra sala e adormecia no sofá.

Algum tempo depois esse terror infantil se resolveu num sonho do qual me lembro até hoje; na mesma época meus pais se livraram da Mona Lisa; e eu, tirando os intermediários do meu processo de sono, passei a dormir direto no sofá. Quando o meu peso ainda permitia, minha mãe, antes de dormir, me transferia para a cama. Isso em pouco tempo ficou impossível e, sem ter o que fazer, todos simplesmente aceitaram que eu ia dormir direto no sofá. Dormir? Melhor seria dizer: viver no sofá.

Eu chegava do colégio e me esparramava no sofá pra ler e ver TV. Ao meu lado, pilhas de quadrinhos, livros, brinquedos, cadernos, lápis e canetas. Eu tinha, sim, um quarto, mas, como podem perceber, vivia mesmo no sofá.

Preocupados com isso, meus pais me levavam de tempos em tempos para escolher camas que pudessem me levar de volta ao quarto. Beliches, camas com escrivaninhas, com prateleiras, com até, pasmem, aquários. Dessas, tive todas. Mas elas acabavam se tornando apenas os seus apêndices. Eram playgrounds, depósitos de livros, espaços de trabalho, simulações do mundo marinho; tudo menos camas. Dormir sempre ficava pro sofá.

Quando fiz 15 anos, eles já tinham desistido. Na época, eu até tinha uma cama no quarto, que me foi doada por alguém, mas nunca foi usada. Era velha, pesada e estranha. Um objeto fazia mais sentido no cenário de um quarto de viúva do que no quarto de um adolescente.

Nunca dormi nela, mas era um lugar pra deitar acordado, ouvir músicas, escrever poesia, assistir a videoclipes na TV e a filmes em VHS nas madrugadas. Não para dormir. Dormir eu reservava para o sofá, e para uma cadeira de praia que também me foi doada por alguém. Pra mim, dormir nunca foi planejado. Era uma espécie de ataque de exaustão que me acometia entre um dia e outro. Não era uma necessidade, mas uma fraqueza.

Um dia, sem aviso, essa cama quebrou e não me lembro de sequer termos cogitado consertá-la. Ficou assim até que fui morar sozinho e, no chão da sala, joguei um colchão que me servia de futon, sala de estar e espaço para desmaiar.

Assim permaneci até os meus 25 anos. Sem camas. No máximo tive estrados no chão que suportavam um colchão. Eram espaços para assistir TV, ler, dar festas(!!!) e desmaiar de exaustão. Camas, e o sono, eram conceitos estranhos para mim.

Quando conheci minha mulher e comecei a trabalhar fui obrigado a encarar o sono de maneira diferente. Eu não dormia mais sozinho e meu tempo não era mais só meu, Precisei me alinhar aos hábitos dela e aos horários da fábrica. 8 horas de trabalho, 8 horas de diversão, 8 horas de sono. Sono? Quero dizer, 8 horas de cama.

Nunca cumpri essas 8 horas. Se deitava cedo e conseguia dormir, acordava na madrugada sem saber o que fazer. Sem pesadelos, mas numa espécie de pânico indescritível. Um medo do amanhã, um medo de ainda ser ontem. Se não conseguia dormir, contava as horas como portões, com a certeza que a única cura para a insônia, a única coisa que iria me trazer o sono pelo qual ansiava e temia era a luz do sol.

Abandonei a pós adolescência e o cansaço gerado por 25 anos de noites mal dormidas cobrou o seu preço à vista. Sem crédito tento pagar em prestações. Assim, nos últimos 20 anos resolvi encarar o problema do sono mais seriamente. Fiz terapias, exames, comprei relógios inteligentes e baixei aplicativos que monitoram a minha vida. Sempre tentando encontrar uma maneira de dormir melhor.

O problema é que eu não sei o que é dormir melhor, nem acredito nisso. Se eu pudesse não dormir, confesso, eu não dormiria. Temos tanto a ler, a escrever, a assistir, a desenhar, a ouvir, a conversar e a sonhar acordados, que o sono, como na infância, ainda me parece uma fraqueza. Mesmo com o sono curto, eu sonho muito, e tudo que não seja parte dessa psicodelia orgânica, me parece pura perda de tempo.

Mas não sou mais tão jovem e o corpo pede o descanso. Começo o dia cedo e, quando bate a noite, já estou cansado. Resisto e me arrasto por períodos de baixa de energia e blackout total, tentando encontrar algum método alternativo para realmente descansar. Porém, como a menina da música da Marisa Monte que toma hipofagin mas sonha em comer bolo de chocolate em todas as refeições, eu ainda sonho em não ter sono.

Hoje eu tento manter uma rotina. Dá dez horas eu deito. Na maioria das vezes durmo rápido. Me condicionei. Tem músicas, filmes e sons que me colocam no estado de relaxamento que me permite atravessar a noite. Mas essa noite sempre acaba antes do sol nascer e desperto antes da hora do mundo acordar. Durante muito tempo lutei contra isso, me desesperei e sofri. Hoje, ao invés de lutar, tento usar melhor esse tempo com o que me faz feliz, por exemplo, escrevendo sobre o sono. Continuo cansado, mas tenho um sorriso relaxado no rosto. Não dormi, mas sonhei, mesmo que acordado.

Um amigo dizia que a maturidade chega quando você descobre que dormir não é punição, mas um privilégio. Quando lembro disso, me pergunto se realmente cresci. Pois crescer não é se adequar ao tempo alheio, mas respeitar o seu próprio tempo e saber que de um dia pro outro mudamos, morremos e renascemos para uma realidade que não é a mesma de ontem. Dormir é abraçar sem medo essa transformação. Dormir é não ter medo que o Juarez Machado vai te levar pro mundo paralelo das paredes e nunca mais voltar. Dormir é ter confiança que o passado ficou para trás e que o futuro vai te receber de braços abertos. Dormir é se libertar da culpa e da ansiedade. Se viver é estar no momento, dormir é se permitir não estar aqui ou, melhor, estar nesse lugar nenhum, o u-topos. A Utopia.

Nessa busca, deu 10 horas, me deito, fecho os olhos, respiro fundo e me deixo ser jogado em direção ao futuro nessa viagem psicodélica. O que me esperará?

Bons sonhos. Durmam bem. Espero vê-los do outro lado.

Bacurau: o Cangaço Exploitation e o nascimento das Milícias

Antes da pandemia, não me perguntem há quanto tempo, sempre que esbarrava com alguém aqui na praça São Salvador, me perguntavam: “Viste Bacarau?”. O que era uma pergunta sincera aos poucos virou um meme e depois um jeito do pessoal de esquerda se reconhecer, como um aperto de mão não tão secreto assim.

Não tenho mais o costume de ficar lendo sobre filmes que não vi, nem perguntar pras pessoas por indicações ou opiniões. Procuro preservar a experiência pra mim mesmo e depois compartilhar e ouvir o que os outros tem a dizer. Assim me mantive razoavelmente distante do filme, esperando o momento de vê-lo. Ele saiu no e do cinema, bateu a pandemia, entrou no streaming, mas sem a urgência da praça, aos poucos essa vontade de assisti-lo foi sendo adiada. Ontem, um ano e pouco depois do seu lançamento finalmente se concretizou.

Western-Distópico com personagens bidimensionais e plot simplório e confuso. Como não curtir?

Achei legal, mas fiquei frustrado. A onda toda que o pessoal fazia, e Cannes, me deram a impressão que seria muito mais do que foi. É divertido, faz uma crítica política de aluno secundarista, mas, no fim das contas, acaba fazendo  de espetáculo interessante com uma boa confusão de gêneros. Mistura faroeste e ficção científica distópica; tem aquela construção bidimensional de personagens de filme trash, e os diálogos misteriosos e o som direto ruim de cinema novo; é criativo, inclusive tecnicamente, no gore; e, ah, traz de volta uma coisa bem brasileira que não ainda tinham mencionado pra mim: o cangaço exploitation.

Um clássico Cangaço Exploitation da Monterey.

Não lembra? Nos anos 70, em plena ditadura, o cangaço voltou à moda. Teve série premiada de TV, filmes e era uma constante na cultura popular. O mito do marginal herói que lutava “pelo povo” contra um sistema corrupto durante a ditadura do Estado Novo renascia e fazia coro a outras manifestações culturais que celebravam a marginalidade como uma resposta ao governo opressor.

É bem sintomático que a gente esteja vivendo isso atualmente, por razões óbvias, mas, não custa lembrar que qualquer movimento estético tem repercussões na cultura e na vida real. Não vou dar uma de cientista político preguiçoso, pois não dá pra fazer uma clara correlação de causa consequência, mas depois do cangaço exploitation, quando a estética e a ideia estão internalizadas na população, grupos de agentes da lei que precisam ir além do sistema para manter a ordem começam a parecer uma ideia boa. Como chama mesmo? Ah, é Milícia.

Então, cuidado. Depois que virmos um Bacurau bem trapalhão casar com a namorada fascistinha do Brasil, talvez os nossos heróis marginais normalizados de agora virem os nossos ditadores do futuro.

A namoradinha das milícias

(Não) Bata na Toupeira

Pode ser o estado de graça, aquele momento pós luto, ocasionado pela pandemia falando, então dê um desconto.

Assisti ao debate do Biden com o Trump, por conta de um amigo que ficou me provocando com discussão política no whatsapp, e confesso que fiquei feliz. Tive a impressão que o movimento fascista comandado pelos intelectualmente deficientes está chegando ao fim. Óbvio que tem bastante de desejo nessa observação, mas a impressão é que as consequências da ignorância e da incompetência na resolução dos problemas econômicos, políticos e da crise pandêmica mostrou à população, ou pelo menos a parte dela, que não é bem por aí.

Fiquei pensando se não há nada de positivo nesse hiato, nessa apnéia cognitiva que estamos vivendo. Um ponto que identifiquei foi que esses espasmos ditatoriais tiram da toca as toupeiras que se mantêm caladas nos tempos de prosperidade. Como no jogo Bate na Toupeira, o Wack-a-Mole, é só um ditador wanna be começar a ter destaque que elas põe a cabeça pra fora pra apoiar e fazer coro com as ideias com as quais sempre concordaram, mas mantiveram escondidas pois estavam com dinheiro pra ir pra Disney.

Ao contrário do que acontece no jogo, depois de expulsarmos esses ditadorzinhos, a gente deveria utilizar essa oportunidade para dialogar com eles e introduzi-los no debate democrático ao invés de tentar marretar as suas cabeças. Talvez seja esse o nosso erro. Ao invés de ouvir suas necessidades e reclamações e compor um espaço de diálogo para tratarmos essa sua compulsão com a violência e com a necessidade de proteção, a.k.a. medo,  a gente os isola. Sempre que esses períodos ditatoriais passam a gente esconde tudo embaixo do tapete e os deixa calados no canto da festa. E isso, já vimos, não melhora ninguém.

Precisamos de um processo de reparação onde a gente discuta, sim, os seus erros, mas construa em conjunto estratégias que os protejam do autoritarismo quando fusíveis, como o preço do dólar, representatividade social, e afins, ativarem seus gatilhos. Como já disse muitas vezes, o problema do Brasil não se resolve com polícia, nem com política, mas com psicanálise.

Eu sei. Talvez eu esteja sendo otimista e indulgente demais, mas, como disse antes, dê um desconto, pode ser a pandemia falando. Mas, por enquanto, me deixe aproveitar um pouquinho essa sensação de que as coisas podem melhorar.

No time to die

Lançaram ontem o clipe da música tema de “No Time to Die” do 007. É bem legal. Segue o modelo clássico que vem desde Shirley Bassey em Goldfinger. Uma balada lenta que vai crescendo com uma orquestra secreta que toma a música e força a cantora a exibir todo o seu talento vocal. Acertaram.

007 é um estado de espírito e pra isso precisa ser um produto sensorial completo: narrativa, audio e vídeo e, mais importante, expectativas. E a música, mais do que ser um componente auditivo, estabelece quais são serão essas expectativas. Em geral quando erram na música, Madonna e afins, tentando enfiar “mudernidade” num produto anacrônico como James Bond, acabando misturando açaí com escargot e mostram que o filme também não vai ser essas coisas. Pelo jeito, nesse acertaram novamente. Daniel Craig saindo com 4 em 5, faz média melhor que muitos Bonds antigos.

Como bônus ainda tem umas novas cenas do filme e parece que estão seguindo o caminho da trilha psicanalítica que apontei naquele meu texto antigo. Podiam ter parado em Spectre com um final feliz mas o James Bond de meia idade, entrando no clube dos idosos, precisa sofrer um pouco mais. Depois de abandonar tudo pra viver com a sua esposa mais jovem, o senhor Bond descobre que ela tem segredos, o que provavelmente fere a sua masculinidade poente. Da impressão de ser um L’ Enfer, aquele filme doido sobre ciúme do Chabrol com a Emmanuele Beart, com um bando de cenas de ação entre o drama. Parece ser divertido. Esperemos.

Ah, a música? Curta aí. Eu curti. Promete, mas não me incomodo de me frustrar no fim das contas. A vida é assim, mesmo, e não temos tempo pra morrer.

 

Muito prazer, autossabotador

Tudo começa com a inveja e um pouco de ciúme. A primeira vez que senti isso foi num concurso de escrita na primeira série. O meu colégio todo ano organizava uma coletânea de textos dos alunos da primeira a quarta séries, uma história era escolhida em cada turma e pra cada história tínhamos 3 ou 4 ilustrações. Na primeira vez que participei, tinha certeza que minha história ia ganhar. Não ganhou.

Fui rapidamente da sensação de ciúme, perder o que achava que era meu, à inveja, o desejo de ter o que é o do outro. Foi horrível. O que me confortou foi que ainda tinha chance de participar com a ilustração. Me esmerei, mas também não rolou. A sensação se repetiu e a frustração foi duplicada. Foi assim que, para proteger o meu ego, inconscientemente, entrei num processo compulsivo de planejar e antecipar a minha queda.

Mas o hábito não se firmou de imediato. Eu continuei tentando, ou quase. Me inscrevia, participava das coisas, me entregava, e sofria quando não recebia os louros que achava serem meus. Pra me proteger, minha solução foi fingir pouco caso. Vivia na negação da raposa das “uvas estão verdes”. Eventualmente, era recompensado e ganhava. Inclusive no concurso que desencadeou o processo, lá pela 3a. série, uma das minhas ilustrações foi escolhida. Mas não pude curtir. Infelizmente, para manter a pose quando perdesse da próxima vez, o que eu “sabia” que aconteceria, precisava desmerecer o que eu atingi. Os prêmios eram bestas e os concursos pouco desafiadores, eu mentia pra mim e para os outros. Qualquer um podia ganhar. Qualquer um. Até eu. Um outro qualquer.

Então entre a tentativa de evitar a frustração, não me expondo, e a negação do reconhecimento que eventualmente recebia, comecei a ter uma postura perversa com a arte. Amando em segredo o que fazia, sangrando para produzir, sofrendo quando não era reconhecido, desprezando quando o era, mas fingindo pra todo mundo que não era nada demais. E assim todas as minhas conquistas foram maculadas por esse ar blasé que eu precisava manter. Todas.

Aos onze anos, o meu personagem foi o escolhido para estrelar os desenhos animados que finalizaram o curso de Cartum da Calouste Gulbenkian, mas eu não fui ao lançamento pois estava “cansado do colégio”. Mais de dez anos depois reencontrei meu professor, o mestre Lapi, e ele, que ainda lembrava de mim, me colocou como assistente de produção num documentário sobre o Pinel. Foi um trabalho incrível mas, sei lá por que, pedi para ser retirado dos créditos.

Na adolescência, óbvio, me encontrei nos fanzines. Produzia sozinho e fazia tiragens ridículas para não ser encontrado. As poucas pessoas que liam curtiam e queriam participar. Era a minha deixa para criar problemas com todo mundo e sair “por cima” por não ter comprometido a minha “integridade artística”. Uma vez tive a audácia de mandar um fanzine para avaliação do MAU, o fanzine da revista Animal, e recebi vários elogios, mas como havia pedido, eles não divulgaram meu endereço para contato. Como um bandido na lista dos 10 mais, queria ser reconhecido, mas não encontrado.

Cresci e continuei com o mesmo comportamento. Fiz corpo mole e não fiz a prova pra faculdade de cinema. Fiquei na psicologia pois achei que me frustraria menos. Na mesma época, escrevi uma crítica de cinema pro JB, e tinha um livro de poesias pronto que submeti à editora 7 letras. Eles queriam editar desde que eu pagasse uma parte da tiragem, mas eu me convenci que era golpe e nem respondi. Hoje não tenho nem uma cópia desse livro.

Continuei escrevendo, participando de concursos e tentando me editar. Sempre com um pé atrás e sem acreditar nas benesses que me eram oferecidas. Ia pra saraus de poesia, declamava com desdém e menosprezava os que me elogiavam. Cheguei ao ponto de jogar fora uma caixa com mais de mil poemas e umas três dúzias de contos após uma briga com uma namorada. Quando lembrava dessa autosabotagem, tentava me justificar com a história da vez que o Hemingway perdeu toda a sua produção na sua bagagem; o que não tem nada a ver, afinal ele não jogou fora o que produziu em quase 10 anos por puro medo.

Na transição pro digital o comportamento continuou. Comecei a publicar meus textos num blog e em seis meses estava no Blogs of Note. Fechei o blog, sob a alegação que não merecia ter mais do que sete leitores,  e o reabri em outro lugar. Participei de alguns projetos literários e sites mas nunca mantinha um compromisso maior do que 6 meses. Quando as coisas começavam a engregar, muitas vezes sem explicação, eu sumia.

Assim fui me escondendo e me escondendo cada vez mais, sempre me comprometendo pela metade com o que eu dizia desejar e negando o que a vida às vezes tentava me entregar.

Às vezes, ainda reajo assim,mas estou em recuperação. Se alguém me elogia, imediatamente tento entender quais são os seus motivos escusos para isso. “Óbvio que não é sincero”. Não quero encarar a queda novamente. Uma queda que, sinceramente, nunca sofri, mas que transformei num trauma pois a minha história, escrita aos 6 anos, sobre uma invasão dos povos perdidos de Atlântida repelida por um grupo de jovens num cruzeiro perdeu para a história de uma minhoca que fazia os buracos em queijos suíços num concurso literário de colégio. Hoje sei que a história da minhoca realmente era melhor e que não devia me martirizar tanto assim, mas a cabeça não manda no coração.

Nesse processo de recuperação, procurei amigos e conhecidos que pareciam bem resolvidos com essa questão e todos me confidenciaram que, em maior ou menor grau, vivem com a mesma angústia. É bom não estar sozinho. Sim, gostaria de me jogar sem medo de rejeição e poder aproveitar as coisas boas que a vida vier a me oferecer, mas para isso preciso aprender a ter compaixão comigo mesmo e entender que a fraqueza não é precisar combater mas, sim, fugir da luta.

O pulo do gato talvez seja agradecer mais, olhar os obstáculos como fins em si mesmo, e ter a certeza que a história não termina mesmo quando acaba. Sim, estou melhor mas não cheguei no ideal. Ninguém chega. Mas continuamos na luta. Obrigado por me ler e fazer parte desse processo.

#happythankyoumoreplease