Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Eremita, o Retorno do Louco

Estava ouvindo o Bobagens Imperdíveis da Aline Valek e ela me lembrou que, no Tarot, a carta do Eremita, como a do Louco, é uma carta em e de movimento. Um movimento a pé. Um movimento heróico. Porém, enquanto o Louco segue para a direita em direção ao nascer do Sol, dando início ao movimento, o Eremita vem pra esquerda, em direção ao poente carregando a sua lanterna.

Ouvindo isso, lembrei quando, no verão dos meus 15 anos, uma amiga esotérica da minha mãe leu o meu tarot, fez minha numerologia e dividiu a minha vida em 5 fases.

A primeira, do nascimento até os 18 anos, seria regida pelo Eremita, caminhando nas trevas em busca da luz. Dos 18 aos 25 a carta do Mundo, aproveitando o que o Universo tem para nós oferecer, com todo excesso e risco que essa descoberta permite. Dos 25 aos 35 seria a Imperatriz, a fase de receber as benesses do mundo. Dos 35 aos 45 o Enforcado, uma era de receber o que plantou, tanto de bom como de ruim. E a partir dos 45 eu voltaria ao Eremita. Confesso que até agora bateu bem direitinho. Há uma semana fiz 46 anos e considero que, mística e oficialmente(?), entrei na fase final.

Sempre imaginei que essa última fase seria um movimento de recolhimento. Que depois dessa caminhada das trevas ao mundo, com seus altos e baixos, encerraria com um retorno para a autorreflexão. Eu estava enganado. Não é um ponto final. Como bem lembrou a Aline é um caminho de volta. É um retorno. Não é uma chegada. É um processo.

Agora, o Eremita começa o retorno para as trevas de onde partiu e traz as descobertas que fez a respeito do mundo. Impossível não lembrar do prisioneiro que se libertou da caverna de Platão e, depois de quase se cegar com o sol, retorna para contar aos outros prisioneiros o que viu. Parece um caminho lógico, mas há opções e riscos. Eu poderia não voltar e ficar no mundo; poderia voltar pra caverna e me calar, evitando o risco de não ser ouvido, de ser execrado e de ser considerado louco; poderia até tentar convidar outros ao conforto da caverna. Mas eu, como o Eremita, prisioneiro da minha lanterna, escolhi compartilhar. Isso não é certo, nem é errado. É apenas o meu caminho. Só espero que o Eremita não se torne o Louco no final dessa história.

2018 (round 2)

A pandemia não é um evento separado. É uma continuação. E essa continuação começa com a chamada para tomar uma cerveja numa aglomeração pública. Jocosamente e já sabendo a resposta, provocam quem fez o convite: “E a pandemia, hein?”

Como autômatos exaltando a sua programada liberdade de expressão e pensamento, os bots de carne e osso atendem ao comando e criticam as medidas sanitárias, os esforços feitos para proteger a população e enveredam, como esperado, pelas rotinas de negacionismo, do climático ao científico, e dançam no fio da navalha do racismo, homofobia e afins.

As interações se tornam repetitivas e ,depois de cumprirem sua programação, os bots resumem a sua atuação confirmando a sua participação na cerveja e desligam seu modo ódio para se verem presencialmente no dia seguinte.

Me pergunto o que fazemos nesses quartos chineses tentando acreditar que há inteligência, artificial ou não, nessas conversas. Por que ainda tentamos buscar algum resquício de humanidade, empatia e compaixão nessas trocas autoindulgentes? Inteligência até há, mas o que nos falta é a humanidade, que surge justamente da incerteza, do não saber, do ter dúvidas, do sentir medo do futuro e do não ter medo de assumir a nossa ignorância frente ao mundo. A reflexão necessária para isso não harmoniza com as redes sociais.

Nesse segundo round de 2018, repercutindo o primeiro onde um terço da população brasileira protegida da dúvida pelo ódio do fundamentalismo político escatológico elegeu um imbecil, um bastão genocida, essa mesma população agora se oferece e nos oferece para Holocausto.

Graças a Deus, sou agnóstico e não me rendo a divindades terrestres ou mitos de prateleira e nesse altar não vou subir.

Boa cerveja para os demais. Para nós resta o arquivamento de conversas do Whatsapp.

“Abre aspas”

Ele tinha aquela mania chata de fazer aspas com a mão. Pra piorar ele ainda dizia: “Abre aspas”. O problema é que muita vezes ele esquecia de dizer o “fecha aspas” e tínhamos a impressão que tudo o que ele falava era uma longa ironia. Exemplo: “Vocês sabem como o governo é (sinal de aspas), abre aspas, humanitário. Com certeza, bla, bla, bla, etc e tal”.

Aquilo me deixava nervoso. Eu nunca sabia o que ele queria dizer. A quantidade de aspas abertas e não fechadas tornava seus discursos impenetráveis e suas opiniões ambíguas. Ele era a favor ou contra o governo? Amava ou odiava o trabalho? Traía ou era fiel à sua mulher? Era um amigo verdadeiro ou, abre aspas, um mui amigo, fecha aspas?

Não tinha como saber. Eu até perguntava às pessoas, mas elas não tinham esse mesmo tipo de incômodo. Pra elas não existia dúvidas sobre as suas opiniões. Porém, quando eu pedia que me explicassem o que ele queria dizer, elas desconversavam. Elas não ficavam incomodadas porque não ouviam, porque não, abre aspas, davam um pelota, fecha aspas.

Era cruel. Toda vez que eu o via chegando ou tinha um compromisso marcado que o envolvesse, ficava ansioso. Ele começava a falar, e muito, como sempre, e eu ficava contando quantos minutos, ou, melhor, segundos demoraria pra ele dizer “abre aspas”.

Um dia algo aconteceu e ele não falou o “abre aspas”. Eu esperei, mas não saiu. Até fiz algumas perguntas pra ver se o forçava a usar de uma citação ou um eufemismo, mas ele resistiu bravamente. Nada de abre aspas, nem de fecha aspas.

Pensei em confrontá-lo mas não era isso o que eu queria? Que nunca mais dissesse “abre aspas”? Ou será que eu queria ouví-lo dizer “fecha aspas”? Eu não sabia mais, estava, como diziam, abre aspas, bolado, fecha aspas.

Antes que eu pudesse chegar a uma conclusão do que fazer fiquei sabendo que ele, abre aspas, abotoou o paletó, fecha aspas.

Fomos no enterro, e todos lembraram, com saudades, da sua mania e seu vício de linguagem. Enquanto ele jazia deitado no salão funerário, a gente abria e fechava aspas sem pudor. O abuso era tanto que a energia acumulada das figuras de linguagem quase o trouxe de volta à vida.

Mas não trouxe e eu fiquei com uma sensação estranha, como se fosse, abre aspas, culpado de algo. De não ter sido amigo dele por conta dessa fixação em dar closura aos seus comentários e, ao invés de curtir a sua presença, ficasse testando a sua capacidade argumentativa e a sua intenção de dizer “fecha aspas”.

Mas como dizia Nelson Ned: “Tudo passará”, e nunca mais me senti, abre aspas, culpado, fecha aspas. Afinal, além da carne e dos ossos, tudo o que somos pros outros é linguagem; um bando de palavras no ar e na memória. Um apanhado de aforismos e anedotas. Fala e texto. E nada mais.

Então, não deveríamos tratar essa, abre aspas, realidade, fecha aspas, com mais carinho? Não sei, não sei. Ou como ele diria: não, abre aspas, sei.

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“Fecha aspas”.

O (des)encontro com o escritor

Quando eu tinha o sebo a gente atendia muitos escritores, por isso, quando vejo entrevistas com autores, eu sempre sinto que o livro virou menos do que é. Virou só um pretexto para um pitch de vendas.

Os entrevistadores e jornalistas, geralmente serem terem lido o livro e informados apenas pelos seus press releases, focam suas perguntas no processo de escrita, na rotina dos autores, na mística “de onde vêm as ideias”, nas ambições do livro (que não tem nenhuma), em como lidam com o sucesso (futuro ou presente) e em tudo mais que não se seja o tema do livro.

O livro não é a vida do autor. O livro é uma conversa, uma isca do autor para que o leitor, e o entrevistador, fazendo esse papel simulado, discuta o seu tema ou estética. Não é isso que vejo nas entrevistas. Vejo pessoas entrevistando celebridades cujo sustento virá da compra do livro. “Gostou dessa pessoa? Ela é legal e interessante, né? Inteligente também, não? Então compre o seu livro para que ela continue viva, mas não se preocupe, você não precisa lê-lo. No máximo postar uma foto dele no Instagram pra dar uma força”.

Isso me lembra do livro do Mamet, Teatro, onde ele afirma, com muita propriedade, que o papel do teatro é entreter o público. O livro tem também esse papel. Ele foi feito para ser lido e experienciado, mas, como o próprio teatro, hoje virou apenas um símbolo de ostentação intelectual, um fiapo de ligação com uma pessoa de aparente poder que irá imbuí-lo de um pedaço de identidade. Em suma, anexos de personalidade via poder de compra.

Quando eu tinha sebo a gente atendia muitos escritores e o papo era diferente. O papo era sobre o livro. O que os autores pensavam sobre o tema que tinham escrito a respeito, sobre as escolhas que fizeram na narração, nas personagens, na linguagem. Sobre o que poderia ser melhor, sobre o que ficou bom no livro e para ouvi-los ler. Isso faz diferença: ouvir a autora ler o seu livro. Mas, pelas regras do mundo, estabelecidas pelos nerds dos filmes de super herói e séries, tudo isso é proibido. É spoiler. Num mundo onde tudo é “porn”, a aferição de valor vem da (falsa) sensação de novidade e da possibilidade de repetição de consumo; mesmo numa atividade que sempre termina do mesmo jeito.

Eu não ligo pra isso. Sempre fui o louco que lia o livro depois de ver o filme. Se saber algo sobre a história lhe impede de ler o livro, cá entre nós, você nunca iria lê-lo mesmo. E provavelmente nunca irá ao teatro, afinal Hamlet, Romeu e Julieta, só pra dar um exemplo, morrem no final. Você não sabia? Desculpa o spoiler.

Depois me perguntam se o mercado editorial vai sobreviver depois dessa crise. Não vai. Dessa forma não vai. E não por conta de CoVid e afins. Vai perecer de amnésia. Vai passar boas dificuldades pois esqueceu o seu propósito.

Parece até que as editoras têm vergonha de vender livros, e viraram uma espécie de bar onde o mais importante é o guarda chuva do drinque e não o seu sabor. Ok, o público não é dos melhores, mas está no seu papel educá-lo e não enganá-lo vendendo culto a celebridade para empurrar papel encadernado com sinais de tinta no seu miolo.

Tá, talvez seja só, mais uma vez, chatice da minha parte. Talvez a falta que sinto de boas entrevistas com escritores seja só um reflexo da falta de bons livros, e, quando eles existem, de boas pessoas pra conversar a respeito deles.  Por falar nisso, me diz aí, o que você leu de bom atualmente?

O Tarot Musical

Eu aperto o Shuffle da minha única playlist como quem tira Tarot.

Aguardo com ansiedade qual é a mensagem que a primeira música irá me passar. Terei um dia bom? Não que isso seja ligado à qualidade da música, pois se está na minha playlist ela é boa, pelo menos pra mim. A pergunta é: o tema, o feeling da música vai bater com o meu estado de espírito? Música, como o destino, é uma questão de harmonização e sinastria. Tudo é bom no seu momento certo.

E a segunda música? Vai confirmar a mensagem da primeira ou gerar mais complexidade? Teremos aprofundamentos ou dissonâncias? A mensagem da playlist vai se tornando cada vez mais complexa a cada nova virada.

Os tons e as melodias revelam personagens, obstáculos, sonhos, medos e aspirações, e em cada música tento buscar o que há de mim nela e o que ela projeta em mim. Assim da Tiragem de Péladan, chegamos a uma Cruz Celta e avançamos sem limite ao que o futuro pode ser. Como num tarot de 754 músicas, tenho um batalhão de arquétipos particulares para me surpreender.

Cada música é um pedaço de mim, da minha história. Há uma razão para ela estar na playlist, e, acredito, há uma razão para que ela tenha sido escolhida para tocar randomicamente agora pra mim.

À falta de sentido imanente do mundo respondo com a fantasia mística de que a playlist conversa comigo sobre o futuro que vamos construir. Tão fantasioso como fazer planos de carreira, ler reports financeiros ou análises políticas, mas definitivamente muito mais gostoso e particular.

Mas uma hora a vida, ou a filha, ou o gato, me chamam e, como o pintor obrigado a abandonar seu quadro para a Vernissage, deixo a construção desse futuro imaginário com a fé de que sei onde vou chegar. A última pergunta é: o tarot musical me revelou um futuro fora de mim ou imprimiu em mim um futuro já feito da interpretação da minhas próprias histórias?

Essa pergunta eu deixo pra próxima sessão de Tarot Musical.

O Último Aniversário

Desde os meus 13 anos eu tinha um ritual que cumpria fielmente no dia do meu aniversário: reler Watchmen. Naquele 11 de setembro de 2001 não foi diferente.

Na época eu gerenciava o turno da manhã no sebo Baratos da Ribeiro e como já ia sair de noite, para não correr o risco de não cumprir a tradição, troquei de turno com o pessoal da tarde. Acordei, como de costume, bem cedo; fiz um café da manhã não memorável;  levei minha namorada no ponto de ônibus; e voltei pra casa pra cumprir o meu dever.

Separei as seis edições de Watchmen da Abril, aquelas originais do lançamento no Brasil; botei o cinzeiro e o maço de cigarros ao lado da cama; e liguei a TV baixinho na Bandeirantes para acompanhar as notícias do dia. Entre um cigarro e outro, ia revisitando o universo alternativo de Alan Moore, onde um bando de heróis impotentes tentavam inutilmente frear os impulsos autodestrutivos da humanidade. Lá pelo meio da história da captura do Rorschach, entrou um plantão da TV: um avião, aparentemente um monomotor, colidiu com o World Trade Center.

Parei a leitura e comecei a zapear pela curta lista de canais da época. Mesmo com TV a cabo foi rápido. A maioria dos canais exibiam as mesmas imagens e diziam algo que o jornalismo de hoje deveria dizer mais: “Não sabemos do que se trata. Ainda estamos apurando”. Só o SBT se mantinha firme na sua missão de alienação e continuava a transmitir desenhos animados durante o seu Bom Dia & Cia. 

Tentei retomar a leitura, mas um dos funcionários do sebo ligou de um orelhão avisando que o sócio que ia me substituir não tinha chegado. Comentei sobre a colisão do avião e pedi que esperasse uns 15 minutos antes de me ligar de novo. Ele me ligou em menos de 10 pra avisar que o sócio tinha chegado.

Liberado da função, voltei pra frente da TV, ainda com esperanças de terminar de reler o Watchmen. Consegui avançar até as sessões de psicoterapia do Rorschach, mas, em breve, ao vivo, logo veio a notícia da colisão do segundo avião. Agora, as dúvidas se tornaram certezas. Não poderia ser uma simples coincidência. Pra fazer sentido, tudo tinha que ter sido orquestrado. Era um ataque terrorista.

Enquanto os jornais começavam a enumerar os possíveis suspeitos, liguei pra loja e comecei a dar ordens, como se numa guerra. Ligar a TV na sala dos fundos; informar aos clientes que a sala estava disponível para quem quisesse acompanhar as notícias; trocar os livros da vitrine por tudo que tivéssemos sobre Oriente Médio, terrorismo e história americana recente; e aumentar o preço de todos os Alcorões que tivéssemos em estoque. Em frenesi, eu gritava no telefone pra motivar a equipe:

– Roma está caindo! Roma está caindo!

Fiquei em pé em frente a TV, dividido entre voltar a reler Watchmen e ir logo pra loja. Afinal, todos precisam assumir seus postos durante uma emergência. Para resolver o meu dilema, a torre atingida pelos aviões não resistiu e caiu. Vi e revi aquela cena por minutos na TV e ainda a vejo na minha mente. Atingido emocionalmente por aquela nuvem de poeira e pelas toneladas de aço de concreto do World Trade Center, não pensei duas vezes.Tomei um banho, botei os volumes de Watchmen que faltavam ler numa mochila, e parti pro trabalho.

A loja estava lotada. Na sala dos fundos as pessoas se espremiam para acompanhar o que acontecia no mundo, mesmo que agora fossem só replays e comentários. Todos tinham teorias e opiniões. Graças a Deus ainda não existiam redes sociais.

O sócio que me substituiu me lembrou que um dos outros sócios estava visitando a irmã em Washington. Comentou que tentaram falar com ele mas não conseguiram completar a ligação. Agora já era público o ataque ao Pentágono e que as comunicações nos e com os Estados Unidos estavam suspensas ou bloqueadas. Lembrei de alguns amigos que estavam por Nova York. Fiquei com vontade de ligar para eles, mas pelo jeito só nos restava rezar para que estivessem bem. 

Liguei pra minha mãe pra comentar sobre o ataque e ela aproveitou para confirmar o meu jantar de aniversário no mexicano da Cobal assim que a loja fechasse. Liguei pra minha namorada pra saber como ela estava e ficamos durante um bom tempo discutindo o que estávamos fazendo quando ficamos sabendo dos ataques e planejando o que faríamos depois do jantar. O turno da manhã acabou e precisei assumir a loja. 

O movimento continuou firme e forte. Quando começaram a anunciar os rumores sobre o envolvimento de Osama bin Laden, já tínhamos vendido quase tudo relacionado ao tema, desde os Alcorões majorados até aquelas besteiras sobre a Guerra do Afeganistão da Bibliex. O mundo como o conhecíamos estava ruindo, mas ainda havia gente no Rio de Janeiro disposta a tentar entender o que estava acontecendo. Era um mundo diferente. Um mundo que acabou naquele dia.

Quando anoiteceu, as pessoas, ainda aturdidas, começaram a se recolher. A sala de TV ficou vazia e alguns poucos clientes regulares vindos do trabalho apareceram na loja para saber como estávamos. Era como se todos nós estivéssemos em Nova York naquele dia. Era como se todos nós fôssemos vítimas daquele ataque. O que não deixava de ser verdade.

Minha namorada chegou do trabalho, esperei a saída dos últimos clientes, fechei a loja e fomos pra Cobal, encontrar a minha mãe. Quando chegamos no mexicano, Bush filho dizia na TV, sem meias palavras, que o mundo ia se tornar um estado global totalitarista mas, abalados com a queda do World Trade Center, não prestamos atenção. E olha só onde fomos parar por esse momento de distração.

Tentando ignorar o avião na torre, passamos a noite comendo tortillas, bebendo micheladas e discutindo como seria o mundo no dia seguinte. Ninguém tinha ideia, nem cantaram parabéns para mim.

Cansado, suspendi os planos pós jantar, me despedi da minha mãe, e fui pra casa com a minha namorada. Quando me deitei, lembrei dos Watchmen lidos pela metade. Deixei minha namorada cair no sono e fui pra sala retomar a leitura. Tudo parecia diferente. Sem gosto. As conspirações imaginárias e filosóficas do Alan Moore não conseguiam mais competir com a realidade brutal do instinto de morte e desejo de poder do Dick Cheney.

Deixei as revistas não lidas sobre o sofá, deitei na cama e abracei minha namorada rezando para que o amanhã fosse melhor. Fui parcialmente atendido. Nos casamos, temos uma filha maravilhosa e vivemos com muito amor e harmonia. Já o mundo… vocês sabem como está.

Quanto à tradição ela morreu. Nunca mais reli Watchmen e, também, nunca mais tive um aniversário só meu. E Roma? Ao contrário da minha previsão, Roma não caiu; ainda. Ainda.