Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

(Não) Bata na Toupeira

Pode ser o estado de graça, aquele momento pós luto, ocasionado pela pandemia falando, então dê um desconto.

Assisti ao debate do Biden com o Trump, por conta de um amigo que ficou me provocando com discussão política no whatsapp, e confesso que fiquei feliz. Tive a impressão que o movimento fascista comandado pelos intelectualmente deficientes está chegando ao fim. Óbvio que tem bastante de desejo nessa observação, mas a impressão é que as consequências da ignorância e da incompetência na resolução dos problemas econômicos, políticos e da crise pandêmica mostrou à população, ou pelo menos a parte dela, que não é bem por aí.

Fiquei pensando se não há nada de positivo nesse hiato, nessa apnéia cognitiva que estamos vivendo. Um ponto que identifiquei foi que esses espasmos ditatoriais tiram da toca as toupeiras que se mantêm caladas nos tempos de prosperidade. Como no jogo Bate na Toupeira, o Wack-a-Mole, é só um ditador wanna be começar a ter destaque que elas põe a cabeça pra fora pra apoiar e fazer coro com as ideias com as quais sempre concordaram, mas mantiveram escondidas pois estavam com dinheiro pra ir pra Disney.

Ao contrário do que acontece no jogo, depois de expulsarmos esses ditadorzinhos, a gente deveria utilizar essa oportunidade para dialogar com eles e introduzi-los no debate democrático ao invés de tentar marretar as suas cabeças. Talvez seja esse o nosso erro. Ao invés de ouvir suas necessidades e reclamações e compor um espaço de diálogo para tratarmos essa sua compulsão com a violência e com a necessidade de proteção, a.k.a. medo,  a gente os isola. Sempre que esses períodos ditatoriais passam a gente esconde tudo embaixo do tapete e os deixa calados no canto da festa. E isso, já vimos, não melhora ninguém.

Precisamos de um processo de reparação onde a gente discuta, sim, os seus erros, mas construa em conjunto estratégias que os protejam do autoritarismo quando fusíveis, como o preço do dólar, representatividade social, e afins, ativarem seus gatilhos. Como já disse muitas vezes, o problema do Brasil não se resolve com polícia, nem com política, mas com psicanálise.

Eu sei. Talvez eu esteja sendo otimista e indulgente demais, mas, como disse antes, dê um desconto, pode ser a pandemia falando. Mas, por enquanto, me deixe aproveitar um pouquinho essa sensação de que as coisas podem melhorar.

No time to die

Lançaram ontem o clipe da música tema de “No Time to Die” do 007. É bem legal. Segue o modelo clássico que vem desde Shirley Bassey em Goldfinger. Uma balada lenta que vai crescendo com uma orquestra secreta que toma a música e força a cantora a exibir todo o seu talento vocal. Acertaram.

007 é um estado de espírito e pra isso precisa ser um produto sensorial completo: narrativa, audio e vídeo e, mais importante, expectativas. E a música, mais do que ser um componente auditivo, estabelece quais são serão essas expectativas. Em geral quando erram na música, Madonna e afins, tentando enfiar “mudernidade” num produto anacrônico como James Bond, acabando misturando açaí com escargot e mostram que o filme também não vai ser essas coisas. Pelo jeito, nesse acertaram novamente. Daniel Craig saindo com 4 em 5, faz média melhor que muitos Bonds antigos.

Como bônus ainda tem umas novas cenas do filme e parece que estão seguindo o caminho da trilha psicanalítica que apontei naquele meu texto antigo. Podiam ter parado em Spectre com um final feliz mas o James Bond de meia idade, entrando no clube dos idosos, precisa sofrer um pouco mais. Depois de abandonar tudo pra viver com a sua esposa mais jovem, o senhor Bond descobre que ela tem segredos, o que provavelmente fere a sua masculinidade poente. Da impressão de ser um L’ Enfer, aquele filme doido sobre ciúme do Chabrol com a Emmanuele Beart, com um bando de cenas de ação entre o drama. Parece ser divertido. Esperemos.

Ah, a música? Curta aí. Eu curti. Promete, mas não me incomodo de me frustrar no fim das contas. A vida é assim, mesmo, e não temos tempo pra morrer.

 

Muito prazer, autossabotador

Tudo começa com a inveja e um pouco de ciúme. A primeira vez que senti isso foi num concurso de escrita na primeira série. O meu colégio todo ano organizava uma coletânea de textos dos alunos da primeira a quarta séries, uma história era escolhida em cada turma e pra cada história tínhamos 3 ou 4 ilustrações. Na primeira vez que participei, tinha certeza que minha história ia ganhar. Não ganhou.

Fui rapidamente da sensação de ciúme, perder o que achava que era meu, à inveja, o desejo de ter o que é o do outro. Foi horrível. O que me confortou foi que ainda tinha chance de participar com a ilustração. Me esmerei, mas também não rolou. A sensação se repetiu e a frustração foi duplicada. Foi assim que, para proteger o meu ego, inconscientemente, entrei num processo compulsivo de planejar e antecipar a minha queda.

Mas o hábito não se firmou de imediato. Eu continuei tentando, ou quase. Me inscrevia, participava das coisas, me entregava, e sofria quando não recebia os louros que achava serem meus. Pra me proteger, minha solução foi fingir pouco caso. Vivia na negação da raposa das “uvas estão verdes”. Eventualmente, era recompensado e ganhava. Inclusive no concurso que desencadeou o processo, lá pela 3a. série, uma das minhas ilustrações foi escolhida. Mas não pude curtir. Infelizmente, para manter a pose quando perdesse da próxima vez, o que eu “sabia” que aconteceria, precisava desmerecer o que eu atingi. Os prêmios eram bestas e os concursos pouco desafiadores, eu mentia pra mim e para os outros. Qualquer um podia ganhar. Qualquer um. Até eu. Um outro qualquer.

Então entre a tentativa de evitar a frustração, não me expondo, e a negação do reconhecimento que eventualmente recebia, comecei a ter uma postura perversa com a arte. Amando em segredo o que fazia, sangrando para produzir, sofrendo quando não era reconhecido, desprezando quando o era, mas fingindo pra todo mundo que não era nada demais. E assim todas as minhas conquistas foram maculadas por esse ar blasé que eu precisava manter. Todas.

Aos onze anos, o meu personagem foi o escolhido para estrelar os desenhos animados que finalizaram o curso de Cartum da Calouste Gulbenkian, mas eu não fui ao lançamento pois estava “cansado do colégio”. Mais de dez anos depois reencontrei meu professor, o mestre Lapi, e ele, que ainda lembrava de mim, me colocou como assistente de produção num documentário sobre o Pinel. Foi um trabalho incrível mas, sei lá por que, pedi para ser retirado dos créditos.

Na adolescência, óbvio, me encontrei nos fanzines. Produzia sozinho e fazia tiragens ridículas para não ser encontrado. As poucas pessoas que liam curtiam e queriam participar. Era a minha deixa para criar problemas com todo mundo e sair “por cima” por não ter comprometido a minha “integridade artística”. Uma vez tive a audácia de mandar um fanzine para avaliação do MAU, o fanzine da revista Animal, e recebi vários elogios, mas como havia pedido, eles não divulgaram meu endereço para contato. Como um bandido na lista dos 10 mais, queria ser reconhecido, mas não encontrado.

Cresci e continuei com o mesmo comportamento. Fiz corpo mole e não fiz a prova pra faculdade de cinema. Fiquei na psicologia pois achei que me frustraria menos. Na mesma época, escrevi uma crítica de cinema pro JB, e tinha um livro de poesias pronto que submeti à editora 7 letras. Eles queriam editar desde que eu pagasse uma parte da tiragem, mas eu me convenci que era golpe e nem respondi. Hoje não tenho nem uma cópia desse livro.

Continuei escrevendo, participando de concursos e tentando me editar. Sempre com um pé atrás e sem acreditar nas benesses que me eram oferecidas. Ia pra saraus de poesia, declamava com desdém e menosprezava os que me elogiavam. Cheguei ao ponto de jogar fora uma caixa com mais de mil poemas e umas três dúzias de contos após uma briga com uma namorada. Quando lembrava dessa autosabotagem, tentava me justificar com a história da vez que o Hemingway perdeu toda a sua produção na sua bagagem; o que não tem nada a ver, afinal ele não jogou fora o que produziu em quase 10 anos por puro medo.

Na transição pro digital o comportamento continuou. Comecei a publicar meus textos num blog e em seis meses estava no Blogs of Note. Fechei o blog, sob a alegação que não merecia ter mais do que sete leitores,  e o reabri em outro lugar. Participei de alguns projetos literários e sites mas nunca mantinha um compromisso maior do que 6 meses. Quando as coisas começavam a engregar, muitas vezes sem explicação, eu sumia.

Assim fui me escondendo e me escondendo cada vez mais, sempre me comprometendo pela metade com o que eu dizia desejar e negando o que a vida às vezes tentava me entregar.

Às vezes, ainda reajo assim,mas estou em recuperação. Se alguém me elogia, imediatamente tento entender quais são os seus motivos escusos para isso. “Óbvio que não é sincero”. Não quero encarar a queda novamente. Uma queda que, sinceramente, nunca sofri, mas que transformei num trauma pois a minha história, escrita aos 6 anos, sobre uma invasão dos povos perdidos de Atlântida repelida por um grupo de jovens num cruzeiro perdeu para a história de uma minhoca que fazia os buracos em queijos suíços num concurso literário de colégio. Hoje sei que a história da minhoca realmente era melhor e que não devia me martirizar tanto assim, mas a cabeça não manda no coração.

Nesse processo de recuperação, procurei amigos e conhecidos que pareciam bem resolvidos com essa questão e todos me confidenciaram que, em maior ou menor grau, vivem com a mesma angústia. É bom não estar sozinho. Sim, gostaria de me jogar sem medo de rejeição e poder aproveitar as coisas boas que a vida vier a me oferecer, mas para isso preciso aprender a ter compaixão comigo mesmo e entender que a fraqueza não é precisar combater mas, sim, fugir da luta.

O pulo do gato talvez seja agradecer mais, olhar os obstáculos como fins em si mesmo, e ter a certeza que a história não termina mesmo quando acaba. Sim, estou melhor mas não cheguei no ideal. Ninguém chega. Mas continuamos na luta. Obrigado por me ler e fazer parte desse processo.

#happythankyoumoreplease

Eremita, o Retorno do Louco

Estava ouvindo o Bobagens Imperdíveis da Aline Valek e ela me lembrou que, no Tarot, a carta do Eremita, como a do Louco, é uma carta em e de movimento. Um movimento a pé. Um movimento heróico. Porém, enquanto o Louco segue para a direita em direção ao nascer do Sol, dando início ao movimento, o Eremita vem pra esquerda, em direção ao poente carregando a sua lanterna.

Ouvindo isso, lembrei quando, no verão dos meus 15 anos, uma amiga esotérica da minha mãe leu o meu tarot, fez minha numerologia e dividiu a minha vida em 5 fases.

A primeira, do nascimento até os 18 anos, seria regida pelo Eremita, caminhando nas trevas em busca da luz. Dos 18 aos 25 a carta do Mundo, aproveitando o que o Universo tem para nós oferecer, com todo excesso e risco que essa descoberta permite. Dos 25 aos 35 seria a Imperatriz, a fase de receber as benesses do mundo. Dos 35 aos 45 o Enforcado, uma era de receber o que plantou, tanto de bom como de ruim. E a partir dos 45 eu voltaria ao Eremita. Confesso que até agora bateu bem direitinho. Há uma semana fiz 46 anos e considero que, mística e oficialmente(?), entrei na fase final.

Sempre imaginei que essa última fase seria um movimento de recolhimento. Que depois dessa caminhada das trevas ao mundo, com seus altos e baixos, encerraria com um retorno para a autorreflexão. Eu estava enganado. Não é um ponto final. Como bem lembrou a Aline é um caminho de volta. É um retorno. Não é uma chegada. É um processo.

Agora, o Eremita começa o retorno para as trevas de onde partiu e traz as descobertas que fez a respeito do mundo. Impossível não lembrar do prisioneiro que se libertou da caverna de Platão e, depois de quase se cegar com o sol, retorna para contar aos outros prisioneiros o que viu. Parece um caminho lógico, mas há opções e riscos. Eu poderia não voltar e ficar no mundo; poderia voltar pra caverna e me calar, evitando o risco de não ser ouvido, de ser execrado e de ser considerado louco; poderia até tentar convidar outros ao conforto da caverna. Mas eu, como o Eremita, prisioneiro da minha lanterna, escolhi compartilhar. Isso não é certo, nem é errado. É apenas o meu caminho. Só espero que o Eremita não se torne o Louco no final dessa história.

2018 (round 2)

A pandemia não é um evento separado. É uma continuação. E essa continuação começa com a chamada para tomar uma cerveja numa aglomeração pública. Jocosamente e já sabendo a resposta, provocam quem fez o convite: “E a pandemia, hein?”

Como autômatos exaltando a sua programada liberdade de expressão e pensamento, os bots de carne e osso atendem ao comando e criticam as medidas sanitárias, os esforços feitos para proteger a população e enveredam, como esperado, pelas rotinas de negacionismo, do climático ao científico, e dançam no fio da navalha do racismo, homofobia e afins.

As interações se tornam repetitivas e ,depois de cumprirem sua programação, os bots resumem a sua atuação confirmando a sua participação na cerveja e desligam seu modo ódio para se verem presencialmente no dia seguinte.

Me pergunto o que fazemos nesses quartos chineses tentando acreditar que há inteligência, artificial ou não, nessas conversas. Por que ainda tentamos buscar algum resquício de humanidade, empatia e compaixão nessas trocas autoindulgentes? Inteligência até há, mas o que nos falta é a humanidade, que surge justamente da incerteza, do não saber, do ter dúvidas, do sentir medo do futuro e do não ter medo de assumir a nossa ignorância frente ao mundo. A reflexão necessária para isso não harmoniza com as redes sociais.

Nesse segundo round de 2018, repercutindo o primeiro onde um terço da população brasileira protegida da dúvida pelo ódio do fundamentalismo político escatológico elegeu um imbecil, um bastão genocida, essa mesma população agora se oferece e nos oferece para Holocausto.

Graças a Deus, sou agnóstico e não me rendo a divindades terrestres ou mitos de prateleira e nesse altar não vou subir.

Boa cerveja para os demais. Para nós resta o arquivamento de conversas do Whatsapp.

“Abre aspas”

Ele tinha aquela mania chata de fazer aspas com a mão. Pra piorar ele ainda dizia: “Abre aspas”. O problema é que muita vezes ele esquecia de dizer o “fecha aspas” e tínhamos a impressão que tudo o que ele falava era uma longa ironia. Exemplo: “Vocês sabem como o governo é (sinal de aspas), abre aspas, humanitário. Com certeza, bla, bla, bla, etc e tal”.

Aquilo me deixava nervoso. Eu nunca sabia o que ele queria dizer. A quantidade de aspas abertas e não fechadas tornava seus discursos impenetráveis e suas opiniões ambíguas. Ele era a favor ou contra o governo? Amava ou odiava o trabalho? Traía ou era fiel à sua mulher? Era um amigo verdadeiro ou, abre aspas, um mui amigo, fecha aspas?

Não tinha como saber. Eu até perguntava às pessoas, mas elas não tinham esse mesmo tipo de incômodo. Pra elas não existia dúvidas sobre as suas opiniões. Porém, quando eu pedia que me explicassem o que ele queria dizer, elas desconversavam. Elas não ficavam incomodadas porque não ouviam, porque não, abre aspas, davam um pelota, fecha aspas.

Era cruel. Toda vez que eu o via chegando ou tinha um compromisso marcado que o envolvesse, ficava ansioso. Ele começava a falar, e muito, como sempre, e eu ficava contando quantos minutos, ou, melhor, segundos demoraria pra ele dizer “abre aspas”.

Um dia algo aconteceu e ele não falou o “abre aspas”. Eu esperei, mas não saiu. Até fiz algumas perguntas pra ver se o forçava a usar de uma citação ou um eufemismo, mas ele resistiu bravamente. Nada de abre aspas, nem de fecha aspas.

Pensei em confrontá-lo mas não era isso o que eu queria? Que nunca mais dissesse “abre aspas”? Ou será que eu queria ouví-lo dizer “fecha aspas”? Eu não sabia mais, estava, como diziam, abre aspas, bolado, fecha aspas.

Antes que eu pudesse chegar a uma conclusão do que fazer fiquei sabendo que ele, abre aspas, abotoou o paletó, fecha aspas.

Fomos no enterro, e todos lembraram, com saudades, da sua mania e seu vício de linguagem. Enquanto ele jazia deitado no salão funerário, a gente abria e fechava aspas sem pudor. O abuso era tanto que a energia acumulada das figuras de linguagem quase o trouxe de volta à vida.

Mas não trouxe e eu fiquei com uma sensação estranha, como se fosse, abre aspas, culpado de algo. De não ter sido amigo dele por conta dessa fixação em dar closura aos seus comentários e, ao invés de curtir a sua presença, ficasse testando a sua capacidade argumentativa e a sua intenção de dizer “fecha aspas”.

Mas como dizia Nelson Ned: “Tudo passará”, e nunca mais me senti, abre aspas, culpado, fecha aspas. Afinal, além da carne e dos ossos, tudo o que somos pros outros é linguagem; um bando de palavras no ar e na memória. Um apanhado de aforismos e anedotas. Fala e texto. E nada mais.

Então, não deveríamos tratar essa, abre aspas, realidade, fecha aspas, com mais carinho? Não sei, não sei. Ou como ele diria: não, abre aspas, sei.

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“Fecha aspas”.