Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Revisitando Hogwarts

Graças à Alícia, estou assistindo em ordem e religiosamente aos Harry Potter. Lembro de ter lido o primeiro livro em 2001 e achado legal, mas nada de espetacular. Na época, inclusive, a minha impressão foi que até Os Olhos do Dragão do Stephen King, uma fantasia Young Adult bem rasteira, tinha me parecido mais imaginativo. Porém, passada toda a loucura midiática e com a perspectiva da série inteira, consigo ver alguns pontos positivos bem interessantes na obra da J.K. Rowling.

Vamos a eles: os temas e os personagens envelhecem com o público; se impõe uma pausa de consumo da mídia, seja cinema ou livro, de pelo menos um ano entre idades, o que não sobrecarrega o público; há uma clara diferença de profundidade nos temas abordados de acordo com a idade dos personagens e do público ao qual ele se destina; e os personagens não simplesmente mudam e evoluem, como toda obra aumenta a sua complexidade paulatinamente. Tudo isso denota um grande esmero, esforço no planejamento e cuidado na execução. E, além disso, consegue escapar do risco de parecer uma obra corporativa sem coração, feita mecanicamente para maximizar vendas de bonequinhos e brinquedos, como Star Wars se tornou.

Mas isso não muda a minha impressão original: Harry Potter continua não sendo super imaginativo. No filme, parece que a tecnologia bruxesca mais ubíqua é a aplicação de GIF animado em tudo. Porém, não dá pra negar que é cativante e simpático.

Lembro do que a gente tinha de fantasia/fc na minha infância e, cá entre nós, Harry Potter parece uma opção bem melhor. Comparando com os filmes B de Espada e Feitiçaria, os clones de Star Wars, as revistas em quadrinhos do Conan e raras edições de obras excessivamente preocupadas com detalhes e autocentradas nas obsessões dos autores, como Elric, O Senhor do Anéis, Gor, Duna e A Fundação, Harry Potter é uma série respeitosa e comprometida com o crescimento e entretenimento do seu público. Mas, confesso, prefiro obras mais estranhas e difíceis de consumir. Deve ser o costume.

O DJ Fascista versus o Povo Brasileiro

7 de setembro de 2021

9:57 AM

No bloco C do Edifício JK, de um apartamento não identificado, começa a tocar, num volume acima do esperado, o hino nacional. Dada a atual situação política, os demais condôminos ficam incomodados. Mas não fazem nada.

10:08 AM

Depois de 2 versões remix do hino nacional e de uma versão à capela do hino da bandeira, Matilde Rocha, professora de Yoga sexagenária, decide se manifestar:

– Desliga essa porra, filho da puta.

O DJ aumenta o volume.

10:16 AM

Num volume insuportável, o hino do exército entra no terceiro repeat e um coro se forma:

– Fora, Bolsonaro! Fora, Bolsonaro!

O DJ aumenta o volume novamente, mas, logo após o quarto repeat do hino, entra a propaganda do plano gratuito do Deezer. O som é desligado no meio do reclame digital, sob as risadas dos demais condôminos.

10:33 AM

Depois de um breve período de paz, o DJ Fascista volta a atacar, agora com uma playlist temática sobre o Brasil. Toca “Brasileiro com muito orgulho” do Timbalada e “Aquarela Brasileira”, na versão do Emílio Santiago. O restante do prédio faz até vista grossa. Quando Caetano Veloso começa a cantar “Aquarela do Brasil”, um engraçadinho do quinto andar grita:

– Vai pra Cuba, comunista!

10:52 AM

O DJ se irrita e retoma a playlist dos hinos. O povo, já sem paciência, rebate com gritos e até com uma Vuvuzela, resgatada da copa de 2014. Acuado o DJ contra-ataca gritando numa voz esganiçada quase infantil:

– A nossa bandeira jamais será vermelha!

Seu Luís, nonagenário, morador do 803 e calejado da ditadura do Estado Novo e do golpe militar de 1964, encerra a discussão:

– Ô, Mariozinho, para com essa merda de bolsonarista, menino, senão eu vou falar com o síndico e com o seu pai. Ah, e já que tá nas carrapetas, vê se toca uma do Raul.

Sob vaias e risos ensurdecedores, Mariozinho desliga o som e vai pro quarto reclamar no twitter da censura e da falta de liberdade de expressão.

11:26 AM

Alguém coloca “Apesar de Você” alto para todo mundo ouvir. Mariozinho continua de castigo auto imposto. Enquanto isso, as instituições lançam mais uma nota pedindo a paz entre os poderes e respeito à constituição. Em Brasília tudo continua igual. Até quando?

Patriotite

Imagino que o patriotismo, como o apêndice, já pode ter tido uma função. Numa época mais primitiva, quando os recursos eram escassos, e as pessoas viviam com medo constante, prontas a matar seus vizinhos por qualquer coisa, o patriotismo devia funcionar como uma ferramenta de coesão grupal.

– Por que eu não posso matar o meu vizinho, mesmo?
– Ué, ele é seu compatriota. Vocês são da mesma pátria.
– Tá bom. E por que eu devo ajudar ele a construir aquele poço, mesmo?
– Pela mesma razão, pois isso vai engrandecer a nossa pátria.
– OK. Entendi. Mas o que é pátria, mesmo?
– Como assim? Você não sabe o que é pátria? Você não é um patriota?
– Sou, sim. Sou, sim. Desculpe perguntar.

Assim o patriotismo foi se enraizando na nossa cultura e, como toda fantasia fabricada, necessitava de ferramentas cognitivas para perpetuar a sua ilusão. Ele precisava de fronteiras artificiais para “impedir” o uso dos recursos naturais da pátria por “terceiros”; de um modelo de governança que dêsse vantagens aos “articuladores” do patriotismo; de uma moeda que só eles pudessem imprimir para controlar a circulação de valores; e de símbolos, como uma fantasia romântica de origem, uma bandeira pouca imaginativa, e uma marchinha megalômana e autoindulgente, para incutir uma sensação de orgulho artificial em pessoas que só compartilhavam o mesmo local de nascimento.

O tempo passou, o mundo mudou e o patriotismo, aos poucos, foi deixando de ser útil, como rodinhas de bicicleta, ou superstições alimentares. Ficamos mais inteligentes e empáticos, pelo menos parte de nós, e começamos a trocar o medo pelo amor como tônica das nossas relações. Para que, então, nos aferrar a algo que não existe se já temos maturidade suficiente para tomarmos decisões sozinhos?

Sem respeitar esse nosso amadurecimento, o patriotismo não foi embora, e, como um órgão vestigial, um apêndice, ele permaneceu na nossa cultura, sem servir para nada a não ser perpetuar os modos e meios de opressão criados em seu próprio nome. E, hoje, no Brasil de 2021, estamos sofrendo de patriotite.

Invadido por más intenções metidas a valorosas e enganos propositais, este apêndice está sendo usado para defender os meios de opressão de uma parte da população sobre a outra, e para perpetuar uma cultura escravocrata, misógina, preconceituosa e ao mesmo tempo suicida e assassina. Como numa doença auto-imune, a inflamação desse órgão, aparentemente sem propósito, criado para nos impedir de cair no barbarismo, está nos tornando cada vez mais primitivos, e atacando o corpo que deveria defender.

E, hoje, no 7 de setembro, mais uma data fantasiosa, inventada para promover o mito de grandeza de um “país” que há 200 anos passou de pai pra filho e continua funcionando aos trancos e barrancos, sofrendo sucessivos golpes de estado capitaneados por forças armadas ociosas e com fantasias de poder, os agentes patogênicos dessa patriotite vão sair às ruas de camisa do brasil, fazendo arminha com a mão, para apoiar um genocida que se autoproclama um Messias com o único propósito de se apropriar do erário nacional e favorecer sua família de incompetentes e seus amigos milicianos. O patriotismo no Brasil está prestes a supurar.

Mas há esperança. Em 2007, cientistas da Universidade Duke descobriram que o apêndice, o do nosso corpo, fabrica e serve como depósito de bactérias que auxiliam na digestão, além de produzir anticorpos que ajudam na defesa do organismo. Talvez o apêndice do patriotismo possa também ter um uso e nos defender da própria inflamação que ele sofre e provoca.

Convocar o próprio patriotismo contra a doença que se apossou dele mesmo talvez seja a nossa última saída.

Os Sinais

Ninguém entendia por que, apesar de todas as tragédias, ela continuava lendo os jornais, mas ela tinha uma boa razão para fazê-lo. Perdidos entre os desmandos de ditadores; misturados aos sinais de crescimento da ganância e da ignorância; escondidos atrás das mortes pela peste, pela fome e pela guerra provocadas pelos insensíveis que não paravam de falar em Deus; lá estavam eles: os sinais.

– Apesar dos pesares, se a gente olhar direitinho, dá pra encontrar coisas que nos dizem que a vida pode ser melhor- se defendia.

Uma vez foi uma série de notícias curtas sobre uma flor que só se abre uma vez ao ano. Primeiro, três linhas mencionando a expectativa pela sua abertura; depois, uma entrevista com um biólogo do jardim botânico garantindo que ela abriria em breve; seguida de um informe meteorológico nada animador que poderia comprometer esse acontecimento; e, enfim, uma série de fotos coloridas da flor aberta sendo visitada por muitas pessoas e uma reedição da crônica do Rubem Braga, Flor de Maio. Como ela dizia, sinais.

Outra vez foi a história de um cachorro perdido. Mostraram a mobilização da comunidade em busca do cãozinho de uma criança; um cronista contou com leveza e emoção a biografia do cão; houve um grande estímulo à adoção de animais abandonados; e, pra encerrar com um final feliz, noticiaram o reencontro do cão com a criança para aquecer os nossos corações. Como ela dizia, apesar das tragédias, sinais.

Ao contrário do que possa parecer, ela não era alienada. Ela lia o restante do jornal. Encarava o mal para depois terminar com o bem. Defendia, inclusive, que o jornal seguisse por uma linha de crescente otimismo, com as piores notícias na primeira página e as boas notícias, os sinais, na última.

– Pra dar um pouquinho de esperança pra gente no final- justificava.

E os sinais não vinham de fatos apenas. Podiam aparecer num poema escondido entre duas colunas policiais; numa tira em quadrinhos que quase ninguém mais lê; ou mesmo num dos desafios das palavras cruzadas.

– Não sabem a palavra que eu li hoje: temperança. A virtude de quem é moderado. Aprendi hoje, tá nas palavras cruzadas. Que beleza- se encantava.

Um dia ela acordou mal, achou que fosse um resfriado, mas antes do sol se pôr sua vida se acabou, como se fosse uma das boas notícias que ela tanto amava ler.

Os amigos contrataram o cronista da história do cachorro para escrever seu obituário. Ele seguiu uma linha comparando a vida dela com a bela flor de maio que só se abre uma vez ao ano e como ela era ao mesmo tempo surpreendente e mal entendida. O texto ficou tão bonito que muita gente participou de uma vaquinha e publicou a homenagem no jornal.

Hoje, numa segunda-feira, sem boas notícias na economia, na política, na saúde e até nos esportes, lá estava ela no jornal, como uma pérola. Representando ao mesmo tempo a tristeza que tivemos de perdê-la e a alegria de termos tido a oportunidade de conviver com ela. Ela, tão fascinada pelas pequenas boas notícias da vida, como não podia deixar de ser, se tornou uma delas.

O de sempre

05:47 AM

Rod: E aí, cara? O que está rolando?
Lelê: Sua mãe, aquela gorda?
Rod: AHAHAHAH. Ah, não enche. Falando sério, o que está rolando?
Lelê: Na real? Nada. E por aí? O que está rolando?
Rod: Sua mãe? Sacanagem. Nada também.
Lelê: Blz.
Rod: Falow. Vou dar uma cochilada.

Lelê começa a trabalhar. Abre o e-mail, responde algumas mensagens, retoma uma apresentação na qual estava trabalhando no dia anterior. Sem sucesso. Às 8:00 AM tem a primeira reunião. Depois a segunda, e a terceira. Tenta retomar a apresentação, mas não consegue mais uma vez. Dá comida pro peixe e lê os jornais online.

Rod dorme. Mal. Acorda.

11:12 AM

Rod: Acordei. E aí? Tudo bem?
Lelê: Tudo. Acabei de dar comida pro peixe.
Rod: Uau. Que emoção!
Lelê: Total. Dormiu bem?
Rod: Nada. Vou começar a trabalhar.
Lelê: Blz.
Rod: Falow.

Rod revisa as pendências no sistema. Tem pouca coisa, mas fica cansado só de olhar. Como não é nada urgente, faz com calma e atenção. Fica com fome, põe a máscara, e vai na rua comprar uma tapioca e um açaí. Leva a comida pra casa, almoça e assiste um episódio de um reality show. Fica com inveja desse povo que, mesmo confinado, não precisa trabalhar. O chefe manda uma mensagem e ele deixa as pendências de lado para atender à sua urgência urgentíssima.

Lelê prepara o almoço e come na frente do computador, enquanto responde aos e-mails da manhã. Faz mais uma, duas, três reuniões. Dá uma volta pela casa para esticar as pernas. Percebe que o peixe está no fundo do aquário. Dá mais comida, mas ele nem tchuns. Volta pro computador pra mais uma reunião.

15: 34 AM

Rod: Fala!
Lelê: Fala.
Rod: Como estão as coisas?
Lelê: Tudo bem. Meu peixe parece que está mal.
Rod: Sério? Tem veterinário de peixe?
Lelê: Sei lá. Vou entrar em uma reunião agora.
Rod: Falow.
Lelê: Inté

Lelê entra na reunião. Com a chefe. Rola um certo stress. Normal, pero no mucho. Lembra da piada que fez com o Rod. Desliga a câmera, o áudio, e ri por 5 segundos. Liga tudo de novo, fazendo cara de sério. Toma mais esporro, mas sente que não é sério. Mesmo assim é cansativo. Outro dia, outro abuso. A reunião termina. Pensa em retomar a apresentação, mas desiste. Qualquer coisa alegará saúde mental. Não estará mentindo. Faz um sanduíche e vai pro quarto. No caminho percebe que o peixe morreu. Joga ele e a água do aquário na privada.

Rod termina a tarefa do chefe e as pendências. O trabalho, por hoje, terminou. Põe a máscara e vai na rua comprar umas cervejas e um sanduíche. No bar passa um homem vendendo peixes beta em aquários individuais. Não sabe por que mas compra um. Talvez lembre do peixe do Lelê. Volta pra casa e janta, tomando cerveja. O chefe liga e diz que vai mudar de área. Informa que vai indicar ele para o seu lugar. Rod agradece a confiança e desliga. Não sabe como se sentir. Toma uma cerveja, como comemoração ou lamentação.

22: 02 AM

Rod: Manda as novidades.
Lelê: Nenhuma. Ah, o peixe morreu.
Rod: Sério? Que doido. Acabei de comprar um.
Lelê: Não acredito. Um peixe?
Rod: É, um peixe. No mais?
Lelê: Tudo na mesma. Esporro da chefe e tal.
Rod: Meu chefe me ligou. Vai mudar de área e me indicou pro lugar dele.
Lelê: Parabéns!
Rod: Valeu, sei lá. Não sei se vai ser legal.
Lelê: Vai ser, pode crer.
Rod: Tá fazendo o quê?
Lelê: Nada. E você?
Rod: Nada também.
Lelê: Vou me recolher.
Rod: Já?
Lelê: Eu acordo cedo.
Rod: Eu sei. Beleza.
Lelê: Vai descansar também. Amanhã é outro dia.
Rod: Ou o mesmo. Sei lá.
Lelê: É mesmo, sei lá.
Rod: Falow.
Lelê: Inté.
Rod: Inté.

Rod dá comida pro peixe e fica observando ele nadar no seu pequeno aquário. Esquece do reality show.

Lelê fica com saudades do seu peixe. Decide que vai comprar um novo em breve. Dorme e sonha que respira embaixo d’água. Um sonho bom.

A raquete

Cansada de ser vampirizada, ela comprou a raquete.

“Você vai ver só como a nossa vida vai ficar melhor,” proclamou a quem quisesse ouvir.

No mesmo dia a colocou em ação. Desperta, no meio da madrugada, toda vez que sentia que estava para ser mordida, ligava a raquete e eletrocutava os insetos que a incomodavam.

“Não entendo esse ódio,” eu protestava. “Os bichos só estão seguindo as suas naturezas”

Ela ignorava meus apelos zen-filosófico-ambientalistas e, como um misto de Serena Williams e Thomas Edison, fazia mosquitos, muriçocas e até um marimbondo desgarrado pegarem fogo e iluminarem a nossa noite como pirilampos suicidas.

“A-ha! Esse sangue vocês nunca mais vão chupar,” se regalava sobre o cadáver de seus inimigos.

Talvez como uma tentativa de reduzir o karma ocasionado por esse genocídio, na mesma época, ela resolveu fazer compostagem. Num apartamento. Aos mosquitos, muriçocas e aos marimbondos desgarrados se uniram pequenas mosquinhas sem clara identificação, mas tão odiadas quanto.

Como durante o dia eu ficava em home office e ela no presencial, mesmo sabendo da minha aversão à raquete, ela me deu uma missão:

“Quando eu não estiver em casa, se as mosquinhas começarem a proliferar, mete bronca. Dessas você consegue dar cabo.”

Demorei pra tentar, arrumava desculpas, tinha pena. Depois de muita pressão, cedi. Mas, ao contrário do que ela esperava, não dava conta.

Depois de muitas tentativas, quando finalmente consegui matar a primeira, tomei um susto. Um estalo seco e uma faísca diminuta; um grito silencioso e uma alma partindo. Tomei um susto, mas me senti poderoso. Peguei gosto e, assim, ia além do chamado do dever.

Mesmo que elas não estivessem proliferando ou incomodando, ou mesmo visíveis, eu, em cada intervalo ou brecha no trabalho, ia atrás delas. Buscava-as atrás de portas, em cômodos onde não costumavam estar e até no corredor do prédio.

“Ahhh,” eu gemia de satisfação quando elas pipocavam na raquete como fogos de artifício em miniatura.

A obsessão ficou tão forte que até quando ela estava em casa, eu andava pelos cômodos caçando as mosquinhas.

“Estou gostando de ver. Mas por que você está fazendo isso agora?” ela questionava.
“Ué, você não mandou?” eu me defendia, fingindo compaixão.

Era mentira; eu descobri: essa era a minha natureza.