Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O eremita

Hoje, depois de mais de um mês sem botar os pés pra fora do prédio, fui ao Supermercado. Engraçado que durante o curto caminho, na minha mente ficou martelando a lembrança de um verão adolescente, quando uma amiga esotérica da mãe leu o meu tarot e dividiu a minha vida em 5 fases.

Até os 15, minha vida estaria sob a influência de O Eremita. Isso representava a minha busca no mundo por uma luz no meio das trevas. Não achei a luz, mas entendi as trevas e quis acender o mundo.

Dos 18 aos 25, o arcano que me regeria seria O Mundo, aproveitando tudo que o Universo tem para nos oferecer. Para o bem e para o mal. Rodando, vendo tudo, mas correndo o risco de não chegar a lugar nenhum; o que de fato ocorreu. Mas de nada me arrependo, foi quando aprendi a ser quem eu sou.

Dos 25 aos 35, seria a vez de A Imperatriz. A fase de receber as benesses do mundo, as quais, agora percebo, não soube aproveitar. Me fiz de modesto ou simplesmente fingi não ligar por despeito e medo. Um desperdício.

Dos 35 aos 45, pagaria meus pecados com O Enforcado. Uma era de receber o que plantei, tanto de bom como de ruim. Sofri, e me tornei vítima dos meus próprios defeitos. Um verdadeiro schlemiel. Mas, acho, aprendi que tudo é passageiro e consegui me corrigir em alguns aspectos.

E agora, dos 45 em diante, voltei à fase de O Eremita.

Segundo Rachel Pollack, em Seventy Eight Degrees of Wisdom, o Eremita faz parte da segunda linha do Tarot e transfere os desafios externos da primeira linha para o interno. Nessa busca pelo auto-conhecimento, o Eremita faz dois movimentos: um para dentro, de meditação, silêncio, e desprendimento do ego e do convívio social; e outro pra fora, iluminando o caminho para os outros, e os acolhendo nas suas necessidades de conhecimento.

Não sei o que virá desse revival do Eremita na minha vida, mas acho curioso que esteja começando essa fase enfrentando uma quarentena. Talvez seja o momento perfeito para iniciar um recolhimento final para que comece a dividir o que aprendi. A pergunta é: aprendi algo? E se aprendi, isso interessa a alguém?

Hoje, depois de mais de um mês sem botar os pés pra fora do prédio, percebo que o movimento para dentro está ocorrendo. Claramente, acabando a quarentena, as coisas serão diferentes para mim. Não sinto falta de estar fora e nesse período tenho entrado em contato com aqueles que me são caros e revisitando os laços que quero manter. Menos e, ao mesmo tempo, mais.

Quanto ao movimento para fora, agora que eu voltei a ser o Eremita, retornou a vontade de ler o tarot para os outros e retribuir esse gesto que tanto me ajudou nos meus 15 anos. Depois de 30 anos, chegou a hora de fazer esse reencontro.

O Complexo Alpha

Na minha adolescência, além de Dungeons & Dragons, um dos RPGs que eu mais devo ter jogado foi o Paranoia. Longe do heroísmo medieval do D&D, Paranoia era um jogo satírico passado num futuro baseado em 1984, Admirável Mundo Novo e Os Irmãos Marx. Sim, era assim mesmo, logo, excelente.

No jogo os participantes representavam um grupo de troubleshooters, mal traduzindo, resolvedores de problema, todos vestidos iguais, de macacões vermelho, lutando contra comunistas, mutantes e membros de sociedades secretas, numa vasta instalação subterrânea chamada de Complexo Alpha, onde a humanidade se escondera após algum apocalipse. Nessa comunidade coesa, onde a felicidade era obrigatória, todos recebiam ordens do COMPUTADOR, uma onipresente inteligência artificial, que, apesar de ter enlouquecido, sabia(?) o que era melhor para todos. A pegadinha do jogo era que você, um fiel servo do computador ensandecido, era secretamente um mutante e um membro de sociedade secreta. Pra piorar, você não podia revelar isso nem pros seus colegas, pois, em nome do computador, você podia ser assassinado e, assim, acabar gastando um dos seus seis clones.

Sim, era doido. Traições, objetivos sem sentido, diálogos non sense, surrealismo eram as tônicas das interações. A dinâmica das aventuras era mais caótica ainda. Cada jogador, além da missão dada pelo computador, tinha uma missão da sua sociedade secreta em particular, e tentava incriminar seus colegas de equipe para sair por cima sozinho. Literalmente era paranóia pura. Mas bem divertido.

Chegando em quase 80 dias de confinamento, hoje, depois de acordar de um sonho onde me movimentava por um complexo subterrâneo secreto gigante, comecei a me perguntar se não acabamos todos no complexo Alpha, escondendos nossos segredos, realizando missões para vozes que saem do computador, enquanto somos clamados a ser felizes por obrigação. As semelhanças são tão grandes que me assustam. A mim só faltam o macacão vermelho e uma pistola laser.

Cá entre nós, o que eu queria era dar um fim a essa loucura do computador toda e iníciar a Gloriosa Aventura da Revolução Popular.

O que houve, cidadão, você não está feliz? A felicidade é mandatória.

Revertere ad locum tuum

A pandemia tá me forçando a acompanhar quase umas 8 horas diárias de programação infantil. Entre uma reunião e um webinar, entre um relatório e uma apresentação, esbarro com os detetives do prédio azul, com o Mr. Bean, com os Animaniacs, e com o Scooby Doo. Hoje na hora do almoço fui obrigado a assistir a Playlist Gloob.

Pra quem nunca viu, e nem recomendo, o programa recém lançado é uma hora de MTV para crianças. Toca as músicas dos seriados, os pop quase proibidão das ex-starlets infantis, e uma boa dose de K-Pop. O engraçado é que até as músicas me lembram a dance music chiclete, estilo Stock Aitken Waterman, que tocava no início da MTV Brasil.

É como se a MTV, após a sua morte, tivesse se transformado numa novidade para crianças e ao mesmo tempo numa experiência nostálgica para a meia idade. Muita coisa segue o mesmo caminho. Quem não viveu a mídia morta acha que está desbravando um novo mundo que não foi devidamente aproveitado; quem viveu a usa para simular uma memória de identidade que não existe mais. Como dizem, toda geração acha que é ao mesmo tempo a primeira e a última a caminhar pela terra. Nesse movimento de eterno renascimento e retorno, nada termina de fato; só passa por um período de repouso antes de uma nova resignificação.

Pena que escolheu a hora do meu almoço para esse momento Fênix. Eu, cá entre nós, preferia estar assistindo à minha MTV. Hipocrisia? Um pouco, mas não conta pra ninguém.

Meu pai, antifa de ocasião

Quando eu perguntava ao meu pai por que diabos ele foi lutar na segunda guerra, ele sempre me dizia:

– Pra derrubar o Getúlio.

Não parecia coerente. A guerra era na Europa e o Brasil estava lutando junto com os Aliados. Mas ele explicava:

– Vargas se aliou pensando no dinheiro, não na ideologia. Eu sabia que, mesmo com essa virada de casaca em cima da hora, o governo fascista dele não sobreviveria à queda da Alemanha e da Itália.

Ele estava certo. Seu governo realmente deixou de fazer sentido com a nova ordem mundial, mesmo que 10 anos depois ele tenha voltado ao poder pelas mãos do povo, o que prova que brasileiro se amarra num tirano.

A birra do meu pai com Vargas durou até o fim da sua vida. Um dos dias que mais ansiava no ano era o aniversário da morte de Getúlio quando ele ia xingar as viúvas espirituais do ditador que colocavam flores no seu busto na Cinelândia.

Vocês vão se surpreender, mas o engraçado é que as suas motivações não eram exatamente políticas. Meu pai era um sujeito reacionário, ex-aluno do colégio militar, que apoiou a ditadura de 64 comandada por vários de seus colegas de escola, e, vergonha suprema, votou no Bolsonaro pra vereador, o que o torna responsável pela criação desse monstro, pela simples expectativa de um aumento na sua pensão de ex-combatente.

Às vezes me pergunto: “que força estranha moveu a versão jovem do meu pai a ser um antifa de ocasião durante a segunda guerra?”.

Não sei exatamente, mas desconfio que foi ciúme. Meu pai era meio aparentado do Getúlio. A avó do meu pai era tia avó de Vargas o que faria dele uma espécie de primo de milésimo grau. Provavelmente, sendo criado na década de 30, deve ter ouvido a família enaltecendo o parente que se deu bem, enquanto ele era um estorvo, o orfão que eles precisavam criar. Calhou que, por conta desse parentesco longínquo, numa visita de Getúlio ao colégio militar ele foi apontado para fazer o discurso de boas vindas. Era a sua oportunidade de se vingar.

Disse ele que fez dois discursos: um pra apresentar aos oficiais do colégio, outro pra fazer na hora. Discurso aceito pelo colégio, lhe foi concedida a oportunidade de dizer o que pensava ao ditador. Eu só imagino como foi. No meio de um jantar para todo o colégio e convidados; os alunos com uniformes de gala; puxa-sacos tendo seu dia de glória; um dia de festa reacionária.

O homem chegou. Foi aplaudido de pé,  os oficiais do colégio fizeram a abertura cumprimentando o ditador e chamaram meu pai ao palco. Ele tirou do bolso o seu discurso alternativo, respirou fundo e finalmente disse o que estava entalado na sua garganta. Mas nem conseguiu terminar; foi retirado do palco no meio da sua fala e preso por 30 dias. Algo realmente marcante para um menino de 12 anos. Até sua morte, contava essa história cheio de orgulho. E tinha razão pra isso.

Quando vejo o povo discutindo quem é antifa de verdade ou não, lembro do meu pai. Ele não era, mas fez a sua parte na hora certa. Seus motivos podiam ser vis e pessoais, mas, não tivessem ido ele e tantos outros lutarem na Itália, as coisas poderiam ser diferentes. Tá, não muito, mas nessas horas toda ajuda conta.

Por isso, se aquele tua amiga arrependida,  aquele outro que não sabe bem o que quer, a patricinha que se acha politizada, o que só quer ver o circo pegar fogo, ou mesmo aquela intelectual que apoia totalitarismos do outro lado do espectro político querem entrar na luta, os abrace. Tem certas horas que frente ampla tem que ser ampla mesmo.

E depois que as coisas se resolverem, a gente discute as nossas diferenças. Afinal se a gente não fizer nada agora, pode ser que a gente não possa discutir mais nada por um bom tempo. Então melhor antifa de ocasião do que fascista de coração.

Não concorda? Tudo bem, vamos discutir no boteco depois. Agora é hora de união.

Domingos Redux

Todo mundo sabe, é público e notório, está escrito na minha cara que: sou um bruta fã do trabalho do Domingos de Oliveira. Tanto que quando a Globo anunciou que ia lançar a minissérie inspirada no seu trabalho e que foi sua última contribuição, confesso que animei. Mesmo.

Lançaram, não vi ao lançamento ao vivo, pois, desde Lost, não sou mais dessas coisas; mas dada uma semana busquei o primeiro capítulo, assisti e saí com um sonoro: “Meh“.

Não que seja ruim; não é. É legal…zinho, mas o pior é se apropriar das obras de Domingos numa colcha de retalhos que o transforma num sátiro pedante e engraçadinho. Como li no twitter, e concordo, parece até uma glorificação e, ao mesmo tempo, paródia do esquerdomacho.

Se você conhece a obra de Domingos, não tem nada disso. É sobre amor e existência. Quando se tentou colocar todos os seus filmes numa fila acabou transformando o protagonista num canalha serial com estofo intelectual.

Domingos merecia mais.

A CoVid e a crise do Estado Moderno

Não consigo parar de pensar que o bafafá entre a abertura da economia e o distanciamento social para nos proteger da pandemia é um conflito entre duas diferentes concepções vindas da reforma dos modernos estados nacionais.

O modelo de governo que temos atualmente e as idelogias que governam a nossa dita vida comunal se devem muito a duas revoluções do século XVIII que aconteceram bem próximas: a americana e a francesa. Apesar de estarem relacionados conceitualmente e inclusive terem pontos de convergência, seus lemas explicitam uma grande diferença nas expectativas de comportamento dos cidadãos. Enquanto a revolução francesa pregava a liberdade, igualdade e fraternidade, a americana garantia como foco principal o direito à busca da felicidade.

Num momento de crise, como agora, esses dois conceitos, que até podem co-existir em condições normais, deixam claras as suas diferenças. Enquanto o francês reforça o benefício do grupo e a isonomia entre os cidadãos, o americano pode ser encarado como uma permissão para a ação com foco nas necessidades e anseios dos indivíduos.

Hoje estava discutindo com um amigo sobre a questão e caí na real que não há uma resposta rápida e fácil para esse conflito.  O que ficou da nossa conversa é que até dá pra conviver com essa dualidade, mas em determinadas circunstâncias a balança pode, e deve, pender para um lado ou para o outro. A busca da felicidade é mais adequada a momentos de pujança e a fraternidade cai bem nas crises. Porém, se olharmos com atenção, boa parte dos problemas que sofremos hoje são devidos aos excessos cometidos pela busca da felicidade: hiperconsumismo, aquecimento global, desigualdade, crise energética. Inclusive, se a gente tivesse desde os anos 90 trabalhado na parte da igualdade e da fraternidade, essa quarentena ia passar de boa.

Talvez a dificuldade das pessoas esteja em encarar a questão circunstancial como uma afronta ao que acreditam ser a sua identidade. É a velha teoria de encarar a política como time de futebol. Eu sou pró fraternidade versus Eu sou pró busca da felicidade. Ceder a visões diferentes da sua por conta de necessidades não significa que você esteja indo contra seus valores nem que a mudança prum lado ou pro outro irá permanecer indefinidamente. O medo de contrariar sua opinião é considerar que é melhor errar sozinho pelos motivos “corretos” do que acertar junto com base em ideias alheias; enfim, uma bruta besteira.

Pra piorar eu ainda poderia lembrar que a sua identidade é uma ficção construída a milhares de mãos e, quanto às teorias conspiratórias de como o ficará quando tudo terminar, como dizia o Dr. Manhattan, nada termina.

Mas isso é outra história.