Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Aqui e ali

Hoje sonhei que estava ao mesmo tempo aqui e ali. Havia um futuro ali, com cores, beleza e movimento; mas o passado, ou melhor, ou pior, o presente do aqui ainda me prendia, com seus alarmes e alertas, suas mensagens de celular e videoconferências sem fim. No sonho, era como se eu estivesse à caminho do ali, mas ainda sem tirar um pé do aqui.

Quando acordei, anotei o sonho num caderno que tenho aqui, cheio de fantasias e desejos que imagino realizados ali, e percebi que, ao mesmo tempo que quero ir para ali, tenho medo de deixar aqui.

Ali representa satisfação, amor e emoção. Aqui representa dor, marasmo e humilhação. Mas ali é incerto, e tenho medo de me frustrar. Aqui é menos incerto, mas tenho medo de me afogar.

Não lembro de quando fiquei sabendo que havia ali. Talvez já tenha vivido ali, antes de viver aqui, mas já não sei mais. Durante um tempo, longo demais, não fiquei nem aqui, nem ali, e pedi a Deus que me levasse para algum lugar. Ele me trouxe para aqui, e agradeço por não estar mais em lugar algum. Porém, agora, não me canso de sonhar com deixar aqui e chegar ali.

Ali eu teria liberdade e diversão. Aqui é só medo e opressão.

Ali eu poderia ser mais eu mesmo. Aqui eu preciso esconder quem sou por medo de retaliação.

Ali as coisas crescem e se transformam. Aqui as coisas morrem e tentam ser salvas por ganância e sede de poder, não por merecimento.

Ali é a juventude que eu tive; a alegria de viver. Aqui é a decrepitude alheia, o formalismo, os velórios; o medo de morrer.

Ali não é aqui. E aqui não é ali. E isso já bastou pra eu quase me decidir.

Parece fácil escolher entre aqui e ali, mas não é. Afinal, um dia, aqui já foi ali e representou tudo o que o novo ali hoje representa. Ali e aqui não são só uma questão de espaço, também de tempo. Todo lugar é ali quando não se está lá. E assim que se está lá, ali ele se torna aqui.

Mais importante do que o aqui e o ali, é quem sou lá, quer dizer, lás. Quando sou novo e cheio de promessas, para o aqui eu sou um ali. Quando o tempo passou e me tornei antigo e repetitivo, sou o espelho do aqui para o qual ninguém mais quer olhar.

Como um papel de parede bonito e vistoso, que chama a atenção logo após a sua aplicação, aos poucos vou me confundindo com a parede e sumindo naquilo do que eu achava que não fazia parte.

Mas dentro do meu coração, eu sei que não pertenço aqui e, talvez, nem pertença ali.

Fico buscando, em sonhos e medos, razões para ir e pra ficar. Pois, sempre resta uma esperança que eu possa, ou algo possa, transformar o cansado aqui num excitante ali. E, assim, eu não precise me mudar.

Indeciso, com medo e angústia, ponho um pé pra fora do aqui, nos meus sonhos, nas minhas conversas, em desenhos e palavras cruzadas feitas escondido. Mas não saio inteiramente, nem me comprometo com o caminho para o ali, pois não sei se vou chegar.

Hoje, como ontem, e, espero diferente de amanhã, a decisão é não decidir entre o ali e o aqui. Mais uma vez, a decisão é ficar nem cá, nem lá. Melhor voltar a dormir e sonhar com mapas que venham me salvar.

Meditação Interrompida

Respire fundo e limpe sua mente de todos pensamentos negativos

Caramba, hoje fez um ano que o Jota morreu. Porra, parece que foi ontem. Pra dizer a verdade, parece que foi ontem que eu o conheci. Nunca vou esquecer, subindo a ladeira que levava pro colégio, a professora de estudo dirigido passou pela gente, e ele me cutucou dizendo maliciosamente: “Não imagina o que eu faria com essa mulher num quarto escuro”.

O pior é que eu nem imaginava mesmo. Eu tinha 6 anos, porra. Agora, eu tenho certeza que ele imaginava. Mas não tenho certeza O QUE ele imaginava. Mas coisa boa não era. Pra dizer a verdade, devia ser até coisa boa mas não para uma criança de seis anos. Fazer o quê? Ele sempre foi precoce. Até pra morrer. Meu Deus, que feio pensar isso, cala-te boca.

Se a sua mente vagar, a traga para perto de si.

Como era o nome dessa professora mesmo? Valéria, Vanessa… acho que tinha algo com V. Ou era Maria. O Jota é que tinha uma piadinha. Um lance tipo Maria Vagina. Maria Virgínia. Deixa pra lá. Nunca vou lembrar.

Pra dizer a verdade, só lembro de sair pro recreio e ela esperar a gente na entrada do pátio com aquela mesa cheia de copos de toddy geladinhos. “Toma Toddy, querido”, ela convidava sensualmente.

Os nossos pensamentos apenas passam por nós. Eles não são quem somos.

Quanto tempo faz que eu não bebo um toddy. Será que era bom mesmo ou é só uma memória afetiva da infância? Acho que o contexto ajudava. A tal Maria Vagina toda carinhosa, calça jeans atochada no corpo, com aquele copinho de leite achocolatado gelado na mão; a gente todo feliz, sem preocupações, correndo pra se divertir no recreio… meu Deus. Tem sensação melhor?

Será que eu pensava nisso mesmo? Com seis anos? Aí é hipersexualização demais. Vai ver era culpa da Xuxa na televisão. Aqueles shorts e aquelas danças Era impossível a gente não ficar maluco.

Deixe seus desejos e medos de lado. Liberte-se. Liberte sua mente.

Jota, Xuxa, Maria Vagina. Por que diabos a gente não consegue se libertar dessas ideias obsessivas que fazem tanto mal pra gente? Por que a gente vive tão angustiado com o futuro e com o passado? A gente vai morrer mesmo, que nem o Jota morreu. Para que se angustiar? O passado já foi. O futuro vem de qualquer jeito. Pra dizer a verdade, o que a gente consegue controlar da vida, mesmo?

Acho que nada. Queria ser criança de novo. Sem preocupações, sem medos, apenas com a certeza que a tia Ana Lúcia estaria me esperando com um toddy geladinho antes do recreio. Isso! Esse era o nome dela tia Ana Lúcia. Ufa, lembrei. Pra dizer a verdade já estava ficando angustiado de não lembrar.

Deixem os ressentimentos com o passado e as angústias com o futuro de lado. Viva apenas o agora. Respire fundo e viva o presente.

Caramba, Ana Lúcia. Ela morreu também. E quando a gente estava no colégio. Foi câncer, eu acho. Coitada. Ficou carequinha. A gente chegava lá no refeitório e lá estava ela comendo granola com leite, quietinha, quase sem forças. Que tristeza.

O pior é que eu comi granola hoje no café. Será que estou com câncer? Ai, que horror pensar nisso. Cala te boca. Cala te boca. Pobre Ana Lúcia, pobre Jota, pobre de mim.

Palavras certas, pensamentos certos, ações certas. Esse é o caminho da meditação.

Será que se eu colocar toddy na granola ficaria bom? O Jota uma vez falou disso, não? Sei lá. Pra dizer a verdade, não lembro mais de nada. Amanhã eu tento. Deve ficar bom. Vai ficar bom, não? Sei lá, sei lá.

Compra e Venda

Desde o início da avaliação, ficou claro para o corretor que o casal estava ansioso. Especialmente a esposa. Isso não era incomum. Todos ficam tensos quando tem o valor do seu imóvel avaliado. Definir o preço de uma casa ou de um apartamento é um exercício de corda bamba. Ninguém quer ser subavaliado e perder dinheiro, nem superavaliado e não atrair compradores.

Porém, a tensão exibida pelo casal, especialmente pela esposa, ia além disso. Havia algo a mais. Algo que ele precisava investigar.

– Então, qual é o veredito- a esposa se adiantou?
– Bom,- o corretor começou- é um imóvel interessante. Sólido, bem localizado; precisa de algumas reformas, afinal o prédio é bem antigo, mas isso não é problema.
– Ótimo, ótimo- a esposa suspirou.
– Mas…
– Mas?
– Mas eu sinto que há algo estranho. Algo que não estão contando. Há algo que esconderam de mim?
– Viu, eu te disse que ele ia perceber- ela ventilou suas frustrações para o marido.- Eu te disse. Era impossível não perceber.

O corretor, intrigado, tentou esclarecer:

– Podem me explicar do que estão falando?
– É uma besteira- o marido minimizou.- Ela tem a impressão que a casa é mal assombrada. Doideira. Relaxa, amor. Já te disse que isso é coisa da sua cabeça.
– Ah, não me venha com essa, querido. Já esqueceu tudo o que a gente passou aqui?
– Tipo o quê?- o corretor quis saber.
– Você quer mesmo saber? Eu vou te contar. Assim que a gente mudou, não deu duas semanas, a tubulação do banheiro estourou. Tipo uma cachoeira. Inundou o apartamento todo.
– O prédio é antigo- o marido contemporizou.
– Tá, eu sei. Mas isso não explica o que os pedreiros acharam na parede.
– O que eles acharam?- o corretor perguntou.
– Facas. Facas e mais facas. Enfiadas no meio do concreto. Como se fosse algum tipo de magia negra.
– Exagero, eram só umas quatro ou cinco facas- o marido esclareceu.
– E o lance do gás?
– Do gás?- o corretor começou a ficar assustado.
– Os técnicos da companhia de gás vieram aqui colocar a tubulação nova e quando tiraram a antiga antiga ela estava cheia de símbolos estranhos pintados em vermelho, tipo tridentes e capetas.
– Exagero.
– E a vez em que o fogão quase explodiu na sua cara foi um exagero?
– Um acidente.
– Você quase ficou cego!
– Parcialmente… parcialmente…
– E as luzes, hein?
– O que tem as luzes?- o corretor perguntou
– No meio da noite, elas acendem e apagam como se estivessem mandando mensagens. Mensagens do além. Do além!
– Que nada. Parece tipo uma boate, daquelas bem tranquilas. Nem me acorda mais- o marido complementou.

Era visível o medo no rosto do corretor. O marido tentou acalmá-lo:

– O senhor não fique assustado, é que ela encasquetou que o fantasma da minha madrasta, que morou aqui antes da gente, está aqui pra me matar.
– Encasquetei? Ela não te expulsou do enterro do teu pai, hein? Dizendo todas aquelas palavras estranhas em sei lá que língua.
– Sim, expulsou, mas…
– E aquela caixa com o rato morto que deixaram na porta do nosso antigo apartamento?
– Nada ficou provado. Nada.
– Bom, então, amigo- o marido explicou ao corretor-, por isso ela está preocupada que esse lance da casa ser mal assombrada possa diminuir o valor de venda. E como a gente quer sair daqui logo…
– Quer, não! Precisa. Senão o fantasma dessa velha vai matar a gente.
– Retomando, então como a gente quer vender logo, ela quer saber se tem uma maneira da gente vender bem esse imóvel para comprar outro.
– Entendi- o corretor começou a se recompôr.- Posso fazer uma pergunta pra senhora?
– Claro.
– Se a senhora estava sendo atormentada por esses espíritos, esse quase poltergeist, por que não se mudaram logo?
– O mercado estava em baixa pra vender e a gente não queria perder dinheiro.
– Entendi.
– Então, será que a gente consegue vender bem esse apartamento mal assombrado?- o marido pediu a avaliação do corretor.

O corretor coçou o queixo, olhou pro pé direito alto, pro teto cheio de arabescos, chutou de leve uma das paredes como se estivesse testando a estrutura e se pronunciou:

– Acho que tem um jeito. Acho que tem um jeito.

Na semana seguinte, o corretor postou nos sites de imóveis o seguinte anúncio:

“Oportunidade ÚNICA! Apartamento de 110 m², dois quartos e dependências, sem vaga de garagem. Último imóvel ainda mal assombrado na Zona Sul do Rio. Apenas para os verdadeiramente corajosos ou descrentes. Motivo de venda: fantasma de madrasta quer matar o proprietário. Clique aqui para pedir mais informações ou marcar uma visita. Sol da manhã.”

O corretor acertou na mosca e em duas semanas o apartamento foi vendido por um valor acima do de mercado. O casal comprou outro bem melhor, sem fantasma, com vaga na garagem, varanda e condomínio com playground e piscina. Já o fantasma da madrasta ficou feliz de se livrar do enteado e se acalmou. Se bem que os novos moradores, um casal de ateus materialistas, mas cheios de superstições, tem o hábito de cantar música sertaneja na madrugada, o que está começando a dar nos seus nervos espectrais.

Um gigante de visão

Conheci Marcelo Lachter no dia em que, num momento de desespero, resolvi vender minha biblioteca para pagar uma conta de telefone exorbitante que não era minha culpa. Ele foi à minha casa, comprou meus livros, me deu bons conselhos e 9 meses depois me fez uma proposta que mudou a minha vida: “Quer ser sócio numa livraria?”

Aceitei, sem pensar duas vezes. Me tornei seu sócio na Baratos da Ribeiro, que, para mim, durou apenas 9 meses, mas que existe até hoje, capitaneada por mais um de seus tutelados e meu amigo, Maurício Gouveia.

Marcelo era um gigante em todos os sentidos. Alto, calmo, cheio de sabedoria; juntava hordas de pessoas interessantes ao seu redor. Sempre tinha algo inteligente e cheio de coração a dizer. Apesar de ter um problema físico de visão, que poderia parecer um impeditivo para que trabalhasse com livros, ele tinha o melhor olho que já vi. Sabia escolher pessoas para cargos e amizades, livros para as lojas e em 2000 já tinha visto a possibilidade e tentado criar algo bem melhor do que a Estante Virtual que temos hoje.

Quando a nossa sociedade na Baratos acabou, ficamos afastados por algum tempo, mas logo busquei retomar o contato e as rusgas sumiram rapidamente.

Tentei voltar ao mercado de livros usados 5 anos depois do lançamento da Baratos e ele foi convidado para o lançamento da minha nova loja. Apareceu, analisou as estantes e os livros com seu olho clínico, e me disse: “Você está cobrando muito barato, assim a loja não vai se manter”.

Não deu outra. Fui à falência em menos de um ano e, no fechar das portas, o chamei novamente para comprar todo o meu estoque, que ele levou barato mas com justiça.

Depois de abrir e fechar a minha carreira como livreiro, ele me ofereceu uma carona. “Eu sei que não consigo ver quase nada, mas consegui tirar a carteira. Vamos nessa, pode confiar”. Como fiz antes, confiei. E lá fomos nós de noite, em direção à minha casa, com ele usando as lanternas dos carros da frente como guias.

Quando me deixou na porta do meu prédio, ele me disse: “Comecei a dirigir, pois acho que um adulto que não dirige tem algum problema em tomar o controle da própria vida”. Impactado, um mês depois, tomei controle da minha e comecei a trabalhar de carteira assinada. Quanto a dirigir, ainda não aprendi, mas sempre que entro num carro lembro dele e do seu conselho.

Depois dessas experiências, fomos nos esbarrando pela vida esporadicamente. Fui no lançamento do seu galpão de livros; me envolvi, parcialmente, numa ideia doida que ele teve de criar um curso para executivos baseado na série 24 horas; participei de uma maratona para comemorar o seu aniversário, qual ele mesmo arriou às 11 da manhã; e nos falamos bastante para apoiar um antigo livreiro que estava passando por um momento de dificuldades. No ano passado, lancei um projeto de narrativas sobre o 11 de setembro e pedi o seu depoimento, que ele me enviou com muita generosidade.

Ontem fiquei sabendo do seu falecimento. Nas redes sociais, toda uma geração de livreiros que ele criou fez coro com o que acabei de dizer. Era um cara gigante, de grande visão, com um coração enorme, que mudou a vida de todos que conheceu. Ele, sem fazer esforço, foi responsável por carreiras, empreendimentos, experiências de vida marcantes, e até casamentos e, consequentes, nascimentos.

Marcelo foi uma dessas pessoas que vieram ao mundo para transformar a vida dos outros, e, mesmo não tendo filhos, deu à luz um país mais inteligente, culto, cheio de compaixão e alegria. Que a sua memória seja uma benção a todos nós. Zichrono livrachah.

Smart City Gulliver

Ele gostava de se considerar um sujeito normal, e até seria, não fosse a sua altura. Quando chegava em qualquer ambiente, sempre tímido e discreto, imediatamente se destacava: era maior que os outros; muito maior que os outros. Em todos os sentidos.

Com pequenos abalos sísmicos, seus passos, mesmo de chinelos, denunciavam a sua entrada; sua cabeça e seus pensamentos, bem mais elevados que os nossos, quase chegavam às nuvens; e suas palavras iniciais, vindas do céu, ressoavam como um trovão inesperado. Era assustador. Até a gente começar a ouvir de verdade.

Seguindo o trovão inicial, daquela figura imponente, vinha uma fala mansa e amiga, tão convidativa, que tornava irresistível o desejo de abraçar as suas pernas como se estivéssemos abraçando uma árvore. Assim, em volta desse sujeito enorme, nos congregávamos ritualmente para celebrar a amizade e a generosidade que ele inspirava em todos nós.

Talvez por isso, quando começaram a discutir como tornar a cidade inteligente e inteligível, ele foi convocado. Ele conhecia a tecnologia, sim, mas também tinha a empatia e a gentileza necessárias para fazer essa transformação na arquitetura e nos processos da cidade, e nas relações e na emoção dos cidadãos.

Como não podia deixar de ser, foi um sucesso. A vida de todos melhorou e ele, que já tinha tantos amigos, se tornou amigo de todos.

Apesar de tanta amizade ao seu redor, ele se sentia sozinho: lhe faltava um amor. E não era por falta de tentativa. Ele tentava, insistia, mas nenhuma das candidatas, estava à sua altura. Sempre faltava algo. Ele até relevava as falhas das pretendentes, mas elas próprias se afastavam, sempre com o mesmo discurso: “Não sou boa o suficiente pra ele”.

O seu sucesso na amizade e o seu fracasso no amor se tornaram tão lendários que ele começou a achar que eram questão de destino. Até conhecer a Pequenina.

Vinda de fora, a Pequenina era também uma especialista em cidades, mas, fora isso, era o seu oposto. Ao contrário dele, nunca usava chinelos, apenas botas; era solitária e feliz com isso; sua voz era baixa, mas incisiva; não conquistava aqueles ao seu redor, mas os dominava. Assim como controlava as pessoas, ela queria controlar as cidades. Enquanto a cidade dele era um encontro prum chopp de fim de tarde, a dela era uma rigorosa função matemática. Inesperadamente, ele se apaixonou.

Os amigos, que raramente faziam objeções aos seus relacionamentos, não se furtaram a dar sua opinião: “Ela é muito dura. Ela é muito mandona. Ela é muito…muito. Enfim, ela não tem nada a ver com você”. E não tinha. Confrontado, ele se explicava: “Vai ver, por isso, eu acho que vai dar certo”. E deu certo. E deu errado, também.

Ele estava nas nuvens. Agora figurativamente. E ela parecia ser, com ele, o oposto do que era com os outros. Em suma, ele estava feliz.

Mas, estranhamente, isso começou a comprometer o seu trabalho. A cidade, sem conseguir competir com esse novo amor, saiu dos trilhos, como uma criança abandonada. E, antes que viessem a questionar a qualidade da sua atuação, ele mesmo abdicou do seu cargo em nome da amada, que também assumiu o seu papel como planejadora da cidade.

No dia em que abriu mão da sua missão em nome do amor, ele e a Pequenina saíram para jantar com os amigos. Dele. Ao invés de choro e lamentos pelo trabalho perdido, ele comemorou como se finalmente estivesse saindo em direção a uma viagem muito esperada. Os amigos, conformados com a sua escolha, se despediram deles e os deixaram sozinhos para celebrar a escolha do amor. Varando a madrugada, depois de consumarem repetidas vezes a sua escolha, dormiram.

Com o sol nascendo, ele acordou feliz e esperançoso, mas não a encontrou na cama. Tentou se mover, mas não conseguiu. Percebeu que, embaixo do lençol, seu corpo estava preso por cordas. Gritou o nome da Pequenina, mas não teve resposta.

Quer dizer, ouviu algo, mas era apenas um zumbido. Seguiu o som quase inaudível com os olhos e a viu: a Pequenina. Ela, muito menor do que já era, quase do tamanho do seu dedo polegar, caminhava, nua, vestindo apenas as suas botas, sobre a sua barriga amarrada. Sob o seu olhar de surpresa, ela lentamente se aproximou do seu queixo, beijou sua boca caída com seus lábios diminutos e sorriu maquiavélica: “Bem-vindo a Lilliput, Gulliver”.

Labirintos e labirintos

Sou um colecionador de técnicas criativas e, nessa busca incessante por novas ferramentas e experiências, ontem comecei a fazer a oficina gratuita da Sheyla Smanioto, O Caderno como um Jardim. Não consegui assistir a aula ao vivo, nem antes de dormir, para fazer o exercício proposto, mas hoje de manhã rolou.

Na primeira aula, Sheyla trouxe a ideia do labirinto como uma metáfora para a encontrar uma saída dos bloqueios criativos e dos vieses inconscientes que te impedem de criar. É uma metáfora forte e esperta, pois, ao invés de olhar para os obstáculos como paredes intransponíveis, os transforma em caminhos, às vezes tortuosos e dolorosos, mas que sugerem a esperança de uma saída. Foi nesse ponto em que o curso me perdeu. Nos labirintos.

Em inglês, o que chamamos de labirinto tem duas palavras para designá-lo: Maze e Labyrinth. Apesar de terem características em comum- caminhos misteriosos, sem um fim à vista, que precisam ser desvendados- há uma diferença fundamental entre os dois. O Maze é um caminho com múltiplas escolhas, algumas certas, outras erradas, que irão levá-la, ou não, à sua saída ou ao seu centro. O Labyrinth, por outro lado, é um caminho único, sem saída, mas também sem rotas erradas, cujo trilhar leva apenas ao seu centro.

Do site https://sketchplanations.com/maze-labyrinth

Quando usou a metáfora, Sheyla se referiu muito ao primeiro, ao Maze, trabalhando como saímos deste labirinto ou sobre as escolhas de caminho que precisamos fazer. É uma visão pragmática e de iniciação mística que implica numa resolução: siga o mapa e não ficará perdida; e, pior, que o labirinto é transponível. Aí está o meu maior ponto de discordância. Pra mim, esse labirinto, entendido como Labyrinth e não Maze, não é um obstáculo a ser vencido. Pra mim, pior, o labirinto é tudo o que há.

Na minha opinião, sendo brutalmente taoísta, estamos sempre no caminho. Podemos ficar cansadas, com medo, frustradas e até sentarmos no chão para chorar em alguns momentos, mas esse é o caminho a se seguir. O obstáculo, na verdade inexistente, é o que faz a nossa vida. Portanto, em vez de tentar encontrar uma saída ou um caminho mais rápido, precisamos mudar a nossa forma de lidar com o labirinto e abraçá-lo, entendendo as suas voltas como reencontros com nós mesmos, e as suas repetições como pistas do que encontraremos em seu centro.

Claro que dizer às que sofrem com bloqueios criativos que esses percalços são inevitáveis e que deveriam, inclusive, ser celebrados não é muito reconfortante. Porém não me vejo seguindo mapas quando o caminho, por mais doloroso que seja, é o que faz o encontro com o meu centro realmente valer a pena. Enfim, o que me falta não é um mapa, mas uma mudança de consciência. E para atingí-la não preciso vencer o labirinto, mas simplesmente aceitá-lo.