Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A Eleição sem Fim

Na última segunda feira do mês de outubro foi realizada a 27a. reunião extraordinária do Edifício Sinceridade para a eleição do novo síndico.

A reunião se iniciou, como esperado, às 7 da noite. Os candidatos cumprimentaram os condôminos e apresentaram suas propostas. Primeiro, o concorrente disse que ia fazer tudo diferente da atual administração, mas não explicou como, nem o quê. Depois, o último síndico relatou que se sentia obrigado a se candidatar mais uma vez para evitar que o concorrente piorasse os atuais problemas do condomínio, os quais ele nem se dignou a enumerar. Com o fim da apresentação das pseudopropostas dos candidatos, a palavra foi passada aos condôminos com direito a voto.

A moradora que tem animais domésticos e apartamentos demais perguntou aos candidatos qual seria a sua política em relação a ter bichos nos apartamentos. Para não perder seu voto, ambos desconversaram. O militar da reserva que tem ocupação e inteligência de menos perguntou como iriam lidar com o problema das drogas e gangues do prédio. Os candidatos tentaram sem sucesso esclarecer que esse não era um problema real, mas, frente aos protestos raivosos do condômino reacionário, para não perder seu voto, ambos disseram ser pela pátria, pela família e pela propriedade. A professora universitária bem intencionada e bem pernóstica perguntou como seria a política de ESG dos candidatos. Sob os olhares de surpresa dos presentes, ela esclareceu que a sigla queria dizer “Enviromental, Social & Governance”, o que no fim das contas não ajudou a tirar ninguém da ignorância. Sem saber responder, e para não perder o seu voto, ambos disseram ser progressistas de carteirinha.

Terminadas as perguntas, os candidatos começaram a discutir, sem substância, sobre suas propostas. Atraídos pelo buraco negro de sentido, os demais condôminos começaram a expressar suas opiniões vazias num monólogo coletivo sem fim. Às 10 horas da noite, cansados do fútil exercício do poder, os candidatos concordaram em continuar com o debate numa data posterior onde a eleição poderia, finalmente, ocorrer.

Enquanto isso, por mais período, o Edifício Sinceridade continua sem governo e sem tirania. Pelo menos por enquanto.

Parece anarquia mas é simplesmente o real sentido democracia: uma eleição sem fim, onde quem ganha são os que não escolhem tolos vaidosos para liderá-los.

Seria perfeito, se não caísse nas costas de um idiota como eu a responsabilidade pelas atas dessas infindáveis reuniões.

Acridoce

Esqueça o amargo
Relembre o doce sabor da
infância
que não sabemos se
existiu
ou se o inventamos para
tornar os dias
de hoje
menos intra-
gáveis

Esqueça o amargo
Sonhe
Mergulhe
Banhe-se
nas doces fantasias
de infâncias que
nossos terapeutas insistem em lembrar
o quão amargas fo-
ram

Esqueça o amargo
Ou
melhor,
finja que o amargo
é/foi
doce
e brinque de
dia-
betes
com suas próprias
me-
mórias

Esqueça o amargo
Como o ar
que res-
piramos
não precisamos lembrar
dele
Ele é tudo o que

Ele é tudo o que
somos

Doces
a-
margos

Desfiando

Quando ele morreu, não foi surpresa. Não era velho, nem doente, mas todo mundo via que ele não se cuidava. Como pra todo mundo, era só uma questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde ia/vai acontecer; calhou de ser mais cedo. Fazer o quê?

Por essas e outras não foi uma tragédia muito grande. A família foi amparada por conta de seguros e reservas financeiras; os amigos tinham histórias boas o suficiente para exercitarem uma memória positiva da breve sua existência; e, no trabalho, como dizem no mundo corporativo, ninguém é insubstituível.

Porém, quando ele se foi, um pequeno nodo de uma grande rede começou a se desfazer. Sem as conversas sobre as agruras da vida que tinha na banca de jornal, o fardo do jornaleiro ficou pesado demais, ele voltou a beber e morreu num acidente de carro onde atropelou três crianças; a dona do botequim, parece até piada, tomou um baque muito grande nas finanças quando perdeu seu melhor cliente, e o espaço tradicional fechou para deixar no lugar uma, cruz credo, hamburgueria gourmet; e o filho meio maluquinho do vizinho de baixo perdeu o seu amigo de trocar revistas em quadrinhos e, ao invés de se tornar um artista, foi estudar economia como seu pai.

Como eu disse, não foi uma tragédia muito grande, mas foi maior do que aparentou. E, como sempre, o mercado corporativo mais uma vez errou: todos são insubstituíveis.

A Garagem Hermética

Quando eu tinha uns 13 anos, a minha cama quebrou. Como já estava acostumado a cair no sono na sala enquanto assistia à televisão, não me apressei a consertá-la. E assim ela ficou por quase uns sete anos. Depois do primeiro ano sem uso, eu tomei vergonha na cara, e joguei a cama fora. Assim, enquanto eu continuava dormindo na sala, meu quarto virou uma espécie de sala de estar auxiliar onde eu recebia meus amigos.

O quarto não tinha cama, mas tinha uma TV pequena com vídeo cassete; 3 estantes cheias de livros e quadrinhos; paredes repletas de posters; e um 3 em 1 com os meus vinis. Ah, tinha também um baixo elétrico que um amigo me emprestou e, apesar de nunca ter aprendido a tocar direito, eu dedilhava, e dizia que tinha uma banda punk.

O meu quarto era a minha garagem. Um espaço ao mesmo tempo dentro e fora de casa, onde eu e meus amigos experimentamos com tudo o que devíamos e não devíamos fazer. A gente escrevia poesia juntos; se escondia dos nossos pais quando a barra pesava; varava noites acordados vendo clipes na televisão; jogava tarot uns para os outros; planejava, criava e desistia de fanzines; e, depois que comprei um frigobar usado, a “garagem” também passou a fazer papel de bar. A garagem e nós, mal ou bem, crescemos juntos.

O quarto era tanto a minha garagem que preso na sua porta eu tinha um poster do Major Grubert da Garagem Hermética do Moebius pendurado num abismo. Meus amigos não curtiam quadrinhos como eu e não entendiam o que aquele poster fazia alí, mas eu sabia. A minha garagem hermética, como o mundo do Major Grubert, era meu universo de bolso. A única pergunta que eu tenho é: se a minha garagem era tão hermética como me tiraram de lá? Deve ter sido mágica.

Adoção

– Onde você comprou esses gatos?
– Não comprei, adotei.
– Ah, tá.
– Porquê? Você não gosta de gatos?
– Acho que gosto, não sei, mas eu já tive cachorros.
– Mas de gatos? Você gosta?
– Não desgosto. Tem as coisas pra eles?
– Que coisas?
– Sei lá, pote pra água, comida, aquele lance pra eles fazerem xixi…
– Areia?
– Isso, areia.
– Tem, não. Tem que comprar.
– Deixa que eu vou lá.

30 minutos depois ele volta com tudo.

– Ó, tá aqui.
– Ai, que ótimo. Obrigada. Já, já, eu arrumo tudo.
– Não. Deixa que eu arrumo.
– Tá bom. Obrigada.

10 minutos depois tá tudo arrumado. Os gatos bebem, comem e fazem cocô.

– Cara, vou te falar. Até fiquei cansado.
– Sério?
– Sério. Vou dar uma deitada.
– Beleza.

Ele deita e em 5 minutos está roncando. Os gatos deitam em cima dele e ele nem se abala. Adoção finalizada.

Conservadorismo à Brasileira

De 2014 a 2016 eu morei na Almirante Gonçalves, na época, a única rua sem saída de Copacabana, e, até hoje, lar do Bip-Bip. Pra quem não conhece, o Bip Bip é um botequim minúsculo onde rolam rodas de choro e samba. Foi administrado durante muitos anos pelo impagável e saudoso Alfredinho, que distribuía o seu mau humor ao mesmo tempo que acolhia os fregueses e a vizinhança com seu enorme coração.

Inaugurado no dia da assinatura do AI-5, o Bip, além de um reduto cultural, tombado pela prefeitura, sempre atraiu um grupo intelectual de esquerda que adorava discutir com o Alfredinho, petista de raiz. Alfredinho tinha também um trabalho social bem forte na área, que era coroado com um almoço de Natal que ele fazia para a população de rua.

Por conta do samba, e, agora me caiu a ficha, pela sua posição política e atitude solidária, o Bip era vítima do ódio de vários moradores que clamavam pelo seu fechamento. Mesmo com toda essa torcida reacionária contra, o Bip se manteve firme com pequenas modificações na sua atuação: a música migrou da calçada pro interior do bar, e, em vez de aplausos, os clientes estalavam os dedos ao fim das músicas.

Um dia, voltando bem tarde pra casa, pelo caminho da praia, passei no Bip, onde a galera animada curtia uma roda de samba curiosamente acompanhada por um russo no violoncelo. Duas lojas à frente, tinha um depósito de gelo que servia de bar e espaço para uns bombadões desocupados da área assistirem a jogos de futebol e tomarem cerveja na rua. Nesse dia, lá no Gelo, dois caras assistiam a um jogo, sentados em cadeiras de plástico, fumando maconha.

Quando a música terminou e o povo começou a estalar os dedos, os caras do Gelo aproveitaram a deixa e começaram a gritar:

– Vai pra Cuba, seus petistas. Lula Ladrão! Calem a boca, seus esquerdistas do caralho.

O povo do Bip, já acostumado com essas reações, nem se ligou. Enquanto eu passava na frente dos dois paladinos da moral e dos bons costumes, um entregou o baseado pro outro e disse:

– Me admira você, fulano, o maior maconheiro de Copacabana, dizer que vai votar no Bolsonaro.

O outro deu uma bela tragada, soprou a fumaça em direção ao céu e respondeu:

– Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.