Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A triste sina do empreendedor brasileiro pós CoVid-19

Com o relaxamento das medidas de distanciamento social impostas pela pandemia do CoVid-19, o Motel Bali, um conhecido Drive In e centro de prostituição em Sta. Helena da Boa Vista, como tantos empreendimentos brasileiros, resolveu reabrir para retomar a atividade econômica do país e sanear suas finanças.

Promovendo a inovação nos seus negócios, José Pereira Nunes, gerente e proprietário do Motel Bali, instalou televisores de tela plana em cada um dos pit stops do drive-in e desenvolveu um sistema de entrega de kits de higiene, petiscos, preservativos e bebidas utilizando drones operados por seus filhos gêmeos, Maxwell e Norton, estudantes do curso técnico de eletrônica da ETEC e últimos ganhadores do prêmio Cientistas do Futuro do nosso jornal.

A reabertura do Motel Bali aconteceu no último sábado com um open bar de Gin acompanhado da exibição do documentário Um Homem Feio, sobre a vida do ator, ex-namorado da ex-esposa do ex-presidente Fernando Collor, e atualmente diretor do Instituto Inhotim, Antônio Grassi. A fila de carros no Motel Bali chegava à praça Otacílio Correia, o que confirmou a popularidade local de Grassi que morou em Sta. Helena da Boa Vista de agosto de 1983 a maio de 1984.

Depois de todos os carros e espectadores estarem acomodados em seus pit stops, o filme começou a ser transmitido às 19:23 o que deu início também ao serviço de entregas por drone. Às 20:14, o filme foi reprisado por pressão dos clientes que se comunicavam com a gerência e faziam pedidos aos drones pelos seus celulares. A tragédia, segundo informações do Corpo de Bombeiros de Pintassilgo, município fronteiriço a Sta. Helena da Boa Vista, começou às 20:33.

Devido à interferência entre os sinais de celular, dos cabos de internet usados para replicar o serviço de streaming, e dos controles remotos dos drones, alguns dos aparelhos voadores que entregavam bebidas aos pit stops através dos seus tetos solares ficaram desgovernados e começaram literalmente uma guerra de garrafas. Segundo uma das vítimas, que preferiu não se identificar, a situação era “uma mistura dos filmes O Exterminador do Futuro e Matrix com a cena de luta de facas no clipe Beat it (sic) do Michael Jackson”. Com as garrafas quebradas nesse combate aéreo, o Gin de má qualidade, comprado por Pereira Nunes, molhou todo o motel como uma chuva mortal e, pelos tetos solares, atingiu as TVs gerando a faísca que transformou o Motel Bali numa bola de fogo.

Os espectadores evadiram-se do Motel, a maioria nús, e foram resgatados pela Polícia Militar que também os protegeu dos seus cônjuges que, atraídos pelo incêndio, acabaram descobrindo que estavam sendo vítimas de adultério.

Nunes e seus filhos, Maxwell e Norton, foram presos em flagrante por formação de quadrilha, rufianismo, pela exibição não autorizada do documentário, e pela violação das leis de controle do espaço aéreo da ANAC.

Coincidentemente, Antônio Grassi, o tema do documentário exibido ilegalmente, evadiu-se de Sta. Helena da Boa Vista em maio de 1984 após um grande incêndio que consumiu o hotel onde ele estava hospedado. Grassi pode até ser um homem feio, mas, nesse sábado, feio mesmo ficou pro proprietário do Motel Bali, José Pereira Nunes, que declarou em sua defesa que “Com tantas regras, é impossível ser empreendedor no Brasil”.

A primeira monotonia de casal

– Oi, você vem sempre aqui?
– Ai, Adão. Que história é essa? Você me conhece desde que eu saí das suas costelas.
– Pô, Eva, tô querendo dar uma variada.
– Variada?
– É, esse troço de ter só nós dois aqui às vezes cansa.
– Eu sei, mas fazer o que?
– Sei lá, tava pensando, que a gente podia fingir ser outras pessoas, tipo um roleplaying.
– Hum, pode ser…
– Então, quem você vai ser, Eva?
– Sei lá, não conheço mais ninguém. Posso ser você.
– Sei não, acho que não vai ser legal. Não me sinto atraído por mim.
– Tá bom. Quem mais? Ah, já sei, eu podia ser Deus.
– Deus, Eva? Deus me livre. Aí ia ser incesto.
– Sorry, tem razão. Então, Adão, diz aí: qual outra opção a gente tem?
– A gente podia fingir ser alguns dos animais…
– Ai, tô fora, Adão. Bestialismo é nojento.
– Eu que o diga…
– Como é?
– Nada. Nada. Esquece, Eva. Melhor deixar pra lá. Vamos ficar na nossa rotina mesmo. Pode ser monótono, mas a gente se ama, né, mesmo?
– É, tem razão. Mas, Adão, eu acho que de repente a gente pode tentar ser um pouquinho mais liberal pra dar essa variada.
– Ótimo! E vamos fazer o que?
– Acho que a gente pode dar uma chance pro bestialismo… Cê conhece a cobra da macieira?

Os pés nús da quarentena

Você não me ama. EU SEI por que você me comprou. Era só pra ter um pisante que desse uma pinta no trabalho. EU SEI que não sou confortável, bonito ou estiloso. EU SEI também que você não tem, nem gosta de estilo. Pelo que me consta, você não gosta de nada, nem de mim. Nem um pouquinho.

Mas você podia pelo menos me dar uma atenção. EU SEI que estamos no meio de uma pandemia e há mais de 90 dias você não precisa, nem pode, sair de casa. Mas você não sente saudade de nada? De bater perna na rua? De ver as pessoas? De tomar uma cerveja no bar da esquina? Não tem saudades do mundo? De mim?

Você podia pelo menos me usar de vez em quando. Me deixar cobrir seus pés e caminhar comigo do quarto pra sala, da sala pra cozinha, da cozinha pra escada do prédio, nem que seja pra botar o lixo pra fora. Mas, EU SEI, pra você eu que sou o lixo. Um lixo que você precisa ou precisava colocar todos os dias pra ir pra um lugar que todos fingem gostar. Pra você, eu sou só parte de um uniforme de uma festa a fantasia pra qual todos lamentam ser obrigados a ir.

Mas uma hora essa pandemia vai acabar e aí eu terei a minha vingança. Você vai precisar me usar de novo e eu vou abusar de você. Vou te dar calos ao mesmo tempo que vou ficar frouxo; vou te fazer escorregar e torcer compulsivamente seus tornozelos fracos; vou ficar sujo nos piores momentos pra que todos no seu escritório saibam que seus pés só merecem sandálias ou andar descalços. Exatamente como você está agora. Exatamente como você sempre quis estar.

A hora da minha vingança vai chegar. Ai se vai. Ai se vai. Quando? Você quer saber quando?

EU NÃO SEI. EU NÃO SEI. Mas a minha hora vai chegar. E aí você vai ver o quanto é caro o preço de não me amar.

O problema com gatos

Nunca fui uma pessoa de gatos. Tive cachorros. Vários. E, confesso, nunca tratei deles direito, como eles mereciam. Mas nos últimos dois anos, devido a uma conjunção de oportunidades e do desejo da minha filha e da minha mulher, me tornei “pai” de gatos. Dois.

Sinto que sou um bom “pai” de gatos, afinal ninguém é dono de gatos. Os gatos te escolhem. Como numa síndrome de Estocolmo, ou eles te aceitam ou eles permanecerão eternamente como seus reféns. Mas a síndrome de Estocolmo bateu, e sinto que os gatos aprenderam a conviver comigo. A gata, principalmente.

Eu levanto, a gata me segue. Vou pro escritório, ela deita na almofada me esperando. Sento no sofá, ela deita no meu colo ou afia as garras na minha barriga. Eu me deito, ela cola o corpo dela no meu. Em paz. Ela sente uma tranquilidade em mim que os meus anos de crises de ansiedade e minha relutância em ser tratado delas não me permitiam achar existir.

O problema é que esse amor condicional, diferente da devoção canina a seus donos, me dá uma sensação de superioridade moral. Se o gato, tão independente, me ama, ou algo similar, eu devo ser uma pessoa boa. Não?

Não.

A gato, triste constatação, não me ama. Ela simplesmente protege quem lhe alimenta.

A maioria das relações com os seres humanos são similares. As pessoas não lhe amam. Elas simplesmente colam em você pois você as alimenta. Alimenta de arte, informação, carinho, medo ou, até mesmo, violência. Nossas necessidades são muitas e particulares.

Mas isso não significa que eu não ame os gatos. Amo. E, óbvio, tenho minhas preferências. Fico feliz quando estou tendo reuniões difíceis no home office e ela está deitada ao meu lado. Me derreto quando estou ouvindo as mazelas nacionais e ela afia as garras na minha barriga. Amo quando tenho insônia e ela sai do seu conforto nas almofadas para ficar ao meu lado.

Ela me ama? Não sei. Eu a amo? Com certeza.

Eu costumava dizer, cinicamente, que interesse era uma palavra bonita que assumiu uma péssima conotação. Todas as nossas relações são por interesse. Interesse financeiro, de status, de poder, de distração e de amor.

O amor que damos, a gatos ou pessoas, é um interesse. Um interesse de mantê-los ao nosso lado. Porque eles nos fazem felizes, nos instigam e nos alimentam da humanidade que tanto sentimos falta. Os gatos somos nós.

E nesse momento, em que digito essas palavras no meio da madrugada, com a gata colada ao meu corpo, eu, sim, sinto uma superioridade moral. Afinal, o mundo tem nos mostrado, nesses momentos em que a tônica é o ódio, que ser amado não é mérito, mas que amar, sim, é o que nos faz seres humanos melhores.

A geração X salvará o mundo… na próxima segunda feira

Foi só depois de assistir ao trailer do novo filme de Bill & Ted e lembrar que estão trazendo que Jay & Silent Bob de volta, de novo, que me toquei que ficou nas mãos da Geração X salvar o mundo. Um mundo com o qual, segundo todas as publicações dos anos 90, a gente não se importava. E não se importava mesmo.

Tirando uma meia dúzia de gatos pingados carreiristas e ambiciosos, a maioria do povo com o qual eu convivi nos anos 90 não esperava muito da vida. A história tinha acabado, maldito Fukuyama, e como Jeffrey Lebowski, o outro, não o Dude, disse na nossa cara: “A sua revolução acabou. Meu pêsames. Os vagabundos perderam“. Sim, fomos a primeira geração a entrar na idade adulta sabendo que já tínhamos perdido.

O que nos restava? Pouco. Nos tornamos zen budistas por hobby e niilistas por profissão. Num mundo que sabíamos ser inerentemente maléfico e não fazer sentido, por que devíamos nos preocupar? Entregamos nosso talento na mão de corporações sem rosto ou de pequenos negócios feitos para não prosperar; não porque tívessemos pouco potencial, mas porque não fazia diferença. Enquanto isso construímos pequenas grandes revoluções nas beiradas do tecido social social, sem aguardar recompensas do sistema mas apenas o olhar e empatia do nosso próximo. Afinal, se o sistema que nos condenou nunca reconheceria o nosso valor, por que não ser bom de graça?

Pra piorar, até as coisas legais que ajudamos a construir, como a Internet, vemos dominadas por Boomers e Millenials raivosos e ganaciosos  em brigas sobre os escombros da raça humana. Enquanto os outros se desesperam e pedem o zombie apocalypse ou um meteoro pra lhes salvar, apesar da angústia diária, nós, Gen-Exers, nos perguntamos: “Não foi sempre assim?”.

Não. Não foi. Hoje está pior.

Por isso é hora de nós, nascidos entre 1965 e 1980, e adjacências, nos mobilizarmos. Vamos botar ordem nessa zona. Calar os boomers que usam o twitter para criar caos e educar os millenials a verem que houve um mundo antes deles e que haverá um depois, espero. Cabe a nós, os que nunca se posicionaram, tomar a frente desse diálogo. Espremidos nesse conflito político twittado, precisamos dar respeito para nossos antepassados, pelo menos uma parte deles, e o amor para os nossos descendentes. Se há alguém que possa conduzir o mundo para essa união, tão vendida e ansiada, somos nós. A geração esquecida, boa de papo e sem agendas secretas. A Geração X.

Mas pode ser na segunda? Nessa semana tem feriadão.

O fim do turismo

Nunca soube fazer turismo. Fui obrigado algumas vezes, mas resisti. Não ouvia os guias, faltava aos passeios coletivos, desprezava os locais históricos e mais conhecidos. Isso não quer dizer que não goste de viajar. Eu gosto, mas de maneira esporádica e sempre com um objetivo frouxo que permita o inesperado se manifestar.

Talvez por isso sempre curti viajar a trabalho. Me dava a sensação de estar aproveitando as cidades como um local, o que sempre tentei reproduzir nas viagens a lazer. O meu maior prazer nessas pequenas odisseias era fazer uma amizade que permanecia pós férias, receber um agrado ou gesto de cortesia de um nativo ou que me recebessem com um “o de sempre?” nos restaurantes que frequentava. Eu queria a experiência de viver nos lugares, não a de visitá-los.

Hoje, assistindo a Falando Grego, uma comédia boba sobre uma guia e seu grupo de turistas estereotipados viajando pela Grécia, me perguntei  se o turismo ia continuar pós pandemia. Afinal, o que motiva pessoas a viajarem para algum lugar onde nada tem a fazer?

Desconfio que mais de 90% só vão porque podem, porque podem se endividar pra ir,  porque alguém recomendou, ou para aproveitar férias longe de casa num local não repetido, afinal é preciso fazer algo incrível com o tempo que a legislação trabalhista nos permite longe da labuta.

Poucas viagens se justificam por desejos de fato, afinal desejos são poucos e tendem a ser obsessivos. Por exemplo, conheço uma pessoa que viaja compulsivamente para Buenos Aires para reviver seus sonhos milongueiros da juventude. As viagens deveriam ser desse tipo, não o turismo que temos hoje em dia: uma lista de coisas a fazer para se provar que se foi a um lugar. Caixão não tem gaveta, nem arquivo pra guardar as memórias de uma série de experiências genéricas e caras.

É óbvio que você também pode se lançar rumo ao inesperado, mas aí também vale qualquer coisa, até visitar a sua própria cidade, usando algum método pra randomizar a experiência como o Guide to Experimental Travel.

A minha impressão é que seremos mais econômicos em nossas experiências, seja por falta de dinheiro, precauções de saúde ou falta de costume, e só nos mobilizaremos quando realmente o desejo bater forte. Mas posso estar errado. Já tem gente planejando carnaval pro fim do isolamento. Já ouviram falar?