Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O som e a fúria de Alan Parker

Alan Parker me acompanhou em muitas fases.

Quando eu era um angry young (and depressed pre teen) man e tentava lidar com a morte simbólica da família, eu assistia a The Wall regularmente. Inclusive é o único disco que eu tenho do Pink Floyd, uma banda, que ninguém nos ouça, eu acho superestimada.

Aos 17 anos, assumi o absurdo da vida, me tornei harpo-marxista e, enquanto todo mundo babava pelos gangsters realistas de De Palma e Copolla, eu me divertia com a paródia fantasiosa de Paul Williams, Bugsy Malone. Um outro disco bem exótico que tenho em vinil.

No início dos meus 20 anos, todos os sábados, meu programa era assistir a sessão da meia noite de The Commitments no Cinema Cândido Mendes. O que começou como uma reprise inusitada acabou se estendendo por uns seis meses e nas últimas exibições o povo cantava junto quase como se estivéssemos no Rocky Horror Picture. Não era só um filme, mas um experiência de vida. E, sim, também ainda tenho os dois discos de vinil da trilha.

https://www.youtube.com/watch?v=PKfHC5eY5CI

Olhando pra trás, por mais que disesse na minha juventude que eu odiava musicais, eu amava os filmes do Alan Parker. Não eram o que eu, na época, chamava de musical, como Cats e Evita, que ele mesmo filmou e se deu mal; mas eram filmes de e sobre música. Filmes que pelas imagens, pelas histórias, pela estrutura e pelos seus personagens me fizeram amar a música, mesmo que tivesse pouca compatibilidade com ela, como é o caso de The Wall.

Se, como dizem na peça escocesa, a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum, quando esse idiota é Alan Parker, o som se torna a mais bela música e a falta de sentido se torna um sentido em si. Nós, o restante de idiotas da humanidade, agradecemos.

#RIP Alan Parker.

Em tempo

Não tem quase nada de Alan Parker nesses serviços de streaming que não chegam aos pés de uma videolocadora de bairro. Tá na hora de corrigir isso, não?

A Patrulha da Desgraça

Sempre dou graças a Deus pelas invasões inglesas aos Estados Unidos. No Rock, os Beatles mudaram tudo, mesmo com aquele visual careta que depois ficou doidão. No cinema, os publicitários ingleses ensinaram a Hollywood uma nova estética que foi a única coisa de interessante que restou nas telas dos anos 80, depois que o blockbusters comeram vivo o cinema autoral dos 70. Nos quadrinhos… Moore, Pat Mills, Gaiman, Morrison. Morrison.

Pra mim, tudo começou com uma edição americana de Animal Man achada na Siciliano do Rio Sul. Era uma das histórias que fazia parte do ciclo da Invasão, mas não parecia com nada do que eu tinha lido. Um super herói suburbano, com mulher e dois filhos, vestindo uma jaqueta de couro que nada combinava com o seu colant, tentando voltar pra casa, esbarrava com uma invasão de robôs desastrados liderada por um vilão com cancer que queria se suicidar. Sim. Era isso. Só isso. E tudo isso.

Acompanhei todo o arco de Animal Man até o momento em que Morrison aparece na história para explicar o segredo do universo: todos somos ficção. Eu acreditei e acredito até hoje. Óbvio que ia ler e seguir a sua fase na Patrulha do Destino. O seu ciclo na Patrulha terminou como em Homem Animal, com uma história fora do padrão onde tudo não passava de uma ficção na mente de Crazy Jane. Ou não. Uma ficção mais forte que a realidade, como são todas.

Um pequeno aparte. Uma coisa que sempre me incomodou foi essa tradução de Doom em português para Destino. Sim, faz sentido, por exemplo, no caso do Dr. Doom, mas é pomposo e vago, com o propósito de gerar a sensação de terror por algo iminente.. Para a Patrulha nunca ficou bom. Devido às suas origens e ao (desculpe) seu destino, faria muito sentido chamá-la de Patrulha da Desgraça. Fim do aparte.

Quando fiquei sabendo da série de TV, fiquei ressabiado. Será que iam conseguir ou querer seguir os seus passos? Cheguei numa idade em que tenho boas justificativas para não querer me frustrar mais com as ficções nas quais vou fazer investimento libidinal. Depois de consultar amigos de bom gosto, me enchi de coragem e vi o primeiro episódio. Sinceramente, dentro dos limites da Warner, acho que foram muito além do que eu esperava. Vamos torcer que a esquisitice continue. Sempre.

 

“Bona to Vada”, Patrulha do Destino. Saudades.

 

É a vovozinha

No bar do Beto Palavrão rolava de tudo. Da missa de 7o. dia do Frei Eduardo, o padre mais velho, mulherengo e cachaceiro de Nova Rolândia, até o nascimento de netinho, filho de Junior, e bisneto da fundadora da cidade Dona Rolândia. O bar do Beto Palavrão era o único e último espaço democrático de uma cidade controlada por coronéis, majores e capitães. Um risca faca onde bandidos, polícia nem milícia ousavam entrar. Um templo maior que qualquer Igreja Matriz de novela de Dias Gomes.

Mas pra não desfazer a mística, um espaço tão livre tinha regras. Quer dizer, uma regra. Uma regra inusitada que contradizia o nome e o propósito do próprio bar. Uma regra que juram ter sido estipulada pela própria dona Rolândia quando ela apartou a primeira briga do risca faca na sua noite de lançamento 7 dias após a fundação da cidade. Essa regra, que quase ninguém proferia nem entendia o porquê mas todos guardavam no coração, ficava estampada num pequeno quadro ao lado da caixa registradora logo em cima do livro do fiado. E dizia: “ Aqui pode tudo. Só não pode xingar a avó”.

Assim, quando os ânimos se exaltavam e faltavam maneiras de insultar os outros, seja por chifre, política, sinuca ou novela das 9, o povo se calava pois ninguém podia recorrer ao famoso expediente “É a vovozinha”. E as brigas que pareciam inevitáveis se encerravam como que por mágica.

Mas pra não desfazer a mística, a regra foi quebrada. Uma vez que eu me lembre. E foi justamente com Netinho, o bisneto de dona Rolândia, a mulher que criou o mandamento. Logo depois da morte de dona Rolândia aos 116 anos, após uma briga com o próprio bisneto, Netinho entrou numa fase de dar gosto a psicanalista endividado. Ele foi enganado nos negócios e perdeu sua herança pro coronel Passarinho; a sua vaca premiada virou churrasco na mão do capitão Tenório; e a sua noiva, a virginal e bela Rosalva, quem diria?, fugiu num jipe com um cabo e um soldado na véspera do casamento. Era demais prum homem só.

Netinho, que era não dessas coisas, começou a beber. De quando o sol raiava até quando a madrugada pedia pra dormir. Como não era acostumado como o Frei Eduardo, vez ou outra ele perdia a linha e vinha pro Beto Palavrão puxar briga. O povo sabia o que ele estava passando e aguentava o que podia. Mas chegava uma hora em que o sangue esquentava e os impropérios começavam a voar de um lado pro outro até que Netinho encurralava seus interlocutores de uma forma que eles não pudessem dizer mais nada pois só restava o famoso “é a vovozinha”, e ele saía do bar feliz. Feliz de ter ganho alguma coisa em sua vida desgraçada. Pra espezinhar ainda falava:

– Em briga de moral aqui não tem pra mim.

Calhou que a Sudene foi fazer uma obra na região, daquelas pra acabar com a seca que nunca saiam do papel e só enchiam a carteira dos políticos, e o engenheiro Ricardo, vindo do sul, começou a viver em nova Rolândia e a frequentar o Beto Palavrão. Era um sujeito manso, mas macho, que tinha bom coração mas não conhecia a regra de dona Rolândia. Um dia Netinho chegou no bar com sangue no olho e escolheu o engenheiro Ricardo como seu alvo.

A turma do deixa disso pediu calma, e o engenheiro segurou o quanto pode, mas quando Netinho falou mal do seu time do coração, ele não fugiu da briga. Começou a xingação e Netinho, pela primeira vez, sentiu que ia perder. Engenheiro Ricardo, além dos palavrões comuns, trazia uns que só se falam abaixo da Bahia e a situação complicou. Mas Netinho, que não era bobo nem nada, conseguiu dar a voltaa por cima  e encurralou o sulista que, desconhecendo o mandamento do bar, como último recurso disparou:

– É a vovozinha!

Os clientes de Beto Palavrão se calaram e esperaram Netinho partir pras vias de fato, mas ele não fez nada disso. Ele sorriu, se aproximou de Engenheiro Ricardo, o abraçou e disse:

– Muito obrigado. Muito obrigado.

Nem engenheiro Ricardo e nem ninguém entendeu nada. Em choque viram Netinho partir assobiando em direção ao Cabaré da Jô Outdoor do outro lado da ponte do Rio Seco. Curiosos, o seguiram.

Após a curta caminhada, na barulhenta casa de tolerância e iluminado por aquela luz vermelha e irritante, os clientes de Beto Palavrão viram Netinho ajoelhado em frente a uma senhora que fumava de piteira, tomando um conhaque barato, vestida de corpete e meia arrastão. Uma senhora gorda, velha como tempo, e que, não podia ser, mas era; era a cara da dona Rolândia. Mas não era só a cara; era dona Rolândia, invocada dos infernos pela ofensa à sua honra. Netinho, aliviado e aos prantos, dizia:

– Saudades, vovó. Me perdoa, por favor. Me perdoa.

– Tá perdoado, meu netinho. Tá perdoado- a velha Rolândia respondeu, o abraçou e desapareceu num bafo de fumo.

O povo saiu do cabaré e nunca mais ninguém tocou no assunto. O fato é que a vida de Netinho deu uma reviravolta depois daquilo. Com a ajuda do Engenheiro Ricardo, ele descobriu diamantes nas terras que lhe sobraram; coronel Passarinho e capitão Tenório foram mortos na enchente causada pela explosão da barragem da Sudene; e Netinho acabou constituindo família com Verônica Pá de Cal, a desguarnecida filha do coveiro, que, quem diria?, era secretamente muito bonita. Tiveram apenas uma filha a quem deram o nome de Rolândia bisneta. Em merecida homenagem.

Com o dinheiro que ganhou Netinho comprou um outdoor eterno pra colocar na frente da cidade e anunciar o caminho do cabaré onde fez as pazes com o passado. Em letras miúdas, no canto direito, logo acima do neon dourado, se lia:

“ Bem vindo a nova Rolândia, aqui pode tudo. Só não pode xingar a avó. Seja bem vindo”.

Minhas Férias

No mês passado, Papai disse que ia me levar pra passear de noite. Mamãe disse que não. Mamãe disse que depois da peste era muito perigoso sair de noite e que tinha muito bicho na rua. Tipo tigres, leões, lobos, ratos e baratas.

Papai disse pra mamãe calar a boca, que ela era uma ateia infiel,  que ele era um cruzado pentecostal e podia fazer o que quisesse. Disse também que quando acabassem as minhas aulas online na Evangelização, ele ia me levar. E me levou.

No dia do passeio, eu botei uma roupa bem bonita. Uma camisa preta com o rosto do presidente e tudo. Quando ficou escuro, Papai parou na frente do prédio com uma picape grande. Mamãe me beijou e me pediu pra ter cuidado. Eu disse pra ela não se preocupar que eu era ungido do senhor. Ela chorou.

Eu desci e encontrei Papai na portaria. Ele me abraçou. Depois ele me deu uma caixa. Eu abri e tinha uma pistola com uma foto de Jesus no cabo. Ele disse que o próprio Presidente tinha abençoado ela pra eu matar um bicho bem grande. Pra minha sorte, nessa hora um rato gigante passou na rua, eu mirei nele e atirei. Acertei. De primeira. Papai ficou muito orgulhoso. Disse que era tipo um sinal de Deus.

Eu guardei a minha pistola na mochila, entramos na picape e fomos para onde era o zoológico. Papai disse que antes da peste os animais ficavam presos em jaulas  mas elas quebraram e os animais ficaram soltos. Mas agora todos estavam naquele parque e ali ficava mais fácil encontrar um bicho grande pra eu matar.

Papai parou a picape embaixo de uma árvore e ficamos esperando no escuro. Pra eu ficar acordado ele me contou como o mundo era pior antes da peste; que os comunistas mandavam em tudo; que rezar era proibido; e que graças à cloroquina sagrada só os homens de bem sobreviveram. Agora a gente vivia tipo num Paraíso. Um lugar só pro povo temente a Deus mas cheio de bichos selvagens. A história era bem legal mas eu dormi no meio.

Acordei com um barulho muito grande. Tipo o barulho que Golias fez quando atacou Davi. Papai já estava do lado de fora do carro com uma metralhadora. Lá longe tinha um bicho cinza, redondo, com quatro perninhas curtas e tipo uma mangueira no lugar da boca. Eu perguntei que bicho era aquele e Papai disse baixinho “elevante”.

O elevante viu o carro e começou a andar na nossa direção. Papai deu uma rajada no elevante mas ele não morreu, só ficou mais nervoso e avançou pra gente com tudo. Papai entrou no carro e tentou ligar ele pra gente fugir, mas o elevante foi mais rápido e virou a picape. Eu fiquei tonto e vi que o Papai tinha se machucado. Papai disse pra eu não ficar com medo. Eu disse que era corajoso e que quando eu crescer vou ser um cruzado pentecostal tipo ele. Papai não falou nada.

Papai quebrou o vidro da frente e saiu do carro pra tentar derrubar o elevante com mais uma rajada. O elevante de novo foi mais rápido. Ele pegou o Papai com a mangueira da boca e jogou ele longe. Papai caiu em cima de uma árvore e saiu muito sangue dele. Eu fiquei com medo, mas fiz uma oração pro senhor Jesus e fui enfrentar o elevante.

Eu saí devagarinho e me escondi atrás do carro. Depois de matar o Papai, o elevante ficou tipo confuso e parou na minha frente sem fazer nada. Eu tirei a minha pistola da mochila e mirei bem na cabeça dele. O elevante me viu e tentou correr mas eu atirei antes. O elevante caiu. De primeira.

Por causa do tiroteiro, a milícia evangelizadora chegou logo e me levou pra casa da Mamãe.  Todo mundo disse que eu fui muito corajoso e que tinha que ter orgulho do meu pai, que agora ele estava no céu. Eu nem fiquei triste. Mamãe ficou muito nervosa e gritou muito nome feio para a milícia evangelizadora. Um dos milicianos disse pra mim que minha mãe era sobe e versiva. Eu não entendi o que ele queria dizer.

O Presidente ficou sabendo da história e na semana que vem vou participar da Live dele pra contar como eu matei o elevante que é tipo uma fera de Satanás. Mamãe disse que não ia deixar eu ir, que o presidente era ruim, e que a gente vivia num inferno por causa dele. Pelo jeito não gostaram, pois mais uma vez levaram ela pra passar um tempo num campo de reconversão. Disseram que dessa vez ela volta melhor. Tô com saudades da mamãe. Vou pedir pro Presidente soltar ela. Será que ele deixa?

Para ver a Peppa Pig

Durante a pandemia, aqueles que têm filhos pequenos foram obrigados a receber uma dose maior do que a usual de programas infantis. Além do que rola no Gloob, Discovery Kids, Disney Channel e afins, as crianças, numa resposta usual de defesa psíquica ao isolamento social, precisaram recorrer a desenhos e programas que reforçassem momentos antigos da sua infância. Por conta disso, muitos pais que acreditavam nunca mais ter que ver certas produções acabaram num revival de fases anteriores do desenvolvimento infantil. Aqui em casa foi com Peppa Pig.

Peppa, um desenho que minha filha, poucos meses antes da pandemia, dizia ser “pra bebê”, voltou ao ar com força total na nossa casa. Questionada por que estava assistindo algo “pra bebê”, ela foi categórica: “Saudades de quando eu era criança”. Saudades de quando eu era criança.

Dessa vez, ao invés de fazer ouvidos de mercador, resolvi prestar atenção e, confesso, me surpreendi. Aos moldes do famoso livro Para Ler o Pato Donald, onde Ariel Dorfman e Armand Mattelart desvelam a ideologia imperialista americana por trás das obras da Disney, descobri em Peppa Pig um enorme mundo de análise social.

Peppa vive num mundo de animais antropomorfizados, ou melhor, de mamíferos antropomorfizados. Répteis, peixes e aves não têm características humanas. Dentre esses animais existem diferenças claras socialmente de acordo com as suas regiões de origem. Os mamíferos de origem europeia representam a classe média incompetente inglesa que se beneficia de uma estrutura burocrática e ineficiente para sobreviver e cujos avôs e avós vivem de fantasias militaristas do passado. Os animais vindos da África trabalham com artesanato, com o tratamento de animais ou no mundo do entretenimento. Os animais asiáticos têm empregos especializados na área médica e de tecnologia ou cuidam dos serviços públicos, como segurança e educação. Além disso há uma crítica velada aos irlandeses, representados pela família coelho que tem a maior quantidade de filhos e cuja mãe sempre aparece mudando de emprego.

Além dessa visão extremamente estereotipada dos imigrantes na Inglaterra, o que de certa forma mostra os aspectos inconscientes que estimularam o Brexit, temos uma divisão que supera as questões sociais. Em Peppa existem apenas dois personagens humanos: Papai Noel e a Rainha, representando o capital e a nobreza. Essa divisão expõe um outro fosso de iniquidade intransponível para os animais: o de espécie. Por mais que os porcos, como em A Revolução dos Bichos, tenham aprendido a andar em duas patas, eles nunca serão tão poderosos como os humanos. Afinal sua origem biológica, animais (4 patas) bons, mas humanos (2 patas) melhor, continuará a assombrá-los.

E aí se encontra na minha opinião o ponto central da discussão socio-política de Peppa Pig.

Como um herdeiro de Bola de Neve e Napoleão, o primeiro começou a Revolução dos Bichos, e o segundo se tornou um tirano se aliando aos humanos, Papai Pig é a cria de um modelo opressivo que foi normalizado. Os animais vivem suas vidas alienados, preocupados com o senhor Batata e outros legumes que ao mesmo tempo que representam suas maiores celebridades também são o seu alimento. Não há diferença, como no nosso mundo, entre a obesidade biológica ou o excesso de consumo de informações inúteis. Todas são estimuladas por uma sociedade que nunca fica saciada e precisa consumir sem parar.

Nesse estupor de consumo, o Papai Pig, sempre apresentado como obeso, incompetente e fraco, é um sujeito emasculado, ameaçado por animais migrantes com maior expertise ou força de trabalho que ele. Um supremacista branco com nostalgia dos tempos onde só a origem já era suficiente para justificar o seu poder sobre os outros. Assim, atrás dos sorrisos forçados e vexatórios de Papai Pig, há um enorme potencial fascista que só precisa de uma pequena fagulha para se manifestar.

O universo de Peppa Pig é um retrato do nosso passado recente: um mundo aparentemente em paz, vindo de revoluções esquecidas, onde a semente totalitarista está brotando escondida numa classe média incompetente e reacionária. Se em Para ler o Pato Donald aprendemos como o imperialismo americano tenta oprimir e subjugar as demais culturas, considerando-as primitivas, e as corrompendo pelo interesse financeiro, em Peppa Pig vemos um momento pós imperialista onde se vive uma nostalgia da opressão. Será que Papai Pig, como Boris Johnson, Trump, Bolsonaro, e seu avô Napoleão, irá instituir uma nova ditadura com o pretexto de manter a lei e a ordem? Só o tempo dirá. E a resposta não estará em Peppa Pig, mas, sim, nos nossos telejornais.

Talvez seja melhor a gente trocar logo de canal.

Como lidar com os adeptos da carteirada

Quando eu era pequeno, todo mundo se referia ao meu pai como Coronel. Só fui saber que ele não era mesmo do exército aos 10 anos. Um choque. Afinal ele tinha lutado na Segunda Guerra, estudou no Colégio Militar e todo ano recebia uma romaria de gente pedindo para tirar os filhos do serviço militar. Não era coronel, mas se fazia como tal, mesmo sem dizer.

Lembro, inclusive, que insistiu comigo pra fazer uma tal carteirinha de filho de ex-combatente que, na sua fantasia, me daria acesso gratuito ao Maracanã, o que nunca me interessou, e me livraria de problemas não especificados, algo no que nunca me meti e, assim, para os quais nunca testei a solução mágica.

O fato é que, como uma boa parcela da população, ele se achava no direito de ter mais direitos que o restante da população. Era, sim, um adepto da famosa carteirada. Como não tinha um cargo ou amigos poderosos que o bancassem, ele o fazia através da malandragem e do soft power. Nunca dizia “você sabe com quem está falando”, mas era extremamente  hábil na arte de “name dropping” e adorava contar histórias, na maioria, falsas, sobre conhecidos em altos cargos. Assim nunca o vi pagar cinema, ônibus ou metrô, vivia ganhando coisas de graça e alguns, que realmente acreditavam nos poderes que não tinha, lhe usavam como mentor para assuntos que iam desde candidatura política até criação dos filhos; o que só aumentava o seu poder de influência. Era um abuso.

Agora, toda semana vemos um caso de gente tentando fazer o mesmo, sem graça ou finesse. A minha pergunta é: o que fazer?

O linchamento público não é boa opção pois, como visto no caso do Engenheiro Civil melhor que você e do Desembargador abusivo, eles não sentem culpa. Pra piorar, isso só os aproxima dos setores mais radicais da carteirada e podem torná-los, escreve aí, futuros candidatos a cargos legislativos onde terão mais oportunidades, mas não o direito, de fazer isso.

A reeducação desses sujeitos é uma impossibilidade. Ninguém quer aprender a ter menos poder. E, outra, ao sair de um treinamento ou mesmo lavagem cerebral, voltariam para uma sociedade onde tudo o que lhes foi ensinado como ruim continua a ser ostensivamente usado e funciona para seus nefastos fins egóicos.

Logo, a única saída é mexer no sistema, na cultura, e fazer com que esse expediente não funcione mais e seja uma vergonha tentar utilizá-lo. Quanto mais esse poder inexistente for confrontado e se tornar inútil, menos eles se sentirão compelidos a usá-lo. Coisa difícil e demorada, eu sei, mas é a única maneira. Se o sistema, que foi criado para favorecer a carteirada, não mudar,  não dá pra esperar que ele rode altruisticamente graças à consciência e à cidadania que a população, veja só as praias lotadas, não têm.

Foi mais ou menos assim que o meu pai parou de se meter com a história de tirar os filhos dos outros do serviço militar.

Como disse, quase como um Don Corleone, todo ano, meu pai recebia a população do Flamengo com pedidos para tirar seus filhos do serviço militar. Ele reforçava como era difícil e prometia fazer o possível. Todos saíam muito agradecidos e ficavam ainda mais agradecidos quando os filhos não serviam. Na verdade não era difícil: tinha excesso de gente querendo servir e se você se alistasse no exército, pertinho do fim do prazo, e disesse que não queria servir seria liberado. Até o dia que deu chabú.

No início da Nova República, um cara que estudava no meu colégio, umas duas séries pra frente, cabeludo, meio hippongo, boa praça, estava pra se alistar e a mãe preocupada foi procurar o meu pai. Ele fez todo o teatro, recebeu os agradecimentos da mãe e se esqueceu da história. Não sei o que rolou, se com o fim do governo militar menos gente quis se alistar, mas o menino serviu. E como estava entrando na faculdade ainda botaram ele no CPOR.

Vez ou outra eu o encontrava na rua, cabelo recado, de uniforme, e recebia os olhares de ódio que eram pro meu pai. Uma vez comentei com meu pai sobre o garoto e isso o chocou. A boa providência, pronunciou, o tinha abandonado nesse aspecto. Na sua cabeça, não tinha culpa por nunca fazer nada, era só uma questão de sorte ou azar.

Assim, ao invés de assumir seu erro, toda vez que ainda vinham lhe pedir o milagre que não fazia, ele passou a recusar a missão, falando que seus amigos tinham sido reformados, o sistema político era outro e sua influência tinha diminuído. O povo saía triste, mas ele ainda prometia fazer algo, mas sem garantir resultados, perseverando sua aparência de poder.

Enfim, o problema da carteirada não é só de quem dá mas de quem a recebe e de quem se beneficia dela indiretamente. Se mesmo sem garantias reais do poder alheio, continuamos acatando ou a pedindo precisamos questionar por que somos tão servis, ou, pior, como desejamos promover essa cultura com a esperança de sermos nós futuramente aqueles na posição de dar a carteirada.

Quando penso nessas coisas, me dá um frio na espinha e só melhoro quando começo a cantarolar La Marseillaise. Funciona. Sério. Tudo o que precisamos é cantar mais alto e por mais tempo que os tiranos.