Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Um lar para uma geladeira carente

Olá, meu nome é Pedra de Fogo,

Sou uma geladeira nascida em 31 de janeiro de 1949 e desde então vivo num apartamento na São Salvador.

Dividi a minha vida em constante atuação com a mesma família até 2005, mas depois fui deixada sozinha no apartamento lamentando a minha aposentadoria.

Em 2016, para a minha surpresa, uma nova família adquiriu o apartamento e, por curiosidade, eles me botaram pra funcionar. Nem eu acreditei. Apesar dos meus quase 70 anos,eu ainda tinha vigor.

Os meus novos donos me mantiveram funcionando por um tempo mas não tinham como me reformar, a idade, vocês sabem, pesa, nem tinham a necessidade de duas geladeiras.

Não que eu não me dê bem com a minha nova colega. A diferença de idade é grande, mas conseguimos transpor o, como dizem?, gap geracional. Mas, confesso, sinto saudades de estar com colegas da minha idade.

Meus novos donos me contaram que várias famílias ou estabelecimentos comerciais poderiam se beneficiar da minha presença.

Assim, com a ajuda e apoio deles, estou escrevendo essa carta para saber se vocês me ajudariam a encontrar um novo lar.

Só precisam vir aqui me buscar e, se vocês puderem trazer umas cervejas pros meus donos se despedirem de mim, eles ficariam muito felizes 🙂 .

Para que vocês me conheçam melhor, seguem algumas fotos e minha certidão de nascimento.

Então, vocês podem realizar o sonho dessa bela e chique senhora? É só mandar um e-mail para os nossos donos e combinar de me buscar.

Aguardo suas mensagens, torcendo por uma resposta positiva,

Pedra de Fogo

Redescobrindo a Federação

*Contém Spoilers*

Discovery terminou a sua 3a. temporada e agora percebi o que estava me incomodando: finalmente ela entrou no esquema das demais séries de Star Trek.

Tem determinados padrões aos quais a gente se acostuma e nem sente. O de Star Trek está ligado a presença da Federação. Aquela enorme organização pacífica e racional que define o modus operandi dos nossos heróis e também direciona boa parte dos plots, definindo as missões que eles precisam cumprir.

Em Discovery, e em Picard, eles tentaram tornar a Federação, se não uma inimiga dos heróis, pelo menos uma pedra no sapato. É o espírito do tempo. Dos fascistas mais extremistas aos moderados mais relaxados, a confiança de todos nas nossas organizações políticas está abalada. E, óbvio, isso reflete nas nossas ficções.

Picard saiu para investigar a própria federação e fazê-la encarar o seu passado por esconder embaixo do tapete alianças espúrias e problemas que não conseguia resolver. E, em Discovery, demos um passeio temporal partindo de um período anterior à série clássica até 900 anos no futuro para estar a todo momento questionando as diretrizes, a atuação e a competência da Federação.

Em Discovery esse conflito se concentra na personagem de Michael Burnham. Ela, como Kirk, é uma rebelde, mas ao contrário do que acontecia com o Jim, ninguém passou a mão na sua cabeça. Ela já começa a série descumprindo ordens, sendo presa e tentando resolver tudo sozinha pois, fruto de uma tragédia e criada por uma família rígida e fria, não consegue confiar em quase nada e em quase ninguém. Assim como a gente que é obrigado a morar no Brasil.

Em Discovery, o ponto central é que a premissa da infalibilidade da Federação estava sendo subvertida. Na primeira e na segunda temporadas, a Federação não era ouvida e suas soluções eram em geral idiotas. Cabia aos rebeldes da Discovery resolver, a muito custo, seus próprios problemas considerando como lidar com  Impérios Racistas de outras dimensões ou Inteligências Artificiais de futuros distantes, respeitando dentro de certos limites, seus espaços. Parecia que a diversidade que havia dentro das naves da frota estelar estava sendo levada pra fora pela primeira vez.

Porém, agora, na terceira temporada, presos num futuro onde a Federação não é mais hegemônica, eles precisaram ser mais realistas que o rei e professar boa parte das regras com as quais não concordavam. Nesse novo ambiente, em especial no episódio da Terra, eles mostraram a face mais cretina da Federação: o colonialismo paternalista. Pode perceber. A Federação, em si, raramente tem problemas, e, como um Estados Unidos da Guerra Fria, ela sempre se mete nos problemas alheios, aparentemente sem interesses próprios, para aplicar sua imensa racionalidade e inteligência para resolvê-los.

Em Star Trek sempre foi assim. Lembro especialmente de um pocket da Nova Geração onde por páginas e páginas um planeta estava prestes a entrar num conflito sem volta e  foi só o Picard, que estava impedido de aparecer, falar meia dúzia de palavras que tudo foi resolvido magicamente. A premissa básica que move essas histórias é a mesma do colonialismo: meu papel é salvar os outros, e lucrar com isso, pois todos são imbecis e não sabem resolver seus próprios problemas.

Não admira, Discovery até a sua terceira temporada foi uma história de Recusa da Aventura. Michael é, desde a morte da Georgiou da “nossa” dimensão, claramente a mais apta a comandar a Discovery, mas ela não aceita essa resposabilidade. Toda trabalhada na psicanálise, nos seus conflitos familiares e na sua percepção basicamente correta das fraquezas da Federação, ela prefere “ajudar” ao invés de liderar. Surpreendentemente(?), muitas vezes essa “ajuda” coloca a nave em perigo para que Michael, depois de salvá-la mais uma vez, receba o carinho que Sarek não soube lhe dar.

No fim da terceira temporada, tudo mudou. Agora, depois que salvou toda a Federação, e recebeu carta branca pra ser como é, ela “se rendeu” a responsabilidade que deixou na mão de tanta gente inepta e se tornou a capitã da Discovery. E, como boa criança mimada que sempre foi, irá estender os domínios da sua vontade por onde seu motor de esporos permitir.

Se você achava a Federação colonialista e paternalista, imagina só como Michael vai agir depois que sentiu legitimada para assumir o poder. Deus tenha misericórdia do século XXXII.

A Campina de Genival

Todo Natal, até os meus 7 anos, a gente ia passar as festas na casa do meu avô em Campina Grande. No início dos anos oitenta era impossível não esbarrar com a onipresença de um dos filhos da terra mais queridos: Genival Lacerda. Das crianças aos adultos, todos conheciam e cantavam suas músicas com diferentes níveis de entendimento e maldade.

O vizinho de frente do meu avô, seu Cisso, que inclusive era sósia irmão do Genival, comandava a festa de final de ano da rua e o imitava seu clone quando não estava colocando Gretchen, sua obsessão, para tocar. Lembro que a casa dele foi o primeiro lugar onde vi um Globo Espelhado, bem no meio da sala iluminando diversos posters da rainha do bumbum que tinha nas paredes. Era um projeto de velho safado, como o personagem que o Genival representava.

Agora lembrando consigo fazer um paralelo entre os personagens das músicas do Genival e o pessoal da rua do meu avô. Desde a esquina da Birosca, até o depósito de gás, os personagens de Genival estavam todos, em maior ou menor grau, alí. A Severina Xique-Xique, o Pedro Caroço, o Velho Safado e até o Jegue Mordedor. Genival conseguia ser universal cantando a sua vila.

Genival morreu hoje e foi uma dessas figuras que representavam de forma histriônica seu lugar e seu povo, como o Bezerra e o Dicró foram, e o Zeca ainda faz um pouco mais esse papel pro Rio. Não temos muito mais disso. Talvez pois não tenhamos mais esse senso de comunidade. E quando morrem as comunidades morrem as lendas que nos tornam irmãos. O que fazer? Mate o véio

A Psicossomática das Máquinas

Tenho um grande amigo, e antigo sócio, que é um fiel crente na psicossomática. Impossível não ser. Num mundo fisicamente cada vez mais protegido, excetuando um vírus fora de controle ou outro, é normal que a fonte de boa parte de nossas doenças passe a ser emocional. Mas ele era fervoroso além da conta. Pra ele, tudo era psicossomático. E místico.

Quando ficava com frieira era um sinal de que estava pisando onde não devia. Quando precisou usar aparelho e sua boca sangrava quando falava demais era um sinal de que devia ficar calado. Quando seus triglicerídeos passaram, e muito, do padrão era um sinal de que estava ambicionando mais do que devia ou conseguia controlar. Não só ele acreditava que todas as doenças tinham fundo psicossomático, como acreditava que elas faziam parte de uma narrativa mística, espiritual, sei lá, que o alertava sobre o presente para proteger o seu futuro.

Era difícil não acreditar nele. Em geral, gente criativa e carismática, como é o seu caso, mesmo quando não escreve profissionalmente,  sabe como nos fisgar com as suas narrativas. E nós, que escrevemos, acabamos sendo as vítimas mais fáceis de seduzir.

Eu comecei a rezar tanto na cartilha dele que passei a acreditar numa variação um pouco mais bizarra das suas idéias: a psicossomática das máquinas. Ele dizia que não só o nosso corpo manifestava esses sintomas emocionais/místicos, como também as máquinas que eram ligadas a ele também sofriam. Ele não só professava isso como apresentava provas.

Toda vez que a nossa empresa assumia compromissos além do que a gente dava conta a casa dele tinha um problema de infiltração:

– Viu? Tá aí. Tamos cheios de trabalho e tá saindo pelo ladrão.

Sua relação com seu VHS, sim, isso tem tempo, era um capítulo a parte. Quando não conseguia rebobinar as fitas era um sinal de que precisava lembrar de algo importante que estava ignorando. Quando não conseguia adiantar os filmes, por outro lado, era visão do futuro que lhe faltava.

Nas poucas vezes que tentei questionar essa ideia radical, ele sacava um Pierre Levy e encerrava o assunto:

– Não são as máquinas que tem sintomas, elas é que passaram a fazer parte do nosso corpo. Somos ciborgues. Ciborgues!

Impossível discutir com ele, ainda mais quando comecei a sentir isso na pele, e na máquina. Uma vez passei 4 meses viajando a trabalho direto dando treinamentos do Rio Grande do Sul ao Amazonas e quando finalmente voltei pro escritório meu computador não ligava de jeito nenhum. Diagnóstico da TI: a fonte de energia secou. A minha e a da máquina.

Recentemente tive mais uma prova que esse meu amigo talvez não seja tão louco quanto parece. Desde que entrei de férias estou numa baixa de energia total. Consigo relaxar, ficar sem fazer nada, mas não descansar, do verbo tirar o cansaço, nem consigo recuperar a minha energia. Estranhamente meu celular entrou na mesma vibe. Demorava pra carregar, descarregava rápido, e, enfim, teve um problema qualquer na conexão de alimentação que sugou a sua bateria pra nunca mais. Ontem fui obrigado a comprar um novo.

Cheguei em casa, o botei pra carregar e nada. Tentei novamente e recebi o aviso:

Ao invés de pensar em falta de sorte, perseguição espiritual ou o que seja, lembrei do meu amigo e da psicossomática das máquinas. Óbvio que o problema não é a máquina, sou eu. Sou eu que estou exaurido pelo trabalho remoto, pela pandemia, por viver num país governado por loucos. Não admira que não consiga recuperar a minha energia. A preguiça, nesse caso, é quase uma estratégia de defesa contra esse baixo astral.

Daqui a pouco vou lá hoje trocar o celular e ver se algo mudou em mim. Afinal, se a questão é minha, se algo não mudar na minha postura, o celular vai continuar sem funcionar. Que a cura comece! Posso contar esse texto como parte do processo psicoterápico? Obrigado por me ouvirem, doutores.

A resolução incumprível

Fora as resoluções de sempre que eu não cumpro (emagrecer, melhorar a alimentação, me exercitar, etc), esse ano fiz mais uma que será impossível de cumprir: não comprar livros em 2021.

Sim, já sinto os dedos apontados pra mim e os risos de deboche na minha direção. Ok, ok, podem rir, não posso negar, é realmente hilário. Já se recompuseram? Ótimo, ótimo. Continuando…

Não sei se vocês sabem mas cumpro fielmente o Tsundoku e tenho mais livros do que consigo ler. Por isso, como até a minha filha de 6 anos já notou, a casa tem mais livros do que ela comporta. A situação é tão crítica que preciso de espaço em outros lugares para armazená-los. Tenho 3 prateleiras na casa da minha mãe com livros que ficaram no caminho das minhas diversas mudanças; no meu escritório, tenho duas pilhas de livros basicamente relacionados ao trabalho, e dos quais estou com saudades e afastado desde março; e até os livros que deixo nos sebos dos amigos são regularmente visitados, sempre na esperança de que ainda não tenham sido vendidos.

Viver entre livros é parte essencial da minha vida. Não à toa fui sócio de dois sebos e hoje em dia uma das minhas atribuições profissionais é gerenciar uma biblioteca. Não é só querência, é vocação.

Por isso, confesso, é bem estranho que eu faça uma resolução como essa. Logo eu que adoro parafrasear o Luís Fernando Veríssimo dizendo que ter mais livros do que se consegue ler é confiar na imortalidade. Mas há uma boa razão pra isso. Explico.

Nos últimos tempos, como muita gente, notei que meu foco e minha atenção para ler diminuiram. Culpei as redes sociais e cortei seu uso; culpei a pandemia e criei estratégias para me concentrar melhor; mas nada adiantou: continuei comprando mais e lendo menos. E muito disso porque boa parte das minhas relações reais e virtuais são baseadas em livros e ler.

A ansiedade para tomar parte de uma conversa que envolvia algo que eu não havia lido gerava uma urgência artificial para consumir. A compra do livro servia como um sedativo, a espera da entrega era uma distração, mas essa pequena odisséia não se concretizava com a leitura, e eu acabava simplesmente incluindo mais um item na infindável lista de “para ler”.

Outra coisa que percebi é que facilidade de acesso começou a tornar a minha leitura errática, pois, se um livro era mencionado no texto ou o tema me remetia a um outro, eu facilmente pulava de uma leitura para outra como se estivesse seguindo uma cadeia interminável de links. E, para selar essa tumba, o excesso de opções, na internet e até mesmo dentro de casa, tornava a tarefa de escolher a próxima leitura impossível.

Assim, para ler mais e melhor, resolvi que em 2021 não comprarei mais livros. Com essa resolução, aliada ao isolamento social, espero gerar uma redução artificial de oferta para ler o que já tenho em casa e, como acontecia no final dos 80 e 90, ter descobertas fortuitas com coisas interessantes que não planejei encontrar. E, se me lembro bem, foi assim que forjei boa parte das minhas preferências e paixões literárias.

Mesmo sabendo que não chegarei incólume ao final do ano, tenho certeza que será uma experiência interessante e me fará refletir melhor sobre a informação que consumo de forma geral. Afinal, vai ser impossível não precisar adquirir um livro ou outro, mas, prometo, não comprarei livros se não for extremamente necessário. O que “extremamente necessário” significa? Bom, não pensei nisso ainda. Esses critérios eu ainda preciso definir com mais clareza…  recomendam algum livro que me ajude a fazer isso?

O Reveillon que (não) houve

Ontem foi estranho, mas muito bom. Acostumado, mas resistente, às infindáveis comemorações de anos novos passados, comemorar esse reveillon em casa, só com a minha mulher e minha filha, foi um alento. Já tínhamos feito isso uma vez de 2013 pra 14 em BH, mas a menina ainda estava na barriga, e no ano passado viramos o ano só nós três mas em São Paulo. Essa foi a primeira em casa com ela do lado de fora.

Confesso que esse foi um dos poucos pontos positivos da pandemia. Como não podíamos aglomerar, não precisei me arrumar, não tive que me preocupar com a logística da ida, com estratégias de volta, onde dormir caso tudo desse errado, que cerveja levar, nem como impedir que outros as tomassem; vocês sabem, o de sempre. Mas ontem não teve o de sempre. Éramos só nós com uma ceia pequena mas bem gostosa, uma quantidade suficiente de cerveja boa, e o direito de fazer o que quiséssemos.

E foi aí a porca torceu o rabo. Como se perguntava o famoso filosófo Alexandre Pires: o que íamos fazer com essa tal liberdade?

Eu não sabia, mas já estava me sentindo livre o suficiente para considerar que podia cochilar até às 23:30 e pedir pra ser acordado para “ver” a virada. Minha mulher e minha filha, por outro lado, estavam meio indóceis. Tenho certeza que festeiras e rueiras como elas são, estava sendo bem difícil para elas.

Para compensar o isolamento, resolveram transformar a casa numa festa. Decoraram tudo com estrelas, luzes, guirlandas e umas bolas que insistiam em não ficar penduradas onde deviam. Montaram também colaborativamente uma playlist improvisada no Youtube onde o Rock BR dos anos 80 competia com o KPop atual num conflito moderado por uma estranha combinação de New Wave/Punk Gótico e Funk Carioca.

No início até que funcionou, mas um determinado momento alguém perguntou que horas eram e caímos na real que ainda teríamos muito tempo pra matar até a virada. O fato é que o Reveillon sem aglomeração, sem pessoas chatas e sem as complicações que o Reveillon normalmente tem é uma festa onde não há muito a se fazer.

Eu e minha filha resolvemos descer pra portaria do prédio e ver como estava a movimentação na praça São Salvador, onde desconfiávamos haveria uma festa ilegal. Não havia. Uns 10 gatos pingados e 3 ambulantes tentavam criar um clima de animação, mas falharam. Voltamos para casa e continuamos a colocar música alternadamente transformando a playlist, que pouco sentido fazia, numa ecletíssima trilha sonora de novela dos anos 90. Comemos um pouco, ligamos para pessoas, conversamos sobre o que se passou em 2020 e o que esperamos fazer em 2021, mas o tempo não passava. Aí a sabedoria infantil da minha filha sugeriu:

– Posso botar o pijama meia hora antes do ano novo?

Não vimos por que negar. Assim, simplesmente aceitamos que esse Reveillon era só um exercício de esperar o tempo regulamentar até o ano virar. Óbvio que deu até uma certa excitação nos dois minutos finais de 2020, mas o grito de um cara num megafone mandando a besta fera que foi eleita presidente indo tomar na parte da anatomia de onde saem seus “pensamentos” e comentários nos lembrou que muitos dos problemas de 2020 ainda vão ser herdados por 2021.

2021 chegou, nos abraçamos, beijamos e desejamos o melhor uns para os outros. Da mesma forma que fazemos todos os dias, mas um pouco mais alcoolizados e melhor vestidos. Nessa hora me lembrei de um artigo mezzo sério mezzo piada que rolou na New Yorker esse mês sugerindo o cancelamento eterno do Reveillon. E comecei a lhe dar uma certa razão.

A virada do ano se tornou um evento místico/motivacional obrigatório que demanda muito mais exacerbação de papéis sociais do que emoção verdadeira. Vê só: abraços exagerados em gente que você muitas vezes só vê no reveillon; desejos de sucesso, saúde e prosperidade padrão para todo mundo, desde os desafetos secretos até os afetos declarados; uma sensação brutal de urgência artificial por conta de uma data que, no frigir dos ovos, é só a véspera da circunsição de cristo; enfim, não há muito o que se comemorar. Mas até aí, nenhuma festa tem justificativa pra acontecer.

Porém, mesmo que o hábito continue, afinal festejar é preciso, talvez a pressão por comemorar o reveillon mereça ter um alívio. Não comemorar o Reveillon deveria ser uma opção aceitável, ao invés de uma surpresa taxada com um estigma social exagerado. Vamos ver se em 2021, espero eu, já vacinados, poderemos fazer, sem medo de julgamento social, a escolha de ficar apenas com os nossos mais próximos sem fazer nada, como fomos, no meu caso, agradavelmente obrigados nesse Reveillon. Eu não me incomodaria. E você?