Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A maldição dos machos alfa wanna be

Estava conversando sobre os processos negação da realidade a que estamos submetidos pelas pretensas autoridades que foram eleitas para administrar as instituições públicas, quando me caiu uma ficha: todos os nossos problemas advém do ressentimento e da vontade de indivíduos ignorantes e incompetentes serem machos alfa. Uma gente que só leu a orelha dos livros do Jordan Peterson, não entendeu e considera que está numa cruzada pela retomada de um mundo patriarcal; um mundo conservador, onde o poder masculino não pode ser questionado nem pela realidade; um mundo onde eles tem o direito (de nascença) de serem líderes. Só que não.

O que mais levaria um sujeito a mover toda uma estrutura burocrática para defender o seu direito de não usar uma máscara? O que mais levaria um sujeito a tentar defender a honra que não tem pra proteger amigos e familiares que ele sabe serem corruptos? O que mais levaria um sujeito a botar em risco o equilíbrio da economia e das instituições políticas porque as pessoas não concordam com ele? O que mais levaria um sujeito a estimular a propriedade de armas por toda a população só pra lhes dar a segurança (fálica) de carregar fuzis pois morrem de medo do mundo?

Não sei pra vocês, mas pra mim parece que esses machos alfa de hoje vivem de mimimi.

O que realmente me incomoda nesse povo é que eles querem controlar os processos e governanças para enforçar uma superioridade que eles acham ser natural. Querem mexer em leis que privilegiam a equalidade ou promovem um nivelamento de oportunidades sociais em nome de uma meritocracia mezzo biológica, mezzo divina. Um divino direito dos reis para fracassados; para o capitão que foi expulso do exército; para o herdeiro milionário que conseguiu falir um cassino.

Nesse mundo de flocos de neve, esses são os mais frágeis: os que acham que o querer é suficiente para justificar o seu direito de conseguir. Mas, sorte (ou azar) nosso, eles são incapazes e, mesmo criando uma bruta confusão, tenho certeza, nunca vão conseguir o que querem. Porém precisamos nos manter atentos e evitar esses arroubos destrutivos de pequena macheza. Afinal, mesmo dentro dos betas que assassinaram o pai primevo, em Totem e Tabu, e que criaram a civilização, a moral e a cultura, como uma forma de refrear nossos instintos e vivermos em sociedade, devia ter um grupo de fracassados que sonhavam ser o Totem. Nunca serão. Nunca serão.

E, para eles, o recado de Orange is the New Black.

Hell Office

Eu costumava contar os dias, mas eles não fazem mais sentido. Esqueço de quantos já passei aqui. As guimbas de cigarro e as garrafas de cerveja vazias, que usava para contá-los, não são mais confiáveis. Eu as enfileiro num dia, tentando dar motivo e sentido ao que não tem, e no dia seguinte elas sumiram. Assim como o motivo e o sentido que eu fantasiei existirem. Quem as levou? Quem os levou?

Cada dia começa com a retomada da minha prisão ao amanhecer e termina com a minha sentença revogada ao pôr do sol.

E tudo segue normal. Normal. Ah, normal.

As intermináveis reuniões com os advogados da condicional, disfarçados de colegas de trabalho, que me prometem a liberdade em troca de documentos, planilhas, apresentações e e-mails sem significado. Os barulhos misteriosos nas paredes das celas alheias indicando que há vida e violência do lado de fora. As chamadas constantes dos porteiros da prisão para me informar que chegou mais uma entrega deliciosa e narcotizante. Mas, por mais que eu espere, infelizmente não há serra alguma dentro dos bolos das padarias.

Não há escape, não há esperança. Os dias passam e não passam. Os dias vão. E voltam. Diferentes e surpreendentemente iguais.

E ao final de cada sentença diária, eu estou livre, por pelo menos 15 minutos, mas não tenho lugar algum pra ir. Saio pro corredor, acendo um cigarro, tomo uma cerveja e da cela contígua sai um trabalhador de máscara me desejando boa noite. Eu retribuo, desejando nunca mais vê-lo. Eu durmo, esqueço dele mas o recrio, sonhando no dia seguinte encontrá-lo mais uma vez. Pela primeira vez. Pela última vez.

Onde foram parar as minhas guimbas e garrafas? Bom dia. Boa noite. Pela primeira vez. Mais uma vez. Da última vez.

Pele de seda, mãos de pedra

Hoje, esbarrei no tweet abaixo. Assistam ao vídeo.

https://twitter.com/BrotiGupta/status/1278034572651851778

Claro que não é novidade. As redes sociais estão coalhadas de reações exageradas para estímulos tímidos. É a paradoxal relação entre ser da geração floco de neve e cuspir fogo. Mas hoje, especialmente, me perguntei por que isso acontece. As pessoas tem motivos para se sentirem ofendidas? A culpa é do emissor que não teve sensibilidade e não contemplou os inúmeros grupos impactados pela sua mensagem? A mídia utilizada favorece ou ensinou a seu público o ódio automático e sem sentido? De onde vem a fagulha que transforma a mais inocente piada num incêndio viral?

Difícil responder, mas tenho minhas suspeitas.

A internet, quando surgiu, era prioritariamente uma ferramenta para comunicação por texto que funcionava por conta de texto. Os programadores escreviam código que comunicava às máquinas como lidar com as interações por texto que os usuários realizavam com as interfaces. Se você pegou a internet pós 2000, provavelmente não teve que lidar com isso. Tudo o que te ofereceram já estava no modelo What you see is what you get. Pra quem é mais antigo a coisa era diferente: boa parte das interações necessitavam de um certo conhecimento de código. Alguém ainda lembra de precisar fazer buscas booleanas?

Então, quando a internet se popularizou, ela juntou dois problemas: era uma ferramenta de texto vendida para uma enorme população que, cá entre nós, não sabe ler de fato, a.k.a. interpretar um texto, e a estrutura de funcionamento das interfaces não estava aparente. Logo você não sabia o contexto e o trânsito das mensagens transmitidas e recebidas o que gerava mal entendidos sucessivos.

Ao invés de tratar isso como um problema, quem estava na luta pra tornar a internet em uma ferramenta comercialmente viável, aproveitando o modelo de vender a sua atenção a anunciantes, considerou esse defeito uma oportunidade e criou uma máquina para se aproveitar das nossas piores emoções e das nossas maiores falhas cognitivas. Começamos a ter valor como rebanho justamente pelo que nos fazia piores.

Quando se possibilitou a interação entre o usuários, ao invés da interação do usuário com a interface, o que chamamos de redes sociais, esse comportamento imediatista instintivo de luta ou fuga, permanentemente estressante e calcado no nosso mal entendimento das mensagens e, principalmente, intenções alheias se tornou a norma. E chegamos ao ponto onde não importa dizer algo ou dizer nada; tudo é ruim.

https://twitter.com/TJPayne3333/status/1278674597693587456

Parece que mais uma vez estão pensando em como desfazer esse imbróglio. Sim, estou acompanhando a discussão sobre as marcas tirando o apoio a essas máquinas de geração de ódio, e entendo o otimismo generalizado, mas acho fogo de palha. Será que realmente interessa a eles mudar esse sistema? Afinal, como na proverbial piada, nós podemos ser malucos mas eles precisam dos ovos.

Espero não ter lhes ofendido com isso.

O Caminho sem Volta de São Pedro

Hoje se comemora o dia de São Pedro, o homem das chaves do céu. E também o homem das chaves do catolicismo. Como primeiro bispo de Roma, a.k.a. o PAPA, ele foi a pedra (Pedro, pedra) onde a Igreja como instituição foi erguida.

Pouca gente lembra como ele morreu. Foi, como diversos mártires, crucificado, mas de cabeça pra baixo. Dizem que por pedido dele mesmo que não se sentia no direito de ser crucificado em pé como Cristo. Um possível sinal de humildade, ou, quem sabe, da culpa de ter negado Cristo 3 vezes.

Tem umas teorias que o identificam na carta do Enforcado do Tarot, por estar ele de cabeça pra baixo preso a uma árvore. Na mesma carta tem gente que vê Odin, dependurado também de cabeça pra baixo em Yggdrasil por 9 dias e 9 noites para aprender sobre os outros mundos e sobre as runas. Conta a lenda que Yggdrasil, meio como a árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, tem a resposta para todas as perguntas humanas e suas folhas podem ressuscitar os mortos.

A carta do Enforcado é a carta de número 12. É a carta que está no meio do Tarot. Por representar o sacríficio humilde e voluntário em busca de iluminação, dentro do ciclo do herói representado pela progressão dos Arcanos Maiores, é o que se chama na teoria narrativa de Point of no Return, o Caminho sem Volta. É o momento da história onde o herói perdeu o contato com passado, não tem nada a perder no futuro e, sem escapatória, só lhe resta completar sua aventura. Para o bem ou para o mal.

São Pedro e suas chaves são esse Caminho sem Volta. Eles não representam o fim, mas o meio da história. Você viveu na Terra e agora suas ações vão te levar a uma nova aventura, agora espiritual, customizada pelo que sua história material representou.

Esse 29 de junho, entre o solstício (de verão ou inverno, dependendo do seu hemisfério) e o dia 2 de julho (o meio do ano), é um ponto de impasse e reflexão. No meio da Pandemia, oprimidos psicológica, política e economicamente, não temos volta, pois o mundo de onde saímos não existe mais. Por isso somos obrigados a completar a nossa aventura. Se a conduziremos pelo céu ou pelo inferno apenas o nosso comportamento prévio irá dizer. E Pedro não nos julgará. Ele apenas fará com que colhamos o karma que plantamos no primeiro e segundo atos de nossas vidas.

As chaves do Céu, e do Inferno, quem diria?, sempre estiveram em nossas mãos. Abre a porta, Pedro.

Avôhai

Minha filha acorda na madrugada com as peripécias dos gatos. Na sua ansiedade de isolamento, acha que é alguém mexendo na porta da casa. Até é, mas são os gatos, e na porta do banheiro. Tento colocar ela pra dormir, mas ela se nega. Sem sono, explica.

– E se eu te contar uma história?
– Tá bom, mas tem que ser uma história do vovô.

Uma história do avô. Um avô que morreu 12 anos antes de ela nascer. Um avô que ela só conheceu por pedaços de histórias e meia dúzia de fotos que viu na casa da avó.

Eu tento pescar, na enorme quantidade de suas histórias imorais e impublicáveis, alguma que seja adequada para crianças. O melhor que consigo é falar sobre os seus campeonatos de arroto, de quando nos envolvia em trotes fingindo ser um programa de perguntas e respostas da rádio, ou de quando abraçava pessoas que não conhecia na rua.

Ela ri. Mesmo publicáveis, suas histórias não são nada morais e muito menos adequadas para crianças. Imagino que pudesse mentir e contar histórias que nunca aconteceram, como tantas que ele me contou jurando ser verdade, mas tenho quase certeza que ela, tão ligada ao avô perdido, me pegaria no ato. A impressão é que ela o conhece melhor do que eu. O que não é tão difícil.

No meio do relato sobre uma vez que ele fez um senhor ir buscar um prêmio inexistente numa rádio inventada, percebo que ela dormiu. Eu a cubro e tento dormir, lembrando das histórias do meu pai. São tantas que elas pulam sobre cercas como ovelhas impulsionadas por jatos. Resultado? Insônia. As histórias são boas. Tanto que toda vez que alguém ouve uma delas, sempre me diz a mesma coisa:

-Você tinha que escrever sobre o seu pai.

Um amigo pra me motivar, inclusive me fez ler o Quase Memória do Cony, com o qual eu tinha o maior preconceito, mas do qual gostei muito. Mesmo tendo considerado um super livro, ao final só conseguia pensar: as histórias do meu pai são melhores. Metido, eu sei.

Confesso que já escrevi algumas de suas histórias em crônicas separadas e tentei criar uma estrutura pra juntar tudo num romance. Mas a minha impressão é que, quando coloca-las definitivamente no papel, perderei algo. É besteira, mas é uma sensação de luto maior do que a que senti quando ele partiu fisicamente. É como se, depois disso, eu fosse proibido de comentar sobre ele, pois, afinal de contas, já está tudo escrito.

Eu sei que é besteira e preciso cumprir essa missão, para que pelo menos a minha filha conheça as histórias do avô que nunca encontrou mas com o qual parece ter uma afinidade quase espiritual. E, um dia, quando tiver seus filhos, ela possa contar as histórias do bisavô para acalentá-los e ativar a rebeldia galhofeira que corre em nosso sangue, graças ao seu velho, invisível e indivisível Avôhai.

101 dias

Nos mitos e contos de fada, a quantidade de dias que algo levava pra acontecer era muito importante. Apesar de gerar a tensão da aventura,  não eram prazos, pois não faziam sentido, mas sinais de que as coisas ficariam prontas quando teriam que ficar. Uma forma de respeito à natureza.

O engraçado é que nunca era uma data exata. Era um ano e um dia para as bruxas terminarem seu treinamento; 10 anos e um dia para Ulisses retomar seu reino e sua família depois da Odisséia; ou um ano e um dia de sobrevida da vítima para livrar um agressor da responsabilidade pela sua morte. Pelo menos na Flórida.

Justamente pela sua falta de exatidão, essa medição adquire um sentido maior: nos lembrar que passou tempo demais. Pelo menos um dia a mais do que o esperado. E é ainda um símbolo de esforço, paciência e abnegação. Um sinal de que a aventura foi empreendida por um verdadeiro herói.

Hoje eu chego a 101 dias de quarentena. Não um herói, mas ainda paciente e abnegado. E, sim, tenho certeza, passou tempo demais.

Mas estou pronto para mais. Talvez 101 dias não seja a medida ou limite do fim de tudo. Talvez seja um ano e um dia. Talvez a gente tenha que esperar até 21 de setembro como dizia o Earth Wind & Fire, o dia em que faltarão 101 dias para o ano terminar, para ver esse céu sem nuvens que meu apartamento de fundos não me permite perceber. Seja como for, será sempre no nosso limite de força, paciência e energia…somando mais um dia.

O que me pergunto é: quando esse tempo chegar, e pudermos realmente estar juntos, como lembraremos desse período, como contaremos a nossa história? O papel e as redes sociais tudo aceitam, mas, as nossas memórias, o  que elas guardarão? Elas serão as fieis guardiães desse esforço extra a qual nos comprometemos pelo bem geral? Elas lembrarão do quanto fraquejamos e serão bondosas com nossas falhas? Ou fingirão que tudo não passou de um passeio no parque?

Do you remember?
dancing in September
never was a cloudy day