Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Estado Vegetativo

Um dia, Alessandro acordou bem cedo e notou que a sala estava diferente. Não sabia exatamente o quê, mas havia algo estranho. Apesar da ressaca braba que fazia a sua cabeça latejar, ele conseguiu ficar alguns minutos em pé analisando todos os cantos da sala, mas não conseguiu identificar o que estava lhe incomodando. Pensou em fazer uma análise mais aprofundada dos móveis e passar as paredes em revista, mas estava muito cansado e resolveu tirar um cochilo antes.

Acordou antes das dez da manhã um pouco melhor, mas continuava com a impressão de que a sala estava errada, quase como se ela não fosse a sala da sua casa. Pensou em tomar uma cerveja para rebater a ressaca, mas ainda estava muito cedo. Abriu o computador, mandou alguns currículos pelo LinkedIn, assistiu a uns minutos de um programa de culinária e fez uma oração sem fé pra arrumar um emprego ou, pelo menos, algo pra fazer. Deu 10 da manhã e foi pro botequim apressando o passo.

Sentou numa mesa do lado de fora, pediu um cinzeiro e uma cerveja e tomou a primeira do dia. Seu Nelson chegou logo depois, sentou na mesa ao lado da dele e pediu uma cerveja sem álcool.

– Tudo bem, seu Nelson?- tentou puxar conversa.
– Ahn?
– Eu tô bem. O senhor já teve a impressão de que havia algo errado com a sua casa?
– Calça?
– Casa. Ah, deixa pra lá, valeu?
– Ahn?

Tomou umas cervejas em silêncio e mudou de bar. Pediu um prato feito, almoçou e foi pra casa tirar um cochilo. Acordou por volta das 5 da tarde se sentindo bem melhor. Ainda continuava com a mesma sensação de estranheza. Resolveu mandar uma mensagem pra faxineira Talvez ela soubesse o que havia acontecido com a sala. Ela respondeu:

<Você está falando da planta nova?>

Era isso. No canto esquerdo da sala lá estava ela. Num balde travestido de jarro, uma pequena árvore, que nunca tinha visto, emoldurava as paredes sujas do apartamento. Baixou um aplicativo identificador de plantas e tirou uma foto dela: embaúba, também conhecida como planta da preguiça.

– Onde diabos fui arrumar isso? Deve ter sido sacanagem de alguém- se lamentou sozinho.

Tomou um banho e desceu pra tomar uma cerveja na praça. Encontrou alguns conhecidos e comentou sobre a planta. Todos riram muito, acharam curioso, mas ninguém ficou efetivamente surpreso. Isso era bem a cara do Alessandro.

Bebeu, fumou e conversou até ter sono. Foi pra casa e, bêbado, regou a planta, mesmo sem saber se deveria regá-la. Dormiu rapidamente e sonhou que dormia em cima da árvore já crescida na própria sala como um grande bicho preguiça. Cumprida a sua missão, a planta se foi e levou suas memórias.

Acordou bem cedo no dia seguinte, se sentindo descansado como há muito não se sentia. Chegou na sala e sentiu que faltava algo, mas não sabia bem o quê. Sua atenção focou num canto vazio no lado esquerdo da sala e ele conseguiu até ver como uma planta ficaria perfeita emoldurando aquela parede vazia e suja.

Mandou uns currículos no LinkedIn e quando deu 10 horas foi pro bar. Esperava encontrar seu Nelson. Pelo que lembrava, ele era botânico aposentado. Com certeza ele saberia qual planta seria ideal pra ele colocar no seu apartamento. No caminho para o bar, uma palavra não saía da sua cabeça: embaúba, embaúba. Onde tinha ouvido isso? Apressou o passo. Já estava atrasado pra tomar a primeira do dia.

A máquina do (não) impossível

Um dia, umas semanas atrás, na volta de buscar minha filha no colégio, paramos na loja de brinquedos e lá estava ela: a máquina. Vocês conhecem a máquina, todo mundo conhece a máquina. Uma grande caixa retangular; a parte inferior de metal, em geral pintada de vermelho; a parte superior envidraçada; na frente, na altura da cintura, um joystick e um coletor de notas e moedas; e dentro dela, vocês sabem, uma garra de metal e uma enorme quantidade de bichos de pelúcia. Pequenos e grandes; coloridos e engraçados; fofos e tentadores. Tremi.

Eu já conhecia a máquina. Encontro com ela desde os anos 90. Nem sempre de forma amistosa. A primeira vez, nunca vou esquecer, foi no Barra Shopping. Em vez de ir jogar no fliperama, vi um pessoal lutando contra ela, e por lá parei. E não é porque goste de bichos de pelúcia. Não gosto. Só me senti desafiado. Todo mundo jogava uma ou duas moedas e saía revoltado dizendo:

– Essa máquina é impossível.

Me apaixonei.

A dificuldade assumida, a desistência alheia, a sensação de me jogar obsessivamente atrás de um objetivo que não me interessava só pra provar que era possível, tudo na máquina me dizia: fui criada pra você.

Comecei como todo mundo. Comprei umas poucas fichas, tentei, não consegui, me frustrei e saí revoltado. Mas, ao contrário dos outros, eu voltei. Uma, duas, várias vezes.

A minha obsessão em vencê-la era tão forte que, lembro, se formou uma platéia atrás de mim, o que só aumentou a minha determinação. Eu não era mais um desafiante solitário, eu era o representante do sonho de todo um povo.

Enfim, depois de gastar quase todo o meu dinheiro, consegui. A garra se lançou naquele mar de pelúcia e resgatou de lá um pequeno urso azul que dei a uma menina que acompanhava a minha batalha. Recebi de recompensa apenas um beijo na bochecha e o sentimento de ter feito algo que todos consideravam impossível.

Desde então, toda vez que a encontro, é a mesma coisa. Eu a desafio e, eventualmente, depois de muita persistência, a venço.

Porém, desde que a minha filha nasceu, eu não a via. Até esse dia.

Depois de assistir a alguns pais saindo do colégio com seus filhos tentarem vencê-la e repetirem o mesmo comportamento que vejo desde a primeira vez que a encontrei, minha filha pediu:

– Posso jogar na máquina, papai?

Como dizer não? Como dizer sim?

Fiquei dividido. Um lado meu queria agradá-la, mas outro não queria vê-la frustrada. Um lado meu queria jogar junto com ela, mas o outro tinha medo que ela ficasse tão obcecada quanto eu. Ela insistiu:

– Papai, posso jogar?

Cedi aos meus desejos mais primais e assenti. Mas,dessa vez, o desafio tinha um gosto diferente. Eu não só queria vencer a máquina, eu precisava vencê-la.

Esperei mais algumas pessoas afrouxarem a massa compacta de bichinhos dentro da máquina, coloquei 5 moedas no coletor e instruí a minha filha. Ao invés de buscar o bicho que deseja, mais importante é tentar os que são mais fáceis de agarrar. Para essa escolha, a posição é mais importante que o tamanho ou o formato. Os bichos de cabeça grande parecem fáceis, mas, mesmo quando agarrados, caem com facilidade da garra. O ideal é mirar nos que estão na horizontal, de preferência com a barriga pra cima. E, estando nessa posição, se você tiver escolha, busque os mais ao centro da máquina e os menores.

Ela me olhou sem entender, mexeu a garra sem foco, e disse:

– Vou tentar o polvinho.

Um erro. A garra desceu, ficou bloqueada por uma parede compacta de outros bichos e mal arranhou a superfície do bloco de pelúcia.

– Máquina maldita- a amaldiçoou.

Fui obrigado a intervir e ensinar pelo exemplo. Minha mão tocou o joystick e me senti como há 30 anos atrás. A eletricidade, a emoção, o propósito. Encontrei um burrinho de barriga pra cima. Levei a garra até em cima dele, chequei pelo lado se ela estava alinhada na outra coordenada, esperei a garra parar de balançar e apertei o botão. A garra desceu em câmera lenta. Um pai nos assistia com o filho e comentou:

– Filho, deixa essa máquina pra lá, isso é mó engana trouxa.

Não me senti ofendido. Ele tinha razão. Era uma máquina para trouxas, mas apenas os que não a conheciam podiam ser chamados assim.

A garra alcançou a superfície do mar de bichinhos e se encaixou diretinho em volta do burrinho. Quando ela começou a subir, o burrinho estava solidamente preso nela. Com alguns sobressaltos acompanhamos a garra vir até seu local inicial para se abrir e nos entregar nosso prêmio.

Minha filha delirava, enquanto o pai que nos assistia estava boquiaberto. Deveria estar aprendendo alguma lição com isso, mas qual ela era? Não sei.

A garra soltou o burrinho e nós o pegamos. Minha filha o levantou acima da cabeça como um troféu, enquanto as pessoas se reuniam ao nosso redor.

Uma mãe me ofereceu uma ficha para pegar um bichinho para a filha dela.

– Desculpe, assim é muita pressão. Eu não sou mágico pra conseguir pegar toda hora- declinei.

Ainda tínhamos 3 fichas. Eu precisava continuar.

– Papai, agora o polvinho- minha filha indicou.

Como já tinha pego um, achei de bom tom seguir a sua sugestão. Mesmo não conseguindo pegá-lo, eu já sairia no lucro. Acionei a garra e fui atrás do polvinho. Na primeira vez, o movi um pouco, mas quase não o tirei do lugar. Na segunda consegui levantá-lo, mas ele logo caiu e se virou exatamente como eu queria: de barriga pra cima. Na terceira, todos estavam aguardando a finalização da minha partida: minha filha, o pai descrente, a mãe preguiçosa, e seus filhos. A tensão e o silêncio eram quase palpáveis. Movi a garra para a última tentativa. Acertei sua posição, conferi a coordenada, esperei a garra parar de balançar e apertei o botão.

Dessa vez a garra foi como um raio. Caiu pesada sobre os bichinhos e, para a minha surpresa, agarrou não um, mas dois polvinhos. O povo, quer dizer, minha filha, o pai, a mãe, e seus filhos, aplaudiu entusiasmado. Quando minha filha os pegou, ofereceu um para cada uma das crianças que nos assistiam.

– Você já me deu um, papai- se explicou sem necessidade.

Minha missão estava cumprida. Como desafiante e como pai.

Desde então, quando voltamos do colégio, sempre faço o máximo para evitar o caminho que passa pela loja de brinquedos. Não por medo de falhar nem para evitar ceder às minhas obsessões. Por mais que fique tentado a me botar à prova novamente, acho melhor manter a mística que o impossível sempre pode ser possível. Sempre.

Fofoca das Famosas

– Querida, parabéns!
– Pelo quê?
– Não ficou sabendo? Agora você é oficialmente famosa.
– Ué, achei que eu já era famosa.
– Era, mas agora você chegou em outro patamar. Uma estrela! Você virou uma famosa entre os famosos.
– Não entendi, explica.
– Ai, ai. Inteligência nunca foi seu forte mesmo…
– O que é que você disse?
– Nada, amor. Deixa eu te explicar. Depois de amargar 2 anos como youtuber, 1 ano como sub celebridade aparecendo diariamente na Rede TV, e, depois de, enfim, dar a pinta por 5 minutos num programa da Globo, agora você foi aceita no panteão dos famosos.
– Continuo sem entender. Eu tenho mais de 2 milhões de seguidores, quase um bilhão de views e só agora eu sou famosa?
– Claro. Antes você era po-pu-lar. Fazia sucesso, tava na boca do povo e tal. Mas a fama, a fama de verdade depende de outros quesitos.
– Tipo?
– Ser bem quista pelos deuses, amor! De que adianta ser a Anitta se a Paola Oliveira vira a cara pra você? Pra ser realmente abraçada pela deusa da Fama, tem que estar no Olimpo!
– Tá, e você tá dizendo que eu cheguei nesse tal de Olímpio agora?
– Olimpo, querida, Olimpo. Chegou, sim. Chegou bem e chegou chegando. Já viu o teu whats hoje?
– Ainda não. Eu não pago alguém pra cuidar disso pra mim?
– Pa-ga-va! Agora você vai ter que cuidar dele com muito carinho.
– Porquê?
– Por causa disso!
– Grupo da Fofoca? Que convite é esse?
– É um grupo só com as mega super hiper uber famosas, onde elas trocam figurinhas umas com as outras e falam mal das que não estão no grupo.
– Quer dizer que antes de eu entrar, elas podiam estar falando mal de mim?
– Isso não interessa, meu amor. Agora você está no grupo e só vai ser bem falada. Aceite o convite logo, boba.
– Tá, aceitei. Agora faço o quê? Mando uma mensagem?
– Muita calma nessa hora! Manda, sim, mas vamos pensar direitinho no que mandar.
– “Oi? Valeu por me colocarem no grupo?”
– Deixa de ser simplinha. Onde já se viu? A pessoa sai do subúrbio, mas o subúrbio não sai da pessoa. Tem que vir com força. Tipo o cara que chega na prisão. Tem que chegar dando porrada pra não virar a noivinha de ninguém.
– Então, já coloco uma fofoca?
– Pode ser, pode ser. O que você tem de bom aí?
– Tem aquela da…
– Essa não dá. Eu sei de quem você tá falando. Ela é administradora do grupo.
– E a da…
– Nem pensar, deve ter sido ela que te convidou pro grupo. Não se cospe no prato que comeu.
– Tá, nem sei o que fazer. O que você sugere?
– Deixa eu ver aqui… O que? Te excluíram do grupo!
– Meu Deus, não durei nem 3 minutos no Olímpio.
– NO OLÍMPO! NO OLÍMPO! Que terror! Do lixo ao luxo e do luxo ao lixo em segundos! Haja coração.
– Mas por que será que me tiraram do grupo?
– Deixa eu ver… achei. Olha só.
– O quê?
– Você acabou de receber um convite pra participar de um grupo totalmente antagônico à Fofoca das Famosas.
– Que grupo é esse?
– É o grupo do Elenco da Record, amor. Acabou pra ti, querida. A-ca-bou!
– E não tem salvação?
– Bom, eu fiquei sabendo de uns Lázaros que foram trazidos de volta do mundo da Record.
– E o que eles fizeram?
– Um se regenerou, se afastou do dinheiro fácil e se tornou um ativista social. Coisa difícil pra você. O outro, quase morreu de Covid. O povo costuma ficar com pena…
– Babou. Finjo ser feminista, mas sou de extrema direita, e já vacinei as duas doses. Escondida, claro. E agora?
– Amor, lamento. Pra você só restou a Fazenda.

Filho da ficção

Toda noite, antes de dormir, minha filha pede para eu contar uma história sobre o avô que ela não conheceu e já está morto há 20 anos. Meu pai. O que conto a ela? Conto suas mentiras? Há outra opção? Mentiras foram tudo o que ouvi.

Segundo me contou, ele nasceu em Santana do Livramento há quase 100 anos, no dia 24 ou 25 de dezembro. Nunca se decidia em qual. Dependendo da fonte, foi no ano de 1922, 1924 ou, até, 1926. Ele nunca confirmou pois ele mesmo talvez não soubesse. Dizia que nasceu exatamente na fronteira entre o Brasil e o Uruguai. Se tivesse nascido na cozinha, gostava de lembrar, seria uruguaio. Nasceu no quarto. Brasileiro.

Da sua infância, lembrava pouco. Aleijou uma tia por causa de uma brincadeira maldosa. Amarrou uma corda na cadeira em que ela ia sentar e a puxou exatamente quando ela largou o peso do corpo. Improvável. Teve um doberman que gostava de soltar quando recebiam visitas inconvenientes, como um vendedor de jóias que foi obrigado a se pendurar em um lustre para não ser mordido. Possível, considerando que mesmo velho tinha a mania de aparecer de cueca na sala quando queria que as visitas fossem embora. E, com raiva por não poder ir ao circo, abriu a jaula do leão e colocou a cidade em pânico. Mentira. Mas gosto de pensar que foi verdade.

Filho de um coronel que morreu cedo e de uma dona de casa que, ouvi dizer, morreu de cirrose, ficou órfão na tenra infância. Caçula de quatro irmãs, ele foi enviado ao Rio para morar com tios e, assim que teve idade, foi colocado interno no Colégio Militar.

O tio pelo jeito não gostava de suas brincadeiras. Meu pai costumava vestir as roupas do tio e fingia ser um vizinho de visita, ou ser o padeiro ou o leiteiro fazendo entregas. A sua brincadeira preferida era se vestir de mendigo e vender jornais do dia anterior no bonde. Um dia esbarrou com o tio. No susto, pulou do bonde em movimento e quase foi atropelado. Dizia.

Entrou no colégio militar e aí, sua história, como boa parte das histórias das figuras folclóricas do século XX, começou a se misturar com a história do Brasil e do mundo.

Segundo ele, tínhamos, temos, um parentesco distante com Getúlio Vargas. Por conta disso, contava, foi convidado a discursar para o presidente em uma de suas visitas ao colégio. O problema é que o odiava. De todo o coração. Não tinha explicação, nem história familiar ou um claro posicionamento político que justificasse o sentimento. Cheio de raiva, assumiu o dever do discurso e escreveu dois. Um apresentou à direção do colégio e foi aprovado; o outro, ilegal, leu na frente do presidente, e de todos alunos e professores, e acabou preso por duas semanas com apenas 12 anos. Estava se tornando homem.

Sexualmente teve a sua iniciação com as polacas da zona do mangue. Me confidenciou que nunca tirava as meias no ato, pois ficou com trauma. Em uma das suas primeiras vezes, enquanto se despia, fez menção de tirar as meias e foi impedido pela polaca cheia de sotaques e erres:

“Prra que tirarr meia? Pé não foderr.”

Parece uma história desnecessária mas é um detalhe importante na sua constituição emocional, na medida em que fica claro que aprendeu sobre o sexo, e de uma maneira torta, sobre o amor, com mulheres que ele dizia, o que imagino ser um enorme exagero, lerem o jornal durante o ato.

Em paralelo, nos fins de semana, vestia o uniforme de gala do colégio e penetrava nas festas tijucanas, aparentemente protegido pelo personagem. Porém foi pego inúmeras vezes, mas nunca punido.

Com essa mesma ilusão de sorte e direito adquirido, ele foi para a segunda guerra, nas suas palavras, “para derrubar Getúlio”. Outros dizem que ele foi fazer dinheiro, o que explica ele não fumar e pedir cigarros para vender aos italianos.

No seu tempo de combate, se desligou do Brasil. Chegou a fingir a própria morte e ter uma missa de sétimo dia rezada, para se livrar de uma namorada. Óbvio que esbarrou com ela na volta ao Brasil, mas, espertamente, fingiu ser seu próprio irmão gêmeo para escapar de uma briga. É difícil de acreditar que alguém cairia nessa história, mas se você o conhecesse, veria como ele tinha a lábia necessária para fazer alguém acreditar nisso.

Por toda a sua vida, ele entrava e saía de situações loucas com extrema facilidade, talvez mais por confiança do que por habilidade. Porém, quando eu nasci ficou, complicado manter uma história coerente.

Se fosse um sujeito calado, talvez eu tivesse ficado iludido por toda a minha vida; mas era um contador de histórias apaixonado pela própria voz e pelo incrível personagem que criou. Assim, um dia, quando eu tinha doze anos, o conflito de contexto entre as suas sedutoras fantasias e a monótona realidade explodiu na sua cara. Me descobri filho de uma ficção.

Nunca o confrontei, mas ele sabia que eu sabia. E, assim, vivemos por mais 15 anos. Ele se retraiu. Não contava as histórias que o fizeram famoso com a mesma verve; tentou se matar, mais como teatro do que como verdade; e exacerbou suas tendências hipocondríacas inventando doenças novas toda semana. Lembro de assistir, escondido atrás das cortinas, ele caminhando com dificuldade apoiado numa bengala, só para atravessar a rua correndo quando achava que não estava sendo observado.

Um dia uma doença de verdade o abateu e feriu justamente o que achava ter de melhor: a masculinidade torta que anos de colégio militar e fanfarronice lhe colocaram na cabeça. Durante a convalescência que levou à sua morte, eu, sob tratamento psicoterápico, tentei confrontá-lo sobre a verdade. Não tive sucesso. Nem ele devia saber mais o que era real ou não. Nos afastamos.

Ele morreu distante de mim, sem consciência de quem foi e de quem inventou que era. Quando quis velá-lo, fui expulso por seus parentes do cemitério. Uma história curiosa que parece bem com as que costumava contar.

Vez ou outra, quando sua neta me pede histórias sobre ele, eu penso em tudo isso e me pergunto por que não tenho mais fotos ou documentos que possam comprovar a sua existência. Eu busco, busco, mas não acho. Tudo o que restou dele foram as histórias, então, só me resta contá-las a conta gotas, até que elas deixem de ser suas, de ser minhas e se tornem de sua neta e de todos que as ouvirão.

Há quase 100 anos ele nasceu, mas sua vida é mais forte hoje do que nunca. Ele deixou de ser verdade, chata e previsível, e virou o que sempre quis ser: ficção. E eu, seu filho, graças a ele, virei um ficcionista.

O niilismo das provas da vida

Essa semana, eu caí na real que, hoje, a minha filha vai fazer a primeira prova da sua vida. Quer dizer, prova de verdade: em sala de aula, com tempo contado, pressão e sem poder colar com a anuência da escola. Prova, assim, tipo prova.

Mas a culpa de isso só rolar agora não é dela. Ela entrou no ensino fundamental junto com a pandemia e, por conta do formato online, todos os eufemisticamente chamados “trabalhos avaliativos” do primeiro e do segundo ano pelos quais ela já passou foram feitos em casa. Óbvio, com intensa supervisão; mais materna do que paterna, confesso.

Não admira, as notas da turma toda foram incríveis. Dez de ponta a ponta. Por que será?

Na sexta passada, quando a minha mulher me mandou um whatsapp com a lista de matérias que iam cair nas provas, comecei a perceber que a tensão tinha começado a subir.

– Você viu as matérias das provas? A gente precisa botar ela pra estudar- minha mulher vez ou outra repetia.- Se ela não estudar, vai tirar nota baixa, tá?
– É, vi. Sei, tá certo. Tem razão – eu meio que desconversava.

Essa semana, fui buscá-la na escola e os pais, que, ao contrário de mim, tem o hábito de manter relações sociais uns com os outros, comentavam:

– Viu que tem prova essa semana?
– Vi, estou tão preocupada.
– Como eles vão lidar com isso? Nunca fizeram prova, assim, em sala de aula.
– É, eu sei. Estou até sem conseguir dormir. Vocês já começaram a estudar?
– Ainda não, mas vamos.
– Nós também não começamos. Mas vamos, sim. Vamos, sim.

Nessa hora ficou claro pra mim a importância das provas escolares para as pessoas e como isso pode influenciar como elas lidarão com os demais desafios da vida. Desculpa, eu sei, pode até parecer papo de coach, mas não é.

Olhando de uma forma muito pragmática e piagetiana, prova deveria funcionar dessa maneira: o professor “ensina” e desafia o aluno; o aluno “estuda” e exercita os conceitos; nesse processo de experimentação, o aluno desenvolve uma nova estrutura cognitiva; e, enfim, como o processo escolar é coletivo, é aplicada uma avaliação, a tal prova, para verificar se o grupo chegou em conjunto a esse novo patamar, e quais são os gaps de aprendizagem que devem ser sanados.

Simples, né? Sem stress ou angústias. Mas não é assim que rola. Principalmente num país cheio de concurseiros que sonham com ascensão social, segurança eterna e aposentadorias antecipadas, a.k.a. desejo de morte, vindas do seu desempenho em provas que só se repetem de cinco em cinco anos.

Por conta dessa cultura, o pessoal considera que a prova, ao invés da avaliação de um processo de aprendizagem colaborativo entre o professor e o aluno, é uma espécie de teste mítico para abrir as portas para uma vida melhor.

Esse nivel de expectativa gera uma bruta tensão pré-prova e estudar acaba se tornando presa fácil da procrastinação obsessiva do “deveria estar estudando”; e o desespero pelo medo do fracasso lhe faz se martirizar, estudando de véspera até altas horas e dormindo com os livros sob o travesseiro para aprender por osmose. o que, pode crer, não funciona.

Essa relação tóxica com o processo avaliativo se torna uma referência para como você lidará com os seus desafios no mundo adulto, sejam eles, um treinamento, uma avaliação de projeto, uma sessão de feedback, a apresentação de relatório anual, e até um simples exame de sangue. O importante, parece, não é aprender com as experiências e melhorar, o importante é passar e deixar isso tudo para trás. Como já disse antes, desejo de morte.

Eu, pessoalmente, não consigo entender isso. Fui criado num colégio com prova mensal e testes surpresa à rodo. Além disso, reprovação lá era mato. Tinha uns anos em que se abriam até três turmas de recuperação por série para dar conta de todo mundo que ficava pendurado.

Esse clima de terror profundo tornava a experiência da prova uma vivência niilista de comprovação da falta de sentido da vida e das forças do acaso no seu futuro. Por isso não havia medo de fato, apenas resignação. Além de não acharmos que a prova poderia nos trazer algo de bom, pra que nos importar com o mal que ela podia nos fazer?

Então, incorporando minha melhor versão de Arthur Schopenhauer, lá fui eu estudar com a minha filha. Peguei a lista de temas e passei um a um com ela:

– Hum, esse lance aqui, como funciona?
– Assim, papai.
– Beleza, me dá um exemplo.
– Esse, tá certo?
– Tá. E se fosse assim?
– Aí era dessa forma.
– Beleza. Acho que você vai se dar bem. Amor, já estudei com ela!
– Já? Como já terminou? Impossível. Assim ela vai tirar nota baixa. Vem estudar com a mamãe, filha. Deixa esse seu pai maluco pra lá.

O pior é que eu acho que ela vai se dar bem, e, se não se der, a vida continua e tem mais prova pela frente. Pelo menos, agora, a gente vai saber o que ela não aprendeu e onde precisar melhorar. Afinal, é isso que importa, não?

Estatística

A avó, apesar de vacinada, só pensava em covid. Vivia com medo de pegar; vivia com medo de morrer. Qualquer coisa achava que era sintoma, mas fazia os testes e nada. Porém isso não diminuía a sua angústia, só aumentava.

Os filhos e netos, sem saber o que fazer, resolveram realizar o desejo da avó, e, depois de uma nova série de exames negativos, forjaram um positivo. A avó recebeu a fake news estoicamente. Prometeu que ia lutar contra a doença que não tinha. Todos embarcaram na fantasia e passaram os 14 dias de quarentena como se fosse de verdade. Os sintomas, reais ou imaginários, não apareceram e ela melhorou. Do que tinha e do que não tinha.

Passada a quarentena, sua vida mudou. Como dizia, era uma sobrevivente. Ainda seguindo todas as medidas sanitárias, começou a viver mais. Saía pra pegar sol; ia ao supermercado comprar uma coisa ou outra; e até parou de acompanhar o quadro de mortos e infectados.

Um dia teve algo que parecia uma gripe forte, fez os exames e deram positivos. Pra covid.

Novamente, recebeu a notícia, agora real, estoicamente e prometeu que ia passar por essa como da primeira. Não passou. Do leito de morte mandou uma última mensagem aos filhos e netos: “Não tenham medo de morrer, tenham medo de não viver”.