Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Curb your Talmud

Acabou a décima temporada de Curb your Enthusiasm. Como em todas as outras, Larry é vítima de seus próprios pecados. Cada um dos detalhes do seu comportamento e da sua falta de habilidade de viver em comunidade se tornam literais estopins da sua própria desgraça.

Tanto Curb como Seinfeld são peças morais, dignas de um Talmud Sombrio. O estranho é que, ao nos identificarmos tanto e nos tornarmos tão apegados aos personagens e seus hábitos autodestrutivos, ao invés de aprendermos suas lições, repetimos seus maus exemplos.

Assumimos simplesmente ser impossível escapar da desgraça iminente e portanto, como Alfred E. Newman, dizemos a nós mesmos: “What me worry?”. Tem coisa mais pós moderna e sisifica que isso?

Talvez por isso não exista boa comédia cristã. Nas parábolas há melodrama demais, os personagens são criaturas bidimensionais que não conseguem evitar de se levar a sério, e rola um Deus Ex Machina em cada história. Não é sobre nós. É uma fantasia de salvação.

Humor não é sobre salvação, mas sobre reflexão. E reflexão, como a comédia, só se constrói em cima do que é real. Todo resto é propaganda.

Oy vey! Oy gevalt!

Eu queria gostar de café

Nunca tomei café. Quer dizer, nunca tive o hábito de tomar café. Se fosse por criação ou pressão social provavelmente eu beberia café. Muito. Mas nunca bebi.

Mesmo quando criança e tomar café com leite era um pequeno sinal de maturidade, eu preferia Toddy. Talvez isso esteja dentro de um sistema interno voltado a manter a minha criança viva dentro de mim. Nunca quis aprender a dirigir, não acredito em ambição, ainda comungo de alguns ideais anarquistas e não gosto de beber café. Sou uma criança funcional.

Mas, confesso, tenho inveja. Pela manhã ou nos intervalos do trabalho vejo as pessoas se juntando para tomar café. Copos; baldes; acompanhados de conversas mundanas justificadas pela necessidade de ingerir um estimulante. Eu, se aparecer para conversar tomando água, estarei apenas matando tempo. O Café é a droga perfeita para o Capitalismo e para a Moral Protestante do Trabalho. De dia. De noite é a Cocaina com seus delírios de grandeza e paranoias infundadas.

Talvez, quando voltarmos do Distanciamento Social, o café não faça mais sentido. Talvez precisemos de uma droga menos estimulante ou até calmante para um mundo diferente. E as pessoas lembrarão do café como os presidentes americanos lembram de ter usado drogas na Universidade, ou foram adictos que não podem mais nem chegar perto ou não tragaram.

Mas eu continuarei com uma pontinha de inveja de não ter feito parte desse mundo. Melhor não me preocupar. Agora já é tarde demais e o momento errado pra tentar adquirir um hábito negativo mesmo que socialmente aceito. Melhor fazer um Toddy.

O perigo da sua importância

Não foi nessa. Foi na outra crise. Na da água.

No desespero das torneiras que despejavam lama, fui ao supermercado comprar água. Cheguei no setor de bebidas e as prateleiras estavam vazias. Passou um funcionário do supermercado e eu perguntei sem esperança:

– Tem mais água, não?

Uma mulher, sem sinais ou idade característica, passou por nós, nessa hora, com um carrinho lotado de garrafas d’água. Quando falo lotado, não é figura de linguagem, é a verdadeira descrição do que estávamos vendo. Garrafas fazendo um monte, quase caindo pelas beiradas da estrutura de metal do carrinho. Pilhas. Provavelmente mais de 100 garrafas d’água.

– Eu peguei as últimas- ela riu e se encaminhou célere pro caixa.

Eu e o funcionário do supermercado ficamos em choque olhando ela e tentando entender o que se passou.

Senti óbvio, raiva, mas lembrei do mestre Hamilton da Sociedade Brasileira de Taoísmo, e deixei o sentimento passar, como um observador, sem ser movido por ele. Afinal, que bem iria me fazer, ou a ela, confrontar tal egoísmo?

Taí uma coisa que eu nunca entendi: egoísmo. Como bom introvertido, de baixa libido narcísica, nunca consegui me ver melhor que os outros. No máximo, tão ruim quanto.

Uma pessoa que limpa a prateleira de um supermercado, movida por uma necessidade irracional de prover qualquer coisa para si mesma, ou para a sua linhagem, tem plena convicção que a sua sobrevivência é mais importante do que a de qualquer outro ser do planeta.

Minha vontade, ao ver esses atos de egoísmo, que já estão acontecendo agora por conta da pandemia do Covid-19, é perguntar:

– Vem cá, por que diabos você é mais importante que os outros?

Eu sei, é maldade. Ninguém consegue articular esse sentimento. Mas sentem. Sentem e vivem um egoísmo tão grande que quase me faz concordar com a Ayn Rand e seu objetivismo egoísta e pretensamente racional.

Mas aí eu lembro que se as pessoas tendem a ser assim não significa que elas precisem ser assim. O egoísmo não passa de falta de imaginação, de empatia e de uma boa dose de preguiça moral.

A casa mais desejada do Brasil

Os sinais não são bons. Incerteza de dinheiro, trabalho e saúde. As pessoas estocam comida e alimentos achando que, se a quarentena transitória se alongar, como aparenta, ficarão sem os recursos necessários para viver.

Enquanto isso, nos tentamos manter a normalidade, trabalhando à distância, passando dever de casa para nossos filhos, nos relacionando presencialmente e à distância com aqueles que nos são caros; em suma, tentando não enlouquecer.

Mas há um lugar diferente. Um lugar onde o Corona não existe. Um lugar onde tudo é ócio e diversão. Um lugar onde as preocupações humanas dão lugar a um sistema simples de meritocracia baseada num misto de maldade e popularidade. Na dita casa mais vigiada e desejada do Brasil não tem tempo ruim. Ainda.

Como vamos nos sentir quando o Corona chegar lá ou tivermos expulsados os últimos protegidos do seu lar? Será que até lá existirá aqui e lá?

Tente (não) rir

É um exercício interessante assistir ao Last Week Tonight with John Oliver sobre o corona vírus.

Sem risos, sem público, sem pausas, gravado numa condição de pseudoconfinamento, a ironia e o sarcasmo, que perpassam todos os nossos discursos, se tornam amargos e reais demais.

Claramente, rir é uma atividade social. Talvez agora, sem a claque onipresente das redes sociais e mídias, a gente consiga olhar com seriedade para a filosofia, a política, a literatura e tudo mais que virou stand up em busca de aplausos e likes.

É tudo free

Admirável a contribuição que diversas companhias estão dando a população durante a quarentena do Corona. Aplicativos e serviços gratuitos pelo tempo que durar o isolamento social. Me pergunto o quanto isso não é mezzo caridade, mezzo processo de condicionamento. Sairemos desse exílio acostumados a trabalhar virtualmente com as ferramentas que nos foram entregues “gratuitamente”? Acostumados ou doutrinados?

Não é errado se aproveitar das circunstâncias para ganhar clientes. A lógica, sim, sempre foi vender lenços enquanto os outros choram. O que preocupa é substituirmos o princípio pelo costume. O que importa não são as ferramentas, mas sim o porquê usá-las.

Sabemos esse porquê?

Em tempo

Distanciamento social deve ser um dos piores eufemismos de todos os tempos.