Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Sons de Sansa

Aos domingos, era o chorinho. Por volta de 10 da manhã, ele começava a atrair as pessoas para o coreto. Às 11, os músicos chegavam e adicionavam sopros e cordas ao tilintar das garrafas verdes que reluziam ao sol que imperava na praça. Era glorioso, como Jesus, Alegria dos Homens numa catedral a céu aberto.

Na hora do almoço, o público e os músicos, cansados ou bêbados, rumavam aos barzinhos para tomar as saideiras ou comer algo bem gorduroso para esticar a bebedeira. As crianças assumiam o palco e corriam em volta do escorregador e dos balanços, produzindo uma sinfonia ao mesmo tempo dissonante e inexplicavelmente calmante.

O sol, relutante, se punha atrás do corpo de bombeiros e a barraca dos poetas assumia as carrapetas com o melhor do brega internacional e nacional dos anos 70 e 80, conclamando os mais guerreiros a dançar em nome da nostalgia das rádio FM.

Nas noites de segundas, tinha o circo. Mas por incrível que pareça, não apareciam crianças o suficiente para justificar o espetáculo. Mesmo assim, os artistas se reuniam. Palhaços, malabaristas, acrobatas se apresentavam no entorno do chafariz atraindo os que voltavam da escola ou do trabalho, produzindo risos e aplausos.

Nas terças de tarde, o caminhão de mudanças abria a sua caçamba e dois sanfoneiros faziam um baile improvisado que seguia secretamente até a sua vontade ou alegria de tocar se encerrar. Em geral, tinha alegria e forró pra quase meia noite. Os síndicos odiavam, mas os moradores dançavam agarradinhos na praça ou em seus apartamentos.

Na quarta, era pra ser folga. Afinal ninguém é de ferro e todo mundo precisa de um dia para aparecer, sóbrio, em casa, e descansar o fígado. Porém, é dia de jogo do campeonato, seja ele qual for, e, em nome do seu time do coração, ou pra zicar o seu desafeto preferido, o povo quebrava a quase abstinência para tomar uma em pé em volta dos bares e acompanhar um jogo emocionante mas de resultado previsível. Ganhando ou perdendo, todos ganharam, e perderam, mais um dia. Ou uma noite,

Já nas quintas de noite, o som era dos discursos. Partidários, não partidários e apartidários se reuniam discretamente do lado esquerdo da praça pra denunciar os males da política, a opressão da nossa ditadura nascente e beber em memória de um país que já foi, mas não foi. Foi?

Na sexta, a surpresa. No fim do expediente era sempre um show diferente. Um cinema no parquinho, um rock no Salvatore, uma banda de jazz à sombra do chafariz. O povo chegava cansado da labuta e comemorava a invenção do dia da libertação da escravidão circular, falando mal de seus ganha-pãos e exibindo os planos pro fim de semana que nunca iriam cumprir. A música e a algazarra iam longe para o terror dos síndicos conservadores que apoiavam publicamente o gradeamento da praça e sonhavam secretamente com a morte de suas esposas tacanhas para se juntar à bagunça.

No sábado, o samba ainda persiste e resiste. No mesmo lugar do chorinho, e no mesmo horário, cercado por uma feira que até pouco não existia, o povo canta e dança com saudade de um país pré fascismo e pré pandemia, pedindo em oração pela volta dos sons de uma praça atualmente bem calada.

Cheia de alegria e esperança, essa “gente que num ônibus lotado vai batalhar um trocado” sonha com um tempo melhor. Um tempo em que todos os dias a praça voltará a gritar para toda cidade, pra todo país, pra todo mundo, que “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. E, tenha certeza, se “Se algum candidato atrevido for fazer promessas vai levar um pau”.

Que se abram as cortinas.

Destinos

Depois de um tempo de viagem, todos os lugares parecem iguais. Todos tem um aeroporto, uma rodoviária, um posto de gasolina na beira de uma estrada, uma estação de trem. Um ponto de entrada e saída que causa a pior impressão possível do lugar, e, por isso, talvez, a mais verdadeira.

Depois tem o transporte. Em geral, táxis. Transporte coletivo é reservado para aqueles lugares que já conhecemos bem. E, portanto, não são mais lugares iguais. São apenas lugares similares de maneiras reincidentes.

Se os pontos de entrada resumem os lugares, os taxistas representam seu povo. Como exploradores, nos aproximamos desses nativos sob rodas com a boa vontade de missionários mal intencionados e com o medo dos soldados furiosos. Olá, como vai, tudo bem, por favor, não me roube, nem me engane; eu vim em paz. O que nem sempre é verdade, mas é melhor não levantar o assunto.

No caminho para os hotéis, um outro ponto de destaque dos lugares, ouvimos as lamúrias dos motoristas, que representam as aspirações e conflitos desse povo. Os preços altos, os políticos ladrões, as informações sobre pontos turísticos e inferninhos, a esperança que tudo vai melhorar ou acabar numa imensa bola de fogo, o que meio que dá no mesmo; ouvimos tudo que nos interessa e que não nos interessa; mas que nos dá a certeza que alí você nunca vai querer morar. Ou em qualquer outro lugar.

Enfim, o hotel. Como um carro alegórico, o hotel representa a imagem que o lugar quer nos passar. É a fantasia do povo do que significa viver bem. Cafés da manhã nababescos e frigobares deprimentes; espaços para reuniões de negócios ou encontros sexuais secretos, ambos igualmente escusos; piscinas e academias que não servem para se exercitar; camas convidativas e péssimas seleções de canais na TV a cabo.

O atendimento do hotel nos permite outra percepção sobre o povo, especialmente como eles são falsos em seus discursos e ações. Por trás de cada mesura quase educada e de cada cortesia pouco voluntariosa, há intenções escondidas, conteúdos latentes, que dizem “me use, que nós vamos abusar de vocês”.

E se nós temos tempo, energia ou azar, acabamos por ser obrigados a conhecer os pontos turísticos da região. Frente a esses ídolos caídos e tradições esquecidas, mercenários nos cobram por fotos que não queremos tirar, lembranças que queremos esquecer, nunca tentativa vã de nos convencer que esses lugares já foram grandiosos. Mas não foram.

Por fim chega a hora de partir. Cheios de falsa emoção, dizemos que já sentimos saudades e não esperamos a hora de voltar. Não esperamos, porque torcemos fervorosamente que nunca mais precisemos voltar.

Descobrimos em cada destino torto, em cada viagem que poderia ter sido uma visita a um site na internet, que o nosso lar é nosso por uma razão. Não porque o amamos nem porque eles fazem parte das nossas identidades, não. Também nos sentimos mal por voltar. O nosso lar é nosso porque lá somos tão ruins e decadentes quanto os outros os são nos lugares aos quais tentam nos atrair e nos quais tentam nos aprisionar.

A Biblioteca

Antes aqui não tinha nada. Agora tem tudo. Mas, pensando bem, isso tudo já existia antes, só nos faltava o tempo de esperar esse sonho florescer.

Lembro quando chegamos a esse terreno vazio, nessa pequena cidade costeira, e vimos, por cima do mato e do vazio insistente, tudo que há agora. Talvez não exatamente o que acabamos construindo com vidro, pedra, madeira e metal, mas o mesmo conceito espiritual está aqui.

Tudo começou com a casa central. Seguindo a inspiração dos diversos livros sobre lares japoneses que li durante anos para alimentar meus sonhos, montamos uma estrutura simples e transparente. Uma casa quadrada e expansível, com fortes pilares ligados por vidros, onde a nossa privacidade, garantida por diáfanas cortinas claras, podia ser aberta ou fechada ao nosso bel prazer. Quando queremos nos recolher, as fechamos; quando queremos receber nossos amigos ou conhecer novas pessoas, elas são descortinadas progressivamente, abrindo com vagar a visão do nosso lar e o espaço dentro dos nossos corações.

Aos poucos fomos nos despindo de muitas coisas físicas mantendo apenas o essencial, para abrir espaço para o que realmente importa: nossos afetos, nossas emoções e livros, milhares deles.

Uma hora, como já era esperado, os livros precisaram da sua própria casa e a construímos no mesmo modelo da casa central: um espaço acolhedor e seletivamente transparente. Para proteger a riqueza e o conhecimento que há dentro deles, criamos proteções contra a maresia e contra o sol, dentro dos limites necessários para que a sua segurança não impedisse a sua conexão com o mundo.

Quando ficou pronta, primeiro abrimos a biblioteca à cidade. Recebemos alunos de escolas, moradores interessados ou apenas curiosos. Aos poucos, pessoas de lugares, longe ou perto, começaram a aparecer para conhecê-la, e, dependendo do nosso humor e da empatia que sentíamos, deixamos elas entrarem. Dependendo do elo que formamos com elas, podem apenas circular pelas estantes, ou ler por breves ou longos momentos nos pufes convidativos e poltronas confortáveis, ou até mesmo levar uma das obras pelas quais tenham se apaixonado. Desde que, óbvio, deixem uma outra no lugar.

Com o passar dos anos, começamos a fazer pequenos eventos, encontros, reuniões, e a transformar a cidade que começou a abrigar cineclubes espontâneos e peças de teatro clássicas, influenciadas pelas palavras da biblioteca.

Essa transformação da comunidade, como não podia deixar de ser, aumentou a nossa responsabilidade e a nossa visibilidade. Por isso construímos também um lugar para receber mais pessoas que quisessem passar mais tempo perto dos nossos livros e, quem sabe, escrever os seus ao nosso lado.

Passamos, assim, a receber pessoas que ficavam pouco ou muito tempo, e podiam devorar, além dos livros, as minhas feijoadas de sexta feira, meu café gelado, meus mistos-quentes com ovos, e meus esporádicos chilis.

Chegamos a pensar em construir uma piscina no terreno, mas a proximidade do mar a tornou supérflua, e a obra encerrou onde devia: num deck onde podíamos nos reunir para conversar, e num chuveirão para refrescar nossos ânimos e nossos corpos.

O tempo passou, nossa filha cresceu junto com a biblioteca e se mudou para seguir a vida que ela mesma escolheu. Nós a apoiamos como podemos, e adoramos recebê-la nos fins de semana e férias para nos visitar e reencontrar a biblioteca que se tornou a sua irmã de papel, vidro e metal.

Imerso nessas memórias, percebo que o sol acabou de raiar. Enquanto leio e escrevo essas linhas, faço meu café, admirando você e velando o seu sono. Coloco um ponto final nesse texto e me levanto da minha escrivaninha para abrir mais uma vez as portas dessa biblioteca preguiçosa.

Em breve os convidados também irão acordar e nos encontrar entre livros e cervejas para falar de tudo e de nada. No meio da tarde passearemos na beira mar e voltaremos para um chuveirão antes do jantar. A lua aparecerá e colocarei a biblioteca para dormir, para que ela recupere suas forças e amanhã volte a receber aqueles que aprenderão com ela a escrever novos livros que farão parte do seu crescente conhecimento.

A obra não acabou. Nunca acaba, mas estamos chegando lá. Onde? Não sei, mas estamos sempre um dia mais próximos do que ambicionamos ser e criar. E isso é o suficiente. Não é?

O aniversário da Zelda

Quanto tempo. Quanto tempo. Quando foi a última vez que a gente viu? Sei lá, no ano passado? É, no ano passado. Onde nos vimos mesmo? Por aqui, quer dizer, aqui mesmo. É, foi aqui nesse mesmo lugar. E também era aniversário da Zelda! Pois, é. Um ano depois estamos aqui de novo. Vivos. Vivos, graças a Deus! De novo, quem diria? Pois, é, quem diria?

E você, o que conta? Nada, nada. Passou bem pela pandemia? Sim, sim. Pegou Covid? Peguei e você? Também, também. Como foi? A minha foi tranquila, e a sua? Mais ou menos, não internei mas fiquei com 50% do pulmão ferrado. Jesus, e agora? Agora está tudo bem. Graças a Deus. Graças a Deus.

Não tá bebendo, não? Não. Porquê? Fez promessa? Pior que fiz. Sério? Sério, quando peguei covid junto com a família, prometi que não ia beber durante 6 meses. E como foi? A covid? Tranquila. Não, ficar sem beber. Ah, tranquilo também, mas às vezes é meio chato. Entendo. Pelo menos descobri que não sou alcoólatra. Um brinde a isso. Pode ser com água tônica? Pode, pode. Um brinde. Um brinde.

Você tá morando onde mesmo? No mesmo lugar. Ah, é? Achei que você tinha mudado. Não, não mudei, mas queria. Eu também. Mudou? Não, também queria mudar. Ah, tá, mas tá morando onde agora? No mesmo lugar. Ah, tá. Bom saber. Bom saber.

E aquelas histórias? Pois, é. Que loucura. Pois, é. Você tinha que escrever um livro sobre a gente. É mesmo. Tem tanta história. É, um montão. Quando você vai escrever? O quê? A história da gente, da rua, do prédio? Ah, sim, em breve, em breve. Mas quais histórias acha que tinham que entrar nesse livro? Ah, tem várias. A do sinalizador, a da amante do Jorge Aragão, a da corrida de gente pelada por conta do Jogo de Master, a da namorada do cara que vomitou na pia artesanal, a da guerra de vinagre, a da vez que vários de nós pegamos chato no mesmo dia… Tem várias. É, tem várias. Você pegou chato? Eu não, e você? Também, não. Quem pegou mesmo? Não lembro. Nem eu. Não lembro. Mas foi hilário. Isso, é. Foi mesmo.

E o trabalho? Do mesmo jeito. E você? Estou para ficar desempregado. Que merda. E ainda tem essa inflação. Quem diria que ia voltar? Quem diria? Mas também…. O que tem? Não vamos falar de política. Tá, hoje,não. Hoje, não, mas ano que vem… Ano que vem, sim. Hoje, não.

Cara, que bom te ver. Bom te ver. Vamos ver se a gente marca algo. É, não dá pra gente ficar se vendo só uma vez no ano. Tem razão, tem razão. Você tem meu telefone? Tenho. Então, me liga pra gente marcar uma cerveja. Quando eu voltar a beber… Isso, quando voc? voltar a beber. Vê se não some, hein? Você também, não some, hein? Vê se não some. Não vou sumir. Nem eu, nem eu.

Parafraseando Zelda Fitzgerald, parafraseada por Pet Shop Boys, vivemos entediados, pois somos chatos. E derivativos. Mas basicamente chatos, porém amigos. Fazer o quê? Não sei, não sei.

Deixe de ser patriota, pergunte me como

Todo país é uma farsa. Você prende um bando de gente num território; estabelece fronteiras artificiais para “impedir” o uso dos recursos naturais dessa terra por gente que você não gosta; define um modelo de governança que lhe dê vantagens sobre o restante da população; controla a circulação de valores inventando um dinheiro que só você pode imprimir; e tira da cartola uma fantasia romântica sobre essa conjunção de povo e terra, desenha uma bandeira pouca imaginativa, escreve uma marchinha safada, que chama de hino, e dá a isso o nome de cultura. Presto! Temos um país.

Pessoalmente, prefiro o método Marina Lima “você me abre seus braços” de criação de país, mas esses passos acima normalmente são os que as pessoas seguem para criar essas fantasias patrióticas que dividem o mapa-múndi como um livro de colorir para adultos com baixa capacidade cognitiva.

Nenhum problema em acreditar em coisas que não existem. Religião e Super Heróis fazem sucesso até hoje e são, pelo menos no segundo caso, fantasias basicamente inócuas. O problema é que os países, assim como os relacionamentos românticos, na acepção do Miguel Falabella, são como submarinos: até bóiam, mas são feitos para afundar. E o seu fracasso se dá justamente pela fantasia romântica que gera aquele sentimento patológico de submissão chamado patriotismo. Se encararmos a nossa relação com os países, e até com as pessoas, com mais pragmatismo, só teremos a ganhar. Em vez de ficar sofrendo com problemas que achamos decorrentes da “cultura” ou do “jeito de ser” do “brasileiro”, por que não resolvê-los deixando as emoções de lado?

Exemplo? Dou até dois.

Primeiro: o país é ingovernável. OK, divide o território. Pra que ter um país desse tamanho? Porque a gente fala português? Valha-me, Deus. É só manter uma estrutura compartilhada mínima de relacionamentos, definir constituições estaduais respeitando os grupos populacionais mais próximos, suportar sistemas educacionais e de saúde compartilhados, e montar um mercado comum entre esses estados para organizar e pronto. Ah, e aproveitando podemos acabar com as forças armadas, que, no nosso caso, são apenas um tipo de decoração que só atrapalha.

Segundo: os governantes se locupletam e não pensam no bem estar da população. OK, vamos transformar o poder em ônus e não em bônus. Em vez de basear a concessão das chaves do reino nesse concurso de popularidade disputado por gente feia e burra, vamos sortear os cargos atualmente eletivos. Tenho certeza que seria impossível sair com um presidente pior do que o que temos atualmente. Ah, e a democracia? Relaxa, o povo vai votar. De 2 em 2 anos, votamos se esses sorteados estão fazendo um bom trabalho ou não. Os que fazem um bom trabalho são retirados do governo e do sorteio para sempre, os que não fazem são exterminados em praça pública. Duvido alguém mais querer ser político.

Viu? Facinho de resolver. É só deixar as fantasias megalomaníacas ou paranóides de lado que rapidinho a gente acha uma solução pra tudo.

Se a gente tivesse menos romantismo com essa construção torta, essa colônia passada de pai pra filho, e movida aos trancos e barrancos através de sucessivos golpes de estado capitaneados por forças armadas ociosas e com fantasias de poder, a vida seria mais fácil e melhor. Abandonar a fantasia de futuro brilhante para esse conjunto de território e população é o melhor caminho para aprendermos a viver confortavelmente com a nossa mediocridade. E isso se aplica a todos os países do mundo.

Afinal, o Brasil, como o restante da comunidade mundial, não tem um destino manifesto. Isso é só conversa de vendedor de carro usado pra te empurrar um acordo ruim, contando com a ideia que você sente orgulho por algo que não existe: ser brasileiro. Patriotismo é uma fantasia tão fora da realidade quanto discutir se o Capitão América é melhor que o Homem de Ferro. Viver em comunidade, sem firulas e com autocrítica, é que são elas.

Agora, se você não concorda com nada do que eu disse, fique à vontade para sair de camisa do brasil, fazendo arminha com a mão, e apoiar um genocida que se diz um Messias para se apropriar do erário nacional e favorecer sua família de incompetentes e seus amigos milicianos. No seu futuro, como no do Brasil, eu só vejo remorso e dor. Eu, por outro lado, decidi viver com consciência, sem sujar as minhas mãos de sangue defendendo gente que não merece meu respeito. Eu preferi ser pragmático a ser patriota. É a maneira mais ética e mais racional de se viver, pode acreditar.

A gata mais linda do mundo

Toda noite, quando caía no sono, ela se transformava na gata mais linda do mundo. E toda noite ela era uma gata diferente.

Às vezes era toda preta; às vezes era malhada, com as mais diferentes cores e matizes; às vezes branca, como a neve. E algumas vezes, mas nem sempre, ela era laranja como uma gata de desenho animado, ou quase pelada, mais parecendo com um rato. Não importava a sua aparência que ela assumia ao se transformar, quando dormia ela sempre virava a gata mais bonita do mundo.

Era só ela fechar os olhos que a gata abria os dela.

A gata acordava num mundo noturno, de luzes apagadas, numa casa com humanos dormindo, ignorando morar com a gata mais linda do mundo. A gata caminhava languidamente por quartos e corredores; copas e cozinhas; banheiros e varandas. Vez ou outra esbarrava com outros gatos que dividiam com ela a habitação; em outras vezes, estava sozinha. Para ela não fazia diferença. Com ou sem companhia, ela subia em estantes, afiava as garras em sofás, comia e bebia, desfilando a sua beleza na escuridão humana. Mas ela sentia que algo lhe faltava.

Quando cansava, a gata se aninhava nos humanos narcolépticos, miando e piscando os olhos para eles, perguntando por que razão, se era tão bonita, eles não a notavam. Angustiada, dava pequenas mordidas em suas pernas e cafungadas em suas axilas, buscando inútilmente a sua atenção.

Quando o sol nascia, a gata, exausta e frustrada, fechava os olhos para ela acordar. Ela, a mulher mais feia do mundo.

Ela levantava, sem memórias de ter sido a gata mais bonita do mundo. Fazia sua higiene, tomava café sozinha, se arrumava, mesmo não vendo necessidade em tentar melhorar o que não tinha conserto, e saía para trabalhar.

Nas ruas, ninguém olhava para ela. Era tão feia que não provocava asco nem repulsa. Era apenas apagada. No trabalho, as pessoas se comunicavam com ela pontualmente descarregando nas suas costas as coisas que não queriam fazer. Fora esses pequenos contatos, ela ficava sozinha. Almoçava sozinha, ia à copa sozinha, ouvia sozinha os papos das pessoas no cafezinho, e retornava para casa da mesma forma que chegou ao trabalho. Sozinha.

Em casa, matava o tempo entre as obrigações que garantiam a sua subsistência e a hora de dormir olhando para fotos de pessoas bonitas e vendo filmes estrelados por pessoas lindas, ou, pelo menos, mais bonitas que ela. Enrolava e se distraía de sua tragédia, beliscando comida vencida da geladeira, fazendo palavras cruzadas fáceis e evitando pensar em quão horrível ela era, enquanto esperava o sono chegar.

Quando sentia as pálpebras pesadas, sorria feliz. Se recolhia e, cheia de esperança, rezava mais uma vez para ser bonita, para ser mais bonita, para ser a mais bonita. Seus olhos fechavam e seus desejos eram atendidos. Os olhos da gata abriam e ela, enfim, era a mais bonita. Mas, apesar de toda a beleza, quando despertava, a gata também fazia uma oração. Entre miados curtos e sedutores, pedia, não para ser a mais bonita, nem para ser a mais feia, ela só queria ser notada. Bela ou feia, elas continuavam sozinhas; a gata e a mulher mais sozinhas do mundo.