Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O Caminho sem Volta de São Pedro

Hoje se comemora o dia de São Pedro, o homem das chaves do céu. E também o homem das chaves do catolicismo. Como primeiro bispo de Roma, a.k.a. o PAPA, ele foi a pedra (Pedro, pedra) onde a Igreja como instituição foi erguida.

Pouca gente lembra como ele morreu. Foi, como diversos mártires, crucificado, mas de cabeça pra baixo. Dizem que por pedido dele mesmo que não se sentia no direito de ser crucificado em pé como Cristo. Um possível sinal de humildade, ou, quem sabe, da culpa de ter negado Cristo 3 vezes.

Tem umas teorias que o identificam na carta do Enforcado do Tarot, por estar ele de cabeça pra baixo preso a uma árvore. Na mesma carta tem gente que vê Odin, dependurado também de cabeça pra baixo em Yggdrasil por 9 dias e 9 noites para aprender sobre os outros mundos e sobre as runas. Conta a lenda que Yggdrasil, meio como a árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, tem a resposta para todas as perguntas humanas e suas folhas podem ressuscitar os mortos.

A carta do Enforcado é a carta de número 12. É a carta que está no meio do Tarot. Por representar o sacríficio humilde e voluntário em busca de iluminação, dentro do ciclo do herói representado pela progressão dos Arcanos Maiores, é o que se chama na teoria narrativa de Point of no Return, o Caminho sem Volta. É o momento da história onde o herói perdeu o contato com passado, não tem nada a perder no futuro e, sem escapatória, só lhe resta completar sua aventura. Para o bem ou para o mal.

São Pedro e suas chaves são esse Caminho sem Volta. Eles não representam o fim, mas o meio da história. Você viveu na Terra e agora suas ações vão te levar a uma nova aventura, agora espiritual, customizada pelo que sua história material representou.

Esse 29 de junho, entre o solstício (de verão ou inverno, dependendo do seu hemisfério) e o dia 2 de julho (o meio do ano), é um ponto de impasse e reflexão. No meio da Pandemia, oprimidos psicológica, política e economicamente, não temos volta, pois o mundo de onde saímos não existe mais. Por isso somos obrigados a completar a nossa aventura. Se a conduziremos pelo céu ou pelo inferno apenas o nosso comportamento prévio irá dizer. E Pedro não nos julgará. Ele apenas fará com que colhamos o karma que plantamos no primeiro e segundo atos de nossas vidas.

As chaves do Céu, e do Inferno, quem diria?, sempre estiveram em nossas mãos. Abre a porta, Pedro.

Avôhai

Minha filha acorda na madrugada com as peripécias dos gatos. Na sua ansiedade de isolamento, acha que é alguém mexendo na porta da casa. Até é, mas são os gatos, e na porta do banheiro. Tento colocar ela pra dormir, mas ela se nega. Sem sono, explica.

– E se eu te contar uma história?
– Tá bom, mas tem que ser uma história do vovô.

Uma história do avô. Um avô que morreu 12 anos antes de ela nascer. Um avô que ela só conheceu por pedaços de histórias e meia dúzia de fotos que viu na casa da avó.

Eu tento pescar, na enorme quantidade de suas histórias imorais e impublicáveis, alguma que seja adequada para crianças. O melhor que consigo é falar sobre os seus campeonatos de arroto, de quando nos envolvia em trotes fingindo ser um programa de perguntas e respostas da rádio, ou de quando abraçava pessoas que não conhecia na rua.

Ela ri. Mesmo publicáveis, suas histórias não são nada morais e muito menos adequadas para crianças. Imagino que pudesse mentir e contar histórias que nunca aconteceram, como tantas que ele me contou jurando ser verdade, mas tenho quase certeza que ela, tão ligada ao avô perdido, me pegaria no ato. A impressão é que ela o conhece melhor do que eu. O que não é tão difícil.

No meio do relato sobre uma vez que ele fez um senhor ir buscar um prêmio inexistente numa rádio inventada, percebo que ela dormiu. Eu a cubro e tento dormir, lembrando das histórias do meu pai. São tantas que elas pulam sobre cercas como ovelhas impulsionadas por jatos. Resultado? Insônia. As histórias são boas. Tanto que toda vez que alguém ouve uma delas, sempre me diz a mesma coisa:

-Você tinha que escrever sobre o seu pai.

Um amigo pra me motivar, inclusive me fez ler o Quase Memória do Cony, com o qual eu tinha o maior preconceito, mas do qual gostei muito. Mesmo tendo considerado um super livro, ao final só conseguia pensar: as histórias do meu pai são melhores. Metido, eu sei.

Confesso que já escrevi algumas de suas histórias em crônicas separadas e tentei criar uma estrutura pra juntar tudo num romance. Mas a minha impressão é que, quando coloca-las definitivamente no papel, perderei algo. É besteira, mas é uma sensação de luto maior do que a que senti quando ele partiu fisicamente. É como se, depois disso, eu fosse proibido de comentar sobre ele, pois, afinal de contas, já está tudo escrito.

Eu sei que é besteira e preciso cumprir essa missão, para que pelo menos a minha filha conheça as histórias do avô que nunca encontrou mas com o qual parece ter uma afinidade quase espiritual. E, um dia, quando tiver seus filhos, ela possa contar as histórias do bisavô para acalentá-los e ativar a rebeldia galhofeira que corre em nosso sangue, graças ao seu velho, invisível e indivisível Avôhai.

101 dias

Nos mitos e contos de fada, a quantidade de dias que algo levava pra acontecer era muito importante. Apesar de gerar a tensão da aventura,  não eram prazos, pois não faziam sentido, mas sinais de que as coisas ficariam prontas quando teriam que ficar. Uma forma de respeito à natureza.

O engraçado é que nunca era uma data exata. Era um ano e um dia para as bruxas terminarem seu treinamento; 10 anos e um dia para Ulisses retomar seu reino e sua família depois da Odisséia; ou um ano e um dia de sobrevida da vítima para livrar um agressor da responsabilidade pela sua morte. Pelo menos na Flórida.

Justamente pela sua falta de exatidão, essa medição adquire um sentido maior: nos lembrar que passou tempo demais. Pelo menos um dia a mais do que o esperado. E é ainda um símbolo de esforço, paciência e abnegação. Um sinal de que a aventura foi empreendida por um verdadeiro herói.

Hoje eu chego a 101 dias de quarentena. Não um herói, mas ainda paciente e abnegado. E, sim, tenho certeza, passou tempo demais.

Mas estou pronto para mais. Talvez 101 dias não seja a medida ou limite do fim de tudo. Talvez seja um ano e um dia. Talvez a gente tenha que esperar até 21 de setembro como dizia o Earth Wind & Fire, o dia em que faltarão 101 dias para o ano terminar, para ver esse céu sem nuvens que meu apartamento de fundos não me permite perceber. Seja como for, será sempre no nosso limite de força, paciência e energia…somando mais um dia.

O que me pergunto é: quando esse tempo chegar, e pudermos realmente estar juntos, como lembraremos desse período, como contaremos a nossa história? O papel e as redes sociais tudo aceitam, mas, as nossas memórias, o  que elas guardarão? Elas serão as fieis guardiães desse esforço extra a qual nos comprometemos pelo bem geral? Elas lembrarão do quanto fraquejamos e serão bondosas com nossas falhas? Ou fingirão que tudo não passou de um passeio no parque?

Do you remember?
dancing in September
never was a cloudy day

A triste sina do empreendedor brasileiro pós CoVid-19

Com o relaxamento das medidas de distanciamento social impostas pela pandemia do CoVid-19, o Motel Bali, um conhecido Drive In e centro de prostituição em Sta. Helena da Boa Vista, como tantos empreendimentos brasileiros, resolveu reabrir para retomar a atividade econômica do país e sanear suas finanças.

Promovendo a inovação nos seus negócios, José Pereira Nunes, gerente e proprietário do Motel Bali, instalou televisores de tela plana em cada um dos pit stops do drive-in e desenvolveu um sistema de entrega de kits de higiene, petiscos, preservativos e bebidas utilizando drones operados por seus filhos gêmeos, Maxwell e Norton, estudantes do curso técnico de eletrônica da ETEC e últimos ganhadores do prêmio Cientistas do Futuro do nosso jornal.

A reabertura do Motel Bali aconteceu no último sábado com um open bar de Gin acompanhado da exibição do documentário Um Homem Feio, sobre a vida do ator, ex-namorado da ex-esposa do ex-presidente Fernando Collor, e atualmente diretor do Instituto Inhotim, Antônio Grassi. A fila de carros no Motel Bali chegava à praça Otacílio Correia, o que confirmou a popularidade local de Grassi que morou em Sta. Helena da Boa Vista de agosto de 1983 a maio de 1984.

Depois de todos os carros e espectadores estarem acomodados em seus pit stops, o filme começou a ser transmitido às 19:23 o que deu início também ao serviço de entregas por drone. Às 20:14, o filme foi reprisado por pressão dos clientes que se comunicavam com a gerência e faziam pedidos aos drones pelos seus celulares. A tragédia, segundo informações do Corpo de Bombeiros de Pintassilgo, município fronteiriço a Sta. Helena da Boa Vista, começou às 20:33.

Devido à interferência entre os sinais de celular, dos cabos de internet usados para replicar o serviço de streaming, e dos controles remotos dos drones, alguns dos aparelhos voadores que entregavam bebidas aos pit stops através dos seus tetos solares ficaram desgovernados e começaram literalmente uma guerra de garrafas. Segundo uma das vítimas, que preferiu não se identificar, a situação era “uma mistura dos filmes O Exterminador do Futuro e Matrix com a cena de luta de facas no clipe Beat it (sic) do Michael Jackson”. Com as garrafas quebradas nesse combate aéreo, o Gin de má qualidade, comprado por Pereira Nunes, molhou todo o motel como uma chuva mortal e, pelos tetos solares, atingiu as TVs gerando a faísca que transformou o Motel Bali numa bola de fogo.

Os espectadores evadiram-se do Motel, a maioria nús, e foram resgatados pela Polícia Militar que também os protegeu dos seus cônjuges que, atraídos pelo incêndio, acabaram descobrindo que estavam sendo vítimas de adultério.

Nunes e seus filhos, Maxwell e Norton, foram presos em flagrante por formação de quadrilha, rufianismo, pela exibição não autorizada do documentário, e pela violação das leis de controle do espaço aéreo da ANAC.

Coincidentemente, Antônio Grassi, o tema do documentário exibido ilegalmente, evadiu-se de Sta. Helena da Boa Vista em maio de 1984 após um grande incêndio que consumiu o hotel onde ele estava hospedado. Grassi pode até ser um homem feio, mas, nesse sábado, feio mesmo ficou pro proprietário do Motel Bali, José Pereira Nunes, que declarou em sua defesa que “Com tantas regras, é impossível ser empreendedor no Brasil”.

A primeira monotonia de casal

– Oi, você vem sempre aqui?
– Ai, Adão. Que história é essa? Você me conhece desde que eu saí das suas costelas.
– Pô, Eva, tô querendo dar uma variada.
– Variada?
– É, esse troço de ter só nós dois aqui às vezes cansa.
– Eu sei, mas fazer o que?
– Sei lá, tava pensando, que a gente podia fingir ser outras pessoas, tipo um roleplaying.
– Hum, pode ser…
– Então, quem você vai ser, Eva?
– Sei lá, não conheço mais ninguém. Posso ser você.
– Sei não, acho que não vai ser legal. Não me sinto atraído por mim.
– Tá bom. Quem mais? Ah, já sei, eu podia ser Deus.
– Deus, Eva? Deus me livre. Aí ia ser incesto.
– Sorry, tem razão. Então, Adão, diz aí: qual outra opção a gente tem?
– A gente podia fingir ser alguns dos animais…
– Ai, tô fora, Adão. Bestialismo é nojento.
– Eu que o diga…
– Como é?
– Nada. Nada. Esquece, Eva. Melhor deixar pra lá. Vamos ficar na nossa rotina mesmo. Pode ser monótono, mas a gente se ama, né, mesmo?
– É, tem razão. Mas, Adão, eu acho que de repente a gente pode tentar ser um pouquinho mais liberal pra dar essa variada.
– Ótimo! E vamos fazer o que?
– Acho que a gente pode dar uma chance pro bestialismo… Cê conhece a cobra da macieira?

Os pés nús da quarentena

Você não me ama. EU SEI por que você me comprou. Era só pra ter um pisante que desse uma pinta no trabalho. EU SEI que não sou confortável, bonito ou estiloso. EU SEI também que você não tem, nem gosta de estilo. Pelo que me consta, você não gosta de nada, nem de mim. Nem um pouquinho.

Mas você podia pelo menos me dar uma atenção. EU SEI que estamos no meio de uma pandemia e há mais de 90 dias você não precisa, nem pode, sair de casa. Mas você não sente saudade de nada? De bater perna na rua? De ver as pessoas? De tomar uma cerveja no bar da esquina? Não tem saudades do mundo? De mim?

Você podia pelo menos me usar de vez em quando. Me deixar cobrir seus pés e caminhar comigo do quarto pra sala, da sala pra cozinha, da cozinha pra escada do prédio, nem que seja pra botar o lixo pra fora. Mas, EU SEI, pra você eu que sou o lixo. Um lixo que você precisa ou precisava colocar todos os dias pra ir pra um lugar que todos fingem gostar. Pra você, eu sou só parte de um uniforme de uma festa a fantasia pra qual todos lamentam ser obrigados a ir.

Mas uma hora essa pandemia vai acabar e aí eu terei a minha vingança. Você vai precisar me usar de novo e eu vou abusar de você. Vou te dar calos ao mesmo tempo que vou ficar frouxo; vou te fazer escorregar e torcer compulsivamente seus tornozelos fracos; vou ficar sujo nos piores momentos pra que todos no seu escritório saibam que seus pés só merecem sandálias ou andar descalços. Exatamente como você está agora. Exatamente como você sempre quis estar.

A hora da minha vingança vai chegar. Ai se vai. Ai se vai. Quando? Você quer saber quando?

EU NÃO SEI. EU NÃO SEI. Mas a minha hora vai chegar. E aí você vai ver o quanto é caro o preço de não me amar.