Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Dona Vanna e eu

Comecei a frequentar a Leonardo da Vinci cedo. Tinha de uns 7 para 8 anos quando minha mãe, na saída das suas aulas do IFCS, me levava na livraria para deixar boa parte do seu dinheiro em troca de livros que ela não encontraria em qualquer outro lugar.

A loja era imponente. Um corredor largo e comprido, cheio de estantes com livros de diferentes tamanhos e cores, em todas as línguas do mundo. Ao contrário das livrarias que conhecia, não havia um balcão. Dona Vanna e seus funcionários se sentavam em cadeiras de espaldar alto, atrás de uma longa mesa. Não havia sinal de caixas registradoras ou qualquer outra coisa que lembrasse a troca de mercadoria por dinheiro. Lá você não deixava nem levava bens materiais. Lá, você deixava a sua vida e alimentava a sua alma.

Os colegas de faculdade da minha mãe costumavam repetir, quase como uma parábola, a história de um aluno de filosofia que tinha furtado os 24 volumes das obras completas de Freud, um volume por semana, nas barbas da dona Vanna. Por azar, foi pego furtando o sumário da Imago, que era vendido separadamente. Banido para sempre da loja, dizem, perdeu a vontade de viver, abandonou a filosofia e foi cursar economia que estava mais próximo dos seus instintos vis.

Os anos passaram, cresci e passei a frequentar a loja sozinho. Em busca de quadrinhos e RPGs.

Com 11 anos fiz minha primeira reserva: o primeiro volume de L’Art de la BD de Duc. O preço era um acinte. Especialmente por causa do câmbio paralelo que dona Vanna criou com o tal dólar Da Vinci. Pedi para segurarem o livro por 15 dias, prazo máximo de reserva, para conseguir juntar 2 mesadas e pagar pela obra que, acreditava, iria me tornar um roteirista de quadrinhos. Com muita dificuldade e sendo obrigado a vender alguns quadrinhos nos sebos da Tiradentes para completar o valor, consegui honrar meu compromisso.

A segunda reserva foi mais complicada. Pedi para separarem para mim a caixa do Star Frontiers, um rpgzinho espacial da TSR, mas não sabia se ia conseguir pagar. Estava tentando fazer uma espécie de ação entre amigos para dividir o custo, mas não estava dando certo. A minha ansiedade era tal que ia na Da Vinci todos os dias só pra ver o RPG reservado. Dona Vanna, sádica leitora de mentes, me pressionava:

– Se não comprar no prazo, vou vender pra outro.

Vendeu.

Quando consegui o dinheiro, tinha passado uns dois dias do limite da reserva e ela, como prometido, vendera o jogo para outra pessoa. Fui obrigado a comprar a caixa azul do expert do D&D BECMI, o que, no fim das contas, foi uma melhor opção e, agora, pensando bem, mudou a minha vida.

Do alto da sua pretensa maldade, dona Vanna nos fazia o bem.

Um dia, no caminho pro colégio, entrei na loja no horário que estava abrindo. Não sei por que só o faxineiro estava lá e me deixou largado enquanto esperava os vendedores chegarem. Não percebi na hora, mas fiquei sozinho e de mochila na loja. Poderia ter levado, sem ninguém saber, todos os RPGs e quadrinhos que desejava, mas isso, confesso, nem me passou pela cabeça. Fiquei, como um bom servo de dona Vanna, apenas apreciando o que não conseguiria comprar e buscando na minha mente maneiras de honrar as reservas que tinha feito. No colégio, quando contei essa história, fui chamado de otário pelos meus colegas, mas, graças à dona Vanna, descobri que era apenas honesto.

Me tornei um jovem adulto e a minha relação com ela, ou com a loja, melhorou.

Aprendi a garimpar e a pedir livros que não tinham na loja, o que me dava mais tempo para guardar o dinheiro necessário para quitar minhas dívidas. Passei dos RPGs pro Tarot, do Tarot pros pocket books, dos pockets pros livros de filosofia, psicologia e ciências sociais, e, enfim, me tornei um cliente de todas as seções da loja.

Dona Vanna, tenho certeza, me ensinou a ser um melhor leitor.

Acabei me tornando eu mesmo um livreiro, e, apesar de ser um colega de profissão, continuei a respeitar e a temer dona Vanna. O medo talvez fosse exagerado, mas o respeito sempre foi devido.

Nessas voltas que a vida dá, acabei, após sócio de duas livrarias, indo trabalhar num prédio próximo à Da Vinci. Um colega do trabalho, apreciador de Cultura Cervejeira, sua História, suas Circunstâncias,  estava procurando livros realmente especiais sobre o tema e o levei na dona Vanna.

Ao contrário de mim, que cresci sob o regime de terror de dona Vanna, ele se sentou à sua frente com naturalidade, bateu altos papos com ela em francês sem o menor pudor e saiu de lá com uma lista de livros e revistas encomendados.

Um dia seu telefone tocou no trabalho e eu atendi. Tremi, era a voz da dona Vanna:

– Por favor, avise ao seu Luís Guilherme que estou em Paris e achei quase tudo que ele me pediu.

Foi isso mesmo que você leu: dona Vanna estava em Paris procurando os livros que ele encomendou. Naquele momento eu descobri quem eu queria ser quando crescesse.

Meio sem aviso, após uma grande expansão, a Da Vinci definhou, Dona Vanna sumiu da nossa vista, e colocaram no lugar da loja um pastiche de comércio que não merece o nome do templo criado por ela.

Ontem fiquei sabendo do seu falecimento e, sinto, uma parte de mim também se foi. Ela não sabia meu nome, nossos contatos foram poucos e comerciais, mas é realmente espantoso como a sua figura icônica foi tão importante na minha formação como leitor. Nesses tempos em que a cultura está sendo destruída no país, a sua falta será ainda mais sentida. Que todos nós tocados pelo seu rigoroso amor pelos livros consigamos seguir o seu exemplo de honestidade intelectual e paixão pela cultura.

Arrivederci, maestra!

Nada de novo

No grupo de familiares e amigos, foi o último a se desfazer do celular. Finalmente, depois de 18 meses de inatividade, chegou à conclusão que não fazia mais sentido carregar aquele pedaço de plástico e metal prum lado e pro outro.

Como uma criança se desfazendo da chupeta, jogou o aparelho sem uso numa daquelas latas de lixo para eletrônicos que foram instaladas em todas as esquinas, e, livre daquele peso, respirou fundo. Tudo parecia diferente.

Um silêncio feito de pequenos e indistintos sons penetrou seus ouvidos e lhe deu a impressão que, pela primeira vez, a pressão externa e interna estavam equilibradas. Olhou pro céu azul e o sol lhe cegou por um pequeno momento. “Pra onde ir?”, se perguntou tomado pelo calor e pelo clarão aconchegante dos raios solares. Não tinha resposta, nem a quem perguntar. Resolveu caminhar sem rumo.

No caminho, reencontrou paixões ancestrais, vizinhos queridos e amigos de infância. Se deixou levar pela fome, e comeu, em lanchonetes perdidas, antigas delícias que o lembravam da sua história. Parou em sebos e folheou revistas e livros que sabia de cor, mas tinha esquecido. E enfim chegou na praça.

Calados, sozinhos ou acompanhados, os moradores das redondezas tomavam cerveja e sol, enquanto observavam as crianças correrem e subirem em brinquedos exercitando um silêncio esquecido, mas necessário. Foi até o pipoqueiro, comprou a sua cerveja e se sentou num banco ao lado de um desconhecido. Se cumprimentaram com um silencioso e sincero balançar de cabeças. Tomou um gole generoso da sua garrafa, fechou os olhos sorrindo e jogou a cabeça para trás, para sentir o sol em toda a sua plenitude.

Não tinha nada pra contar. Enfim.

Os fantasmas das resoluções de ano novo

2 de janeiro. Ele ainda estava curtindo a ressaca do Réveillon quando recebeu as visitas dos fantasmas das resoluções do ano novo.

Primeiro foi o seu eu magro. Esbelto, forte e atraente, ele pediu pelo amor de Deus que ele não se exercitasse, nem fizesse dieta.

– Nós viraremos um ímã de mulheres, o que deixará a nossa mulher patologicamente ciumenta e acabará com a nossa paz familiar.

Depois foi o seu eu rico. Bem-vestido, opulento, mas cansado, ele rogou:

– Não nos meta a mostrar serviço demais esse ano. Vamos acabar sendo promovidos em série e terminaremos acumulando os trabalhos do nosso chefe e do chefe do nosso chefe, além do que já estava na nossa conta. Pra piorar, a nossa família vai se acostumar com o luxo e não vamos conseguir mais descansar.

Para finalizar, seu eu famoso apareceu. Também trazendo um alerta:

– Vamos deixar esse lance de reconhecimento e fama de lado. Só vamos atrair gente mal-intencionada e oportunista, e nos tornaremos alvo da inveja alheia.

Assustado, ele decidiu que só teria uma resolução esse ano: não ter resoluções. Essa, finalmente, ele conseguiu cumprir.

Zen e a arte de preparação de sanduíches

Não tem mistério.

São duas ou mais fatias de carboidratos entremeadas com recheios. Em geral, proteínas vegetais ou animais, intercaladas com laticínios sólidos, complementados por legumes e verduras. É opcional, mas bastante comum, aplicar diretamente sobre o carboidrato, alguma pasta dos 3 tipos de recheios anteriores, ou mesmo uma mistura delas. Finalize com condimentos, sal, pimenta, ervas e afins, ao seu gosto.

As regras são poucas. Se a pasta for de laticínio sobre ela se coloca a proteína. Se a pasta for de proteína, o laticínio sólido. Os vegetais podem ficar entre os dois. Em ambos os casos. Mas se for do seu agrado, quebre a regra.

Eu sei que há discussões sobre o formato e o tipo de carboidrato, os tipos e as temperaturas dos recheios, e se isso altera a identidade do sanduíche; se ele vira outra coisa. Acho-as inócuas e inúteis. Afinal, a melhor resposta para esse tipo de questionamento é sempre: “depende”.

Na minha opinião, o mais fácil é manter tudo simples. Basicamente tudo é um sanduíche. Tudo tem uma forma, recheios variados que interferem no gosto um dos outros, e geram uma experiência complexa a partir de elementos simples. Se tudo for decomposto, há mais clareza sobre a sua essência, mas também menos graça. O melhor mesmo é preparar e morder o seu sanduíche para aproveitar o sabor que ele nos permite sentir, sem entender ou mesmo querer investigar de onde essa sensação maravilhosa vem.

E isso, sim, é um mistério.

Como ser meu amigo

Meu amigo mais antigo, quando me conheceu, veio falar comigo só para me espezinhar. Acompanhado por um grupinho de arruaceiros de 4 anos, no meu primeiro dia de aula em um colégio novo, me perguntou ironicamente por que eu estava usando saia.

– Não é saia, é bermuda, seu idiota- esclareci gentilmente.

Pouco tempo depois, não me lembro como, nos tornamos amigos, mas continuamos a brigar e a competir. Nos apaixonamos pela mesma menina na Classe de Alfabetização e quando ela e sua família foram visitar minha mãe no hospital, depois da sua histerectomia, ele lamentou comigo:

– Que sorte que sua mãe teve câncer.

O pior é que entendi seu comentário.

Esse padrão de abuso se repetiu em todas as amizades importantes da minha vida. Raiva, birra, ranço, rivalidade, inveja, ódio e desprezo foram as emoções mais comuns nos primeiros encontros com tantos que se tornaram meus amigos do peito. E, depois, os relacionamentos mantinham um equilíbrio perfeito de animosidade amistosa que garantia surpresa e diversão nas nossas interações.

Na verdade, sempre desconfiei de gente amigável. Me dá a impressão que fazem pouco da minha pessoa ou querem se aproveitar de mim. Quer me conquistar? Entre em conflito comigo. Vejo sinceridade na negatividade de suas emoções. Como uma harpa afinada, a amizade harmoniosa necessita de tensão nas cordas e toques violentos para funcionar. Boas maneiras e gentileza são, para mim, sinal de gente pouco imaginativa, chata ou falsa. Que monótono deve ser conviver com gente que concorda contigo.

Um verdadeiro herói brasileiro

No início dos anos 40, meu pai tinha seus 20 e poucos anos e era um sujeito meio promíscuo. Tinha, entre vários hábitos abjetos, o de frequentar uns lugares chamados “dancings”, onde homens solteiros pagavam para dançar com mulheres desconhecidas. Funcionava mais ou menos assim: o cara chegava no salão e escolhia uma mulher numa fila; dançava com ela e marcava num cartãozinho quantas músicas dançaram; e, no final, acertava o custo das danças na saída. Óbvio que isso envolvia mais que dança, mas, na época, o pessoal fingia que era um troço normal. Fingia.

Calhou que meu pai começou a “dançar” bastante com uma mesma mulher num desses “dancings” e eles começaram a ter um relacionamento fora das pistas. O lance ficou tão sério que chegou a se tornar meio obsessivo, com ela perseguindo ele e tudo.

Meio sem saber como se livrar dela, meu pai aproveitou o bonde da segunda guerra, se alistou como voluntário e escapou para a Itália. Mas nem isso deu um jeito nela, que escrevia diariamente para ele e esperava respostas com a mesma frequência.

Sentindo-se acuado até nas trincheiras, ele resolveu que ia dar um jeito na situação de uma vez por todas e combinou com um amigo aqui do Brasil de forjar a sua própria morte. Isso mesmo, forjar a própria morte.

O lance rolou mais ou menos assim. Ele mandou um telegrama oficial, sabe-se lá como, informando pro tal amigo sobre a sua morte em combate. O amigo, que também frequentava o “dancing”, levou o telegrama pra dançarina e compartilhou as más notícias com ela. O meu pai esperava que isso fosse fazer ela se esquecer dele, e, quando voltasse, depois da guerra, estaria totalmente livre. Quase deu certo. Quase.

O que ele não esperava é que a tal mulher realmente gostasse dele. Se sentindo a viúva de um herói de guerra, a mulher não fez por menos e pagou uma missa de sétimo dia para homenageá-lo. Até o amigo envolvido na mutreta foi convidado pro evento e relatou depois pro meu pai que a Igreja de Santa Luzia, aquela igreja grande, ali no comecinho da Avenida Antônio Carlos, ficou coalhada de moças do “dancing”, todas de sóbrios vestidos pretos numa manhã de sábado. Além delas, ainda pintou uma boa quantidade de funcionários e clientes do “dancing”. Todos consternados e de luto pela perda do amigo herói de guerra.

Quando ficou sabendo da missa em sua homenagem, meu pai rolou de rir e, apesar do inusitado da situação, imaginou que pelo menos tinha se livrado da mulher. Imaginou errado.

Os anos passaram, a guerra acabou, meu pai voltou pro Brasil e nem lembrava mais da história da mulher. Até que um dia…

Ele estava num restaurante com uma outra dona quando viu entrar pela porta a mulher do “dancing” com seu atual consorte. Ele gelou. O tempo tinha passado, mas ele ainda poderia ser reconhecido por ela. Que tipo de reação maluca ela teria? Ele segurou a mão da sua acompanhante e disse:

– Olha, agora provavelmente vai acontecer um dos troços mais malucos da sua vida. Então, fica na sua e só concorda com tudo o que eu disser.

Deixa dada, não deu outra, a mulher do “dancing” bateu os olhos no meu pai e veio que nem uma bala em sua direção.

– Muito bonito… O senhor inventa que morreu e agora lhe encontro aí, vivinho da silva. Eu chorei horrores por você. Horrores. Cheguei a ficar de luto por você por três anos. Três anos. Canalha! Canalha!
– Desculpe, a senhora deve estar me confundindo com outra pessoa- ele respondeu placidamente.
– Deixa de história, seu Leonam. Eu sei muito bem que é o senhor mesmo.
– Leonam? Leonam era o nome do meu irmão que morreu na guerra.
– Ahn?
– É, meu irmão gêmeo, Leonam. Talvez por isso a confusão. Ele morreu em combate na Itália. Um verdadeiro herói brasileiro. A senhora o conhecia?

A dançarina desabou. Tascou a chorar e pedir desculpas. Meu pai até chorou emocionado com a reação dela. Acabou convidando ela e seu acompanhante para jantarem com eles e conversarem sobre as proezas do irmão morto na guerra. No fim da refeição se despediram com abraços apertados, típicos de pessoas que compartilharam uma grande tragédia na vida.

Na saída do restaurante, a acompanhante do meu pai, enfim, pôde confrontá-lo:

– Como você nunca me contou que tinha um irmão morto na guerra, Manoel?
– Desculpa, querida, esse é um assunto muito difícil pra mim- ele desconversou, feliz de, após a perseguição da dançarina, ter adquirido o hábito cretino de mentir o próprio nome pra toda biscate com a qual se envolvia.