Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Meu pai, antifa de ocasião

Quando eu perguntava ao meu pai por que diabos ele foi lutar na segunda guerra, ele sempre me dizia:

– Pra derrubar o Getúlio.

Não parecia coerente. A guerra era na Europa e o Brasil estava lutando junto com os Aliados. Mas ele explicava:

– Vargas se aliou pensando no dinheiro, não na ideologia. Eu sabia que, mesmo com essa virada de casaca em cima da hora, o governo fascista dele não sobreviveria à queda da Alemanha e da Itália.

Ele estava certo. Seu governo realmente deixou de fazer sentido com a nova ordem mundial, mesmo que 10 anos depois ele tenha voltado ao poder pelas mãos do povo, o que prova que brasileiro se amarra num tirano.

A birra do meu pai com Vargas durou até o fim da sua vida. Um dos dias que mais ansiava no ano era o aniversário da morte de Getúlio quando ele ia xingar as viúvas espirituais do ditador que colocavam flores no seu busto na Cinelândia.

Vocês vão se surpreender, mas o engraçado é que as suas motivações não eram exatamente políticas. Meu pai era um sujeito reacionário, ex-aluno do colégio militar, que apoiou a ditadura de 64 comandada por vários de seus colegas de escola, e, vergonha suprema, votou no Bolsonaro pra vereador, o que o torna responsável pela criação desse monstro, pela simples expectativa de um aumento na sua pensão de ex-combatente.

Às vezes me pergunto: “que força estranha moveu a versão jovem do meu pai a ser um antifa de ocasião durante a segunda guerra?”.

Não sei exatamente, mas desconfio que foi ciúme. Meu pai era meio aparentado do Getúlio. A avó do meu pai era tia avó de Vargas o que faria dele uma espécie de primo de milésimo grau. Provavelmente, sendo criado na década de 30, deve ter ouvido a família enaltecendo o parente que se deu bem, enquanto ele era um estorvo, o orfão que eles precisavam criar. Calhou que, por conta desse parentesco longínquo, numa visita de Getúlio ao colégio militar ele foi apontado para fazer o discurso de boas vindas. Era a sua oportunidade de se vingar.

Disse ele que fez dois discursos: um pra apresentar aos oficiais do colégio, outro pra fazer na hora. Discurso aceito pelo colégio, lhe foi concedida a oportunidade de dizer o que pensava ao ditador. Eu só imagino como foi. No meio de um jantar para todo o colégio e convidados; os alunos com uniformes de gala; puxa-sacos tendo seu dia de glória; um dia de festa reacionária.

O homem chegou. Foi aplaudido de pé,  os oficiais do colégio fizeram a abertura cumprimentando o ditador e chamaram meu pai ao palco. Ele tirou do bolso o seu discurso alternativo, respirou fundo e finalmente disse o que estava entalado na sua garganta. Mas nem conseguiu terminar; foi retirado do palco no meio da sua fala e preso por 30 dias. Algo realmente marcante para um menino de 12 anos. Até sua morte, contava essa história cheio de orgulho. E tinha razão pra isso.

Quando vejo o povo discutindo quem é antifa de verdade ou não, lembro do meu pai. Ele não era, mas fez a sua parte na hora certa. Seus motivos podiam ser vis e pessoais, mas, não tivessem ido ele e tantos outros lutarem na Itália, as coisas poderiam ser diferentes. Tá, não muito, mas nessas horas toda ajuda conta.

Por isso, se aquele tua amiga arrependida,  aquele outro que não sabe bem o que quer, a patricinha que se acha politizada, o que só quer ver o circo pegar fogo, ou mesmo aquela intelectual que apoia totalitarismos do outro lado do espectro político querem entrar na luta, os abrace. Tem certas horas que frente ampla tem que ser ampla mesmo.

E depois que as coisas se resolverem, a gente discute as nossas diferenças. Afinal se a gente não fizer nada agora, pode ser que a gente não possa discutir mais nada por um bom tempo. Então melhor antifa de ocasião do que fascista de coração.

Não concorda? Tudo bem, vamos discutir no boteco depois. Agora é hora de união.

Domingos Redux

Todo mundo sabe, é público e notório, está escrito na minha cara que: sou um bruta fã do trabalho do Domingos de Oliveira. Tanto que quando a Globo anunciou que ia lançar a minissérie inspirada no seu trabalho e que foi sua última contribuição, confesso que animei. Mesmo.

Lançaram, não vi ao lançamento ao vivo, pois, desde Lost, não sou mais dessas coisas; mas dada uma semana busquei o primeiro capítulo, assisti e saí com um sonoro: “Meh“.

Não que seja ruim; não é. É legal…zinho, mas o pior é se apropriar das obras de Domingos numa colcha de retalhos que o transforma num sátiro pedante e engraçadinho. Como li no twitter, e concordo, parece até uma glorificação e, ao mesmo tempo, paródia do esquerdomacho.

Se você conhece a obra de Domingos, não tem nada disso. É sobre amor e existência. Quando se tentou colocar todos os seus filmes numa fila acabou transformando o protagonista num canalha serial com estofo intelectual.

Domingos merecia mais.

A CoVid e a crise do Estado Moderno

Não consigo parar de pensar que o bafafá entre a abertura da economia e o distanciamento social para nos proteger da pandemia é um conflito entre duas diferentes concepções vindas da reforma dos modernos estados nacionais.

O modelo de governo que temos atualmente e as idelogias que governam a nossa dita vida comunal se devem muito a duas revoluções do século XVIII que aconteceram bem próximas: a americana e a francesa. Apesar de estarem relacionados conceitualmente e inclusive terem pontos de convergência, seus lemas explicitam uma grande diferença nas expectativas de comportamento dos cidadãos. Enquanto a revolução francesa pregava a liberdade, igualdade e fraternidade, a americana garantia como foco principal o direito à busca da felicidade.

Num momento de crise, como agora, esses dois conceitos, que até podem co-existir em condições normais, deixam claras as suas diferenças. Enquanto o francês reforça o benefício do grupo e a isonomia entre os cidadãos, o americano pode ser encarado como uma permissão para a ação com foco nas necessidades e anseios dos indivíduos.

Hoje estava discutindo com um amigo sobre a questão e caí na real que não há uma resposta rápida e fácil para esse conflito.  O que ficou da nossa conversa é que até dá pra conviver com essa dualidade, mas em determinadas circunstâncias a balança pode, e deve, pender para um lado ou para o outro. A busca da felicidade é mais adequada a momentos de pujança e a fraternidade cai bem nas crises. Porém, se olharmos com atenção, boa parte dos problemas que sofremos hoje são devidos aos excessos cometidos pela busca da felicidade: hiperconsumismo, aquecimento global, desigualdade, crise energética. Inclusive, se a gente tivesse desde os anos 90 trabalhado na parte da igualdade e da fraternidade, essa quarentena ia passar de boa.

Talvez a dificuldade das pessoas esteja em encarar a questão circunstancial como uma afronta ao que acreditam ser a sua identidade. É a velha teoria de encarar a política como time de futebol. Eu sou pró fraternidade versus Eu sou pró busca da felicidade. Ceder a visões diferentes da sua por conta de necessidades não significa que você esteja indo contra seus valores nem que a mudança prum lado ou pro outro irá permanecer indefinidamente. O medo de contrariar sua opinião é considerar que é melhor errar sozinho pelos motivos “corretos” do que acertar junto com base em ideias alheias; enfim, uma bruta besteira.

Pra piorar eu ainda poderia lembrar que a sua identidade é uma ficção construída a milhares de mãos e, quanto às teorias conspiratórias de como o ficará quando tudo terminar, como dizia o Dr. Manhattan, nada termina.

Mas isso é outra história.

 

A arte de ser arte

Escutei o disco novo da Fiona Apple e senti o mesmo que senti quando assisti ao primeiro episódio de New York Stories, dirigido por Scorcese.

No curta metragem Life Lessons, Nick Nolte interpreta um pintor em crise criativa obcecado pela sua assistente e ex-namorada. A sua relação com a obra que não consegue terminar não é só angustiante, como é carnal e vital. Uma luta de vida e morte que pode não ter um final feliz.

As cenas dele pintando são o que realmente mais me impactou. O esforço de se jogar contra o nada, seja a tela vazia, o papel em branco ou o opressivo silêncio, é o que diferencia a atividade da arte de qualquer outra coisa produtiva. Fazer arte é confrontar a falta de objetivo e, ao mesmo tempo, as infinitas possibilidades do universo que nos permitem extrair um cavalo de uma pedra ou uma lágrima de um som.

Todos os méritos para as outras atividades humanas e seus empreendimentos, mas a arte é especial, pois é um exercício fútil e sem expectativas de recompensas contra o tudo e o nada que nos oprimem.Talvez seja aí onde o comércio e a indústria tem o seu corte frente à arte. A demanda da arte é interna e contínua, porém não se pretende produtiva.  Não precisamos escrever um livro por ano para fazer arte, ou lançar uma música por semana. Isso é comércio e indústria. A arte é o que surge de ser o que você é, mesmo que leve 8 anos, como o novo álbum da Fiona, ou nunca saia como dos hipsters angelicais de “O Uivo” de Ginsberg.

Arte não é sobre fazer, é sobre ser. Nada e tudo.

“It’s art. You give it up, you were never an artist in the first place.”Lionel em Life Lessons

E você nunca desiste, você continua tentando, faça algo ou nada, mesmo que nunca tenha nada pra mostrar.

Não eleja ditadores

O problema dos ditadores é que eles não tem planos de governo, estéticas, crenças ou ambições políticas. Os ditadores só querem estar no poder. Como crianças mimadas que se ressentem do poder paterno que os excluía do amor da mãe, esses neuróticos em potencial acabaram se tornando esquizoparanoides. Por se acharem mais importantes que o restante da humanidade, se acham perseguidos por todos. Assim, só se sentirão seguros se estiverem ao lado do seio bom, evitando a todo o momento que o seio mau venha lhes negar o leite ao qual acreditam ter direito e, cá entre nós, não tem.

Esses ditadores não aprenderam a lidar com a frustração e, dessa forma, corrompem suas memórias para sempre estarem certos. Ao contrário da Ana Maria Braga, eles não aprenderam que é mais legal ser feliz do que estar certo. E para eles não basta que eles acreditem em suas fantasias. Eles querem nos convencer com slogans, palavras de ordem, fake news e outras formas de administração de mentiras.

Num sistema democrático capitalista os ditadores surgem do mundo das celebridades. Se aproveitando do excesso de libido autodirigida eles arrebanham os de baixa auto-estima e os tornam em exércitos de fãs, admiradores, eleitores ou fiéis. Por isso os governos, os templos, os serviços de streaming de música e os reality shows estão coalhados de pequenos e grandes ditadores, que não importando o tamanho são igualmente fatais.

Assim, não eleja ditadores. Não os eleja como presidentes, campeões de Big Brother, artistas do momento ou, na sua vida particular, como amigos ou amantes. Esqueça os ditadores. Quando eles estiverem gritando e agitando as suas massas de manobra contra tudo que é bom e belo, não ligue, se cale e não lhes dê atenção.

O segredo que aparentemente esquecemos é que o nosso silêncio é fatal para eles.

Shhhh….

A falácia do streaming

Nada é mais decepcionante que um armário cheio de coisas que você não quer. E é isso o que o streaming é: um armário cheio de nada.

“Mas agora você tem acesso a todo um mundo de…”

Pode parar. Não tem. Você acesso a mais coisas que as pessoas querem te mostrar. Você não tem mais acesso às coisas que você quer. Sério. Desculpem o desabafo, mas toda insônia é a mesma coisa. Vou lá no justwatch pra buscar alguma coisa pra assistir e tudo o que EU quero não está disponível.

Não tem Hal Hartley, Terry Zwigoff, Alan Rudolph, Ken Russel. Tem pouco do Cronenberg e em especial o que eu não quero assistir. Não tem filmes B dos anos 50 e 80. Tem até uns filmes independentes dos anos 90, mas só os mais conhecidos e mais chatos. Filmes marginais dos anos 60 e 70, esquece. Filme Noir dos 30 e cinema alemão dos anos 20? Tá brincando? E não tem Wonder Boys pra quando preciso de iluminação espiritual.

Mas, você vai dizer, tem novelas coreanas, animes atuais, as últimas séries. Por que você não tenta algo diferente? Lamento, tem dias em que eu simplesmente sei o que quero e tudo o que o Streaming me oferece é o que  ele, via algoritmo, acha que eu deveria ver.

Aí, quando já está amanhecendo, frustrado, sou obrigado a decidir pelo que tem aí.

Na época das locadoras, quando o mercado era realmente pulverizado, a coisa era diferente.

Eu era sócio de locadoras da Tijuca ao Leblon. Muitas vezes por conta de um só filme. Na Tijuca eu ia buscar The Records of Loddoss War. Numa locadora na rua Uruguaiana, no 14o. andar de um prédio comercial, tinha uma bela coleção de filmes trash brasileiros, incluindo Fuscão Preto, estrelado pela Xuxa. Na galeria Asteca do Catete, eu encontrava coleções de clipes como uma do Duran Duran com Girls on Film que tinha sido proibido de passar na TV.  Cinema de arte e independente era nas locadoras do Estação e numa birosquinha na galeria ao lado do cinema Paissandú. Pra saciar a minha sede de filmes Trash, precisava ir a uma locadora da Barão da Torre. Enfim, tinha tudo, pois a curadoria era descentralizada e guiada pelos gostos dos proprietários.

Ser sócio e frequentar uma locadora era estabelecer uma relação com outros seres humanos que criavam empatia contigo através do acervo que eles escolhiam. Não havia a experiência centrada no usuário que nos reduz a atributos comportamentais a serem ativados para a repetição de hábitos de consumo. Havia comércio e conversa.

Isso o streaming nunca vai te dar. Mais uma insônia perdida.