Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Zen e a arte de preparação de sanduíches

Não tem mistério.

São duas ou mais fatias de carboidratos entremeadas com recheios. Em geral, proteínas vegetais ou animais, intercaladas com laticínios sólidos, complementados por legumes e verduras. É opcional, mas bastante comum, aplicar diretamente sobre o carboidrato, alguma pasta dos 3 tipos de recheios anteriores, ou mesmo uma mistura delas. Finalize com condimentos, sal, pimenta, ervas e afins, ao seu gosto.

As regras são poucas. Se a pasta for de laticínio sobre ela se coloca a proteína. Se a pasta for de proteína, o laticínio sólido. Os vegetais podem ficar entre os dois. Em ambos os casos. Mas se for do seu agrado, quebre a regra.

Eu sei que há discussões sobre o formato e o tipo de carboidrato, os tipos e as temperaturas dos recheios, e se isso altera a identidade do sanduíche; se ele vira outra coisa. Acho-as inócuas e inúteis. Afinal, a melhor resposta para esse tipo de questionamento é sempre: “depende”.

Na minha opinião, o mais fácil é manter tudo simples. Basicamente tudo é um sanduíche. Tudo tem uma forma, recheios variados que interferem no gosto um dos outros, e geram uma experiência complexa a partir de elementos simples. Se tudo for decomposto, há mais clareza sobre a sua essência, mas também menos graça. O melhor mesmo é preparar e morder o seu sanduíche para aproveitar o sabor que ele nos permite sentir, sem entender ou mesmo querer investigar de onde essa sensação maravilhosa vem.

E isso, sim, é um mistério.

Como ser meu amigo

Meu amigo mais antigo, quando me conheceu, veio falar comigo só para me espezinhar. Acompanhado por um grupinho de arruaceiros de 4 anos, no meu primeiro dia de aula em um colégio novo, me perguntou ironicamente por que eu estava usando saia.

– Não é saia, é bermuda, seu idiota- esclareci gentilmente.

Pouco tempo depois, não me lembro como, nos tornamos amigos, mas continuamos a brigar e a competir. Nos apaixonamos pela mesma menina na Classe de Alfabetização e quando ela e sua família foram visitar minha mãe no hospital, depois da sua histerectomia, ele lamentou comigo:

– Que sorte que sua mãe teve câncer.

O pior é que entendi seu comentário.

Esse padrão de abuso se repetiu em todas as amizades importantes da minha vida. Raiva, birra, ranço, rivalidade, inveja, ódio e desprezo foram as emoções mais comuns nos primeiros encontros com tantos que se tornaram meus amigos do peito. E, depois, os relacionamentos mantinham um equilíbrio perfeito de animosidade amistosa que garantia surpresa e diversão nas nossas interações.

Na verdade, sempre desconfiei de gente amigável. Me dá a impressão que fazem pouco da minha pessoa ou querem se aproveitar de mim. Quer me conquistar? Entre em conflito comigo. Vejo sinceridade na negatividade de suas emoções. Como uma harpa afinada, a amizade harmoniosa necessita de tensão nas cordas e toques violentos para funcionar. Boas maneiras e gentileza são, para mim, sinal de gente pouco imaginativa, chata ou falsa. Que monótono deve ser conviver com gente que concorda contigo.

Um verdadeiro herói brasileiro

No início dos anos 40, meu pai tinha seus 20 e poucos anos e era um sujeito meio promíscuo. Tinha, entre vários hábitos abjetos, o de frequentar uns lugares chamados “dancings”, onde homens solteiros pagavam para dançar com mulheres desconhecidas. Funcionava mais ou menos assim: o cara chegava no salão e escolhia uma mulher numa fila; dançava com ela e marcava num cartãozinho quantas músicas dançaram; e, no final, acertava o custo das danças na saída. Óbvio que isso envolvia mais que dança, mas, na época, o pessoal fingia que era um troço normal. Fingia.

Calhou que meu pai começou a “dançar” bastante com uma mesma mulher num desses “dancings” e eles começaram a ter um relacionamento fora das pistas. O lance ficou tão sério que chegou a se tornar meio obsessivo, com ela perseguindo ele e tudo.

Meio sem saber como se livrar dela, meu pai aproveitou o bonde da segunda guerra, se alistou como voluntário e escapou para a Itália. Mas nem isso deu um jeito nela, que escrevia diariamente para ele e esperava respostas com a mesma frequência.

Sentindo-se acuado até nas trincheiras, ele resolveu que ia dar um jeito na situação de uma vez por todas e combinou com um amigo aqui do Brasil de forjar a sua própria morte. Isso mesmo, forjar a própria morte.

O lance rolou mais ou menos assim. Ele mandou um telegrama oficial, sabe-se lá como, informando pro tal amigo sobre a sua morte em combate. O amigo, que também frequentava o “dancing”, levou o telegrama pra dançarina e compartilhou as más notícias com ela. O meu pai esperava que isso fosse fazer ela se esquecer dele, e, quando voltasse, depois da guerra, estaria totalmente livre. Quase deu certo. Quase.

O que ele não esperava é que a tal mulher realmente gostasse dele. Se sentindo a viúva de um herói de guerra, a mulher não fez por menos e pagou uma missa de sétimo dia para homenageá-lo. Até o amigo envolvido na mutreta foi convidado pro evento e relatou depois pro meu pai que a Igreja de Santa Luzia, aquela igreja grande, ali no comecinho da Avenida Antônio Carlos, ficou coalhada de moças do “dancing”, todas de sóbrios vestidos pretos numa manhã de sábado. Além delas, ainda pintou uma boa quantidade de funcionários e clientes do “dancing”. Todos consternados e de luto pela perda do amigo herói de guerra.

Quando ficou sabendo da missa em sua homenagem, meu pai rolou de rir e, apesar do inusitado da situação, imaginou que pelo menos tinha se livrado da mulher. Imaginou errado.

Os anos passaram, a guerra acabou, meu pai voltou pro Brasil e nem lembrava mais da história da mulher. Até que um dia…

Ele estava num restaurante com uma outra dona quando viu entrar pela porta a mulher do “dancing” com seu atual consorte. Ele gelou. O tempo tinha passado, mas ele ainda poderia ser reconhecido por ela. Que tipo de reação maluca ela teria? Ele segurou a mão da sua acompanhante e disse:

– Olha, agora provavelmente vai acontecer um dos troços mais malucos da sua vida. Então, fica na sua e só concorda com tudo o que eu disser.

Deixa dada, não deu outra, a mulher do “dancing” bateu os olhos no meu pai e veio que nem uma bala em sua direção.

– Muito bonito… O senhor inventa que morreu e agora lhe encontro aí, vivinho da silva. Eu chorei horrores por você. Horrores. Cheguei a ficar de luto por você por três anos. Três anos. Canalha! Canalha!
– Desculpe, a senhora deve estar me confundindo com outra pessoa- ele respondeu placidamente.
– Deixa de história, seu Leonam. Eu sei muito bem que é o senhor mesmo.
– Leonam? Leonam era o nome do meu irmão que morreu na guerra.
– Ahn?
– É, meu irmão gêmeo, Leonam. Talvez por isso a confusão. Ele morreu em combate na Itália. Um verdadeiro herói brasileiro. A senhora o conhecia?

A dançarina desabou. Tascou a chorar e pedir desculpas. Meu pai até chorou emocionado com a reação dela. Acabou convidando ela e seu acompanhante para jantarem com eles e conversarem sobre as proezas do irmão morto na guerra. No fim da refeição se despediram com abraços apertados, típicos de pessoas que compartilharam uma grande tragédia na vida.

Na saída do restaurante, a acompanhante do meu pai, enfim, pôde confrontá-lo:

– Como você nunca me contou que tinha um irmão morto na guerra, Manoel?
– Desculpa, querida, esse é um assunto muito difícil pra mim- ele desconversou, feliz de, após a perseguição da dançarina, ter adquirido o hábito cretino de mentir o próprio nome pra toda biscate com a qual se envolvia.

1991/2021

natal. feliz? tensão. medo. angústia. antecipação. gorbachev. pronunciamento. surpresa. acabou. acabou. acabou. viva. a paz.

30 anos depois. tudo velho. de novo.

violência. ódio. destruição. crises. enchentes. vulcões. secas. furacões. doenças. fomes. múltiplas.

guerras. opressão.

tragédias reais. mentiras vazias. na velocidade da luz.

ignorância. obscurantismo. negacionismo. orgulho. de ser idiota. a terra aplainou. a burrice pesa. nos achatou. e chateou.

era tudo mais simples. quando a nossa extinção não era nossa culpa. quando era a providência divina vindo nos culpar. por pecados alheios. por sermos ingênuos.

agora. 3o anos depois. tudo velho. de novo.

agora. nossa culpa. nossa. inescapável.

deveríamos ter sido extintos antes? passamos da validade?

lata de lixo. da história.

bem-vindos. de volta. ao fim.

nem as baratas querem mais nosso lugar.

feliz natal. de novo. feliz?

parabéns. humanidade tóxica.

2051 será melhor. será?

quem viver verá. veremos?

as baratas irão nos contar.

de novo.

O belo ritual do primeiro filme ruim das férias


Acabei de assistir ao ganhador do Oscar de pior comédia pseudo-romântica com o maior número de clichês mal utilizados por minuto: galã australiano com emprego exótico e sem sentido; tia cougar de meia idade devoradora de homens, mas solitária; casal de jovens bonitos que fazem acordo para ter relacionamento sem emoção, que todo mundo sabe que não vai funcionar; mãe viúva, casamenteira e sarcástica, mas sábia, que arruma um novo marido aleatório no fim do filme; situação social constrangedora com orientais durante casamento; médico jovem e paquistanês que termina com a tia cougar; amigo negro priápico que só serve como alívio cômico e personagem orelha; cena obrigatória de diarreia protagonizada pela mocinha; ex-namorado sexy e intelectual que engravida a nova namorada logo depois do termino do relacionamento anterior e não aparece mais; diálogos cheios de referências pop, com menção dupla a Ryan Gosling; jovem oriental cheia de pudores que se abre aos instintos falando um único palavrão; piada sem graça sobre câncer, repetida três vezes; mocinha que abandona o cigarro e o açúcar por amor, sem ninguém pedir; irmã da mocinha, casada e com filhos, passando por crise no casamento causada por excesso de responsabilidade do marido; criança madura que dá lição de moral em adultos, com palavrão incluso; mulher independente, mas que resiste ao amor por medo de compromisso. Faltou algo nessa bodega? Ah, final feliz com flashmob viral. Sim, tem também. E, para piorar, o filme é passado não só no Natal, mas em todos os maiores feriados americanos. Bingaram. Pro mal. Avaliação: “Stop trying to make ‘holidate’ happen, it’s NOT going to happen!”.

Mas foi ótimo assistir. Férias fazem quase tudo parecer legal.

Às praias

Na minha infância, qualquer água era mar. Até a da praia do Flamengo. Não tinha esse troço de praia imprópria, só praia arriscada. Acho que já vi até gente tomando banho na praia de Botafogo, mas pode ser viagem. Memórias fabricadas. Mas da praia do Flamengo, eu lembro. Na praia do Flamengo, eu ia.

Pequeno, mas cheio de empáfia e audácia, eu me aventurava como um explorador em busca das sereias que quase seduziram Ulisses, em busca das terras e tesouros que o mar tinha a me oferecer. A farra era tanta que eu nadava e brincava até ficar engelhado.

Quando voltava pra casa, minha mãe me preparava um banho de banheira com permanganato de potássio, pra me curar de qualquer doença que tivesse pego naquela água imunda. Devia funcionar. Talvez graças aquela água azul, eu nunca tive nada. Que eu me lembre.

Fui crescendo e passamos a ir ao Leme. Esbarrávamos com muitos turistas e em dois verões pré-adolescentes tive paixonites com paulistas que não deram em nada. Engraçado que, depois disso, abandonei o mar. E o sol. Mas não deixei de ir à praia.

Comecei a frequentar a praia de noite. Caminhava pela areia com gente esquisita pra fazer coisas não recomendáveis das quais não me orgulho. Algumas vezes cheguei até a ver o sol nascer, mas, como um vampiro, sabia que aquela era a hora de voltar pro meu esconderijo. Foram longos anos onde me privei do sol e da companhia de gente normal. Andava de calça jeans, camiseta preta e de tênis, pelas areias de Ipanema e Copacabana em busca de um lugar que não existia enquanto eu só precisava deixar o dia passar. E, depois de muito tempo, passou. Rápida e surpreendentemente como as luzes do hotel Marina acendendo.

No fim da faculdade, para acompanhar de dia gente que me acompanhava de noite, passei a ir às praias oceânicas e me entreguei mais uma vez ao mar. A princípio era apenas um pré- noite, ou prenúncio de um pernoite, mas me fez botar a cara no sol e me reencontrar.

Depois de tanto tempo no escuro, óbvio, desacostumei. Desprotegido e fraco, passei a queimar rápido e descascar profusamente. Era como se estivesse tirando da minha pele os anos de abuso que passei longe do dia e do mar. Era um banho solar, como o de permanganato de potássio que me dava a minha mãe, para me curar de uma água podre espiritual na qual eu nunca devia ter entrado.

Demorou, mas perseverei e curei. Apesar de finalmente ter feito as pazes com a praia, nunca mais a relação foi a mesma. De um audaz explorador, passei a me sentir um convidado indesejado. Não tinha mais o ímpeto de me queimar, nem a liberdade de nadar; e quando ia banhar, lembrava da minha tia, que entrava no mar comigo quando eu era pequeno, e citava Fagner para me ajudar pra perder o meu medo das ondas:

“Quem acredita em sereia sabe o segredo do mar.”

Quando eu era criança eu sabia o segredo do mar. Quando eu era criança eu acreditava em sereias. Mas eu esqueci o segredo e perdi a fé. Mas sempre é tempo de lembrar, mas sempre é tempo de voltar a ter fé.

Por isso, mesmo descrente e ignorante, quando eu volto à praia e entro no mar, humildemente, peço licença e digo baixinho:

Alodê yemanjá ê dai-me licença

E por um momento eu me sinto como uma criança esperando encontrar novamente as sereias que nunca me deixarão afogar.