Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O problema com gatos

Nunca fui uma pessoa de gatos. Tive cachorros. Vários. E, confesso, nunca tratei deles direito, como eles mereciam. Mas nos últimos dois anos, devido a uma conjunção de oportunidades e do desejo da minha filha e da minha mulher, me tornei “pai” de gatos. Dois.

Sinto que sou um bom “pai” de gatos, afinal ninguém é dono de gatos. Os gatos te escolhem. Como numa síndrome de Estocolmo, ou eles te aceitam ou eles permanecerão eternamente como seus reféns. Mas a síndrome de Estocolmo bateu, e sinto que os gatos aprenderam a conviver comigo. A gata, principalmente.

Eu levanto, a gata me segue. Vou pro escritório, ela deita na almofada me esperando. Sento no sofá, ela deita no meu colo ou afia as garras na minha barriga. Eu me deito, ela cola o corpo dela no meu. Em paz. Ela sente uma tranquilidade em mim que os meus anos de crises de ansiedade e minha relutância em ser tratado delas não me permitiam achar existir.

O problema é que esse amor condicional, diferente da devoção canina a seus donos, me dá uma sensação de superioridade moral. Se o gato, tão independente, me ama, ou algo similar, eu devo ser uma pessoa boa. Não?

Não.

A gato, triste constatação, não me ama. Ela simplesmente protege quem lhe alimenta.

A maioria das relações com os seres humanos são similares. As pessoas não lhe amam. Elas simplesmente colam em você pois você as alimenta. Alimenta de arte, informação, carinho, medo ou, até mesmo, violência. Nossas necessidades são muitas e particulares.

Mas isso não significa que eu não ame os gatos. Amo. E, óbvio, tenho minhas preferências. Fico feliz quando estou tendo reuniões difíceis no home office e ela está deitada ao meu lado. Me derreto quando estou ouvindo as mazelas nacionais e ela afia as garras na minha barriga. Amo quando tenho insônia e ela sai do seu conforto nas almofadas para ficar ao meu lado.

Ela me ama? Não sei. Eu a amo? Com certeza.

Eu costumava dizer, cinicamente, que interesse era uma palavra bonita que assumiu uma péssima conotação. Todas as nossas relações são por interesse. Interesse financeiro, de status, de poder, de distração e de amor.

O amor que damos, a gatos ou pessoas, é um interesse. Um interesse de mantê-los ao nosso lado. Porque eles nos fazem felizes, nos instigam e nos alimentam da humanidade que tanto sentimos falta. Os gatos somos nós.

E nesse momento, em que digito essas palavras no meio da madrugada, com a gata colada ao meu corpo, eu, sim, sinto uma superioridade moral. Afinal, o mundo tem nos mostrado, nesses momentos em que a tônica é o ódio, que ser amado não é mérito, mas que amar, sim, é o que nos faz seres humanos melhores.

A geração X salvará o mundo… na próxima segunda feira

Foi só depois de assistir ao trailer do novo filme de Bill & Ted e lembrar que estão trazendo que Jay & Silent Bob de volta, de novo, que me toquei que ficou nas mãos da Geração X salvar o mundo. Um mundo com o qual, segundo todas as publicações dos anos 90, a gente não se importava. E não se importava mesmo.

Tirando uma meia dúzia de gatos pingados carreiristas e ambiciosos, a maioria do povo com o qual eu convivi nos anos 90 não esperava muito da vida. A história tinha acabado, maldito Fukuyama, e como Jeffrey Lebowski, o outro, não o Dude, disse na nossa cara: “A sua revolução acabou. Meu pêsames. Os vagabundos perderam“. Sim, fomos a primeira geração a entrar na idade adulta sabendo que já tínhamos perdido.

O que nos restava? Pouco. Nos tornamos zen budistas por hobby e niilistas por profissão. Num mundo que sabíamos ser inerentemente maléfico e não fazer sentido, por que devíamos nos preocupar? Entregamos nosso talento na mão de corporações sem rosto ou de pequenos negócios feitos para não prosperar; não porque tívessemos pouco potencial, mas porque não fazia diferença. Enquanto isso construímos pequenas grandes revoluções nas beiradas do tecido social social, sem aguardar recompensas do sistema mas apenas o olhar e empatia do nosso próximo. Afinal, se o sistema que nos condenou nunca reconheceria o nosso valor, por que não ser bom de graça?

Pra piorar, até as coisas legais que ajudamos a construir, como a Internet, vemos dominadas por Boomers e Millenials raivosos e ganaciosos  em brigas sobre os escombros da raça humana. Enquanto os outros se desesperam e pedem o zombie apocalypse ou um meteoro pra lhes salvar, apesar da angústia diária, nós, Gen-Exers, nos perguntamos: “Não foi sempre assim?”.

Não. Não foi. Hoje está pior.

Por isso é hora de nós, nascidos entre 1965 e 1980, e adjacências, nos mobilizarmos. Vamos botar ordem nessa zona. Calar os boomers que usam o twitter para criar caos e educar os millenials a verem que houve um mundo antes deles e que haverá um depois, espero. Cabe a nós, os que nunca se posicionaram, tomar a frente desse diálogo. Espremidos nesse conflito político twittado, precisamos dar respeito para nossos antepassados, pelo menos uma parte deles, e o amor para os nossos descendentes. Se há alguém que possa conduzir o mundo para essa união, tão vendida e ansiada, somos nós. A geração esquecida, boa de papo e sem agendas secretas. A Geração X.

Mas pode ser na segunda? Nessa semana tem feriadão.

O fim do turismo

Nunca soube fazer turismo. Fui obrigado algumas vezes, mas resisti. Não ouvia os guias, faltava aos passeios coletivos, desprezava os locais históricos e mais conhecidos. Isso não quer dizer que não goste de viajar. Eu gosto, mas de maneira esporádica e sempre com um objetivo frouxo que permita o inesperado se manifestar.

Talvez por isso sempre curti viajar a trabalho. Me dava a sensação de estar aproveitando as cidades como um local, o que sempre tentei reproduzir nas viagens a lazer. O meu maior prazer nessas pequenas odisseias era fazer uma amizade que permanecia pós férias, receber um agrado ou gesto de cortesia de um nativo ou que me recebessem com um “o de sempre?” nos restaurantes que frequentava. Eu queria a experiência de viver nos lugares, não a de visitá-los.

Hoje, assistindo a Falando Grego, uma comédia boba sobre uma guia e seu grupo de turistas estereotipados viajando pela Grécia, me perguntei  se o turismo ia continuar pós pandemia. Afinal, o que motiva pessoas a viajarem para algum lugar onde nada tem a fazer?

Desconfio que mais de 90% só vão porque podem, porque podem se endividar pra ir,  porque alguém recomendou, ou para aproveitar férias longe de casa num local não repetido, afinal é preciso fazer algo incrível com o tempo que a legislação trabalhista nos permite longe da labuta.

Poucas viagens se justificam por desejos de fato, afinal desejos são poucos e tendem a ser obsessivos. Por exemplo, conheço uma pessoa que viaja compulsivamente para Buenos Aires para reviver seus sonhos milongueiros da juventude. As viagens deveriam ser desse tipo, não o turismo que temos hoje em dia: uma lista de coisas a fazer para se provar que se foi a um lugar. Caixão não tem gaveta, nem arquivo pra guardar as memórias de uma série de experiências genéricas e caras.

É óbvio que você também pode se lançar rumo ao inesperado, mas aí também vale qualquer coisa, até visitar a sua própria cidade, usando algum método pra randomizar a experiência como o Guide to Experimental Travel.

A minha impressão é que seremos mais econômicos em nossas experiências, seja por falta de dinheiro, precauções de saúde ou falta de costume, e só nos mobilizaremos quando realmente o desejo bater forte. Mas posso estar errado. Já tem gente planejando carnaval pro fim do isolamento. Já ouviram falar?

O eremita

Hoje, depois de mais de um mês sem botar os pés pra fora do prédio, fui ao Supermercado. Engraçado que durante o curto caminho, na minha mente ficou martelando a lembrança de um verão adolescente, quando uma amiga esotérica da mãe leu o meu tarot e dividiu a minha vida em 5 fases.

Até os 15, minha vida estaria sob a influência de O Eremita. Isso representava a minha busca no mundo por uma luz no meio das trevas. Não achei a luz, mas entendi as trevas e quis acender o mundo.

Dos 18 aos 25, o arcano que me regeria seria O Mundo, aproveitando tudo que o Universo tem para nos oferecer. Para o bem e para o mal. Rodando, vendo tudo, mas correndo o risco de não chegar a lugar nenhum; o que de fato ocorreu. Mas de nada me arrependo, foi quando aprendi a ser quem eu sou.

Dos 25 aos 35, seria a vez de A Imperatriz. A fase de receber as benesses do mundo, as quais, agora percebo, não soube aproveitar. Me fiz de modesto ou simplesmente fingi não ligar por despeito e medo. Um desperdício.

Dos 35 aos 45, pagaria meus pecados com O Enforcado. Uma era de receber o que plantei, tanto de bom como de ruim. Sofri, e me tornei vítima dos meus próprios defeitos. Um verdadeiro schlemiel. Mas, acho, aprendi que tudo é passageiro e consegui me corrigir em alguns aspectos.

E agora, dos 45 em diante, voltei à fase de O Eremita.

Segundo Rachel Pollack, em Seventy Eight Degrees of Wisdom, o Eremita faz parte da segunda linha do Tarot e transfere os desafios externos da primeira linha para o interno. Nessa busca pelo auto-conhecimento, o Eremita faz dois movimentos: um para dentro, de meditação, silêncio, e desprendimento do ego e do convívio social; e outro pra fora, iluminando o caminho para os outros, e os acolhendo nas suas necessidades de conhecimento.

Não sei o que virá desse revival do Eremita na minha vida, mas acho curioso que esteja começando essa fase enfrentando uma quarentena. Talvez seja o momento perfeito para iniciar um recolhimento final para que comece a dividir o que aprendi. A pergunta é: aprendi algo? E se aprendi, isso interessa a alguém?

Hoje, depois de mais de um mês sem botar os pés pra fora do prédio, percebo que o movimento para dentro está ocorrendo. Claramente, acabando a quarentena, as coisas serão diferentes para mim. Não sinto falta de estar fora e nesse período tenho entrado em contato com aqueles que me são caros e revisitando os laços que quero manter. Menos e, ao mesmo tempo, mais.

Quanto ao movimento para fora, agora que eu voltei a ser o Eremita, retornou a vontade de ler o tarot para os outros e retribuir esse gesto que tanto me ajudou nos meus 15 anos. Depois de 30 anos, chegou a hora de fazer esse reencontro.

O Complexo Alpha

Na minha adolescência, além de Dungeons & Dragons, um dos RPGs que eu mais devo ter jogado foi o Paranoia. Longe do heroísmo medieval do D&D, Paranoia era um jogo satírico passado num futuro baseado em 1984, Admirável Mundo Novo e Os Irmãos Marx. Sim, era assim mesmo, logo, excelente.

No jogo os participantes representavam um grupo de troubleshooters, mal traduzindo, resolvedores de problema, todos vestidos iguais, de macacões vermelho, lutando contra comunistas, mutantes e membros de sociedades secretas, numa vasta instalação subterrânea chamada de Complexo Alpha, onde a humanidade se escondera após algum apocalipse. Nessa comunidade coesa, onde a felicidade era obrigatória, todos recebiam ordens do COMPUTADOR, uma onipresente inteligência artificial, que, apesar de ter enlouquecido, sabia(?) o que era melhor para todos. A pegadinha do jogo era que você, um fiel servo do computador ensandecido, era secretamente um mutante e um membro de sociedade secreta. Pra piorar, você não podia revelar isso nem pros seus colegas, pois, em nome do computador, você podia ser assassinado e, assim, acabar gastando um dos seus seis clones.

Sim, era doido. Traições, objetivos sem sentido, diálogos non sense, surrealismo eram as tônicas das interações. A dinâmica das aventuras era mais caótica ainda. Cada jogador, além da missão dada pelo computador, tinha uma missão da sua sociedade secreta em particular, e tentava incriminar seus colegas de equipe para sair por cima sozinho. Literalmente era paranóia pura. Mas bem divertido.

Chegando em quase 80 dias de confinamento, hoje, depois de acordar de um sonho onde me movimentava por um complexo subterrâneo secreto gigante, comecei a me perguntar se não acabamos todos no complexo Alpha, escondendos nossos segredos, realizando missões para vozes que saem do computador, enquanto somos clamados a ser felizes por obrigação. As semelhanças são tão grandes que me assustam. A mim só faltam o macacão vermelho e uma pistola laser.

Cá entre nós, o que eu queria era dar um fim a essa loucura do computador toda e iníciar a Gloriosa Aventura da Revolução Popular.

O que houve, cidadão, você não está feliz? A felicidade é mandatória.

Revertere ad locum tuum

A pandemia tá me forçando a acompanhar quase umas 8 horas diárias de programação infantil. Entre uma reunião e um webinar, entre um relatório e uma apresentação, esbarro com os detetives do prédio azul, com o Mr. Bean, com os Animaniacs, e com o Scooby Doo. Hoje na hora do almoço fui obrigado a assistir a Playlist Gloob.

Pra quem nunca viu, e nem recomendo, o programa recém lançado é uma hora de MTV para crianças. Toca as músicas dos seriados, os pop quase proibidão das ex-starlets infantis, e uma boa dose de K-Pop. O engraçado é que até as músicas me lembram a dance music chiclete, estilo Stock Aitken Waterman, que tocava no início da MTV Brasil.

É como se a MTV, após a sua morte, tivesse se transformado numa novidade para crianças e ao mesmo tempo numa experiência nostálgica para a meia idade. Muita coisa segue o mesmo caminho. Quem não viveu a mídia morta acha que está desbravando um novo mundo que não foi devidamente aproveitado; quem viveu a usa para simular uma memória de identidade que não existe mais. Como dizem, toda geração acha que é ao mesmo tempo a primeira e a última a caminhar pela terra. Nesse movimento de eterno renascimento e retorno, nada termina de fato; só passa por um período de repouso antes de uma nova resignificação.

Pena que escolheu a hora do meu almoço para esse momento Fênix. Eu, cá entre nós, preferia estar assistindo à minha MTV. Hipocrisia? Um pouco, mas não conta pra ninguém.