Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O quinto pé

Último pênalti
da grande final.
Você não pode vacilar

Habilidade você tem,
mas pênalti
também é sorte,
e é dela que vai precisar

Então você pede,
pela quinta vez,
na
sua vida,
ajuda à sorte.
Ela não vai lhe negar

Como não negou
da primeira vez
em que esfregou seu pé de coelho
para ser escolhido
pelo olheiro
do time mirim
para jogar

Como não negou
da segunda vez
em que esfregou seu pé de coelho
para o prêmio
de melhor jogador
poder
comemorar

Como não negou
da terceira vez
em que esfregou seu pé de coelho
para ser contratado
por um time rico
de uma outra
nação

Como não negou
da quarta vez
em que esfregou seu pé de coelho
para ser convocado
para fazer parte
da grande
seleção

Agora,
no último pênalti
da grande final,
você precisa da sorte,
mais uma vez,
mas não tem mais
pés de coelho
para esfregar

Para a sua surpresa,
surge um coelho
vivo e inteiro
no meio do campo
para lhe visitar

Antes que peça
ajuda à sorte
mais uma vez,
o coelho
se põe a falar:

“Quatro vezes me pediu
quatro vezes lhe atendi.
Agora é minha vez de cobrar

“Se antes teve sorte
foi às custas
das patas que uso
para saltitar

“Vá agora,
faça o gol,
e mostre a sorte
que parece lhe
privilegiar

“Vá agora,
sem demora,
faça o gol,
e me dê
seu sortudo
pé de humano
para esfregar”

Exercício inspirado pela imagem de Moni Port e realizado no curso LITERATURA INFANTIL: O QUE, POR QUE E COMO ESCREVER? do Instituto Estação das Letras? ministrado pelo genial Léo Cunha.

micro conte se: desafio 22

Acordo na hora de sempre, mas não há desafio a enviar. Acabou. Depois de 21 dias de loucura, minha missão foi cumprida.

Eu me levantaria para fazer um café para espantar o cansaço, mas me lembro que não tomo café e tento, inutilmente, descansar.

Ansioso e paralisado, continuo deitado ruminando tudo o que aconteceu. As surpresas com os textos dos participantes, os aprendizados que eu tive, o vazio de não ter mais uma rotina a cumprir.

Mas quem disse que a rotina acabou? Não, ela não acabou; ela apenas mudou. Não aprendi nada nesses últimos 21 dias? Não estabeleci um compromisso comigo mesmo e com quem vai me ler? Aí percebo que já estou atrasado para escrever. Melhor começar.

Assim, mezzo resignado, mezzo resoluto, ligo o computador e, mesmo sem inspiração, me preparo para escrever. Mas sobre o quê? Sobre o que escrever quando não há um desafio pra me direcionar?

Que tal falar do Micro Conte Se? É, taí, é uma boa opção. Acho que tenho muito a dizer sobre essa experiência.

Abro um novo diretório, crio um arquivo de texto e digito o título:

micro conte se: Desafio 22…mil..hões

Estamos prontos pra continuar? Sim, agora, sim. Vamos lá.

*

O desafio micro conte se foi uma experiência literária de 21 dias, onde os participantes eram provocados a redigir um texto de até 250 palavras todos os dias sobre uma questão pessoal ou uma história de suas vidas. Começamos no dia, pasmem, 25 de dezembro e terminamos a jornada em 14 de janeiro. Para conhecer melhor o chamamento aos participantes, clique aqui.

Nessa edição de 2021/2022, contamos com 13 heroicos participantes que escreveram em sábados, domingos e feriados, incluindo os dias 31 de dezembro e 1° de janeiro.

Esse projeto piloto, que já queria desenvolver há tempos, foi inspirado pelo evento Mundial de Escritura, pelo curso Drive do Edu Valladares, pela metodologia de aprendizagem Working Out Loud, e pelos livros O Caminho do Artista e Literacura.

Pessoalmente, pra mim, na minha opinião, desculpem os pleonasmos em série, foi uma super experiência. Ainda me questiono ainda se eu deveria ter divulgado os meus textos, por estar no papel de coordenador do processo, ou se não deveria ter insistido mais pra galera compartilhar os seus textos, mas, acredito, foi proveitoso para todos os envolvidos.

Mas, quem sou eu pra falar? Vamos deixar aqui com vocês os depoimentos dos participantes:

Agradeço a oportunidade de participar desse evento. Para mim, foi uma viagem ao que gosto de fazer, com a vantagem de ter uma visão mais ampla do que é a escrita, e de poder vivenciar as experiências e expectativas dos outros participantes. Acho que vamos trilhar novos rumos. Agradeço a acolhida de todos e sobretudo, estou feliz porque estou em um grupo em que todos nós estamos procurando nosso estilo próprio.Gracia Circunde

Professor, gostaria de reiterar que a oportunidade me enriqueceu bastante, sou muito grata por ter lembrado de mim, de coração. Foi muito bom só escrever, escrever sem precisar estar certa, escrever pela disciplina, escrever até sem vontade de escrever, furar o bloqueio do tempo, das impossibilidades, das dificuldades diárias e se sentar e escrever, deixar os dedos colocarem pra fora. Obrigada pela escritaterapia. Obrigada porque se não fosse isso talvez eu nunca iniciasse o blog, iria sempre protelar. Por favor, compartilhe com meus colegas de desafio minha gratidão e meu apoio a eles, por esse momento.Rebecka Cerqueira

Lisandro, já tinha te adiantado: adorei o desafio e as provocações para os textos. Acho que está maduro para ser um produto, e tem tudo para agradar pessoas que precisam criar o hábito de escrever e querem fazer isso de forma inteligente e divertida.Corélio M.S.

Legal, né? Provavelmente irei realizar uma nova edição ainda em 2022. Se tiver o interesse de participar, me envie um e-mail. Será um prazer ter você nessa jornada.

Inté e boa escrita!

Bifurcações

A carta do poeta indiano parecia enganação,
o contrato de edição da Sete Letras não cheirava bem,
a proposta de estágio com o Wilson Cunha era irreal

Desprezei as parcerias
não remuneradas
com várias pessoas maneiras,
assim como aquela fila de trabalhos legais,
mas estranhos,
que nem cheguei a
pleitear

Não fiz vestibular de cinema pois a prova era longe,
abandonei a Darcy Ribeiro pois já tinha lido toda a
bibliografia
antes do curso
e achava os colegas
subpar

Nem comecei aquela pós
pois
os alunos usavam um texto meu
de humor
em seus trabalhos de fim de curso
como se fosse real

Não corri riscos que pudessem me prejudicar
As vantagens que poderia ter
sempre foram menores que os medos
que nunca deixei de
sentir

Todas as vezes que
a estrada divergiu,
eu segui,
sem fé,
pela rota que parecia mais segura,
mas
mais infeliz,
e não fez
a menor diferença
no final,
pois ainda estou
onde deveria estar
Aqui, ou lá
Depende de onde você
o-
lhar

Mas sempre dá pra mudar,
não dá?

Todo dia
é dia
de bifurcar

Dona Vanna e eu

Comecei a frequentar a Leonardo da Vinci cedo. Tinha de uns 7 para 8 anos quando minha mãe, na saída das suas aulas do IFCS, me levava na livraria para deixar boa parte do seu dinheiro em troca de livros que ela não encontraria em qualquer outro lugar.

A loja era imponente. Um corredor largo e comprido, cheio de estantes com livros de diferentes tamanhos e cores, em todas as línguas do mundo. Ao contrário das livrarias que conhecia, não havia um balcão. Dona Vanna e seus funcionários se sentavam em cadeiras de espaldar alto, atrás de uma longa mesa. Não havia sinal de caixas registradoras ou qualquer outra coisa que lembrasse a troca de mercadoria por dinheiro. Lá você não deixava nem levava bens materiais. Lá, você deixava a sua vida e alimentava a sua alma.

Os colegas de faculdade da minha mãe costumavam repetir, quase como uma parábola, a história de um aluno de filosofia que tinha furtado os 24 volumes das obras completas de Freud, um volume por semana, nas barbas da dona Vanna. Por azar, foi pego furtando o sumário da Imago, que era vendido separadamente. Banido para sempre da loja, dizem, perdeu a vontade de viver, abandonou a filosofia e foi cursar economia que estava mais próximo dos seus instintos vis.

Os anos passaram, cresci e passei a frequentar a loja sozinho. Em busca de quadrinhos e RPGs.

Com 11 anos fiz minha primeira reserva: o primeiro volume de L’Art de la BD de Duc. O preço era um acinte. Especialmente por causa do câmbio paralelo que dona Vanna criou com o tal dólar Da Vinci. Pedi para segurarem o livro por 15 dias, prazo máximo de reserva, para conseguir juntar 2 mesadas e pagar pela obra que, acreditava, iria me tornar um roteirista de quadrinhos. Com muita dificuldade e sendo obrigado a vender alguns quadrinhos nos sebos da Tiradentes para completar o valor, consegui honrar meu compromisso.

A segunda reserva foi mais complicada. Pedi para separarem para mim a caixa do Star Frontiers, um rpgzinho espacial da TSR, mas não sabia se ia conseguir pagar. Estava tentando fazer uma espécie de ação entre amigos para dividir o custo, mas não estava dando certo. A minha ansiedade era tal que ia na Da Vinci todos os dias só pra ver o RPG reservado. Dona Vanna, sádica leitora de mentes, me pressionava:

– Se não comprar no prazo, vou vender pra outro.

Vendeu.

Quando consegui o dinheiro, tinha passado uns dois dias do limite da reserva e ela, como prometido, vendera o jogo para outra pessoa. Fui obrigado a comprar a caixa azul do expert do D&D BECMI, o que, no fim das contas, foi uma melhor opção e, agora, pensando bem, mudou a minha vida.

Do alto da sua pretensa maldade, dona Vanna nos fazia o bem.

Um dia, no caminho pro colégio, entrei na loja no horário que estava abrindo. Não sei por que só o faxineiro estava lá e me deixou largado enquanto esperava os vendedores chegarem. Não percebi na hora, mas fiquei sozinho e de mochila na loja. Poderia ter levado, sem ninguém saber, todos os RPGs e quadrinhos que desejava, mas isso, confesso, nem me passou pela cabeça. Fiquei, como um bom servo de dona Vanna, apenas apreciando o que não conseguiria comprar e buscando na minha mente maneiras de honrar as reservas que tinha feito. No colégio, quando contei essa história, fui chamado de otário pelos meus colegas, mas, graças à dona Vanna, descobri que era apenas honesto.

Me tornei um jovem adulto e a minha relação com ela, ou com a loja, melhorou.

Aprendi a garimpar e a pedir livros que não tinham na loja, o que me dava mais tempo para guardar o dinheiro necessário para quitar minhas dívidas. Passei dos RPGs pro Tarot, do Tarot pros pocket books, dos pockets pros livros de filosofia, psicologia e ciências sociais, e, enfim, me tornei um cliente de todas as seções da loja.

Dona Vanna, tenho certeza, me ensinou a ser um melhor leitor.

Acabei me tornando eu mesmo um livreiro, e, apesar de ser um colega de profissão, continuei a respeitar e a temer dona Vanna. O medo talvez fosse exagerado, mas o respeito sempre foi devido.

Nessas voltas que a vida dá, acabei, após sócio de duas livrarias, indo trabalhar num prédio próximo à Da Vinci. Um colega do trabalho, apreciador de Cultura Cervejeira, sua História, suas Circunstâncias,  estava procurando livros realmente especiais sobre o tema e o levei na dona Vanna.

Ao contrário de mim, que cresci sob o regime de terror de dona Vanna, ele se sentou à sua frente com naturalidade, bateu altos papos com ela em francês sem o menor pudor e saiu de lá com uma lista de livros e revistas encomendados.

Um dia seu telefone tocou no trabalho e eu atendi. Tremi, era a voz da dona Vanna:

– Por favor, avise ao seu Luís Guilherme que estou em Paris e achei quase tudo que ele me pediu.

Foi isso mesmo que você leu: dona Vanna estava em Paris procurando os livros que ele encomendou. Naquele momento eu descobri quem eu queria ser quando crescesse.

Meio sem aviso, após uma grande expansão, a Da Vinci definhou, Dona Vanna sumiu da nossa vista, e colocaram no lugar da loja um pastiche de comércio que não merece o nome do templo criado por ela.

Ontem fiquei sabendo do seu falecimento e, sinto, uma parte de mim também se foi. Ela não sabia meu nome, nossos contatos foram poucos e comerciais, mas é realmente espantoso como a sua figura icônica foi tão importante na minha formação como leitor. Nesses tempos em que a cultura está sendo destruída no país, a sua falta será ainda mais sentida. Que todos nós tocados pelo seu rigoroso amor pelos livros consigamos seguir o seu exemplo de honestidade intelectual e paixão pela cultura.

Arrivederci, maestra!

Nada de novo

No grupo de familiares e amigos, foi o último a se desfazer do celular. Finalmente, depois de 18 meses de inatividade, chegou à conclusão que não fazia mais sentido carregar aquele pedaço de plástico e metal prum lado e pro outro.

Como uma criança se desfazendo da chupeta, jogou o aparelho sem uso numa daquelas latas de lixo para eletrônicos que foram instaladas em todas as esquinas, e, livre daquele peso, respirou fundo. Tudo parecia diferente.

Um silêncio feito de pequenos e indistintos sons penetrou seus ouvidos e lhe deu a impressão que, pela primeira vez, a pressão externa e interna estavam equilibradas. Olhou pro céu azul e o sol lhe cegou por um pequeno momento. “Pra onde ir?”, se perguntou tomado pelo calor e pelo clarão aconchegante dos raios solares. Não tinha resposta, nem a quem perguntar. Resolveu caminhar sem rumo.

No caminho, reencontrou paixões ancestrais, vizinhos queridos e amigos de infância. Se deixou levar pela fome, e comeu, em lanchonetes perdidas, antigas delícias que o lembravam da sua história. Parou em sebos e folheou revistas e livros que sabia de cor, mas tinha esquecido. E enfim chegou na praça.

Calados, sozinhos ou acompanhados, os moradores das redondezas tomavam cerveja e sol, enquanto observavam as crianças correrem e subirem em brinquedos exercitando um silêncio esquecido, mas necessário. Foi até o pipoqueiro, comprou a sua cerveja e se sentou num banco ao lado de um desconhecido. Se cumprimentaram com um silencioso e sincero balançar de cabeças. Tomou um gole generoso da sua garrafa, fechou os olhos sorrindo e jogou a cabeça para trás, para sentir o sol em toda a sua plenitude.

Não tinha nada pra contar. Enfim.

Os fantasmas das resoluções de ano novo

2 de janeiro. Ele ainda estava curtindo a ressaca do Réveillon quando recebeu as visitas dos fantasmas das resoluções do ano novo.

Primeiro foi o seu eu magro. Esbelto, forte e atraente, ele pediu pelo amor de Deus que ele não se exercitasse, nem fizesse dieta.

– Nós viraremos um ímã de mulheres, o que deixará a nossa mulher patologicamente ciumenta e acabará com a nossa paz familiar.

Depois foi o seu eu rico. Bem-vestido, opulento, mas cansado, ele rogou:

– Não nos meta a mostrar serviço demais esse ano. Vamos acabar sendo promovidos em série e terminaremos acumulando os trabalhos do nosso chefe e do chefe do nosso chefe, além do que já estava na nossa conta. Pra piorar, a nossa família vai se acostumar com o luxo e não vamos conseguir mais descansar.

Para finalizar, seu eu famoso apareceu. Também trazendo um alerta:

– Vamos deixar esse lance de reconhecimento e fama de lado. Só vamos atrair gente mal-intencionada e oportunista, e nos tornaremos alvo da inveja alheia.

Assustado, ele decidiu que só teria uma resolução esse ano: não ter resoluções. Essa, finalmente, ele conseguiu cumprir.