Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A falácia do streaming

Nada é mais decepcionante que um armário cheio de coisas que você não quer. E é isso o que o streaming é: um armário cheio de nada.

“Mas agora você tem acesso a todo um mundo de…”

Pode parar. Não tem. Você acesso a mais coisas que as pessoas querem te mostrar. Você não tem mais acesso às coisas que você quer. Sério. Desculpem o desabafo, mas toda insônia é a mesma coisa. Vou lá no justwatch pra buscar alguma coisa pra assistir e tudo o que EU quero não está disponível.

Não tem Hal Hartley, Terry Zwigoff, Alan Rudolph, Ken Russel. Tem pouco do Cronenberg e em especial o que eu não quero assistir. Não tem filmes B dos anos 50 e 80. Tem até uns filmes independentes dos anos 90, mas só os mais conhecidos e mais chatos. Filmes marginais dos anos 60 e 70, esquece. Filme Noir dos 30 e cinema alemão dos anos 20? Tá brincando? E não tem Wonder Boys pra quando preciso de iluminação espiritual.

Mas, você vai dizer, tem novelas coreanas, animes atuais, as últimas séries. Por que você não tenta algo diferente? Lamento, tem dias em que eu simplesmente sei o que quero e tudo o que o Streaming me oferece é o que  ele, via algoritmo, acha que eu deveria ver.

Aí, quando já está amanhecendo, frustrado, sou obrigado a decidir pelo que tem aí.

Na época das locadoras, quando o mercado era realmente pulverizado, a coisa era diferente.

Eu era sócio de locadoras da Tijuca ao Leblon. Muitas vezes por conta de um só filme. Na Tijuca eu ia buscar The Records of Loddoss War. Numa locadora na rua Uruguaiana, no 14o. andar de um prédio comercial, tinha uma bela coleção de filmes trash brasileiros, incluindo Fuscão Preto, estrelado pela Xuxa. Na galeria Asteca do Catete, eu encontrava coleções de clipes como uma do Duran Duran com Girls on Film que tinha sido proibido de passar na TV.  Cinema de arte e independente era nas locadoras do Estação e numa birosquinha na galeria ao lado do cinema Paissandú. Pra saciar a minha sede de filmes Trash, precisava ir a uma locadora da Barão da Torre. Enfim, tinha tudo, pois a curadoria era descentralizada e guiada pelos gostos dos proprietários.

Ser sócio e frequentar uma locadora era estabelecer uma relação com outros seres humanos que criavam empatia contigo através do acervo que eles escolhiam. Não havia a experiência centrada no usuário que nos reduz a atributos comportamentais a serem ativados para a repetição de hábitos de consumo. Havia comércio e conversa.

Isso o streaming nunca vai te dar. Mais uma insônia perdida.

Bye, Bye, Brazil

Tive duas oportunidades, meio sem querer, de conhecer boa parte do Brasil.

A primeira foi por ingenuidade.

Eu tinha 20 anos, relia compulsivamente On The Road desde os 17, e, espremido entre a adolescência e a fase adulta, e paralisado pela falta de perspectiva que os anos 90 e a minha faculdade eternamente em greve me geravam, eu só queria ir embora. Pra onde? Não sei. Eu não tinha um plano. Podia ser pros anos 40/50, pra rota 66, pra qualquer lugar. Como eu disse, foi in-ge-nu-i-da-de.

Guardei durante um semestre 800 reais e combinei com uma colega de faculdade que em janeiro de 1996 iríamos rumar para a Rodoviária Novo Rio e pular no primeiro ônibus que estivesse pra sair. Faríamos o mesmo nos demais destinos até o dinheiro acabar. Um sonho. Ela consentiu, eu acreditei, e na hora H, ou quase, ela pulou fora. Como disse, in-ge-nu-i-da-de.

Frustrado, comentei com uns amigos dos planos furados e um deles, que tinha carro e carteira de motorista, mesmo que vencida, se prontificou a participar da aventura. Outros dois que também nada tinham a fazer naquele verão se apresentaram e completaram a tripulação. E lá fomos nós quatro, num Uno, sem uma carteira de motorista válida, do Rio ao Piauí e de volta em um mês e um dia. O motorista se tornou nosso desafeto, um dos tripulantes ficou no Piauí, e o outro se tornou padrinho da minha filha.

Sem precisar entrar em detalhes, foi uma viagem que mudou a minha existência. Mas bastou. Me tornei uma nova pessoa, terminei a faculdade, comecei a trabalhar, abri 3 empresas, e me tornei, aos trancos e barrancos, adulto. Era hora de ficar em casa, no Rio, de onde não saí, pelos próximos 10 anos.

Aí veio a segunda oportunidade. Saindo de uma falência humilhante e complicada, fui obrigado aos meus trinta e poucos anos a trabalhar pela primeira vez de carteira assinada. Parecia um garoto velho obrigado a colocar calças curtas e voltar pra escola. Mas não foi ruim.

Uma das minhas primeiras tarefas foi dividir um roteiro de treinamento pelo Brasil com um colega. Ele dividiu a missão irmãmente:

– Pra ninguém ficar sobrecarregado, vamos pegar cada um o mesmo número de cidades. Aqui, ó, eu vou pra Salvador, você vai pra Açu. Eu vou pra Recife, você pra Coari. Eu pego as cidades na linha verde do Nordeste e você faz o ABCD paulista. Combinado?

– Combinado.

Era um sujeito generoso. Mesmo que não intencionalmente.

Graças a essa divisão, conheci o sertão, os pampas, as cidades industriais paulistas, andei de canoa pelo rio Amazonas, visitei as cidades petrolíferas do litoral do sudeste, os estaleiros do sul do país, e as minas de Minas e os portos no norte. Fiz amigos, conheci novas realidades e, com orgulho, fiz a minha parte pra melhorar um pouco o país.

Durante 8 anos, nessa e numa outra empresa, fazia trajetos loucos e conduzia treinamentos e reuniões de troca de conhecimento nos mais distantes rincões do Brasil. Enquanto uns iam pra Vienna, apresentar trabalhos acadêmicos baseados nos meus esforços, eu não me incomodava de trabalhar durante feriados em Ourilândia. Sou um sujeito humilde, mas um pouquinho ressentido. Deu pra notar?

Depois dessa loucura, mais uma vez cresci e aquietei. Virei os 40, tivemos a nossa filha e voltamos pro lugar de onde viemos.

Agora, olhando o futuro através da nesga de céu que a janela da casa que o meu pai me deixou permite, não vejo horizontes para esse país que eu desbravei.

Nunca fui fã da bandeira ou da camisa de futebol, mas hoje tenho nojo do significado que os grupos fascistas lhe impuseram. Nunca acreditei em políticos profissionais, nem em partidos, afinal política se faz na mesa de bar, mas toda vez que vejo menção ao nome Brasil ou alguém cantarolando o hino dá vontade sair do recinto.

A apropriação messiânica desta terra, que nunca teve a ambição de fazer sentido ou ter um propósito, a tornou inóspita. O Brasil era, foi, pra mim, um lugar de descoberta, de alegria, de crescimento, de emoção, de maturidade, de trabalho, de surpresa e de introspecção. Agora, esse país, do qual pessoas cheias de ódio falam nas ruas e na TV, se tornou o pretexto para a opressão e para o genocídio de quem o tornava melhor justamente por não fazer nada por ele. No melhor estilo taoísta, o caminho dessa terra era muito melhor quando não havia destino. A sua melhor missão era simplesmente (não) ser.

Agora que Aldir Blanc morreu, impossível não lembrar que o “Brazil não conhece o Brasil”. Nem eu, que andei pacas por ele, o conheço. Quem dirá esses sujeitos gananciosos e mal intencionados buzinando pelo direito de passar o fim de semana em Miami às custas do trabalho e das vidas alheias, dentro de caminhonetes importadas balançando bandeiras verde amarelas made in China?

E, assim, em respeito a memória desse Brasil que definha, eu penso que essa ideia insistentemente nascedoura de Brazil deveria morrer também. Vamos rachar a terra, separar tudo isso, antes que as lembranças dela se tornem amargas e fatais demais.

Vamos viver em nossos condados, e lembrar, sem saudades de quando essa terra era uma só, e sem alimentar as falsas esperanças de um rei Artur que venha reuni-la mais uma vez.

Vamos, após o isolamento social, voltar aos botequins e discutir uma ideia de país, ou melhor, de países sem messianismos ou destinos manifestos. A ideia de um conjunto de terras diversas e amigas, uma nação nem melhor, nem pior, mas, como o Salgueiro, apenas diferente. Sob vários deuses e acima de ninguém. Assim, como o Brasil já foi e não é mais.

Bye, bye, Brasil. A última ficha caiu.

Fumando espero

Uma das coisas que tem me passado pela cabeça é que, pós CoVid, como rolou pós Influenza e pós 1a. Guerra, a gente possivelmente possa passar por um período de pujança intelectual e orgia dos sentidos. Tudo para esconder o estresse pós traumático dessa experiência e da ansiedade que dificilmente nos largará. Uma década, cheia de arte e exageros, até seu derradeiro fim. Quase ninguém concorda comigo. Agora, leio que fumantes apresentam menos casos de CoVid. Era o que faltava para termos os novos Roaring Twenties: a volta do tabaco. Como cantava Billie Holiday: “Smoking, drinking, never thinking of tomorrow…nonchalant”.

A mão invisível de Darwin

Acho que chegou num ponto em que a gente tem que se perguntar se a economia merece realmente esse lugar de destaque em nossas vidas.

Do final do século XVIII pra cá, com a construção das repúblicas democráticas modernas e de algumas tiranias autojustificadas, a economia e a política, reduzida a um processo para definir modos, meios e regulações (ou não) de produção, viraram a coisa mais importante da vida. Coisas de gente séria. Vitais. Podia ser diferente.

Por exemplo, a discussão suscitada pelo Corona entre “a bolsa ou a vida” podia ser filosófica, espiritual, artística, mas, não, é sobre a sobrevivência do indivíduo versus a sobrevivência do sistema econômico. O engraçado é que muitos dizem que as mortes individuais justificam a sobrevivência de um sistema que, santa falta de imaginação, Batman!, as pessoas não conseguem nem pensar que possa ser diferente. Errado. Podia ser diferente.

Me acompanha aqui: os serviços fundamentais estão funcionando bem, isso mantém as pessoas em casa, reduzindo a carga nos hospitais, o problema é que uma parcela gigante da população não tem dinheiro ou crédito para comprar coisas que, se não forem consumidas, vão acabar no lixo de qualquer maneira. E por que eles não tem dinheiro? São pródigos, perdulários, preguiçosos? Não. Pelo contrário. Só não tiveram a sorte de nascer ricos ou não foram privilegiados por uma meritocracia de cartas marcadas. Ou seja, o problema não é a necessidade do trabalho, afinal vimos que dava pra todo mundo viver com bem menos fazendo bem menos, o problema é manter a máquina girando pois os que não tem são reféns daqueles que tem. Eu estou maluco ou as pessoas precisam trabalhar não pro seu benefício próprio mas pra um sistema que já privilegia uma determinada elite que não trabalha? Caramba. Podia ser diferente.

Já estava ficando revoltado com essa questão, quando vi esse vídeo e o troço piorou:

Pensei em botar na conta da ignorância da prefeita, mas percebi que ela era movida, não por lógica, mas por uma crença. A crença na infalibilidade da economia liberal. A economia, ou melhor, a teoria econômica liberal se travestiu numa ciência natural. Fingindo ser a seleção e a evolução das espécies, a economia liberal se considera uma força incontrolável e inegável. A mão invisível do mercado, como um destino cruel Antigo Testamento Style, está aqui para decidir os que vão morrer de fome, de CoVid e de outras causas em nome de uma meritocracia plutocrática. Podia ser diferente.

A gente podia aproveitar essa oportunidade para instituir a renda mínima universal, taxar as grandes fortunas para reduzir a desigualdade, acabar com a fantasia de que seus genes são geniais ou de que caixão tem gaveta e parar com essa fascinação com propriedade privada. Putz, aí é socialismo, você vai dizer. Isso não é natural do ser humano. Sério? E o que é natural? O feudalismo, a escravidão, o capitalismo? Mas os países socialistas.. pois é, não dá pra aprender com o que rolou? Se prender ao passado dessa é forma é como se, por mágoa com as cruzadas e com a inquisição, ninguém mais quisesse casar na Igreja ou comemorar o Natal. Óbvio que não quero advogar comunismos, socialismos, leninismos, stalinismos e afins. Eu só quero dizer uma coisa: Podia ser diferente.

O que a gente devia estar se perguntando agora, retirando todos os ismos do papo, é: como?

Sequelas

Agora que o anormal se tornou normal, me pergunto o que faremos quando as coisas, supostamente, voltarem ao normal. Quer dizer, o antigo normal.

Sem resposta, eu lembro do meu pai. Ex-combatente, voltou da 2a. Guerra, como muitos previam, maluco, ou, em inglês shell shocked. Maluco de guerra, pero no mucho. As doideiras, tirando a fixação com a 2a. Guerra, se manifestavam esporádica, pontual mas intensamente.

Era só ele entrar em um barco qualquer, incluindo a barca Rio-Niterói, que ele ficava paralisado. Olhar fixo, suando frio e tremendo. Vi isso acontecer só duas vezes, mas foi o suficiente para me traumatizar e me transmitir fenotipicamente a mesma fobia.

Mas não era um medo irracional. Era um medo explicado e psicanalisado. Era só ele saltar do barco pra justificar:

-Fui pra Itália no porão de um cargueiro que achávamos que ia ser torpedeado. Não foi, chegamos ilesos, mas sofri cada minuto daquela viagem.

Por sorte, ele voltou da Guerra de avião, com uma parada em Casablanca, onde adquiriu o seu vício em Coca-Cola que é um capítulo à parte.

Quando penso em como será a volta à dita vida normal lembro do meu pai e das sequelas que trouxe da Guerra. Quais sequelas traremos dessa guerra contra o CoVid-19?

Usaremos máscaras voluntariamente para tornar nossos rostos em fetiches? Preferiremos encontrar nossos amigos em curtas videconferências resumindo nossas interações em conversas desconexas e sem sentido em grupos de 20? Escolheremos comer em casa por questões de economia e para evitar a cada vez mais assustadora presença de outros humanos? Educaremos nossos filhos no lar e usaremos as escolas como espaços de interação social? Enfim, o mais importante, continuaremos a ensaboar latas de cerveja?

Do the Right Thing

Tem umas semanas que Do the Right Thing estava se insinuando em minha vida. Entre um jornal catastrófico e uma maratona de reprises de séries do Gloob (sim eu ainda assisto TV síncrona), eu pegava um pedaço dele. Ou quase. Sempre assistia uns dois minutos e desistia; seja porque estava no meio, no final ou porque não ia conseguir assisti-lo inteiro, graças a necessidade de deixar uma criança de 6 anos entretida depois de um longo dia de home office. E, em cada uma dessas vezes, eu prometia: tá aí um filme que eu preciso rever.

Ontem calhou, e eu assisti. Depois de um longo dia de home office que começou às 4 da matina, eu consegui rever essa obra prima. Pra variar, foi como ver um filme novo.

Eu lembrava de muitas coisas, mas não tinha atentado pra como a estrutura do filme é delicada. Em volta da história principal, onde temos poucos personagens envolvidos de fato, todos os pequenos acontecimentos que levam a escalada da tensão racial em Bed Stuy são vividos como sketches guiados por coros. O coro dos porto riquenhos, o coro dos coreanos, o coro dos afro-americanos de meia idade, o coro dos jovens afro-americanos, o coro dos policiais, e, o maior coro de todos, Mister Señor Love Daddy.

Esses coros, com pequenas diferenças entre seus participantes, mas com claros conflitos uns com os outros, vivem seus pequenos dramas para depois agirem como uma manada no apoteótico final do filme.

Os personagens principais e seus dramas humanos acabam escondidos como jóias raras nesse caldeirão de conflito racial. Ao mesmo tempo preciosos, frente à explosão final de violência parecem menores mas essenciais.  Quase não atentamos, por exemplo, para as singelas tentativas de romance entre o Da Mayor e Mother Sister, e Sal e Jade, que pontuam as poucas tentativas de união frente à tragedia anunciada. O pessoal, ao mesmo tempo que se apequena frente ao drama social, é o que dá sentido a tudo que não conseguimos entender.

O filme terminou e fiquei com aquela bela sensação de redescobrir algo e ainda me surpreender. Uma das melhores sensações que se pode ter na vida.

Como estou fazendo desde o começo do ano, fui registrar o que tenho assistido e descobri que o score do filme no IMDB não chega a 8. Com tanta coisa ganhando 9 e tanto nesses filmes de Super Herói e séries da suposta nova “era de ouro” da TV, a gente precisava fazer A Coisa Certa e dar mais valor ao que realmente importa no Audiovisual.

“Fight the Power!”

Em Tempo

Na boa, onde vemos algo tão poderoso hoje em dia? Ainda me lembro do choque de ver isso no cinema pela primeira vez.