Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Esotérico

Sempre, quando a festa começava a chegar ao fim, os amigos pediam:

– Toca esotérico. Esotérico. Toca esotérico.

E o pedido nunca era para um, nem para o outro. Era um pedido pros dois.

Eles, mesmo brigados, por motivos dos quais não lembravam mais, sorriam pros amigos, com sinceridade, e um pro outro, com falsidade, e buscavam seus violões. Sentavam-se um ao lado do outro, mas afastados, e tocavam.

Não precisavam de deixas ou marcações. Sabiam a hora de começar a solfejar juntos, a hora de um cantar e de o outro calar. Sabiam até quando um devia assoviar e o outro simplesmente sorrir. Faziam primeiras e segundas vozes, intercalando os versos em perfeita harmonia. Uma harmonia que há muito não existia.

Quando a música terminava, com um acorde longo, síncrono, quase infindável, todos se levantavam e aplaudiam, homenageando uma amizade que não era mais real. E eles, como pedia o figurino, se abraçavam, e agradeciam ao público, fingindo serem os jovens velhos amigos que a memória lhes dizia: nunca fomos.

E por um breve momento, nesse fim de música, os amigos e eles mesmos acreditavam nesse pastiche de amor fraternal, irreal, surreal.

O nome da música, que parecia lhes unir, ser “esotérico” não era uma simples coincidência. Era ao mesmo tempo uma afronta e um destino. Amizade era exatamente um conhecimento hermético do qual eles tinham feito questão de esquecer.

O discurso final

Agora que a janela de filiação partidária fechou e os quadros eleitorais estão quase fechados, vamos focar no que interessa: o discurso de fechamento dos debates eleitorais. Com a perspectiva de que os principais candidatos fujam deles, ainda resta a esperança de que, aos moldes de Leonel Brizola, alguém faça um discurso histórico para fechar esse terrível período da nossa história. Afinal, até os fãs do Iron Maiden sabem, discursos históricos são eternos e nos fazem ganhar guerras. Assim, como contribuição, segue a minha sugestão de discurso para qualquer candidato que queira tirar a besta fera do poder:

Povo do meu Brasil,

Agora encerramos mais uma etapa do processo eleitoral e vamos às urnas para decidir o destino da nossa coletividade, daquilo que chamamos Brasil.

Nos últimos quatro anos vivemos sob o terror de um governo que proclamava “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”. E o que menos vimos foi a defesa da nossa nação ou o respeito a um poder superior.

Vimos:

A transformação do Brasil num pária mundial, um país de milicianos, desmatadores e grileiros
O desrespeito aos seres humanos, de todas as etnias, credos e orientações
O aumento do desemprego, da precarização do trabalho; a volta da fome e da inflação
E a exaltação da violência armada contra as minorias e as populações mais vulneráveis

O que esse discurso populista e falso escondia é que ele queria um Brasil de criminosos armados acima de tudo, um Deus do ódio acima de todos, e Bolsonaro, e seus familiares e asseclas, acima de Deus.

Afinal, nos últimos 4 anos, nessa tirania fascista tivemos um desgoverno que zombou da pandemia mundial, da morte e da dor de doentes e enlutados; que virou às costas a nossos irmãos da América Latina e do mundo, pra promover a destruição da natureza e dos povos indígenas e ignorar as mudanças climáticas; que atacou a democracia e promoveu a mentira e a desinformação; que trocou favores, em detrimento da saúde e da educação, com as piores pessoas desse país, em troca da sua manutenção no poder, de favores pessoais, de dinheiro e até de ouro, usando o nome de Deus em vão.

Nessa tirania fascista e corrupta, fomos vítimas da vaidade e da incompetência de um homem fraco e desequilibrado que nos afastou da comunidade global e dos valores que ele fingia apregoar. Nos últimos quatro anos fomos um Brasil abaixo de todos e esquecido por Deus.

Mas você pode mudar isso. Nessa eleição, a sua escolha pode nos tornar melhores. Não um país acima de tudo, mas um país irmão em uma comunidade mundial; um país com respeito a todas as pessoas e a todos os credos; um país onde ninguém esteja acima dos outros e em que o presidente seja alguém escolhido para atender à sua população, ao invés de seus interesses escusos.

Por isso, no seu próximo voto, escolha a paz, escolha o respeito, escolha o amor. Vote num Brasil, não acima de tudo, mas um Brasil formado por nós. Pois o Brasil somos nós.

Muito obrigado e bom voto. O Brasil somos nós.

Enfim, não importa em quem você queira votar, vamos dizer o não abafado de nosso peito contra tudo que está aí.  Como dizia Belchior, ainda não é hora de levar flores à cova do inimigo. É hora de lutar.

Começou.

Esperança de mudança

Saindo do Santa Bárbara, o taxi tomou um caminho diferente do que a gente esperava.

– Ei, moço- minha mãe alertou-, você tá indo pro lado errado. A gente vai pro Leme.
– Vai, não- meu pai interrompeu. – Pode seguir, moço. Ele sabe pra onde a gente tá indo.

Até o taxista sabia mais da vida da gente do que a gente.

O carro seguiu pelo seu caminho misterioso, passou na frente do estádio do Fluminense, pegou o viaduto Jardel Filho, e, depois de seguir pela Marques de Abrantes, nos deixou numa esquina, na frente de um posto de gasolina.

– Gostaram? Então, é aqui que a gente vai morar agora- meu pai tentou amenizar o choque, apontando para um prédio quadrado, de pastilhas, sem graça e sem vista pra nada.

Por fora, parecia uma prisão. Embaixo dele uma padaria, uma papelaria e um botequim; na sua frente, além do posto, uma banca de jornal. Prático e triste.

Pra quem morava de frente pro mar, cercado por restaurantes e hotéis exóticos, era uma mudança. Com certeza pra pior. Um fim de infância.

– Então, vamos conhecer o apartamento novo?- meu pai convidou, fingindo animação.

Condenados, pegamos as malas que nos acompanharam desde as férias na casa do meu avô em Campina Grande, pra onde fomos quando ainda morávamos num lugar que amávamos, e seguimos meu pai pelo prédio no qual não escolhemos, mas no qual seríamos obrigados a, morar. Pelo menos por enquanto.

Subimos 3 andares num elevador velho, lento e apertado. Equilibrando chaves e malas, meu pai, com dificuldade, abriu a porta do apartamento 302. Toda a nossa mudança estava lá, ainda encaixotada. Em breve descobriríamos a quantidade de coisas que perdemos ou foram destruídas pelo descaso de quem nos mudou. Tanto os carregadores quanto o meu pai.

O apartamento, crú, precisava de pintura e cortinas. E em todos os pontos de luz as lâmpadas balançavam ao sabor do vento, penduradas por fios pretos e sem lustres. Não era um lar. Era uma ocupação.

Minha mãe me puxou num canto, conspirando:

– Não vamos ficar aqui seis meses. Pode confiar.

Confiei e ela estava certa. E errada. Não ficamos 6 meses. Ficamos 16 anos. E sempre nos sentimos como no primeiro dia: traídos.

Quando conseguimos escapar, primeiro minha mãe, sozinha, depois eu, fugido – meu pai nunca morou lá de verdade-, não olhamos pra trás, nem tivemos saudades. Até agora.

Hoje passei na frente do prédio. Ele continua quadrado, com pastilhas, sem vista e sem graça. O botequim e a padaria viraram lojas de colchões. A papelaria ainda existe, mas mudou de nome. O posto de gasolina, como quase tudo, deu lugar a uma farmácia. A banca ainda está lá, mas foi movida para o outro canto da rua. Senti saudade. Não do apartamento, mas de quem éramos, de quem não seremos mais.

Mesmo nos momentos ruins, como no dia daquela mudança, havia a esperança de uma nova mudança para um lugar melhor, para um tempo melhor. Pra onde foi toda essa esperança? Deu vontade de parar um taxi e perguntar ao taxista. Talvez, como da outra vez, ou pela primeira vez, ele saiba o lugar certo pra onde deve me levar.


Texto sobre memória e identidade escrito na Oficina de Escrita de Paula Maria.

O Bolão

Como tudo que dá errado, ou certo, essa história também começou de forma inocente. Nas quintas, uns três caras da controladoria, no caminho pra tomar um chope no bar do Gaúcho depois do expediente, começaram a fazer uma fezinha da Megasena.

A princípio ninguém sabia o que estava rolando, ou, se sabia, preferia ignorar. Era aquele tipo de coisa que passava abaixo do radar da rádio corredor. O gerente deles, um estatístico frustrado, quando ficou sabendo, inclusive, quis dar lição de moral dizendo que loteria era imposto dos pobres e que a chance de ganhar era ridícula. Não deu outra. Logo após o pito do chefe, eles ganharam uma quadra.

Tá, o dinheiro foi pouco, mas deu pra um deles botar aparelho nos dentes e pra outro fazer um transplante capilar. A tentativa de embelezamento, mesmo mal-sucedida, chamou a atenção do resto da firma que começou a se interessar pela atividade pós expediente dos sortudos.

O primeiro que quis fazer parte do rateio foi o Zé Márcio, funcionário antigo e caprichoso que cuidava da Copa. Como quem não quer nada, ele começou a assuntar:

– Quadra, né?
– É.
– Legal. Foi jogo simples?
– Simples. 6 dezenas. Na bucha.
– Sorte, hein? Sabia que jogando mais dezenas tem mais chances?
– É?
– É. De quanto é a cota?
– Cota?
– É, quanto cada um coloca em cada aposta?
– Tem isso não. A gente aposta o que tiver de trocado.
– Pois devia ter. Se incomodam se eu organizar o Bolão?
– O Bolão?
– É. O Bolão. Deixa comigo. Eu mantenho vocês informados.

Sem ninguém para impedi-lo, Zé Márcio cumpriu sua promessa. Criou um grupo de whatsapp pros apostadores; escolheu a imagem de um trevo de quatro folhas em cima de uma pilha de dinheiro como avatar para dar sorte; estabeleceu um valor mínimo de cota, e um dia e horário pra encerrar os depósitos; compartilhou o seu pix para recolher as apostas; e decidiu, sozinho, que a partir de então apostariam nos dois sorteios semanais, tanto no de quarta quanto no de sábado.

Com essa “profissionalização”, o Zé Márcio acabou afastando os sortudos originais, que só queriam ter algo que os unisse pra conversar a respeito no chope de quinta, mas conseguiu até trazer mais alguns novos apostadores, na maioria os habitués da Copa que matavam as oito horas regulamentares de serviço se enchendo de café. Mesmo com o aumento de participantes, o bolo, ainda pequeno, não tinha virado o Bolão que ele esperava criar.

Tudo mudou com a entrada da Cláudia.

Cláudia era a nova coordenadora de comunicação digital. Nova de empresa e idade, costumava usar uns camisões xadrez compridos com umas bermudas cargo que lhe davam um ar ainda mais jovial. Além disso, adorava e sabia contar histórias. Quando ficou sabendo do Bolão já se adiantou pra apostar e, óbvio, tinha até um causo pra justificar a sua pressa.

– Cês lembram daquele restaurante onde todo mundo ganhou na Mega, menos um cara?
– Lembramos.
– Pois, é, esse cara foi ex-sogro da minha prima de consideração. Quando ele ficou sabendo que a galera tinha levado a bolada e ele não tinha sido incluído, até infartou.
– Sério? E morreu?
– Não, pior: melhorou e teve que voltar a trabalhar todo dia num lugar que o lembrava que ele podia nunca mais ter que trabalhar.

O povo chegou até a rebolar sentindo o frio percorrer as suas espinhas.

A história de terror de Cláudia pelo jeito deu resultado e logo o Bolão lotou. Era só a Mega acumular ou prometer um prêmio acima de 10 milhões que o povo todo corria pra participar. Ninguém queria ficar sozinho no trabalho enquanto o resto dos colegas estariam curtindo aposentadorias precoces na praia. Ninguém queria ter o funesto destino do ex-sogro da prima de Cláudia.

Na verdade, o que realmente motivava a maioria não era a vontade de ficar rica, mas o medo de ser abandonada eternamente num trabalho do qual precisavam, mas que preferiam não fazer. Essa sensação era tão explícita que no grupo do Whats a discussão pré sorteio não era sobre a compra de propriedades, carros ou viagens. Eles só conversavam sobre não ter que precisar ir pro serviço depois de ganharem a bolada.

Há um ano, não sei se vocês lembram, rolou aquela estiagem de prêmios da Mega quando ela ficou acumulando várias vezes até ao ponto de chegar no valor recorde do prêmio. Lembram? Pois, é. Nesse período, eles começaram apostando timidamente, porém, a cada novo sorteio sem ganhador, a excitação aumentava. Pra piorar, no terceiro ou quarto sorteio da série, eles levaram uma boa quadra que deu pra todo mundo recuperar o que já tinha apostado e ainda sobrou um troco pra custear novas apostas.

Quando chegou no décimo sorteio acumulado, o Zé Márcio sentindo que todos estavam começando a ficar nervosos demais convocou uma reunião para traçarem uma estratégia para escolher os jogos que com certeza seriam sorteados. O gerente da Controladoria achou uma besteira, mas, como parte do Bolão, acabou participando pra poder prestar a sua consultoria estatística.

No encontro que quase envolveu toda a empresa, discutiram se deviam repetir os números, excluir os últimos que já tinham saído, deixar eles serem escolhidos na surpresinha, ou pedir pra que os filhos dos funcionários marcassem os números pra dar mais sorte. Teve até um cara que ofereceu uma galinha do sítio da avó pra bicar uma tábua com os números da Mega e escolher pelo grupo. Quando questionado como isso iria ajudar, ele explicou:

– De todas as galinhas da minha avó, essa sempre escapou da panela. Sorte ela tem. Sorte ela tem.

A discussão não foi pra lugar nenhum e começou a gerar rusgas entre os funcionários que já estavam ansiosos esperando que os seus sonhos de nunca mais trabalhar se concretizassem logo. Quando o vozerio se tornou incompreensível e a confusão não conseguia mais ser desatada, Cláudia bateu na mesa e pediu a palavra:

– Aí, gente, e os sortudos originais? Eles estão apostando?

Zé Márcio foi até conferir a sua planilha, mas tinha certeza que não.

– O problema talvez esteja aí. Cadê a galera que começou o movimento? Tá faltando eles pra juntar as nossas sortes e fechar esse prêmio- Cláudia decretou.

Criaram um petit comitê pra convencer os sortudos originais a apostar com o restante da empresa. Dois não queriam alegando que o que importava era só o chope de quinta, e o terceiro, como tinha virado evangélico, não queria mais saber de bebida, nem de jogo. Apesar das negativas iniciais, Zé Márcio estava determinado e disse que não arredaria pé da controladoria até convencê-los a participar desse Bolão.

– Esse vai ser o último, eu prometo. Vamos ganhar dessa vez e nunca mais iremos precisar trabalhar ou apostar em loteria.

A verve, ou quem sabe, a aporrinhação funcionou e todos apostaram. Inclusive o convertido que pediu 10% do prêmio do Zé Márcio pra uma obra de caridade da qual ninguém tinha ouvido falar.

Bom, boletos finais gerados, apostas compartilhadas, a sorte estava lançada. Até os números da galinha entraram num dos cartões. Afinal, dessa vez valia tudo. Era vai ou racha. Ou eles venciam como grupo, ou morriam como empresa.

Deu o dia derradeiro e todos, de suas casas estavam acompanhando o sorteio, esperando que seus sonhos se tornassem realidade. Zé Márcio, Cláudia, os sortudos do chope, o sortudo convertido, e até o cara da galinha que, pra dar mais sorte, foi pro sítio da avó, assistir ao sorteio junto com a galinha. Todos vidrados na TV, acompanhando número a número a virada do destino.

O fim da história vocês lembram. Deu em todos os jornais. Não sei se foi sorte, ou se foi azar, ou, quem sabe, um misto dos dois. Mas, enfim, deu no que deu, e todos tiveram o que mereceram. Como normalmente acabam todas as histórias onde a gente confia na aleatoriedade do destino. E, cá entre nós, tem outra coisa na qual podemos confiar?

De Altos da 3ª Guerra Mundial

Tudo na vida devia ter um limite. Quer dizer, se a vida fosse justa.

Por exemplo, o ser humano não deveria passar por mais que duas ditaduras na vida. O seu Fred, que morava aqui no 703, quase passou por 3.

Eu normalmente o encontrava no fim de tarde no Salvatore para a cerveja de início dos trabalhos. Do alto dos seus 88 anos, ele contava histórias bizarras dos seus mais de 50 anos trabalhando no INSS, ou nas instituições que o precederam, durante os governos do Getúlio e durante a ditadura militar. Quando elegeram o biltre que ocupa o Palácio do Planalto, pegamos no pé dele:

– Aí, seu Fred, terceira ditadura. Pode pedir música no Fantástico.

Não pôde. Morreu dois dias antes da posse.

A gente também não devia ser multado ou extorquido mais de uma vez pela mesma infração no mesmo lugar. Dessa eu escapei.

Nos anos 90 viajei com uns amigos de carro pelo Nordeste e, suprassumo da inconsequência, ninguém tinha carteira. Quer dizer, tinha um cara com carteira, o dono do carro, mas ela estava vencida. Porém ele andava com o exame de vista no bolso com certeza absoluta que isso ia nos livrar de qualquer percalço. Quase funcionou.

Do Rio até Pernambuco não tivemos problemas. Uma noite, rodando em Olinda, fomos parados numa blitz. O policial corretamente ia indicar a apreensão do carro, mas viu pacotes de Lucky Strike no carro e perguntou:

– É cigarro americano?

-É, é- respondemos.

E assim, com duas carteiras de Lucky e mais 10 reais, nos safamos.

No dia seguinte passamos pela mesma blitz e pediram pra gente encostar novamente. Coloquei a cabeça pra fora do carro e, fazendo sinal de positivo, avisei:

– Tá tranquilo. Já paramos ontem.

E seguimos nosso caminho sem nem diminuir a velocidade.

A invasão da Ucrânia me fez pensar que as pessoas também deveriam ter seus limites de quantidade de Guerras, Frias ou Quentes ou mesmo, esperemos que não, Mundiais pelas quais podem passar.

Ninguém merece passar por nenhuma, mas, se formos obrigados, uma já tá de bom tamanho, não?

Então, dito isso, como peguei 15 anos de Guerra Fria com momentos bem marcantes de tensão e expectativa de Guerra Nuclear, aviso pro Putin e demais envolvidos: estou de Altos. Quer dizer, o mundo deveria estar também, mas o que podemos fazer?

O que podemos fazer? Eu te digo. Não eleger machinhos com problemas de afirmação talvez já seja um bom começo.

Cadê Ogum?

Ano passado, no dia de São Jorge, seguindo uma indicação da minha mulher, eu pedi uma feijoada num restaurante da região portuária. A pandemia tinha acabado de completar um ano e a impressão, na época, era que nunca ia terminar. O cenário do país e do Rio, cês lembram?, era pura desolação e a gente tava meio que naquela pilha de manter funcionando, mesmo que à distância, qualquer lugar que a gente curtisse.

Por conta disso, acabou que a gente pedia comida fora toda hora e se justificava dizendo que, mais do que a satisfação de uma gula implacável, era também uma ação social. Mentira, era pura gordice.

Então, naquela sexta-feira, dia de São Jorge, ainda preso no home office e com motivos falsamente altruístas, pedi uma feijoada completa na Casa Porto.

Mandei o pedido por Whatsapp às 8 da manhã, já para garantir o meu prato, e logo recebi a confirmação acompanhada de uma pergunta estranha: “Vai querer a pulseira ou o cordão?”

Não entendi e questionei do que se tratava. Esclareceram: “Hoje, por conta do dia de São Jorge, com a feijoada você ganha uma pulseira ou um cordão. Qual vai querer?”.

Quem me conhece sabe que sou a pessoa menos religiosa que existe, mas, por outro lado, sou ligadão em misticismos e coincidências. Assim, abri meu coração pra curiosidade. Não sou lá de usar símbolos religiosos, mas como não abrir uma exceção para um presente vindo junto com uma feijoada? Quanto às opções, como não curto o visual bicheiro, fiz minha escolha: “Vou de pulseira”.

Meio-dia a feijoada chegou, deliciosíssima por sinal, acompanhada de um saquinho de papel vermelho e branco onde estava a tal pulseira. Confesso que esperava algo diferente. Não sei exatamente o quê, mas diferente. A pulseira era basicamente um fio de nylon prendendo uma série de contas pontiagudas e azuis, com uma imagem de metal pendurada perto do nó que a mantinha inteira.

Botei a pulseira, e, à princípio, ela me incomodou. Óbvio, era para um pulso bem menor que o meu. Na hora lembrei das cordas de oração e achei legal ter um lembrete constante para me manter no presente. Mas, não posso mentir, a pressão no pulso me fez tirá-la várias vezes durante o dia.

De noite, minha mulher chegou em casa e estranhou a pulseira. Eu também estranharia. Expliquei a história toda e ela pediu para ver ela de perto. Analisou-a conta a conta e quando chegou na imagem de metal se surpreendeu: “Olha só, botaram Ogum no lugar de São Jorge”.

Eu não tinha olhado para a pulseira com toda essa atenção, mas ela tinha razão. Ao invés da imagem de um homem de lança e a cavalo, era a de um homem a pé partindo para o ataque com uma espada. Na verdade, não fazia muita diferença já que o Santo e o Orixá são comemorados no mesmo dia e, segundo alguns sincretistas, representam o mesmo princípio divino. A pulseira continuava lá pressionando meu pulso para me lembrar da luta.

O tempo passou, a pulseira foi alargando, mas Ogum começou a se comportar de uma maneira esquisita. A imagem de metal ficava presa ao fio de nylon por uma argolinha que, vez ou outra, se abria. Assim, se a espada de Ogum prendesse na minha roupa ou num travesseiro, ele e a argolinha acabavam se separando do fio de nylon.

De vez em quando eu conseguia pegar Ogum no ato, tentando fugir do meu pulso. Outras vezes, eu acordava e ele estava escondido entre as cobertas ou se esgueirando pelo chão. Sem saber como lidar com aquilo, todas as tentativas de fechar mais a argola ou bloquear o vão do elo se provavam inúteis, passei a considerar essas fugas como um sinal.

Ogum sumiu, estou dando mole em algo. Bebi demais na noite anterior, falei o que não devia, deixei algum compromisso de lado. Ogum sumia para me lembrar que se eu abandonasse o meu caminho, não poderia mais contar com ele do meu lado. Uma boa explicação mística para quem não se considera religioso.

Hoje pela manhã, no caminho do trabalho, não senti a pulseira me apertando e notei que ela não estava no meu pulso. Ogum já tinha tentado escapar muitas vezes, mas nunca a pulseira inteira tinha sumido. Pensei onde ela poderia ter caído e, mais importante, se conseguiria recuperá-la. Pensei em voltar para casa e procurá-la, mas não teria tempo.

Me questionei o que isso significaria. Qual era o recado de Ogum ao fugir arrastando a pulseira inteira por aí? Então me lembrei que estava devendo escrever esse texto sobre o nosso encontro e assim o fiz, cheio de fé de que a pulseira estaria me esperando quando retornasse ao lar.

UPDATE: Cheguei em casa e a pulseira estava me aguardando, bem visível, para eu sempre lembrar de não a esquecer mais.