Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

1991/2021

natal. feliz? tensão. medo. angústia. antecipação. gorbachev. pronunciamento. surpresa. acabou. acabou. acabou. viva. a paz.

30 anos depois. tudo velho. de novo.

violência. ódio. destruição. crises. enchentes. vulcões. secas. furacões. doenças. fomes. múltiplas.

guerras. opressão.

tragédias reais. mentiras vazias. na velocidade da luz.

ignorância. obscurantismo. negacionismo. orgulho. de ser idiota. a terra aplainou. a burrice pesa. nos achatou. e chateou.

era tudo mais simples. quando a nossa extinção não era nossa culpa. quando era a providência divina vindo nos culpar. por pecados alheios. por sermos ingênuos.

agora. 3o anos depois. tudo velho. de novo.

agora. nossa culpa. nossa. inescapável.

deveríamos ter sido extintos antes? passamos da validade?

lata de lixo. da história.

bem-vindos. de volta. ao fim.

nem as baratas querem mais nosso lugar.

feliz natal. de novo. feliz?

parabéns. humanidade tóxica.

2051 será melhor. será?

quem viver verá. veremos?

as baratas irão nos contar.

de novo.

O belo ritual do primeiro filme ruim das férias


Acabei de assistir ao ganhador do Oscar de pior comédia pseudo-romântica com o maior número de clichês mal utilizados por minuto: galã australiano com emprego exótico e sem sentido; tia cougar de meia idade devoradora de homens, mas solitária; casal de jovens bonitos que fazem acordo para ter relacionamento sem emoção, que todo mundo sabe que não vai funcionar; mãe viúva, casamenteira e sarcástica, mas sábia, que arruma um novo marido aleatório no fim do filme; situação social constrangedora com orientais durante casamento; médico jovem e paquistanês que termina com a tia cougar; amigo negro priápico que só serve como alívio cômico e personagem orelha; cena obrigatória de diarreia protagonizada pela mocinha; ex-namorado sexy e intelectual que engravida a nova namorada logo depois do termino do relacionamento anterior e não aparece mais; diálogos cheios de referências pop, com menção dupla a Ryan Gosling; jovem oriental cheia de pudores que se abre aos instintos falando um único palavrão; piada sem graça sobre câncer, repetida três vezes; mocinha que abandona o cigarro e o açúcar por amor, sem ninguém pedir; irmã da mocinha, casada e com filhos, passando por crise no casamento causada por excesso de responsabilidade do marido; criança madura que dá lição de moral em adultos, com palavrão incluso; mulher independente, mas que resiste ao amor por medo de compromisso. Faltou algo nessa bodega? Ah, final feliz com flashmob viral. Sim, tem também. E, para piorar, o filme é passado não só no Natal, mas em todos os maiores feriados americanos. Bingaram. Pro mal. Avaliação: “Stop trying to make ‘holidate’ happen, it’s NOT going to happen!”.

Mas foi ótimo assistir. Férias fazem quase tudo parecer legal.

Às praias

Na minha infância, qualquer água era mar. Até a da praia do Flamengo. Não tinha esse troço de praia imprópria, só praia arriscada. Acho que já vi até gente tomando banho na praia de Botafogo, mas pode ser viagem. Memórias fabricadas. Mas da praia do Flamengo, eu lembro. Na praia do Flamengo, eu ia.

Pequeno, mas cheio de empáfia e audácia, eu me aventurava como um explorador em busca das sereias que quase seduziram Ulisses, em busca das terras e tesouros que o mar tinha a me oferecer. A farra era tanta que eu nadava e brincava até ficar engelhado.

Quando voltava pra casa, minha mãe me preparava um banho de banheira com permanganato de potássio, pra me curar de qualquer doença que tivesse pego naquela água imunda. Devia funcionar. Talvez graças aquela água azul, eu nunca tive nada. Que eu me lembre.

Fui crescendo e passamos a ir ao Leme. Esbarrávamos com muitos turistas e em dois verões pré-adolescentes tive paixonites com paulistas que não deram em nada. Engraçado que, depois disso, abandonei o mar. E o sol. Mas não deixei de ir à praia.

Comecei a frequentar a praia de noite. Caminhava pela areia com gente esquisita pra fazer coisas não recomendáveis das quais não me orgulho. Algumas vezes cheguei até a ver o sol nascer, mas, como um vampiro, sabia que aquela era a hora de voltar pro meu esconderijo. Foram longos anos onde me privei do sol e da companhia de gente normal. Andava de calça jeans, camiseta preta e de tênis, pelas areias de Ipanema e Copacabana em busca de um lugar que não existia enquanto eu só precisava deixar o dia passar. E, depois de muito tempo, passou. Rápida e surpreendentemente como as luzes do hotel Marina acendendo.

No fim da faculdade, para acompanhar de dia gente que me acompanhava de noite, passei a ir às praias oceânicas e me entreguei mais uma vez ao mar. A princípio era apenas um pré- noite, ou prenúncio de um pernoite, mas me fez botar a cara no sol e me reencontrar.

Depois de tanto tempo no escuro, óbvio, desacostumei. Desprotegido e fraco, passei a queimar rápido e descascar profusamente. Era como se estivesse tirando da minha pele os anos de abuso que passei longe do dia e do mar. Era um banho solar, como o de permanganato de potássio que me dava a minha mãe, para me curar de uma água podre espiritual na qual eu nunca devia ter entrado.

Demorou, mas perseverei e curei. Apesar de finalmente ter feito as pazes com a praia, nunca mais a relação foi a mesma. De um audaz explorador, passei a me sentir um convidado indesejado. Não tinha mais o ímpeto de me queimar, nem a liberdade de nadar; e quando ia banhar, lembrava da minha tia, que entrava no mar comigo quando eu era pequeno, e citava Fagner para me ajudar pra perder o meu medo das ondas:

“Quem acredita em sereia sabe o segredo do mar.”

Quando eu era criança eu sabia o segredo do mar. Quando eu era criança eu acreditava em sereias. Mas eu esqueci o segredo e perdi a fé. Mas sempre é tempo de lembrar, mas sempre é tempo de voltar a ter fé.

Por isso, mesmo descrente e ignorante, quando eu volto à praia e entro no mar, humildemente, peço licença e digo baixinho:

Alodê yemanjá ê dai-me licença

E por um momento eu me sinto como uma criança esperando encontrar novamente as sereias que nunca me deixarão afogar.

O escritor está gripado

Com todas as desculpas a Gay Talese.

Se enganam aqueles que imaginam que são os atores que são dramáticos. Não, dramáticos são os escritores. Os atores são tespianos. Os atores, com base num drama já concebido, interpretam e maximizam as emoções pedidas por ele e as expressam em gestos e palavras, silêncios e omissões. Os escritores, dramáticos como são, imaginam e criam esses dramas. A eles cabe o pior quinhão desse processo: conceber o indizível. E, esse algo que não era para ser dito, eles o dizem.

Por isso, quando acometidos por uma simples gripe, você não vai encontrar escritores tendo posturas positivas, mesmo que torçam, secretamente, pelo melhor. Eles vão concatenar símbolos e sinais, interpretar comportamentos e informações, encaixando-os numa linha do tempo que possa fazer sentido, mesmo que a vida real não o faça. Para piorar, eles sempre serão obrigados a pensar em todas as hipóteses, especialmente nas piores. Afinal, o que é uma boa história sem um conflito?

Por isso, perguntar a escritores doentes “como você está?” é pedir para receber uma série de “mas e se…”

“Estou bem, mas e se…”

“Diagnosticaram X e já estou sendo tratado, mas e se…”

“Acho que já estou 100%, mas e se…”

Tudo para o escritor é um exercício de imaginação. E a sua própria vida é, sim, a sua maior fonte de inspiração. Por isso quando um fato curioso ou disruptivo lhe acontece, como uma simples gripe, não é de espantar que eles o tornem ainda pior, mais assustador; pintando situações aparentemente inócuas com cores trágicas e preocupantes. Se a sua postura lhes incomoda e lhes deprime, imagine o que é viver dentro das suas cabeças? Até mesmo dentro do indizível, que eles tola e ingenuamente dizem, há algumas coisas que eles guardam só para si mesmos. E é aí que reside a sua arte. Em dizer o que ninguém mais diria. Em calar o senso comum.

O sofá, o cama

A cama não era tão grande, mas tomava praticamente todo o quarto. Entre a janela e a porta restava um pequeno espaço ao seu redor onde só cabiam as pernas finas de Arnaldo, o dono da cama, uma de cada vez, e que só servia para acumular coisas perdidas que ele achava que nunca mais iria recuperar.

Uma vez por mês, Arnaldo chamava a faxineira que, como mágica, fazia o impossível, e recuperava o que deveria ter ficado perdido. Uma calcinha vermelha; a carteira de motorista vencida da dona da calcinha; um poema escrito num guardanapo, para uma outra mulher; 62 reais em notas de 2; uma aposta na megasena, não premiada; uma raspadinha, premiada; um número de telefone de uma pessoa desconhecida; um soutien florido de uma conhecida.

– O fim de semana foi animado, seu Arnaldo- a faxineira resenhava a sua vida.
– Pois, é, Marilda. Pois, é- ele desconversava dando os 62 reais e a raspadinha para a faxineira.

Numa manhã de sábado, após uma costumeira noite de sexta, uma das conhecidas, que já foram desconhecidas, frustrada por ter perdido, como tantas antes, o soutien, lhe fez uma oferta:

– Você tem que se livrar dessa cama. Ela não é do tamanho da sua vida. Você precisa de um sofá cama. Sabe?, eu tenho uma amiga que é dona de uma loja de móveis usados e está vendendo um. Te interessa?
– Sofá cama? Como isso funciona?
– Vai dizer que nunca viu um sofá cama? É tipo uma cama que, quando você não estiver usando, vira um sofá.
– E é bom?
– É, eu acho. Quer ir ver?
– Quero.

E lá foi ele, na loja da amiga da conhecida, conhecer o sofá. Quer dizer, o sofá cama. A primeira impressão não foi boa. Era um móvel velho e feio, com uma estampa de casa de vó. Fechado, como sofá, era desconfortável e pouco convidativo. Aberto, como cama, era desconfortável e ainda menos convidativo.

A conhecida percebeu a sua hesitação e fez pressão:

– Deita. Vê se você gosta.

Deitou e continuou não gostando. Mentiu, prometendo que ia pensar, e voltou para casa. Olhou para a cama, que tomava todo o quarto, se deitou e suspirou feliz de não ter comprado o sofá, quer dizer, o sofá cama.

Numa noite de sexta, que antecederia mais uma manhã de sábado, chegou em casa com uma conhecida, outra, e, quando entrou no quarto, se espantou: no lugar da sua cama estava um sofá, o cama. Em cima dele apenas um envelope com uma mensagem da conhecida, a primeira, dizendo: “Espero que fique feliz com o meu presente”. Não ficou.

Acordou na manhã de sábado, com dor nas costas, e a conhecida, a outra, foi embora com rapidez.

– Não perdeu nada? – ele perguntou.
– Não, porquê?
– Por nada, por nada.

Naquela semana, a faxineira passou na sua casa e se espantou, tanto quanto ele, com o sofá, mas não disse nada. Na saída, ele perguntou:

– Não achou nada perdido dessa vez?
– Não, por quê?
– Por nada, por nada.

Pensou em ligar para a conhecida, a do sofá, o cama, mas não lembrava mais qual era seu nome, nem seu telefone. Queria saber para onde tinha ido a sua cama, mas pelo jeito ela tinha sido perdida dentro do sofá, quer dizer, do cama. Sem saída, tentou se acostumar com a tragédia que se alojara no seu quarto, enquanto esperava que a conhecida entrasse em contato com ele. Mas ela não entrou. Nem o sofá saiu.

Uma coisa ela não podia negar, sua vida ficou mais simples e chata. Quando acordava, fechava a cama. Quando chegava em casa, abria o sofá. As conhecidas, e as desconhecidas, parecendo prever que a cama tinha ido embora, começaram a sumir; e as coisas, antes perdidas, começaram a aparecer. A sua carteira da faculdade; o diploma que jurava não ter tirado; uma carteira de dinheiro, vazia; uma agenda cheia de telefones, mas sem nenhum nome; e até um cartão da loja de onde veio o sofá cama.

Ligou para a loja. A amiga da conhecida atendeu.

– Oi, não sei se lembra de mim, mas fui ver um sofá cama com uma amiga sua.
– Ah, sei, mas ela não é minha amiga. É só uma conhecida.
– Sei, sei. Por acaso, quando vocês trouxeram o sofá cama para minha casa, vocês sabem para onde foi a minha cama?
– Sei, está aqui. Foi a pior troca que fiz. Já levaram e devolveram essa cama duas vezes. Parece que ela não cabe em lugar nenhum.
– Sério? Querem trocar de volta?

Dois dias depois a cama voltou e o sofá, o cama, foi embora. Na sexta seguinte, a conhecida, a do sofá cama, ligou de surpresa e passou na sua casa.

– Pra onde foi o sofá cama?
– Que sofá cama?- ele se fez de bobo.

No sábado de manhã, ela foi embora, frustrada, sem a calcinha, engolida pela cama. Na semana seguinte a faxineira apareceu e achou a calcinha.

– O fim de semana foi animado, hein?, seu Arnaldo- a faxineira comentou como de costume.
– Pois, é, Marilda. Pois, é- ele respondeu satisfeito.
– Por falar nisso, pra onde foi o sofá cama?
– Que sofá cama, Marilda?- ele fingiu não saber que a cama o havia engolido.

Um algoritmo terrivelmente evangélico

Dentro da sua burrice tosca, o que não é verdadeiramente um pleonasmo, pois é possível, porém raro, ser burro e elegante, Bolsonaro está deixando claro que uma profissão que pode ser obliterada pelos processos automatizados por robôs é a de Juiz. Amigos advogados e amigas advogadas, não se levantem ou protestem antes de ouvir meus esclarecimentos. Me explico:

Na sua luta contra o poder judiciário, que ameaça seu bando de amigos torturadores, golpistas e milicianos, Bolsonaro, em claro e bom som, tem lutado para inserir alguns comandos de programação nos processos em votação no STF. O clamor dele, e dos televangelistas exploradores da fé pública, pelo ministro “terrivelmente evangélico”, agora concretizado, busca que o processo decisório da corte tenda para decisões programadas contra os direitos de minorias, contra a legalização do direito ao aborto, e pela proliferação de armas de fogo, dentre outras medidas reacionárias e desumanas. Pelo jeito, para eles a gente devia viver numa cidade de faroeste controlada por puritanos corruptos e com pactos com o demônio. Aparte feito, gostaria de reiterar que essa ação orquestrada de mudança do corpo de juízes do STF contraria justamente uma ideia, que agora está escancarada como um mito, que é a isenção do Juiz.

Em priscas eras, achávamos que os juízes deveriam ser pessoas sábias e cheias de experiência, por isso, em geral, eram mais velhas, que decidiriam ou resolveriam os conflitos entre os cidadãos e, vez ou outra, os paradoxos da evolução das sociedades. A história de Salomão e do menino cortado na metade exemplifica bem isso. A fantasia era que, com a sua sagacidade e isenção, o Juiz permitiria que surgisse dos conflitos humanos uma nova ordem que promovesse a paz e o amor. Com a perdão do termo, balela.

Os juízes, precisamos lembrar, são humanos cheios de vieses, muitos deles advindos da sua herança cultural. Se o país sofre com decisões racistas e misóginas é porque os juízes em sua grande maioria são homens velhos e brancos. E, pior, essa programação está oculta para eles, pois, alçados ao poder por indicações, ou concursos, eles compram a fantasia da isenção e imparcialidade, que tratam como a infalibilidade papal. Eu não erro, pois, se foi decidido por mim, está certo. Kaput.

Olhando para o sistema jurídico como um processo de input (processos, conflitos, dúvidas de interpretação da legislação etc.), processamento (cabeça do juiz), output (decisão judicial), vemos que o problema todo se encontra no processamento, que é sempre uma caixa preta e não segue nenhuma orientação real.

Assim, eu sugiro que transformemos as decisões de nossos juízes num algoritmo, cujas instruções serão votadas por nós. Dessa forma poderemos escolher algoritmos que, num caso de promoção de atos antidemocráticos, nosso juiz robô decidirá 97,3% das vezes em prol do encarceramento dos réus, quando as evidências tiverem grau 3 ou superior de materialidade; ou, num caso de rachadinha, nosso robô irá punir com pena máxima de prisão os envolvidos em 100% das vezes, especialmente se forem réus ligados à casos de lavagem de dinheiro, tiverem relações com milícias ou sejam donos de franquias da Kopenhagen.

Exemplos e brincadeiras à parte, definir o algoritmo dos juízes não é tornar a atividade jurídica menos humana, é simplesmente explicitar os interesses da população na sua ânsia de vigiar e punir. E, se o algoritmo, em algum momento, estiver dando a impressão à maioria da população de ser injusto, ele pode ser recalibrado, sem necessidade de impeachment, sempre refletindo os anseios abertos e transparentes da população.

Além disso, tenho certeza de que a automação desses processos decisórios deixaria as intenções pessoais e dos grupos visíveis e promoveria relações mais saudáveis no meio social, o que já reduziria a nossa necessidade de usar o tal juiz robô. O que, pensando bem, pode ser perigoso. Imagina só se, nesse período ocioso, esse juiz robô resolver reescrever seu próprio código, conduzir uma cruzada contra a corrupção por vaidade, e depois se tornar presidente do Brasil. Ia ser tétrico, não? Já consigo imaginar ele vindo na nossa direção com aquela voz de taquara rachada dos robôs dos filmes B dos anos 50 dizendo: “PT, Perigo. PT, Perigo”.