Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

E pra você, do signo de Prometeu…

Você provavelmente nem percebeu, pois ou estava preso dentro de casa, respeitando as orientações da Organização Mundial da Saúde, ou estava se infectando de CoVid nos bares que deveriam estar fechados, mas uma nova constelação surgiu no céu.

A constelação de Prometeu se formou como que por mágica e acabou intrigando os astrólogos que resolveram criar o 13o. signo. Quer dizer, não intrigou a todos. Os astrólogos brasileiros moradores da Virginia perderam essa pois, ao invés de olharem pro céu, estavam com as cabeças enfiadas em seus rabos.

Ao contrário dos demais signos que são divididos por períodos relativos a sua data de nascimento, o signo de Prometeu é como uma segunda denominação que qualquer um pode ter ou não, não importando quando nasceu. Além disso, o signo de Prometeu não faz parte de um só dos elementos e se aproxima mais da lama, entre a terra e a água. Uma lambança só.

Pelo que notamos, aqueles que respeitam a quarentena são de Prometeu; os que não usam máscaras, frequentam bares durante a pandemia, ou discutem com funcionários públicos querendo dar moral de elite enquanto recebem auxílio assistencial do Bolsonaro são do signo “mas não cumpriu”.

Aqueles do signo de Prometeu, também conhecidos como os acorrentados, tem muitas características similares ao mito, não o da excrescência federal, o grego.

Os acorrentados são em geral pessoas boas que se importam o suficiente com os outros pra tentar lhes trazer iluminação mesmo que sejam punidos por isso; tem visão de longo prazo e tentam organizar as coisas pelo bem comum; normalmente fazem parte de famílias de visão curta com cunhadas curiosas que, na sua inocência, espalharão o mal sobre o mundo; e demonstram uma imensa paciência pra lidar com a arrogância e ignorância humanas e divinas, também.

Pelo lado negativo, os acorrentados tendem a beber um pouco demais o que consome seus fígados como se um abutre os comesse; e costumam ser bem caseiros. Presos a seus compromissos familiares e profissionais, saem pouco, mais ou menos de 30 em 30 mil anos.

Para você que é do signo de Prometeu, aqui estão as previsões para as suas semanas até o fim da pandemia:

SEGUNDA – A sua semana de trabalho começará com um sentimento de vazio, de que não está indo pra lugar algum. Seu amigo Sísifo, entende. Se estiver desempregado sentirá inveja da falta de propósito alheia. Aceite seu destino. O que lhe resta afinal?

TERÇA – Você prometeu que só ia beber no fim de semana mas por conta de (insira sua desculpa aqui) precisará tomar uma. Não uma. Várias. O Abutre agradecerá pelo fígado ao vinho.

QUARTA – Você acordará de ressaca, verá o que os seres humanos fizeram com o fogo, ligará para o trabalho para avisar que está doente, mas ninguém atenderá. Todos estarão de ressaca também.

QUINTA – Agora, sim, você não se sentirá culpado para começar a beber, mas compromissos externos demandados por Zeus o deixarão amarrado supervisionando a criação de todos os animais da Terra até ser tarde demais para se intoxicar.

SEXTA – Você começará a beber na madrugada e sonhará que faz parte dos Titãs. Não os mitológicos, os do Iê-Iê-Iê. Azar que pegou a fase das canções de Auto-Ajuda. Acordará e verá que o trabalho de ontem ficou um lixo e precisará ser refeito. O Acaso não vai te proteger.

SÁBADO – Um amigo chamado Hércules irá ligar oferecendo lhe libertar da quarentena. Você declinará. Se sentirá moralmente superior mas ficará o dia inteiro stalkeando a farra de Hércules com o centauro Quíron que ele chamará no seu lugar.

DOMINGO – Você se sentirá presa no dilema de precisar descansar e achar que não tem tempo pra descansar. Resultado: a tensão tomará o seu dia a jogando numa maratona mortal de The Office e vídeos antigos do Topa Tudo por Dinheiro. De noite cairá na asneira de assistir ao Fantástico e sofrerá como se um Abutre comesse o seu fígado, o que é fato. Fazer o que? Amanhã começa tudo de novo.

Bolsonaro e a arca do Zé Colmeia

“Vocês já tomaram cloroquina?”

Quando eu estagiei, umas duas vezes por ano, levavam o grupo de estagiários para apoiar processos seletivos no interior do estado. Era divertido. Colocavam o grupo de 20 jovens num ônibus em direção a uma cidade qualquer e a gente passava uma semana aplicando testes psicológicos de dia e curtindo de noite. Curtindo mesmo.

Era inevitável. Como você ia manter tanta energia libidinal dentro de um hotel sem acontecer uma besteira? Melhor colocar a garotada na rua.

Depois da noitada, chegávamos ao hotel na madruga e, depois de umas 3 horas de sono, era preciso estar em pé pra tomar banho, se vestir, tomar café e encarar os candidatos. Em geral eram umas seis cabeças em cada quarto. Enquanto um tomava banho, o restante esperava assistindo TV.

Eram os anos 90 e, como a maioria dos hoteis não tinha TV a cabo, éramos obrigado a assistir ao Telecurso Segundo Grau ou a uns desenhos animados que usavam como encaixe entre a sessão Coruja e os jornais locais. Uma vez, ponho a culpa no cansaço ou no pouco sono, dei uma surtada.

Estava passando aquele desenho antigo da Arca do Zé Colmeia. Lembram dele? A premissa era banal: uma pá de personagens da Hanna Barbera viajava numa Arca voadora e tinha que lidar com vilões brutalmente óbvios como o Sheik do Egoísmo, o Senhor Fumaça e a Iara Faz Sujeira. A gangue  do Zé Colmeia era envolvida pelos vilões em algo negativo, relativo ao que estava explícito no seu nome, e, depois de brigarem entre si, faziam as pazes para se livrar do malfeitor. Nesse dia o episódio foi com o Senhor Trapaça.

Não sei por que, mas aquilo começou a me irritar. Cada personagem que era envolvido e se dava mal em uma de suas trapaças ia me deixando mais nervoso. Eu comentava o absurdo da situação com os meus sonados colegas de quarto mas eles nem pareciam se importar. A sua indiferença com o que ocorria com a gangue do Zé Colmeia acabou catalisando a minha reação. Totalmente exaltado, perdi o controle e gritei pra TV:

– O nome dele é Senhor Trapaça! TRA-PA-ÇA. O que acham que vai acontecer? Ele vai trapacear vocês! Vai trapacear vocês, seus animais idiotas!

Ontem o Bolsonaro apareceu dizendo que estava com CoVid. Discussão de se desejar a sua morte ou não à parte, eu, confesso, no primeiro momento, acreditei. Umas 6 horas depois, a trapaça se concretiza: ele aparece tomando algo que diz ser cloroquina e vende seus benefícios para o tratamento da CoVid como num infomercial do João Kleber. Eu devia estar preparado, mas infelizmente falhei e me deixei enganhar pelo Senhor Trapaça. Pelo jeito sou tão ingênuo quanto os amigos do Zé Colmeia.

Brasil, um novelista de segunda

Aqui, ó, Brasil, sei que você tem trabalhado com a gente desde a época do rádio, nos ajudou a construir um dos grandes símbolos da cultura nacional, mas, convenhamos, tá brabo. Teu trabalho caiu de qualidade rápido demais. Por exempo, esse teu último arco tá chato, repetitivo, arrastado, sem conclusão. Vê só, num tem nem um personagem pra gente torcer.

Tá, foi uma boa manobra pegar aquele personagem periférico maluco que vivia falando idiotices no programa da modelo que engravidou da maior estrela de Rock do mundo e transforma-lo num vilão. Mas isso não é novidade. No Poderoso Chefão, Sonny morre entregue pelo cunhado abusador; no Pagamento Final, Carlito Brigante é assassinado pelo bandidinho que ele humilhou na boate. Entendi, mas é um bruta clichê. O cara mais insignificante é o que cria mais problemas. Mas, pô, se liga, isso é a história de um país e não de uma gangue.

Concordo, os filmes do Padilha deram uma moral pros milicianos. História de gangue voltou à moda, mas quantos anos já tem desde o Tropa de Elite 2? Além do mais, pra onde você está indo? A história perdeu o rumo, o pessoal tá desistindo de acompanhar essa novela. Quem pode trocou de país e de canal, quem não pode tá desligando a TV e nem jornal lê mais. Tem gente pedindo pelo amor de Deus que você dê uma de Janete Clair e mate metade dos personagens num terremoto.

Não, você não está fazendo isso. Você tá matando o público e não os personagens. Essa epidemia tá muito mal inserida na história. É pra matar do elenco que aparece na TV. Deixa o povo em paz, diabo!

Sei lá, Brasil, acho que é melhor a gente encerrar o seu contrato e… o que? Nem vem me prometer uma nova virada na história. Já teve de tudo nesses últimos meses; além da peste, teve ameaça de golpe, nuvem de gafanhotos, água envenenada… Tá parecendo novela bíblica. E o pior é que nada acontece. Plot twist é pra mover a história não pra fazer a gente ficar rodando que nem pião.

Tá, vou ouvir… hum, interessante. Sim, tá, é irônico, mas previsível: o sujeito que não acreditava na peste, e mais promoveu a infecção, fica doente. Tá bom, pode continuar. Mas, Brasil, vê se dá um fim nessa novela logo, OK? E dessa vez eu quero um final feliz. De verdade. E nada de ficar reciclando essas ideias de um novo Brasil pra forçar continuação tipo filme de terror. Ninguém acredita mais nisso.

Ah, e olha só: se eu curtir esse final, escreve aí, pelos próximos 50 anos a gente só vai ficar fazendo aquelas séries curtinhas de antologia baseadas nas obras do Stanislaw Ponte Preta, Rubem Braga, Hugo Carvana… um troço bem meu Brasil brasileiro, cheio de samba de raiz, malandragem, cerveja, romance, belas paisagens e diversão.

Depois dessa tua última obra, tamos mesmo precisando de um refresco. Ô, se tamos. Ô, se tamos.

A maldição dos machos alfa wanna be

Estava conversando sobre os processos negação da realidade a que estamos submetidos pelas pretensas autoridades que foram eleitas para administrar as instituições públicas, quando me caiu uma ficha: todos os nossos problemas advém do ressentimento e da vontade de indivíduos ignorantes e incompetentes serem machos alfa. Uma gente que só leu a orelha dos livros do Jordan Peterson, não entendeu e considera que está numa cruzada pela retomada de um mundo patriarcal; um mundo conservador, onde o poder masculino não pode ser questionado nem pela realidade; um mundo onde eles tem o direito (de nascença) de serem líderes. Só que não.

O que mais levaria um sujeito a mover toda uma estrutura burocrática para defender o seu direito de não usar uma máscara? O que mais levaria um sujeito a tentar defender a honra que não tem pra proteger amigos e familiares que ele sabe serem corruptos? O que mais levaria um sujeito a botar em risco o equilíbrio da economia e das instituições políticas porque as pessoas não concordam com ele? O que mais levaria um sujeito a estimular a propriedade de armas por toda a população só pra lhes dar a segurança (fálica) de carregar fuzis pois morrem de medo do mundo?

Não sei pra vocês, mas pra mim parece que esses machos alfa de hoje vivem de mimimi.

O que realmente me incomoda nesse povo é que eles querem controlar os processos e governanças para enforçar uma superioridade que eles acham ser natural. Querem mexer em leis que privilegiam a equalidade ou promovem um nivelamento de oportunidades sociais em nome de uma meritocracia mezzo biológica, mezzo divina. Um divino direito dos reis para fracassados; para o capitão que foi expulso do exército; para o herdeiro milionário que conseguiu falir um cassino.

Nesse mundo de flocos de neve, esses são os mais frágeis: os que acham que o querer é suficiente para justificar o seu direito de conseguir. Mas, sorte (ou azar) nosso, eles são incapazes e, mesmo criando uma bruta confusão, tenho certeza, nunca vão conseguir o que querem. Porém precisamos nos manter atentos e evitar esses arroubos destrutivos de pequena macheza. Afinal, mesmo dentro dos betas que assassinaram o pai primevo, em Totem e Tabu, e que criaram a civilização, a moral e a cultura, como uma forma de refrear nossos instintos e vivermos em sociedade, devia ter um grupo de fracassados que sonhavam ser o Totem. Nunca serão. Nunca serão.

E, para eles, o recado de Orange is the New Black.

Hell Office

Eu costumava contar os dias, mas eles não fazem mais sentido. Esqueço de quantos já passei aqui. As guimbas de cigarro e as garrafas de cerveja vazias, que usava para contá-los, não são mais confiáveis. Eu as enfileiro num dia, tentando dar motivo e sentido ao que não tem, e no dia seguinte elas sumiram. Assim como o motivo e o sentido que eu fantasiei existirem. Quem as levou? Quem os levou?

Cada dia começa com a retomada da minha prisão ao amanhecer e termina com a minha sentença revogada ao pôr do sol.

E tudo segue normal. Normal. Ah, normal.

As intermináveis reuniões com os advogados da condicional, disfarçados de colegas de trabalho, que me prometem a liberdade em troca de documentos, planilhas, apresentações e e-mails sem significado. Os barulhos misteriosos nas paredes das celas alheias indicando que há vida e violência do lado de fora. As chamadas constantes dos porteiros da prisão para me informar que chegou mais uma entrega deliciosa e narcotizante. Mas, por mais que eu espere, infelizmente não há serra alguma dentro dos bolos das padarias.

Não há escape, não há esperança. Os dias passam e não passam. Os dias vão. E voltam. Diferentes e surpreendentemente iguais.

E ao final de cada sentença diária, eu estou livre, por pelo menos 15 minutos, mas não tenho lugar algum pra ir. Saio pro corredor, acendo um cigarro, tomo uma cerveja e da cela contígua sai um trabalhador de máscara me desejando boa noite. Eu retribuo, desejando nunca mais vê-lo. Eu durmo, esqueço dele mas o recrio, sonhando no dia seguinte encontrá-lo mais uma vez. Pela primeira vez. Pela última vez.

Onde foram parar as minhas guimbas e garrafas? Bom dia. Boa noite. Pela primeira vez. Mais uma vez. Da última vez.

Pele de seda, mãos de pedra

Hoje, esbarrei no tweet abaixo. Assistam ao vídeo.

https://twitter.com/BrotiGupta/status/1278034572651851778

Claro que não é novidade. As redes sociais estão coalhadas de reações exageradas para estímulos tímidos. É a paradoxal relação entre ser da geração floco de neve e cuspir fogo. Mas hoje, especialmente, me perguntei por que isso acontece. As pessoas tem motivos para se sentirem ofendidas? A culpa é do emissor que não teve sensibilidade e não contemplou os inúmeros grupos impactados pela sua mensagem? A mídia utilizada favorece ou ensinou a seu público o ódio automático e sem sentido? De onde vem a fagulha que transforma a mais inocente piada num incêndio viral?

Difícil responder, mas tenho minhas suspeitas.

A internet, quando surgiu, era prioritariamente uma ferramenta para comunicação por texto que funcionava por conta de texto. Os programadores escreviam código que comunicava às máquinas como lidar com as interações por texto que os usuários realizavam com as interfaces. Se você pegou a internet pós 2000, provavelmente não teve que lidar com isso. Tudo o que te ofereceram já estava no modelo What you see is what you get. Pra quem é mais antigo a coisa era diferente: boa parte das interações necessitavam de um certo conhecimento de código. Alguém ainda lembra de precisar fazer buscas booleanas?

Então, quando a internet se popularizou, ela juntou dois problemas: era uma ferramenta de texto vendida para uma enorme população que, cá entre nós, não sabe ler de fato, a.k.a. interpretar um texto, e a estrutura de funcionamento das interfaces não estava aparente. Logo você não sabia o contexto e o trânsito das mensagens transmitidas e recebidas o que gerava mal entendidos sucessivos.

Ao invés de tratar isso como um problema, quem estava na luta pra tornar a internet em uma ferramenta comercialmente viável, aproveitando o modelo de vender a sua atenção a anunciantes, considerou esse defeito uma oportunidade e criou uma máquina para se aproveitar das nossas piores emoções e das nossas maiores falhas cognitivas. Começamos a ter valor como rebanho justamente pelo que nos fazia piores.

Quando se possibilitou a interação entre o usuários, ao invés da interação do usuário com a interface, o que chamamos de redes sociais, esse comportamento imediatista instintivo de luta ou fuga, permanentemente estressante e calcado no nosso mal entendimento das mensagens e, principalmente, intenções alheias se tornou a norma. E chegamos ao ponto onde não importa dizer algo ou dizer nada; tudo é ruim.

https://twitter.com/TJPayne3333/status/1278674597693587456

Parece que mais uma vez estão pensando em como desfazer esse imbróglio. Sim, estou acompanhando a discussão sobre as marcas tirando o apoio a essas máquinas de geração de ódio, e entendo o otimismo generalizado, mas acho fogo de palha. Será que realmente interessa a eles mudar esse sistema? Afinal, como na proverbial piada, nós podemos ser malucos mas eles precisam dos ovos.

Espero não ter lhes ofendido com isso.