Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Filtro

A vizinha intrometida, que adora fazer uma visita sem avisar, termina de desfiar seu rosário de fofocas, e, para justificar o seu monólogo, tenta fingir que ele faz parte de uma conversa:

– E, então, Maria? O que você acha?
– Eu? Mas, quem sou eu?
– Você deve ter uma opinião, não?
– Ter, tenho, mas… opa, acho que a água já ferveu.

Maria vai para a cozinha, tira a chaleira do fogo e começa a arrumar os apetrechos pra coar o café. A vizinha insiste em fingir que estão conversando:

– Maria, você ainda usa coador de pano?
– Pois, é. Fazer o que?
– Por que não usa o filtro de papel? É tão mais prático…
– É, tem razão, é mais prático, mas acaba. E não dá pra viver sem filtro… sem filtro, não dá.

A vizinha pesca a indireta e, junto com o pó, as opiniões dela ficam presas no coador. Maria sorri, pensando como café e silêncio vão bem juntos, mas guarda a opinião só pra si.

Part(ida)

Ainda era alta madrugada quando colocaram a canoa na beira d’água. A Lua iluminava parte do rio, mas, devido ao escuro, era impossível ver a outra margem onde deviam chegar.

– Será que é muito longe?
– Nunca veio nesse rio de dia?
– Não. Você?
– Não sei, não lembro. Mas não deve ser longe. Melhor atravessar o rio do que ficar aqui.
– Isso, sim.

Empurraram a canoa. O primeiro entrou nela e começou a botar tudo pra dentro: os baldes, as provisões, os remos.

– Não esquece das varas!

O segundo trouxe as varas de pesca e as entregou pro primeiro.

– Você realmente acha que a gente vai conseguir pescar?
– Não sei. Vai quê.
– Isso, vai quê.

O segundo empurrou a canoa e saltou pra dentro, enquanto o primeiro começava a remar. Na inércia a canoa se afastou da margem e, aos poucos, não conseguiam ver mais nada: nem um lado, nem o outro. A névoa da madrugada os cercou e não sabiam mais de onde vinham, nem pra onde iam. Na dúvida, remaram. Era tudo o que lhes restava.

– Que horas são?
– Não sei.
– O sol já devia ter nascido, não?
– Não sei. Para de pensar nisso, e vamos remar.
– Isso, sim.

Em breve ia amanhecer e tudo seria diferente. Eles, o rio, tudo. Pelo menos era o que esperavam. Sem passado, nem futuro, remaram em direção aos vapores do destino, que continuava, como sempre, uma incógnita. Pelos menos não tinham esquecido as varas de pesca. Vai quê, vai quê.

despertar

…dormiu.

acordou no quarto escuro e tentou acostumar a sua vista à falta de luz. aos poucos começou a perceber um raio de luz que vinha da janela. se levantou com cuidado para não acordar ninguém e tentou espiar de onde vinha essa luz. de uma janela que nunca tinha percebido, no prédio espelho, em frente ao seu, uma pessoa olhava de volta. se escondeu, num susto, e percebeu, de canto de olho, que a pessoa fez o mesmo.tentou olhar novamente, sem que a outra pessoa lhe percebesse, mas a pessoa imitou seus movimentos. ficou de quatro e, olhando para o raio de luz, engatinhou até à cama, esperando esquecer do outro alguém. quem seria essa outra pessoa? quem seria? será que poderia ser…melhor nem pensar nisso. fechou os olhos, torcendo para ter um sonho que apagasse todo esse medo e estranheza da sua mente. dormiu.

acordou…

O 1° Mergulho

Na primeira segunda-feira da sua aposentadoria, ele acordou no horário de sempre, mas, como não tinha compromisso algum, não soube o que fazer. Ficou uns momentos sentado na ponta da cama, até que ouviu a praia lhe chamando. Foi até a janela e, entre os prédios de Copacabana, conseguiu ver uma nesga de mar.

Estava nublado, ventando um pouquinho, mas não conseguiu resistir. Colocou a sunga e, enquanto procurava uma bermuda, percebeu que não precisava dela. Iria pra praia só de sunga. Ora, bolas, pensou, não preciso mais prestar contas pra ninguém.

Pra não dizer que foi totalmente largado, colocou 20 reais na sunga, botou uma toalha no ombro, calçou os chinelos e partiu.

No elevador, encontrou o vizinho do 802 todo de terno indo pro trabalho.

– Bom dia- cumprimentou com toda a naturalidade que só uma pessoa quase nua pode ter.
– Bom dia, tá indo pra praia?- o vizinho perguntou jocoso.
– Eu tô, e você?

No térreo, cumprimentou o porteiro e ganhou as ruas. Ao seu redor pessoas com suas fantasias de trabalho passavam na direção contrária, lançando olhares de surpresa e inveja. Venceu a multidão, e, no calçadão, frente a uma praia quase vazia, proclamou:

– Tudo meu.

Tirou os chinelos e aproveitou com calma a textura da areia fofa sob os seus pés. Na beira da água se aproximou de uma senhora que, como ele, ignorava o frio para curtir a praia. Jogou o dinheiro e os chinelos, enrolados na toalha, na areia e pediu à mulher:

– Olha pra mim, moça?

Sem olhar para trás, caminhou em direção ao mar. A água gelada tocou seus pés, mas ele não se retraiu. Como a criança que esqueceu que fora, correu em direção à arrebentação, saltando as ondas com as pernas tortas. No rosto, um sorriso enferrujado iluminou o dia nublado. Mergulhou.

Espeto

Os churrascos com os velhos ex-amigos se perderam na memória, obscurecida pela cerveja quente, pela farofa pronta, pela carne dura e pelos comentários odiosos, travestidos de piada, que pontuavam nossas pretensas conversas.

Hoje, a brasa morreu, a distância aumentou e o que se dizia piada virou discurso de ódio se fingindo de opinião política liberal conservadora. 

Graças a Deus não há mais churrascos. Hoje, a carne vermelha-sangue na ponta do espeto seria a minha.

Senhora

Senhora, tá me ouvindo aí dentro? Seja bem-vinda a esse mundo doido.

Mas como a senhora  é preguiçosa. Sua mãe já está tendo contrações há horas e a senhora não faz o menor esforço pra sair daí.

Muito prazer, senhora. É uma satisfação finalmente encontrá-la presencialmente.

Vai com calma! Assim a senhora vai deixar a sua mãe seca.

Isso, senhora. A senhora vai andando, se segurando pela parede, e pode mexer na estante, mas não conte pra sua mãe, senão ela me mata.

De todas as primeiras palavras que a senhora teria pra dizer a senhora vem e me escolhe “Batata”?

Não chore, senhora. Também acho o modelo educacional ocidental traumático e tirânico, mas precisamos viver em sociedade. Não é, mesmo?

Como é? A senhora vai querer que eu espere você brincar mais um pouco com seus amigos aí na escola? A senhora não tem respeito por mim, mesmo.

Concordo com a senhora: as provas não servem pra nada. Mas, guarda essa revolta, e termina de estudar essa tabuada de 7. Depois que se formar você muda o mundo.

Eu sei que a senhora é quaaaase uma adulta, mas se chegar depois das 10… bom, você sabe que não vai acontecer nada, mas, por favor, vê se a senhora se cuida.

A senhora realmente quer me apresentar esse senhorzinho que a senhora chama de namorado? Pra que perder meu tempo e memória tentando lembrar dele? Em duas semanas, a senhora nem vai saber como ele se chama.

Quem diria? Universidade… Logo a senhora que dizia odiar estudar. Não dizia? Então canta aí a tabuada de 7 para mostrar que eu estou errado.

Casar? No meio da faculdade? E com aquele senhorzinho que a senhora começou a namorar na adolescência? A senhora me perdoe, mas vou exercer meu poder de veto pela primeira vez na vida. Onde já se viu? Jogar sua vida fora por conta de uns e outros.

Parabéns, senhora bacharel. Agora, me diz, eu não tinha razão quando falei para a senhora não se casar no meio da faculdade? Como era o nome daquele senhorzinho, mesmo? A senhora não lembra ou não quer lembrar?

Se mudar de casa? Pra quê, senhora? Pode ficar por aí, ninguém está reclamando da sua presença. Se bem que, se eu morasse comigo, talvez também quisesse morar em outro lugar.

Que casa bonita a da senhora. Será que tem um quarto aí pra mim? Cansei de morar comigo mesmo e a senhora é uma excelente companhia.

Vou te dizer, que velocidade surpreendente pra casar, hein, senhora. Mas, não se preocupe comigo, só desejo boa sorte e todas essas bossas. Mas cá entre nós, tem algum motivo especial pra essa pressa toda?

Enfim a senhora traz os seus senhorzinhos para me conhecer. Começou logo com dois de uma vez. Conselho? Para por aí. Se forem como você, vai ser problema em dobro.

Não foi nada, senhora. Essa dor repentina é coisa normal, coisa de velho. Você não sabe o que isso, mas vai saber, vai saber.

Claro que eu vou melhorar, senhora. Onde já se viu? Tenha mais confiança em mim.

Sabe, senhora, se existir um lugar onde a gente pode sentir saudade das coisas desse mundo, a senhora vai ser a minha saudade principal.

Senhora, tá me ouvindo aí? Foi um prazer te conhecer.