O som e a fúria de Alan Parker

Alan Parker me acompanhou em muitas fases.

Quando eu era um angry young (and depressed pre teen) man e tentava lidar com a morte simbólica da família, eu assistia a The Wall regularmente. Inclusive é o único disco que eu tenho do Pink Floyd, uma banda, que ninguém nos ouça, eu acho superestimada.

Aos 17 anos, assumi o absurdo da vida, me tornei harpo-marxista e, enquanto todo mundo babava pelos gangsters realistas de De Palma e Copolla, eu me divertia com a paródia fantasiosa de Paul Williams, Bugsy Malone. Um outro disco bem exótico que tenho em vinil.

No início dos meus 20 anos, todos os sábados, meu programa era assistir a sessão da meia noite de The Commitments no Cinema Cândido Mendes. O que começou como uma reprise inusitada acabou se estendendo por uns seis meses e nas últimas exibições o povo cantava junto quase como se estivéssemos no Rocky Horror Picture. Não era só um filme, mas um experiência de vida. E, sim, também ainda tenho os dois discos de vinil da trilha.

Olhando pra trás, por mais que disesse na minha juventude que eu odiava musicais, eu amava os filmes do Alan Parker. Não eram o que eu, na época, chamava de musical, como Cats e Evita, que ele mesmo filmou e se deu mal; mas eram filmes de e sobre música. Filmes que pelas imagens, pelas histórias, pela estrutura e pelos seus personagens me fizeram amar a música, mesmo que tivesse pouca compatibilidade com ela, como é o caso de The Wall.

Se, como dizem na peça escocesa, a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum, quando esse idiota é Alan Parker, o som se torna a mais bela música e a falta de sentido se torna um sentido em si. Nós, o restante de idiotas da humanidade, agradecemos.

#RIP Alan Parker.

Em tempo

Não tem quase nada de Alan Parker nesses serviços de streaming que não chegam aos pés de uma videolocadora de bairro. Tá na hora de corrigir isso, não?

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