Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Extinção

Naquele último domingo todo mundo acordou cedo. Era um dia frio, frio mesmo, no mundo todo. E não choveu. Em lugar algum. Do mundo inteiro.

As pessoas, após acordarem, olharam pelas suas janelas e não se entristeceram com o céu cinza chumbo que circundava a Terra. Apenas sorriram e resolveram fazer as coisas que mais gostavam. Algumas foram trabalhar, mesmo sem precisar; outras visitaram parentes ou amigos; e muitas, mas muitas mesmo, foram pros parques e orlas passear e estar com pessoas que não conheciam.

E todos ficaram calados. Os trabalhadores se concentraram nas suas tarefas; os que visitaram outros apenas os abraçaram cheios de amor; e os que saíram às ruas simplesmente sorriam uns para os outros. E todos, mas todos mesmo, vez ou outra paravam o que estavam fazendo para olhar o céu. Aquele céu cinza chumbo. E sorriam, sentindo que o céu, como uma camada de proteção contra algo muito ruim, os defenderia o máximo possível contra qualquer mal.

Quando começou a anoitecer, as pessoas deixaram o trabalho, as famílias, os amigos, os parques e as orlas com uma sensação de dever cumprido, e se despediram umas das outras com acenos de cabeça discretos e sinceros. A hora, todos sabiam, tinha chegado.

Naquele último domingo, todo mundo foi dormir cedo. Tomaram banhos quentes e longos, botaram pijamas confortáveis e se esconderam do frio sob pilhas de cobertores aconchegantes. Quando todos, mas todos mesmo, já estavam sonhando, o céu cinza chumbo também resolveu partir e deu lugar a um incrível azul que ninguém pôde ver. Aos poucos, tudo, como o céu, também começou a ficar azul. As ruas, as florestas, as fábricas, as máquinas, os prédios, as casas, as pessoas. E esse azul, aos poucos, grau a grau, abaixou a temperatura com muita gentileza e cuidado até que todos, mesmo embaixo de seus grossos cobertores, estivessem congelados e preservados para as futuras gerações que não viriam.

E, assim, o dia e o mundo acabou.

Dezenas, centenas, milhares de anos passaram e todas as construções humanas ruíram. Nada que evidenciasse a nossa presença sobrou. Como uma piscadela do universo, sumimos no tempo.

Mas foi bom, bom mesmo, pois naquele último domingo tudo foi perfeito. Em 30 mil anos de consciência, naquele último momento, por pelo menos um dia, soubemos viver.

A humanidade, como um sonho de uma noite de verão cheio de som e fúria, veio e foi sem alarde, retornando a ser o pó de estrelas que nunca deixou de ser. Sem orgulho ou vergonha simplesmente fomos, simplesmente nos fomos. E nada ficou, pois nada fica. A não ser os céus azul e cinza chumbo que com carinho nos colocaram pra dormir.

Ninguém sabe mais pedir desculpas

Mais do que os abusos que são cometidos por pessoas sem noção, o que parece mais nos deixar revoltados são os seus pedidos de desculpas. Quer dizer, as tentativas de pedidos de desculpas, pois, sinceramente, não há o menor pingo de verdade em nenhuma delas.

Ao invés do famoso “eu estou/estava/agi errado, me desculpe/perdoe” que denota a passagem de poder do lado agressor para o agredido ao outorgar-lhe a habilidade de absolver seus pecados ou aliviar a sua culpa, o que esse pessoal normalmente diz é: “lamento/sinto muito se eu ofendi alguém/você, não foi a minha intenção/propósito”.

Segundo Análise do discurso 101, eles não acham que estão errados. E isso é o que mais nos enfurece. Eles “estavam” certos, e você, burro, não entendeu as suas intenções ou, pior, floquinho de neve, se ofendeu sem motivo. E, por isso, eles lamentam. Muito. De coração.

Quando vejo esses tipos tentando botar panos quentes nas besteiras que fizeram, enquanto choram que suas vidas acabaram ou que foram cancelados no twitter ou coisa que o valha, só consigo botar a culpa de tudo isso no “Gratidão”.

É, você já deve ter notado ou mesmo aderido ao termo. Nos últimos anos, ao invés de falar obrigado, muita gente começou a usar “Gratidão”. Eu até entendo a lógica por trás disso, mas os efeitos colaterais são nefastos, como vemos na popularização do “sinto muito”, que era um termo que se usava basicamente em inglês.

Tanto “sinto muito” como “gratidão” denotam como o emissor da comunicação se sente. “Obrigado” e “me desculpe” são sobre laços. Se você faz algo legal pra mim e eu respondo “obrigado”, estou estabelecendo um compromisso (estou obrigado ou “a la orden”, em espanhol) a retribuir o favor ou gentileza. Com “Gratidão” eu simplesmente informo como me sinto e te deixo a ver navios. Se vira, malandro.

Mas, pensando bem, num mundo onde todo mundo tem a sua voz e desaprendeu como escutar os outros, não existem termos mais adequados. Sinto muito se o ofendi com esse texto e gratidão por tê-lo lido até o final. 😉

Primeiro Ato

Olho para o que restou de 3 anos e 9 meses de trabalho: alguns livros, cds, crachás de eventos, contracheques e uma papelada terrivelmente inidentificável. Encaro a derradeira decisão: o que levar, o que deixar? Mais da metade disso, é óbvio, vai pro lixo. O resto coloco na minha mochila, presumindo que terá serventia. É um engano. Não terá.

Vou pra reunião em que anunciarão a minha despedida. Depois dos assuntos de praxe, o chefe pede a palavra:

– Agora um assunto fora da agenda- limpa a gargante. – Um dos caras mais criativos com quem trabalhei, não, na verdade, sem dúvida, o cara mais criativo com quem trabalhei está nos deixando.

O grupo não reage. Na minha fantasia teria gente rasgando as vestes. Sou criativo demais pro meu próprio bem.

– Esse cara,- o chefe continua- para quem a gente apresentava os problemas mais insolúveis e que, em dez minutos, arrumava uma solução para eles está indo embora.

O chefe bate no peito para representar que está com a voz embargada. É teatro, mas aprecio o esforço.

– Vai lá, cara- alguns se manifestam.- Fala alguma coisa.

Me levanto constrangido e vou para a frente do grupo. Olho a cara de cada um. Alguns amigos, muitos conhecidos, poucos, graças a Deus, desafetos.

– Vai, fala- clamam.- Tu vai pra onde?

Todo os meus planos de manter em segredo a maior parte do que iria fazer vão por água abaixo. Conto a empresa para onde vou, o cargo que vou assumir, a gerência em que vou trabalhar e a cidade onde vou morar.

– BH? -se espantam.
– É, BH.

A reunião termina e as pessoas, como num casamento, fazem fila para me cumprimentar. Parabéns, boa sorte, é uma perda, sei que vai se dar bem lá. Obrigado, valeu, eu sei, espero que sim. Algumas pessoas me abraçam, outras oferecem um aperto de mão, poucas me surpreendem e choram. É estranho descobrir que você vai fazer falta.

– E aí? Onde você vai pagar o almoço?

Rio amarelo e vamos prum galeto daqueles clássicos do centro da cidade. Linguiça, pão de alho, lembranças e cerveja. Bebemos e comemos o suficiente para não dormir sobre as mesas e voltamos pro trabalho.

Envio o e-mail de praxe avisando aos que não trabalham diretamente comigo que estou deixando a companhia. As respostas chegam rapidamente. Alguns vem a pé de suas estações de trabalho. Outros respondem à mensagem eletronicamente com ironias e deboches amigáveis. Algumas hipocrisias. Algumas sinceridades surpreendentes. A melhor de todas foi um cara que, ao saber, olhou para mim assustado e disse “Fudeu!”. A pior foi a minha desafeta número um batendo no meu ombro e desejando sucesso, longe dela.

Enrolo até o final do expediente e depois parto para o chopp regulamentar. Poucos e bons me acompanham. Livre das amarras da necessidade de manter o emprego, falo o que penso. Livres por estarem falando com alguém não poderá deixar escapar verdades inconvenientes, eles falam o que pensam.

O álcool sobe às cabeças e um a um os últimos companheiros vão abandonando o bar. De repente me encontro sozinho. Pago a conta como prometi e pego um taxi. No caminho o taxista pergunta:

– Pra onde?
– Pra BH.
– BH? Essa corrida vai ficar cara pra caralho.
– Botafogo, botafogo.
– Ah, tá.

O centro do Rio se afasta fisicamente de mim, o prédio onde trabalhei por tanto tempo começa a se desvanecer da minha memória e sinto uma certa inquietude. Estarei fazendo a coisa certa? Sim, sim. Não há dúvida. Nada reflete melhor o futuro do que o que acontece na despedida do passado.

Fim do Primeiro Ato. Plot Point.

Batman e os fascistas de 12 anos

Hoje de manhã estava preparando o café, quando me toquei como O Cavaleiro das Trevas tentou me tornar um fascista aos 12 anos. O ano era 1987, eu estava na 6a. série e um amigo trouxe aquela edição da Abril em formato americano pra escola. Babei.

A arte de Klaus Janson, sim, ao contrário do que dizem os créditos, além da arte final, foi ele quem desenhou, era poderosa, crua e fenomenal; ao mesmo tempo que respeitava o modelo das quatro cores, Lynn Varley tornava-as mais sombrias; e o texto de Frank Miller tinha uma profundidade, que hoje sei que é super clichê, mas que na época pra mim e pro usual dos quadrinhos era novidade. Óbvio que virou um clássico. Pra mim e pro mundo.

Aquele Batman amargurado, lutando contra um mundo do qual ele não faz mais parte, onde os políticos e os símbolos nacionais são usados por corruptos, era tudo o que um pré-adolescente precisava como um guia para se tornar fã de governos autoritários e adepto do culto a personalidades. Ainda mais vivendo na “nova” república comandada por um dos caciques da antiga Arena, fingindo que a ditadura já tinha acabado, tudo aquilo tinha uma ressonância especial.

Todo mundo meio que radicalizou na época, achando que replicar o Cavaleiro das Trevas era punk, mas na verdade era bem fascistinha. Tanto nas idéias como na estética. Lembro de, na época, ter emprestado a revista inúmeras vezes, tanto pra quem queria discutir a sua “filosofia” como pra quem queria copiar o visual dos Filhos de Batman pra ir a festas a fantasia. Dava a impressão que ia ser um desses timeless classics, mas, como muita coisa, não resistiu ao teste do tempo.

No ano passado reli e, apesar de ainda enxergar a qualidade na execução e o esmero nos detalhes, achei uma besteira só. Um velho impotente, tentando reviver fantasias de poder da juventude, joga a cidade, que ele podia salvar com dinheiro e gestão, num caos completo, pra provar que é macho e reviver suas paixões pedofílicas. Uma espécie de modelo pros fascistas de hoje. Uma fantasia de passado glorioso que precisa ser reinstaurada através da violência contra grupos “maléficos” que um líder supremo considera desviantes.

O Cavaleiro não ficou pior, nem melhor, fui eu que, graças a Deus, cresci. Uma pena que tanta gente velha ainda curta essa fantasia escatalógica como meninos de 12 anos, ainda traumatizados pelo complexo de castração e atemorizados pela impotência vindoura.

Assim que cheguei nessa conclusão, abandonei esse pensamento, terminei meu sanduíche e fui tomar café. Batman, fascistas e afins ainda deviam estavam acordando para suas alucinações conspiratórias, mas eu já precisava trabalhar. Afinal, ao contrário do que os batmaníacos fascistas desejam, o mundo não acabou. Ainda.

Are you In or are you Out?

O conflito, ou como dizem por aí, a polarização política que vivemos nada tem a ver com modelos econômicos. Ele vai muito além do controle dos meios de produção. O conflito que vivemos atualmente é a respeito de identidade.

De um lado temos aqueles que consideram que a identidade nos é dada por agentes externos imaginários: Deus, Pátria e Família. Do outro, aqueles que precisam descobrir quem são e (re)construir suas identidades através das relações com o mundo. Um se voltam pra fora, out; outros, pra dentro, in. Ou você é In ou você é Out.

Quem é out é dominado pela preguiça e pelo medo. Aliena o seu poder a um terceiro e se violenta para conformar a um papel que nunca se encaixará. Tudo em busca de previsibilidade e segurança idílicas.

Quem é In não tem essa previsibilidade nem essa segurança. A vida é menos controlada e sujeita a altos e baixos.  Muitas vezes extremos. Porém há inclusão, amor pela diferença e coragem em se assumir diferente frente a um mundo que poderá não te aceitar.

Eu poderia argumentar, como já fiz no passado, que as pessoas tem direito a suas posições, que há um meio de caminho a se encontrar, que é possível uma convivência pacífica entre essas diferentes visões de vida. E de morte. Eu estava errado. Fui negligente. Já passamos, e muito, da época de contemporizar. É preciso tomar uma posição.

Precisamos defender a nossa independência e o nosso poder de sermos os responsáveis pelas nossas identidades. Não podemos mais deixar que outros se achem no direito de ditar quem somos na defesa de uma segurança que não existe. Afinal, o ponto máximo da conformidade e da uniformidade é a morte. Nela todos somos iguais. E hoje, no Brasil, esse governo terrivelmente Out conseguiu nos tornar 100 mil vezes iguais.

Precisamos assumir que somos In e tomar o partido da vida e da diversidade que advém dela. Só assim conseguiremos deter esse império necrofílico que se apoderou de nossas terras.

Mas não basta eu dizer a que vim. É preciso cobrar isso dos outros, traçar nossas alianças, estabelecer nossos planos de ação. É preciso cobrar isso de você. Sim, de você. Qual será a sua posição? “Are you In or are you Out?”

Cartas para a redação.

Ele venceu

Ontem, finalmente o jornal não veio mais. Quase não percebi. Cancelei a assinatura há um mês, e, por conta de um crédito devido a postergações e suspensões, iria continuar recebendo ele durante um tempo. Ontem, acabou. Nem fez diferença. Não o lia mais.

Dobrado como chegava em casa, dobrado e não aberto, ele ia pra lixeira. Nem as palavras cruzadas, que tanto amo, e eram a minha recompensa mental após ler tantas tragédias, eu fazia mais. Tinha medo de encontrar com ele.

Podia ser num desafio, numa foto, numa charge, numa notícia. Eu tinha medo de vê-lo. Só a sugestão do seu nome já me dava, e dá, asco. Se alguém fala B-O, eu já interrompo a pessoa:

– Você não vai falar dele, não, é?

Na televisão também estou escapando. Começa o jornal, eu ponho no guia de canais e procuro algo pra me entorpecer:

– Olha, tá passando O Diabo veste Prada de novo.

Confesso, cansei. Confesso, desisti.

No início da pandemia, fazia coro com os outros moradores da São Salvador e gritava pela janela como se dissesse palavras mágicas que tivessem o poder de exorcizá-lo. Às vezes, a gente encontrava resistência de um apoiador dele e o panelaço virava bate boca. Mas não durava muito, a nossa voz era mais forte.

O tempo passou, a pandemia se estendeu e aos poucos, nossa voz foi minguando. Não fui mais a janela e, quando alguém gritava, eu olhava pro relógio e alertava minha mulher:

– Deu oito horas.

A nossa indignação virou sino de igreja: um hábito sem sentido.

Ontem, o jornal não veio mais. Ontem, não assisti televisão. Ontem, percebi, ninguém grita mais às oito horas. Cansamos. Ele venceu.

O excesso de abuso, desrespeito e ignorância se tornou um lugar comum. Os absurdos, a falta de humanidade, o ódio e o sarcasmo não nos chocam; depois de tanto apanhar ficamos anestesiados. Como reféns de longos sequestros, consideramos o cativeiro normal. Chegamos ao ponto em que consideramos que o câncer veio pra ficar e, completando o ciclo do luto, aceitamos: o país morreu. 100%, figurativamente. 100 mil pessoas, literalmente.

Mas, eu te digo; todo dia, quando dá oito horas eu vou até a janela e sinto vontade de gritar. Sinto vontade de rasgar as minhas cordas vocais e vociferar toda a minha indignação com a excrescência que a vida comunal no país se tornou. Mas tenho medo.

Tenho medo que meu grito abafado não encontre mais ouvidos vivos dispostos a apoiá-lo. Tenho medo que os seguidores dele respondam e, dessa vez, a sua voz seja maior. Tenho medo que o país tenha se tornado a Utopia dele e a minha Distopia. Tenho medo.

Por isso, vou à janela calado e rezo. Rezo para que algo mude; para que quando sairmos de nossos bunkers, ao fim da pandemia, a natureza esteja florescendo e esse filme de terror esteja no passado; rezo para que algo se acenda no coração da população. Pois, no meu, a chama morreu.

Mas aos que perderam a força ainda resta a fé. Isso ainda tenho, mas me pergunto: o que restará quando a fé acabar? Rezo para que não precisemos responder a essa pergunta.