Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Como não domar um gato

Mugshot do Criminoso

Hoje, mais de um ano e meio desde que chegou a essa casa, ele finalmente se mostrou domado. Ao contrário da mãe que, apesar de arranhões e mordidas ocasionais, rapidamente encontrou onde se aninhar nos nossos corpos, o filhote resistiu bravamente.

Ele fez de tudo para mostrar a sua insatisfação. Comia plantas; virava o lixo; cagava e mijava na pia; dormia no varal; e aparecia misteriosamente com uma série de pequenos e grandes ferimentos que nos faziam intuir que ele tentava repetidamente fugir da casa. Mas hoje, não. Hoje ele se mostrou diferente.

Ainda sem jeito, aprendendo a manifestar seu afeto, ele caminhou na nossa direção, se esfregou nas nossas pernas e se aninhou colado nas nossas costas. Levantou e subiu em cima de nós sem medo, afofou nossas barrigas e ofereceu as próprias costas para um carinho, o qual recebeu desajeitadamente. Até parecia igual mas ele estava diferente. Amoroso e confiante de não iríamos lhe fazer mal, muito pelo contrário, iríamos lhe dar carinho. Por isso ele estava finalmente relaxado, assim como nós.

Quando ia me congratular por ter finalmente dobrado esse felino safado, me caiu a ficha que a doma não é um movimento numa só direção. Não domamos os outros, não os tornamos dóceis pois eles são errados. Nós conseguimos domar o outro pois também somos domados.

Aprendemos a gerar a confiança no outro de maneira que haja tranquilidade e previsibilidade na relação. Encontramos a linguagem comum de amor e respeito que não irá gerar subjugação mas, sim, parceria. Como nos ensinou Shakespeare, A Megera não precisava ser domada, Catarina só precisava ser amada.

Hoje, não, ele não foi domado, mas, sim, demos um novo passo nessa parceria, E assim como donos e propriedades uns dos outros, nos permitimos curtir esse momento de confiança e…

——CRAAASH—–

Ai, ai. Parece que falei cedo demais. ASTRO! Que diabos você fez AGORA?!!!

Essa dependência é de morte

Meu pai costumava contar uma piada besta sobre como a independência do Brasil foi um erro. Na verdade Dom Pedro, depois de se aliviar nas margens do Ypiranga, teria gritado:

– Essa incontinência é de morte

Mal entendido feito, o Brasil se libertou de Portugal. Ou quase.

O problema do Brasil é que nunca tivemos uma revolução de fato. Tivemos revoltas. Muitas. Mas revolução, onde o povo se levanta e muda a forma de governo? Longe disso. A história do Brasil se move em golpes que gostam de se chamar de revolução: a independência, a república, o estado novo, a “gloriosa”, e, o distanciamento histórico nos dirá, se estamos num novo desses golpes disfarçados de revolução.

É sempre a história de uma briga de poder nos bastidores que chega numa resolução quase sempre pacífica mas ao mesmo tempo teatral. Alguns se revoltam e há mortes e tortura, mas pra maioria da população é business as usual. Não sei pra vocês, mas isso me dá uma certa vergonha. Fazer parte de uma nação de servos acomodados que, rapidamente, se acostumam a qualquer alma sebosa que tenha dois dedos de ambição e meia dúzia de imbecis para fazer coro é constrangedor.

Por isso, toda vez que vejo a direita bradando que a nossa bandeira nunca será vermelha e a esquerda se calando intimidada, eu penso: “Seria bom pacas que a nossa bandeira fosse vermelha”. Claro, afinal o vermelho na bandeira não significa comunismo, coisa que só se leva a sério no Brasil, como dizia Paulo Francis. Vermelho na bandeira significa derramamento de sangue em uma revolução popular. Algo que nunca tivemos e bem precisamos.

Por isso a direita, óbvio, não quer a bandeira vermelha, e a esquerda, por omissão, concorda. O que as “zelites” querem é a passagem de poder pacífica e teatral de sempre pra chamar de revolução ou, como dizem desde 1985, Nova qualquer coisa, república, política e o que seja.

Mas, nesse dia da in(hum-hum)dependência, confortavelmente deitado sob um cobertor, escrevendo sobre revolução, me questiono se realmente queremos, quer dizer, quero fazer parte dessa história. Seria muito mais confortável que alguém tivesse feito a revolução pra gente há 198 anos. Agora, com boletos, trabalho, etc e tal, será que podemos deixar essa revolução pro dia 8? Afinal de contas hoje, esqueceu?, é feriado.

Dá uma super vergonha da gente ser assim, mas, talvez, quem sabe, essa propensão a inércia seja uma vantagem evolutiva e quando formos atacados por ETs só os brasileiros sobrevivam por essa espetacular e vergonhosa capacidade de não se revoltar. Um povo único que só se move em casos extremos, como Dom Pedro com a sua incontinência.

O que conversar em aglomerações

Estou há quase seis meses em quarentena e, sim, sinto saudades de pessoas. De certas pessoas. De algumas, durante essa pandemia, descobri, até quero distância. Por diversas razões. Quem disse que não há males que vem para o bem?

Mas, na boa, muito me espanta esse povo que fura quarentena pra ficar aglomerado nas ruas do Leblon. Não acho possível que sejam movidos por uma irresistível saudade de alguém ou pela falta de contato humano. Pra mim é só o capricho básico de se achar melhor e mais protegido por Deus do que os outros.

Uma outra coisa que me intriga é o que diabos esse povo conversa nessas aglomerações. Durante a pandemia eu comecei a exercitar um grande diálogo interno e muitas vezes, quando sinto vontade de expressar algo, descubro que só ter pensado é suficiente. Afinal quem precisa saber que amei aprender a fazer crepioca, que o livro da Aline Valek reforçou a minha convicção num processo gradual e consciente de extinção da raça humana, ou que estou cheio de saudades de ir na Baratos da Ribeiro? Óbvio, ninguém.

A maioria das coisas que pensamos, aprendi, não merecem expressão e boa parte das coisas que expressamos mereciam ter sido repensadas. Por isso, o mistério. O que diabos esse povo fala nessas aglomerações?

Tenho minhas apostas. Devem elogiar a cloroquina; fazer elegias do em breve extinto Paulo Guedes; babar pela Micheque e pela suposta virilidade do coiso; contar das vezes que ralaram e rolaram com a Flordelis; discutir o quanto pagam a milicianos ou a ALERJ para conduzirem negócios escusos em seus currais; debater quem seria melhor presidente, o Dória ou o Huck; perguntar em qual candidato do partido Novo o colega vai votar; comentar o quanto acreditam que Damares é bem intencionada; e reforçar que, apesar dos pesares, ainda preferem o Crivella ao Freixo. Será que esse papo vale o risco de morrer (e matar) de CoVid? Eu acho que não e por isso vou aqui exercitando o meu diálogo interno enquanto o povo bebe em pé na Dias Ferreira e revela a sua soberba mediocridade.

Mas não vamos culpá-los. Infelizmente pensar não é pré requisito para falar, mas, pra manter o distanciamento social, é.

Vale Tudo e as origens do bolsonarismo

Só pra começo de conversa, bolsonarismo não existe, pois bolsonaro (em minúsculo) é minúsculo e não tem ideias. São as ideias que têm bolsonaro. Ele simplesmente se tornou o receptáculo de uma série de preconceitos, discursos de ódios e conceitos retrógrados. Como um ralo sujo reuniu e consolidou um rio de esgoto respeitando simplesmente a lei da gravidade. Mas, por fins de simplificação, vou chamar esse esgoto represado de bolsonarismo. Dito isso vamos ao tema em si.

Semana passada comecei a reassistir Vale Tudo. Foi uma novela que acompanhei quando tinha 12 anos e que até hoje lembro de muitos momentos. Guardo um em especial na memória: quando Marco Aurélio derruba a porta do filho pois acha que ele é gay por estar ouvindo música clássica. “Que imbecil” me lembro de ter pensado na época e comecei a ficar com uma raiva eterna de gente rica preconceituosa e de mau gosto que só dá valor a dinheiro. Quem disse que novela não tem caráter educacional?

Mas óbvio, rever não é ver, e 32 anos criaram uma super sensação de estranheza com a obra. Fora a enorme quantidade de fumantes, a fixação nas cenas de Antônio Fagundes de cueca e o excesso de tempo perdido em cenas longas sem diálogo ou sentido pra vender trilha sonora, algumas coisas parecem realmente exageradas. Uma delas é o grupo de personagens.

Ao contrário das novelas atuais que seguem a linha do maniqueísmo soft onde os bons são sofridos e cometem o mal por vingança, e os maus não são tão ruins pois tem suas razões para terem ficado assim; em Vale Tudo todo mundo, com o perdão da palavra, é filho da puta. Todo mundo precisa e dá suas voltinhas, afinal o Brasil, como a novela preconiza, é assim. Não escapa ninguém. Seja em pequenos ou grandes atos todos estão a fim de se locupletar. Até mesmo a musa do bolsonarismo: Regina Duarte, a Raquel.

É, a Raquel. A otária que tomou uma super manta da filha e vem ao Rio de Janeiro pois está “preocupada com ela”; a reacionária que se aproveita da bondade alheia e gosta de dar lição de moral nos outros; a mulher que acha que todo mundo está errado e só ela está certa. A epítome do passivo agressivo, uma filhote da ditadura em plena nova república.

Imagino bolsonaro, ostracizado do exército depois de conspirar em busca de aumento de salário, assistindo essa novela, enquanto concorria para vereador em 1988, pensando: “A Raquel tem razão, esses filhos da puta desonestos, ricos e pobres, acabaram com o Brasil”. Ou como Raquel diz num dos primeiros capítulos da trama “Me recuso a acreditar que o Brasil não tenha jeito”. Mas o que ele e Raquel não sabem é que o Brasil não precisa ter jeito, pois ele não é um carro que precisa de conserto, mas sim uma ideia e uma comunidade que precisa de acordo e diálogo. O que Raquel nunca teve com seu marido, um artista que ela odeia, e nem com a sua filha, que, sim, deu a volta na mãe. mas teve a coragem e o desejo que sua mãe sempre evitou. 

Assim, ignorante da sua própria mediocridade, como Raquel vendendo sanduíches na praia, bolsonaro se tornou vereador, acreditando ser possuidor de uma moral superior ao resto do mundo, montando a sua banquinha de “venda” de salários na câmara municipal com Fabrício Queiroz, o seu “Poliana”, com o único propósito de se vingar do mundo. Sim, pois em Vale Tudo todo mundo é filho da puta, especialmente a Raquel.

E agora, 32 anos depois, somos governados por uma sensação de ranço feita em carne, por uma Raquel hiper-realista: uma hipócrita, corrupta, vingativa e ignorante, metida a moralista. O que fazer?

Talvez a resposta esteja num exemplo no próprio Vale Tudo. Minto quando digo que todo mundo é filho da puta em Vale Tudo. Há pelo menos um ser humano decente lá: Eugênio, o mordomo. Empático, culto, dedicado e humano. Um homem de gostos simples mas refinados, sempre pronto a proteger Heleninha. Um exemplo pra todos nós. Mas vive numa caverna. Como todos nós. E talvez isso o faça um filho da puta também. Afinal, “Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados”.

E é essa omissão da qual Eugênio e nós somos culpados que tornou o Brasil esse Vale Tudo da vida real. É, Cazuza, qual é o nosso negócio? Por que a gente é assim?

O escritor carioca confinado

Toda vez que compartilho algum texto meu com colegas que não moram no Rio, recebo sempre a mesma crítica: “Pra que diabos você precisa ficar dando nome e endereço de tudo?”.

Entendo a crítica, compreendo a irritação, mas, sorry, não posso fazer nada.

É a sina do escritor carioca trampar de guia turístico. Machado de Assis fez isso, Joaquim Manuel de Macedo fez isso, João do Rio inclusive, olha a bandeira, tem um livro chamado A Alma Encantadora das Ruas. Avançando pelo século XX, Stanislaw Ponte Preta, e até os estrangeiros, como Nelson Rodrigues e os Rubens, Fonseca e Braga, se renderam a essa literatura de Guia Rex. O escritor carioca precisa mostrar de onde e a que veio. Afinal, pré pandemia, era um prazer flanar por essa cidade.

Por isso escrevo que os personagens avançaram a pé pela Tonelero ao invés de pegar a Barata Ribeiro. Isso é importante pra história e nos fala das escolhas que os personagens fazem e do que eles são feitos. Quem escolhe atravessar o Túnel Velho a pé pra chegar em Botafogo é diferente, e muito, daquele que pega um táxi e segue pela Lagoa subindo o corte do Cantagalo. O sujeito que chega no Méier de lotação é de outra espécie do que aquele que vai de trem e cruza a linha pra chegar do outro lado.

O escritor e o personagem cariocas são feitos de escolhas de onde ir e como chegar. Não tem grandiosidade, só pequenos dramas exagerados. Por isso a literatura do Rio é feita de gente discretamente escandalosa e de esquinas e lugarezinhos. Por isso não há literatura na Barra da Tijuca, lugar que nem deveria fazer parte dessa terra. Por isso, a literatura carioca não foi feita só pra se ler, mas para se andar.

Hoje, tentando terminar um conto que protelo desde meados de junho, esbarro num desses dramas. Os personagens deveriam ir pelo Joá ou pela Lagoa Barra? Como esse é um ponto central na história, confesso, fico paralisado. Sem poder botar os dois caminhos à prova, me pergunto o que será da literatura carioca sem o flânerie. Mas lembro da elite ignara que enche as ruas do Leblon durante a pandemia e tenho certeza: graças a esses miseráveis, caminhar pelo Rio nunca mais terá graça.

O Rio de Janeiro pode voltar a ser uma cidade turística?

O novo secretário do turismo, empossado ontem, aposta que dessa vez que o Rio voltará a ser um destino turístico.

Tentando apagar as duas décadas de estigma, após a terrível pandemia dos CoVid-19/20/21 que matou 93% da população e transformou o Rio de Janeiro numa grande cova coletiva, o novo secretário do turismo, Benício Huck, empresário e filho do ex-presidente Luciano Huck, garante que a proclamada cidade da morte do século XXI voltará a ser conhecida como uma cidade maravilhosa, assim como no século XX.

– A pandemia já está controlada há 7 anos e aprendemos a lição. A população que permaneceu é bem consciente e nossas belezas naturais estão em plena recuperação- declara Benício.

Com apoio da iniciativa privada, nos últimos anos a prefeitura reformou o centro histórico e recuperou o Aterro do Flamengo, destruídos pelos incêndios gerados pela população para se desfazer dos corpos que se amontoavam pelas ruas. Nos próximos dois anos ainda estão previstas a recuperação da orla, onde ainda se descobrem ocasionalmente corpos infectados tanto no mar como na areia, e da Floresta da Tijuca, destruída a mando do ex-presidente Jair Bolsonaro por um bombardeio de Napalm como uma tentativa de incendiar a cidade inteira e impedir a propagação das mutações do CoVid aqui surgidas.

– Sim, a população da época foi criminosamente negligente e por quebrar as regras de isolamento social transformou a cidade num símbolo da peste, mas isso vai mudar- garante o secretário.

Organizações que representam os cariocas sobreviventes da pandemia não apoiam esse plano. Joana Carvana, presidente da Funera-RIO, reforça que o plano do secretário além de desrespeitoso pode repetir um erro:

– O secretário precisa recordar que seu próprio pai numa atitude de populismo midiático tentou um plano parecido e gerou uma nova onda de CoVid que colocou a cidade em lockdown por dois anos e matou 400 mil pessoas. Uma nova tentativa frustrada pode condenar o secretário ao mesmo destino do presidente que não ouso dizer o nome.

Joana Carvana se refere ao ex-presidente Jair Bolsonaro que, após ser condenado por genocídio pelo tribunal de Haia, se encontra escondido com seus familiares no território das guerrilhas milicianas que tomaram o centro-oeste brasileiro.

O secretário rebate as declarações de Joana e das demais organizações de cariocas sobreviventes:

– Esse alarmismo nos impede de recuperar a cidade. Uma vida com medo paralisante é pior que tomar riscos controlados.

O fato é que o forte cheiro de carniça ainda se mantém na cidade e é comum os moradores sobreviventes declararem ver os fantasmas de antigos cidadãos, tanto os mortos pela pandemia e como os assassinados pelo governo Bolsonaro.

– Os mortos não descansaram. Continuam por aí. Pela culpa de terem votado errado ou minimizado a pandemia- declara Walter Chaves, um famoso autodeclarado médium. – Os erros terrenos de duas décadas vão demorar centenas de anos para serem revertidos espiritualmente. Se apenas soubéssemos onde iríamos parar talvez o povo tivesse sido mais consciente. Infelizmente agora é tarde demais.

O plano do secretário dará resultado? Só o tempo dirá. Ou será que Walter Chaves tem razão e já é tarde demais?