Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Até parece

Finalmente apareceu. Mas parece que não era tudo isso. Parecia ser melhor, parecia ser pior, mas nunca era o que parecia ser. Até parece que seria, né?

Mas parece que ia aparecer de novo. Mas não apareceu. Desapareceu. Pra sempre? Parece que sim. Parece que não. Depende pra quem você pergunta. Pra uns “pra sempre” parece interminável, pra outros parece que “pra sempre” não existe. Até parece que vai demorar, mas o que desaparece sempre aparece. Pelo menos é o que parece.

Mas a gente fia muito nas aparências e acaba que o que parece ser nunca aparece como deveria parecer. Sim, é até parecido, mas parece que para por aí. Parece que a gente sempre deixa as nossas fantasias se intrometerem na nossa percepção e PIMBA! O que parecia ser não é. Até é, mas, no fim das contas, tudo assim é se lhe parece. Isso é de quem mesmo? Não lembro, mas parece Pirandello. Ou algo parecido.

Mas dá pra dizer que algo é mais do que parece ser? Se a gente até parece ser, pra gente mesmo, uma pessoa e depois descobre que a gente não é nada do que parecia ser, imagina o resto. Parece até que somos vítimas das aparências. Dá uma vontade de desaparecer, mas a gente não desaparece e tudo que era pra ficar desaparecido parece que reaparece.

Afinal quem é vivo sempre aparece. Mas depois desaparece. Nunca pra sempre, pois aparece nas nossas memórias, nas nossas piadas, nas nossas emoções. Parecido com um vento quente, parecido com um calafrio, parecido com aquilo que a gente nem achava que era parecido, mas parece que é, mas não é.

E agora? Apareceu. Parece que sim. Calma, calma, não. Já foi. Desapareceu. Mas fica tranquila que daqui a pouco aparece de novo. Parece que vai aparecer. Então, fica aí, não desaparece e, se precisar sair, não esquece da gente e vê se aparece.

Posso confiar em você? Você parece confiável. Até parece.

O streaming que eu precisava aos 12 anos

Não adianta fazer muito rodeio. O lance é que eu gosto bastante dos seriadinhos da DC. São honestos, não se pretendem mais do que conseguem entregar, e ao mesmo tempo conseguem ir além do que você espera. É como ler quadrinhos quando você tem 12 anos. Tudo é ao mesmo tempo vulgar e fantástico; amador e genial.

O engraçado é que quase não consigo mais ler os quadrinhos de super heróis de hoje. A continuidade estendida, o excesso de reboots, linhas do tempo e plotlines tornou a tarefa enfadonha e trabalhosa. Pra piorar, os autores parecem que se sentem da mesma forma e transformaram todas as histórias em peças irônicas e autorreferenciais, que discutem as falhas do gênero como uma maneira de pedir desculpas pela falta de imaginação.

Os seriadinhos, por outro lado, abraçam sem pudor o material e o sentimento de onde surgiram. São peças não de homenagem intelectual, mas de quase, como disse Mamet sobre o Teatro, “(…)uma comunhão entre o público e Deus, moderada por uma peça ou liturgia criada pelo dramaturgo.”. Uma espécie de “celebração do mistério”.

Tá, sei que estou exagerando, e, além disso, confesso que não assisti muito. Vi umas duas temporadas de Flash, uns episódios esparsos de Supergirl e Legends of Tomorrow, e agora estou curtindo uma paixonite com Doom Patrol. Mas tudo é tão sincero, simples, infantil e, ao mesmo tempo, adulto, que não consigo deixar de expressar a minha admiração.

Pra acertar na emoção não pode ter medo de ser brega

Vendo Doom Patrol, tenho quase a mesma sensação que tive quando comecei a ler os quadrinhos da pré-Vertigo; Animal Man, Sandman, Orquídea Negra, Monstro do Pântano, Hellblazer… Cara, teve seriado de uns deles já, não?

Melhor não tentar racionalizar. Vamos só curtir esse sentimento e não nos deixar contaminar pela idade adulta ou pelos ratings e discussões da internet. Mas não custa perguntar: alguém pode me dizer se Monstro do Pântano e Constantine são legais também? Um “amigo” quer saber…

Fim de Hiato

Chegamos.

Os gatos fingem ignorar a nossa presença, mas, assim que podem, deitam sobre as malas dizendo: “Daqui vocês não saem mais”.

Agora, dou razão a eles. Foi um risco sair, mas tomamos todos os cuidados. Máscaras; álcool gel (ou em gel), nunca vou saber qual é o certo; distanciamento social; medidas sanitárias; café da manhã com horário marcado; the works. A prevenção foi total, ou quase, mas o medo sempre permanece. Principalmente quando esbarramos, figurativamente, graças a Deus, com tanta gente que claramente não está tendo o mesmo cuidado. E como tem gente assim.

Mas, considerando todos os riscos, foi preciso sair. Pelo menos um pouco. Pegar sol; ver a minha mãe; ver as estrelas; comer um Cervantes Especial; pisar da areia, na terra, na grama, nas pedras, no chão; entrar no mar. Ah, mar; oh, mar. Lembrar que, apesar dos pesares, ainda existe um mundo lá fora do qual podemos sentir saudades. E para o qual queremos voltar, assim que isso tudo passar. E vai passar. Vai? Claro que vai. Espero.

Sim, gatos, estamos de volta. De volta pra encarar mais 4 meses de quarentena; ou mais quantos forem necessários até isso tudo passar. Revigorados, sim, esperançosos, sim, mas saudosos de um tempo que, sabemos, não voltará mais.

Desacostumados com o nosso lar, usamos o resto do domingo pra desopilar, relaxar, nos reacostumar, aterrisar; e, enfim, com a nave no chão, vamos dormir.

Desperto de sonhos “in”, tranquilos, e não virei uma barata, mas a gata dorme sobre as minhas pernas, dizendo: “Dessa cama você não sai”. Pelo menos até ela ter fome.

Eu deixo. Também tive saudades.

É bom ir, mas é melhor voltar. Tamos aí, até algo mudar.

O som e a fúria de Alan Parker

Alan Parker me acompanhou em muitas fases.

Quando eu era um angry young (and depressed pre teen) man e tentava lidar com a morte simbólica da família, eu assistia a The Wall regularmente. Inclusive é o único disco que eu tenho do Pink Floyd, uma banda, que ninguém nos ouça, eu acho superestimada.

Aos 17 anos, assumi o absurdo da vida, me tornei harpo-marxista e, enquanto todo mundo babava pelos gangsters realistas de De Palma e Copolla, eu me divertia com a paródia fantasiosa de Paul Williams, Bugsy Malone. Um outro disco bem exótico que tenho em vinil.

No início dos meus 20 anos, todos os sábados, meu programa era assistir a sessão da meia noite de The Commitments no Cinema Cândido Mendes. O que começou como uma reprise inusitada acabou se estendendo por uns seis meses e nas últimas exibições o povo cantava junto quase como se estivéssemos no Rocky Horror Picture. Não era só um filme, mas um experiência de vida. E, sim, também ainda tenho os dois discos de vinil da trilha.

https://www.youtube.com/watch?v=PKfHC5eY5CI

Olhando pra trás, por mais que disesse na minha juventude que eu odiava musicais, eu amava os filmes do Alan Parker. Não eram o que eu, na época, chamava de musical, como Cats e Evita, que ele mesmo filmou e se deu mal; mas eram filmes de e sobre música. Filmes que pelas imagens, pelas histórias, pela estrutura e pelos seus personagens me fizeram amar a música, mesmo que tivesse pouca compatibilidade com ela, como é o caso de The Wall.

Se, como dizem na peça escocesa, a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum, quando esse idiota é Alan Parker, o som se torna a mais bela música e a falta de sentido se torna um sentido em si. Nós, o restante de idiotas da humanidade, agradecemos.

#RIP Alan Parker.

Em tempo

Não tem quase nada de Alan Parker nesses serviços de streaming que não chegam aos pés de uma videolocadora de bairro. Tá na hora de corrigir isso, não?

A Patrulha da Desgraça

Sempre dou graças a Deus pelas invasões inglesas aos Estados Unidos. No Rock, os Beatles mudaram tudo, mesmo com aquele visual careta que depois ficou doidão. No cinema, os publicitários ingleses ensinaram a Hollywood uma nova estética que foi a única coisa de interessante que restou nas telas dos anos 80, depois que o blockbusters comeram vivo o cinema autoral dos 70. Nos quadrinhos… Moore, Pat Mills, Gaiman, Morrison. Morrison.

Pra mim, tudo começou com uma edição americana de Animal Man achada na Siciliano do Rio Sul. Era uma das histórias que fazia parte do ciclo da Invasão, mas não parecia com nada do que eu tinha lido. Um super herói suburbano, com mulher e dois filhos, vestindo uma jaqueta de couro que nada combinava com o seu colant, tentando voltar pra casa, esbarrava com uma invasão de robôs desastrados liderada por um vilão com cancer que queria se suicidar. Sim. Era isso. Só isso. E tudo isso.

Acompanhei todo o arco de Animal Man até o momento em que Morrison aparece na história para explicar o segredo do universo: todos somos ficção. Eu acreditei e acredito até hoje. Óbvio que ia ler e seguir a sua fase na Patrulha do Destino. O seu ciclo na Patrulha terminou como em Homem Animal, com uma história fora do padrão onde tudo não passava de uma ficção na mente de Crazy Jane. Ou não. Uma ficção mais forte que a realidade, como são todas.

Um pequeno aparte. Uma coisa que sempre me incomodou foi essa tradução de Doom em português para Destino. Sim, faz sentido, por exemplo, no caso do Dr. Doom, mas é pomposo e vago, com o propósito de gerar a sensação de terror por algo iminente.. Para a Patrulha nunca ficou bom. Devido às suas origens e ao (desculpe) seu destino, faria muito sentido chamá-la de Patrulha da Desgraça. Fim do aparte.

Quando fiquei sabendo da série de TV, fiquei ressabiado. Será que iam conseguir ou querer seguir os seus passos? Cheguei numa idade em que tenho boas justificativas para não querer me frustrar mais com as ficções nas quais vou fazer investimento libidinal. Depois de consultar amigos de bom gosto, me enchi de coragem e vi o primeiro episódio. Sinceramente, dentro dos limites da Warner, acho que foram muito além do que eu esperava. Vamos torcer que a esquisitice continue. Sempre.

 

“Bona to Vada”, Patrulha do Destino. Saudades.

 

É a vovozinha

No bar do Beto Palavrão rolava de tudo. Da missa de 7o. dia do Frei Eduardo, o padre mais velho, mulherengo e cachaceiro de Nova Rolândia, até o nascimento de netinho, filho de Junior, e bisneto da fundadora da cidade Dona Rolândia. O bar do Beto Palavrão era o único e último espaço democrático de uma cidade controlada por coronéis, majores e capitães. Um risca faca onde bandidos, polícia nem milícia ousavam entrar. Um templo maior que qualquer Igreja Matriz de novela de Dias Gomes.

Mas pra não desfazer a mística, um espaço tão livre tinha regras. Quer dizer, uma regra. Uma regra inusitada que contradizia o nome e o propósito do próprio bar. Uma regra que juram ter sido estipulada pela própria dona Rolândia quando ela apartou a primeira briga do risca faca na sua noite de lançamento 7 dias após a fundação da cidade. Essa regra, que quase ninguém proferia nem entendia o porquê mas todos guardavam no coração, ficava estampada num pequeno quadro ao lado da caixa registradora logo em cima do livro do fiado. E dizia: “ Aqui pode tudo. Só não pode xingar a avó”.

Assim, quando os ânimos se exaltavam e faltavam maneiras de insultar os outros, seja por chifre, política, sinuca ou novela das 9, o povo se calava pois ninguém podia recorrer ao famoso expediente “É a vovozinha”. E as brigas que pareciam inevitáveis se encerravam como que por mágica.

Mas pra não desfazer a mística, a regra foi quebrada. Uma vez que eu me lembre. E foi justamente com Netinho, o bisneto de dona Rolândia, a mulher que criou o mandamento. Logo depois da morte de dona Rolândia aos 116 anos, após uma briga com o próprio bisneto, Netinho entrou numa fase de dar gosto a psicanalista endividado. Ele foi enganado nos negócios e perdeu sua herança pro coronel Passarinho; a sua vaca premiada virou churrasco na mão do capitão Tenório; e a sua noiva, a virginal e bela Rosalva, quem diria?, fugiu num jipe com um cabo e um soldado na véspera do casamento. Era demais prum homem só.

Netinho, que era não dessas coisas, começou a beber. De quando o sol raiava até quando a madrugada pedia pra dormir. Como não era acostumado como o Frei Eduardo, vez ou outra ele perdia a linha e vinha pro Beto Palavrão puxar briga. O povo sabia o que ele estava passando e aguentava o que podia. Mas chegava uma hora em que o sangue esquentava e os impropérios começavam a voar de um lado pro outro até que Netinho encurralava seus interlocutores de uma forma que eles não pudessem dizer mais nada pois só restava o famoso “é a vovozinha”, e ele saía do bar feliz. Feliz de ter ganho alguma coisa em sua vida desgraçada. Pra espezinhar ainda falava:

– Em briga de moral aqui não tem pra mim.

Calhou que a Sudene foi fazer uma obra na região, daquelas pra acabar com a seca que nunca saiam do papel e só enchiam a carteira dos políticos, e o engenheiro Ricardo, vindo do sul, começou a viver em nova Rolândia e a frequentar o Beto Palavrão. Era um sujeito manso, mas macho, que tinha bom coração mas não conhecia a regra de dona Rolândia. Um dia Netinho chegou no bar com sangue no olho e escolheu o engenheiro Ricardo como seu alvo.

A turma do deixa disso pediu calma, e o engenheiro segurou o quanto pode, mas quando Netinho falou mal do seu time do coração, ele não fugiu da briga. Começou a xingação e Netinho, pela primeira vez, sentiu que ia perder. Engenheiro Ricardo, além dos palavrões comuns, trazia uns que só se falam abaixo da Bahia e a situação complicou. Mas Netinho, que não era bobo nem nada, conseguiu dar a voltaa por cima  e encurralou o sulista que, desconhecendo o mandamento do bar, como último recurso disparou:

– É a vovozinha!

Os clientes de Beto Palavrão se calaram e esperaram Netinho partir pras vias de fato, mas ele não fez nada disso. Ele sorriu, se aproximou de Engenheiro Ricardo, o abraçou e disse:

– Muito obrigado. Muito obrigado.

Nem engenheiro Ricardo e nem ninguém entendeu nada. Em choque viram Netinho partir assobiando em direção ao Cabaré da Jô Outdoor do outro lado da ponte do Rio Seco. Curiosos, o seguiram.

Após a curta caminhada, na barulhenta casa de tolerância e iluminado por aquela luz vermelha e irritante, os clientes de Beto Palavrão viram Netinho ajoelhado em frente a uma senhora que fumava de piteira, tomando um conhaque barato, vestida de corpete e meia arrastão. Uma senhora gorda, velha como tempo, e que, não podia ser, mas era; era a cara da dona Rolândia. Mas não era só a cara; era dona Rolândia, invocada dos infernos pela ofensa à sua honra. Netinho, aliviado e aos prantos, dizia:

– Saudades, vovó. Me perdoa, por favor. Me perdoa.

– Tá perdoado, meu netinho. Tá perdoado- a velha Rolândia respondeu, o abraçou e desapareceu num bafo de fumo.

O povo saiu do cabaré e nunca mais ninguém tocou no assunto. O fato é que a vida de Netinho deu uma reviravolta depois daquilo. Com a ajuda do Engenheiro Ricardo, ele descobriu diamantes nas terras que lhe sobraram; coronel Passarinho e capitão Tenório foram mortos na enchente causada pela explosão da barragem da Sudene; e Netinho acabou constituindo família com Verônica Pá de Cal, a desguarnecida filha do coveiro, que, quem diria?, era secretamente muito bonita. Tiveram apenas uma filha a quem deram o nome de Rolândia bisneta. Em merecida homenagem.

Com o dinheiro que ganhou Netinho comprou um outdoor eterno pra colocar na frente da cidade e anunciar o caminho do cabaré onde fez as pazes com o passado. Em letras miúdas, no canto direito, logo acima do neon dourado, se lia:

“ Bem vindo a nova Rolândia, aqui pode tudo. Só não pode xingar a avó. Seja bem vindo”.