Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Sono

Duas semanas após a mudança, o síndico bateu na porta do casal de novos moradores. Trouxe um vídeo mostrando o marido de pijama destruindo, no meio da madrugada, a antena coletiva do prédio. O marido chorou de vergonha e a mulher explicou. O marido era sonâmbulo e, vez ou outra, fazia, dormindo, coisas das quais não se lembrava. “Mas a senhora não o impede?”, o síndico perguntou. “Até tento, mas, vez ou outra, eu acabo dormindo”, respondeu a mulher cansada.

Na semana seguinte o síndico apareceu morto. Não havia um vídeo, como no caso da antena, mas as suspeitas recaíram sobre o marido sonâmbulo. Quando a polícia veio interrogar o casal, a mulher absolveu o marido e confessou o crime. Todos sabiam que era mentira, mas confissão é confissão, e ela foi presa preventivamente. Antes de se apresentar ao juiz, dormiu no xadrez. Muito bem, diga-se de passagem.

No dia seguinte, revigorada e descansada, declarou-se, mais uma vez, culpada.

Um necrológio urbano do Rio de Janeiro

Nasci na São Clemente, esquina com a Sorocaba, numa maternidade que não existe mais. Hoje é um daqueles prédios quase brutalistas dos anos 80, com muitas garagens e poucas pessoas.

Aprendi a andar e falar na Gustavo Sampaio, num quarto e sala com vista para a Atlântica. Nasci com o pé chato e caminhava na praia para curar. Curei. Depois de jovem e adulto(?) voltei a esse prédio para certas incursões bizarras e também pois tinha amigos que moravam lá. Me surpreendi com a imprecisão de minhas memórias. Física e Moralmente.

Na primeira infância estudei no Leblon em um colégio experimental. Voltava a pé pela praia com a minha mãe. Frequentei a praça do Lido antes de ser gradeada, a Ary Barroso, o Clube Radar e o Parque Peter Pan. Ia ao extinto cinema Ryan; ao, hoje fechado, Roxy; e ao, também fechado, Cinema Um. No seu lugar hoje tem um Hortifruti. Comecei a formar o meu paladar no Príncipe das Peixadas, que hoje é um Joaquina, e no Cervantes, em coma por conta da pandemia.

Na volta de uma visita ao meu avô em Campina Grande, descobri que tinha sido mudado pro Flamengo, para um prédio que ainda existe; e fui matriculado no colégio Bennett que virou uma universidade Univeritas. Não gostei da mudança e sempre quis sair de lá, o que só foi acontecer 17 anos depois.

Enquanto isso não acontecia, eu ia até onde minhas pernas permitiam. Andava de bicicleta nas calçadas no entorno do prédio, onde caí e tomei seis pontos no queixo; comprava gibi na banca do seu Antônio, já falecido; e ia à papelaria Líder comprar isopor e jogos de tabuleiro. A papelaria ainda existe, mas não tem esse nome, nem os mesmos donos.

Aprendi a ler e me colocaram para estudar num colégio em cima de um morro na rua Dom Gerardo, pertinho da praça Mauá. A rotina era pesada. Saía de casa às 7 da manhã e voltava às 6 da noite. Não me sobrava muito tempo pra ir a lugar algum, a não ser nos fins de semana. Aí os destinos eram o cinema São Luiz, na época uma só sala, e o cinema Largo do Machado, com duas salas, hoje usurpadas por um culto pentecostal. O programa cinéfilo sempre terminava no McDonalds ou nas sorveterias Babuska e Sem nome. Hoje não tem mais sorvete. Só uma Hering e uma Leader Magazine.

Me tornei adolescente e ganhei quilômetros de coleira. Ia à Biblioteca Nacional e à Machado de Assis; aos sebos da praça Tiradentes; às livrarias do Largo do Machado; e aos cinemas da Tijuca. Nenhum deles sobreviveu. Quer dizer, os sebos, as livrarias e os cinemas. As Bibliotecas ainda estão lá. Por enquanto.

O tempo passou e ganhei a noite. Caminhava sem destino pelo Catete e Flamengo, com breves paradas no Caneco 2, que virou um restaurante árabe, e no Machadão, transformado numa loja de vitaminas. Lá a gente ia para conversar sobre a vida, tomar chope, comer casquinha de siri e tomar caldo verde. Dá saudades.

Entrei na faculdade e me mudei espiritualmente para Copacabana. Quando não estava na sala de aula, primeiro na Gávea, depois na praia Vermelha, eu ia pra Copa pra beber nos bares da orla, da praça do Lido e no Cervantes, além de fazer amizades das quais não me orgulho. Ia também às saudosas boates, Galeria, Basement e 1904, e às diversas livrarias que não existem mais no bairro.

Para não dizer que não ia a outros lugares, frequentava o Mosca Feliz na Lauro Muller, que se mudou para a Lapa, e de nome para não ser reconhecido, e curti umas noites nas boates da Visconde Silva, onde eu não me encaixava mas era bem acolhido.

Um dia me vi sozinho em casa, todos da família tinham se mudado, e resolvi abandoná-la também. Fui para a Tijuca onde tirei um sabático de 2 anos, sem passar dos limites da Marquês de Valença e da São Francisco Xavier. Por obra e graça de entrar no mercado de trabalho, consegui voltar pra Copa onde fiquei também circunscrito a poucos quarteirões, nesse caso em torno da Djalma Ulrich, dividindo meu tempo entre o botequim Vedete e a creperia Yonza. Não sei que fim eles tiveram.

A idade adulta chegou e tornou o Rio um borrão geográfico para mim. Morei em Ipanema e em Botafogo, mas nesse período frequentei poucos lugares de nota como o Adriano na Real Grandeza, que ainda sobrevive, graças a Deus; mas, no mais, ficava dentro de casa. Esse afastamento da cidade chegou a um ponto em que a abandonei.

Fiquei 4 belos anos em BH. Não farei comentários, pois o necrológio é do Rio e não de Belo Horizonte. E os meus amigos que ainda moram lá dizem que ela merecia um necrológio à parte. Acabei voltando, mas a relação com o Rio azedou.

Voltei para Copacabana em plena preparação para as Olimpíadas. Não foi uma visão bonita. Uma cidade cheia de tapumes e com lugares tradicionais sendo transformados em armadilhas para turistas. Alguns lugares acabaram fechando pois não atendiam à visão pasteurizada que o Rio errou em seguir. Mais uma vez acabei me fechando em poucos quarteirões para criar relações mais humanas e significativas. Não queria ser cliente, mas, sim, freguês.

Por obra e graça da crise multifatorial que assola o país, me mudei pra praça São Salvador. Confesso que inicialmente achei estranho, mas me adaptei bem. Acabei fazendo amigos no Salvatore Café; comecei um fanzine local de humor político; mas assisti ao fechamento de negócios clássicos, como a papelaria Macris, que deu lugar a, Deus nos perdoe, uma hamburgueria gourmet.

Agora, esperando o momento certo para sair novamente às ruas, me questiono o que encontrarei nesta terra devastada. Tive a sorte de crescer numa cidade, mesmo em crise permanente, com história. A pandemia e as péssimas escolhas de nossos eleitores destruíram tudo que havia, sem deixar nada no lugar. Talvez haja uma maneira de olhar positivamente para isso; talvez seja o momento de construir a nova história da cidade. Afinal viver no espaço físico é um constante participar de velórios e nascimentos de uma arquitetura urbana que nos fala sobre quem somos e quem queremos ser. Espero que dessa vez não nos esqueçamos do que veio antes de nós, nem repitamos, mais uma vez, os erros com os quais não cansamos de desaprender.

Menor é melhor

Serei breve. Alguns exercícios realizados na Oficina Breves & Bons de Joca Reiners Terron. Preciso explicar mais?

Comparação

Entrou na fila do confessionário com a consciência mais suja que apartamento de solteiro em véspera de faxina.

Gemidos de prazer dignos de uma borboleta histérica.

Haiku

Sol da Manhã

Fresta Estreita
Breve visita do sol
Esmolas de luz

Elétrico

Selva urbana
Mico corre nos fios
Provoca o fim

Gaiola

Do outro lado
Voa livre a ave
Quem está preso?

O Parque

Solo, ar, sol
Caminhantes valentes
Mas sem ânimo

Extinção

Fim iminente?
Nós lutaremos contra!
Que tal amanhã?

Microcontos Absurdos

Um pato de estimação vai parar na panela por engano

Nem ele acreditou como entrou lá. Talvez fosse sua culpa. A porta da cozinha estava aberta e ele, contrariando o senso comum, entrou. No meio daquele chão frio e escorregadio, caiu de bunda várias vezes, resmungando sem parar, “QUefriACa! QUefriACa!” Um gato, garguleado na ponta do armário, questionou “Não peNsa eM eNtrar Na paNela queNtiNHa?” Achou a ideia boa e entrou. O gato tinha razão. E lá ficou o pato: quentinho na panela e na barriga dos donos da casa.

Marido e mulher descobrem que seus filhos são imitações

“Eles não são iguaizinhos?” a mulher se espanta. “A quê?” o marido pergunta. “Você sabe”. “É, eu sei, mas deixa eu comparar”. O marido pega cada um dos objetos da casa e coloca ao lado dos filhos para conferir. “Não, esse não, pega aquele,” a mulher o dirige. Nisso vão móveis, pratos, roupas, eletrodomésticos e panelas. Enfim, quando a casa está quase vazia, a mulher decreta, “Esse, perfeito”. O marido diz, “Não disse que eram iguaizinhos?” e as quatro imitações sorriem satisfeitas para o espelho.

Gêmeos idênticos e idosos vivem em turnos

Apesar de já terem usado nomes, hoje, são apenas Meio-dia e Meia-noite. Meio-dia, apesar de aposentado, ainda trabalha como datilógrafo estatutário numa repartição pública. Meia-noite, apesar de vagabundo, ainda é fotógrafo de coluna social de jornal de bairro. Apesar de morarem na mesma casa, nunca se encontram. Quando, e se, se encontrarem, apesar de improvável, será glorioso. O relógio do mundo se aposentará e, socialmente, tudo fará sentido.

O Cachorro

O cachorro roeu a própria perna até chegar ao osso. Terminada a deliciosa refeição, percebeu que estava livre. Enquanto pudesse se satisfazer sozinho, nunca mais precisaria se submeter aos mestres humanos. Estava livre para sempre ou até que lhe faltassem pernas.

Bilhete de suicídio

Enfim
descobri
como me livrar
do medo de morrer.

Carta de amor irônica

Amor,
vida minha,
se, da minha
vida,
não me agrado
a culpa é
sua
ou minha?
Com certeza é
sua,
minha
vida.

Notícias em 3 linhas, ao modo de Félix Fénéon

Prefeito do Rio declarou que, a partir de setembro, desde que vacinado, o cidadão carioca pode arriscar a sua vida e a de seus concidadãos por motivos fúteis. Porém, se não der certo, as medidas de liberação serão canceladas pois, ficará provado, tinham tudo para dar errado.

Presidente ameaçou dar golpe de estado se alguém disser que ele não é um democrata. As demais instituições reagiram energicamente mostrando que não tem energia para reagir com a energia que essa reação pediria. As instituições continuam funcionando. #sóquenão

Presidente disse que ia provar a fraude, mas não provou. Chamou a falta de provas de indícios e nos desafiou a provar que o crime, que não ocorreu, não ocorreu. Especialista, apresentado para provar o improvável, não era especialista, o que era bem provável.

Meu Processo

Tenho ideias. À beça. Umas me enchem mais o saco que outras. Essas, mais insistentes, mesmo que não pareçam tão boas, acabam vencendo a corrida de prioridades e me comprometo com elas. Mas, confesso, sou um consorte relapso.

Eu as deixo anotadas em cadernos, falo delas com os amigos nos botequins, mas demoro pra me mover. Poderia dizer que estou fazendo pesquisa, mas não se parece nada com isso. É uma espécie de procrastinação gourmet, durante a qual esbarro continuamente com a ideia sem a mínima ideia do que estou fazendo.

Mas as ideias são espertas. Elas me conhecem melhor do que eu mesmo e continuam insistindo. Às vezes elas se juntam e vem de bando; vez ou outra, uma morre esquecida depois de dois parágrafos; outras, mais malandras, se aglutinam e viram uma terceira coisa que eu não sei bem o que é. Elas se movimentam enquanto eu claramente fico na retranca. Enfim, um dia, depois de tanta pressão, acabo fisgado.

Nessa hora, acuado, eu escrevo. Compulsivamente. Tão compulsivamente que nem sinto o tempo passar. Quando estou exausto, paro; leio, releio, e não gosto de nada. Não me admira. Nesse primeiro encontro, nada foi planejado. Sorvete de sabor indefinido sempre tem gosto ruim.

Nessas horas lembro que escrever, pra mim, não é dar forma a ideias. Escrever, pra mim, é tentar descobrir o que eu penso a respeito de algo. Aí, cheio de autoindulgência, eu leio, releio, e tento descobrir o que eu penso a respeito do que eu acho que eu escrevi a respeito. E quando encontro algum fiapo de sentido, eu me agarro a ele e reescrevo. Uma, duas, muitas vezes.

Uma hora eu desisto. Seja porque cansei de revisar ou porque cheguei a conclusão que nunca ficará bom mesmo; e abandono o texto em lugares públicos como um órfão indesejado. Em mensagens e postagens na internet; em livros eletrônicos que ninguém lê; em fanzines de uma página distribuídos na praça na frente da minha casa,

Então, quando me livro desse filho sempre maldito, tudo acaba e eu me acabo. Volto pra casa, me deito sozinho no quarto escuro, cheio de saudades do momento da criação e lamentando não ter feito mais essa ou aquela alteração; até que eu me conformo, e, enfim, descanso. Mas não dura muito. Logo, eu sinto, chegará uma próxima ideia, uma próxima inquietação da qual, novamente, não vou conseguir me livrar.

E, como num seriado ruim dos anos setenta, aparece a temível legenda To be continued…

Fazer o quê?

As outras lgaertner

Como numa linha cruzada digital, vez ou outra, eu recebo e-mails destinados a duas mulheres que eu nunca vi na vida, uma americana e outra alemã. Aparentemente existe um sufixo googlemail ou algo similar que se confunde com o meu gmail e, pimba!, toda semana eu recebo mensagens direcionadas a elas.

Quando a confusão começou eu até tentei ser polido. Avisava que o e-mail veio pro lugar errado e evitava prestar atenção ao conteúdo. Mas, vocês vão me entender, era impossível não ler. Acabava que a gente, quer dizer, eu lia os e-mails e ficava imaginando suas vidas.

A americana se divorciando, sim, eu recebi os divorce papers dela; buscando empregos em diversos estados diferentes para refazer a vida, enquanto vivia um conflito intenso com o treinador de baseball do Mark, o filho dela. Seria essa uma relação de amor e ódio? Eu não tinha indícios suficientes para saber.

A alemã, provavelmente aposentada, sempre envolvida com diversos grupos beneficentes; reformando a cozinha, duas vezes; e tirando férias com a família nas Bermudas e no Tahiti. Dava quase para ver suas coxas brancas e reluzentes sob o sol inclemente de resorts cafonas ficando vermelhas como camarões cozidos.

Acabou que estabeleci uma relação. Não tinha como, nem queria, entrar em contato com elas, mas a gente, quer dizer, eu comecei a me afeiçoar e me preocupar com essas duas senhoras.

Ficava com raiva do técnico que não deixava o pequeno Mark jogar, da mesma forma que ficava preocupado com os custos altíssimos do mármore que ia ser colocado na cozinha. Mas ao mesmo tempo que sentia um tipo de, sei lá, carinho, eu me frustrava com elas, como quando a americana se inscreveu nos mailing lists da National Rifle Association e do Make America Great Again e a alemã recebia inúmeras mensagens da filha pedindo que a perdoasse; mensagens que, pelo jeito, mesmo que as recebesse, ela não iria responder.

Essa semana a nossa relação sofreu um certo choque. A americana recebeu um e-mail de um laboratório com um link para os resultados do seu teste de CoVid. Fiquei tentado a abrir, mas respeitei, pelo menos dessa vez, a sua privacidade. Será que ela está bem? Na hora lembrei que há muito não recebo mensagens para a alemã. Será que ela passou por essa pandemia incólume?

Assim, como parte dessa família de lgaertners, percebi como comecei a me solidarizar com essas mulheres sem rosto e que nunca irei conhecer. Porém, de mãos atadas, a única coisa que posso fazer é desejar é que me cheguem mensagens positivas sobre e para elas.

Que o pequeno Mark esteja arrasando como arremessador, que ela tenha conseguido mudar para um bom estado e que esteja num ótimo emprego. Que, em breve, ela possa receber na sua cozinha belamente reformada a filha para um jantar onde, depois de passarem pelo susto da pandemia, coloquem seus conflitos de lado e lembrem que mais importante que as mágoas passadas são os laços que unem a todos nós.

Mesmo que esses laços sejam apenas o mesmo nome de usuário numa conta de e-mail. Força, lgaertner.

Amanhecer na terra de Casimiro

Acordar com o sol nascendo pois, no quarto onde te colocaram, as janelas não têm cortinas. Sair do quarto com cuidado para não acordar as meninas. Passar na ponta dos pés pela sala, e se questionar, pela milionésima vez, como alguém consegue construir uma seleção de CDs como a exposta no rack.

Abrir a porta da geladeira, encher um copo de água, e notar que conseguiram, conseguimos(?), acabar com toda a cerveja de ontem. Ir pro quintal e usar o banheiro de fora, pois o da casa não tem a pressão de água necessária para suas necessidades matinais.

Ligar o computador da garagem e colocar, baixinho, numa web rádio local. Ler um resto de jornal velho que alguém abandonou numa cadeira de praia, enquanto fuma o primeiro cigarro do dia. Apagar o cigarro, terminar de ler as notícias vencidas e fechar os olhos curtindo a eclética seleção musical. Sentir-se em paz. Sentir-se vivo. Sentir-se com fome.

Voltar pro quarto pra pegar carteira, celular e chaves e sair de casa em busca de alimento.

Caminhar pelo praião vazio sob uma garoa invisível, ou será a maresia?, contando os quiosques abandonados e as casas orfãs de turistas. Entrar na rua de esquina da padaria e caminhar até a rodovia. Se assustar com os caminhões que passam como foguetes a caminho de lugar nenhum levando cargas fantasmas.

Entrar na padaria na esperança de encontrar algo diferente e se deparar com o mesmo de sempre. Pão; mortadela; aquele queijo minas, que se finge canastra; e o pão de queijo ruim que alimenta o coração. Complementar a culpa gulosa na forma de refrigerantes e isotônicos para curar as ressacas dos anfitriões e convidados.

Voltar, cheio de preguiça, pela beira da estrada, vendo se esbarra com um lugar onde comprar um jornal para fingir que se importa com o que está acontecendo no mundo. Achar apenas o Valor Econômico e comprar assim mesmo. Pelo menos ele é grosso e vai matar seu tempo até a hora do churrasco.

Chegar perto da casa e ouvir os cachorros soltos, anunciando que a casa já acordou e os libertou do canil. Abrir o portão com cautela, pros cachorros não fugirem, e encontrar todos na mesa esperando pelo café que, sabiam, você iria trazer.

Beijos e abraços de bom dia. Alguém aumenta o volume da rádio e uma música que faz parte da história de todos toca. Vocês a ouvem em silêncio, enquanto enchem a boca de refrigerante, pão, mortadela e amor. O pão de queijo continua ruim, a casa continua hospitaleira.

Amanheceu.