Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O taxista de Schrödinger

Outro dia, o cara chegou no botequim com uma questão interessante. Disse, ele, que ao pedir o pix do taxista pra pagar a corrida, apareceu um nome de mulher no aplicativo do banco. Pra confirmar se o dinheiro ia pro lugar certo, perguntou:

– Fulana Sicrana de Tal? É isso mesmo?
– Sim- o motorista confirmou.- Esse é o meu nome antes da mudança de sexo.

Na hora, o cara congelou. Estava numa encruzilhada. Tanto podia ser uma piada do taxista como podia ser verdade. Como reagir? Seu instinto e criação nos anos 1980 apontavam para a primeira opção e o instigavam a mandar de pronto um carioquíssimo “ Tá certo, malandro… Fala sério!”. Suas leituras e últimas experiências diziam que ele corria o risco de ser insensível e acabar agindo de forma ofensiva ou até transfóbica. Por segurança, seguiu o segundo instinto, que, em geral, é sempre melhor que o primeiro.

– O banco não usa o nome social?- continuou o papo tentando fingir naturalidade.
– Não, o pior é que não. Tem uma burocracia qualquer que obriga eles a usarem o meu nome antigo- o motorista respondeu sem o menor tom de gaiatice na voz.

O cara fez o pix, saltou do táxi, mas esqueceu de dar uma olhada no motorista pra tentar resolver a sua dúvida. Por mais que a continuação da conversa tenha sido aparentemente séria, havia chances iguais de ser zoação do motorista ou não. Em vez de ir pra casa, aturdido, o cara veio aqui pro bar e compartilhou a história com a confraria.

A galera se dividiu: uma parte achava que era o nome da mulher ou namorada do taxista e ele aproveitou pra dar uma zoada; a outra achava que era verdade. Seja como for, todo mundo concordou que o cara agiu certo:

– Tem que respeitar as diferenças sempre, certo?
– Certo.

Nas semanas seguintes, vez ou outra, o assunto ainda surgia nos papos, e evoluía até o ponto em que alguém tentava encerrar a conversa proclamando:

– É um paradoxo. Um pa-ra-dó-kis-so.

Mas os mais chatos não largavam o osso e continuavam a querer discutir, explicando que a situação era igual ao paradoxo de Schrödinger, aquele do gato que está morto ou vivo ao mesmo tempo:

– Vejam só, o taxista, nesse momento, pode tanto ser só um zoador como também pode realmente ser uma pessoa trans. Ou melhor, nesse momento, ele é as duas coisas. Abrir essa caixa irá determinar uma realidade que, agora, é dupla. Vivemos em dois universos diferentes até essa dúvida ser sanada. Será que vale a pena ou temos motivo para abrir a caixa e resolver essa incerteza?

O cara, que vivenciou a história, e ouvia as discussões a distância, ficou feliz de ter tomado a decisão certa. Fosse o motorista trans ou zoador, ou mesmo um trans zoador, o cara, tinha certeza, escolheu a melhor opção.

– Tem que respeitar as diferenças sempre, certo? – repetia baixinho pra si mesmo.

Às vezes a melhor resposta ao paradoxo não é resolvê-lo, mas aceitá-lo. E o cara estava certo: isso faz uma bruta diferença.

Agradecer faz parte

Não lembro do filme, mas lembro da frase:

– Não rezo pra pedir. Rezo pra agradecer.

Faz sentido. Pacas. Pedir é meio caminho pra ficar frustrado. Se não recebe o que pediu, você vai ficar puto. Com Deus, com o diabo, com o governo, com você mesmo. Há sempre alguém a se culpar pelo que não conseguiu. Além disso, mesmo se conseguir o que esperava, pedir é prestar menos atenção no que vem na sua direção. Focar numa coisa só te impede de curtir as surpresas que a vida te prepara e elas, muitas vezes, são melhores do que qualquer coisa que você podia imaginar. Por isso se chamam surpresas.

Assim, seguindo o conselho do filme do qual não lembro o título, em vez de pedir por coisas em 2023, vou agradecer pelo que de bom me aconteceu. O que esperava, o que eu não esperava, o que foi surpresa agora, o que já foi surpresa há muito tempo. Vou agradecer.

Vou agradecer por estamos bem e com saúde. Vou agradecer por estarmos trabalhando e estudando. Vou agradecer pelos 20 anos de casados com a Gabi e pela nossa filha maravilhosa, que estreou em livro e peça esse ano. Vou agradecer pelos amigos que nos rodeiam, mesmo que tenhamos perdido alguns muito queridos esse ano; mas pior seria não te-los em nossas vidas. Vou agradecer por saber lidar com o luto como o preço que a gente paga por amar. Vou agradecer por não ter vergonha de citar Elizabeth II. Vou agradecer pelas nossas famílias, meio abaladas pela polarização política, mas aprendendo a lidar com as diferenças de opinião. Vou agradecer pelo fim do (des)governo da besta fera e pela expectativa de normalidade que o ano que vem carrega. Vou agradecer pelos livros que li, os filmes e séries que assisti, tanto as boas como as ruins. Vou agradecer por ter reaprendido a curtir até o que não é bom. Vou agradecer pelos risos, pelas piadas, pelas conversas sérias e assuntos importantes. Vou agradecer por ainda saber separar os momentos leves dos pesados. Vou agradecer por ter lançado meu livro físico e continuar escrevendo (quase) todo dia. Vou agradecer por ter ajudado alguns amigos a publicarem seus próprios livros e estar aprendendo a ser um editor. Vou agradecer pelos lugares que conheci e aos quais quero voltar. Vou agradecer por alimentar meus sonhos, sem a pressão de transformá-los em metas. Vou agradecer pelos projetos em que me meti; tanto os que deram certo, como os que deram errado. Vou agradecer por aprender com isso tudo que rolou. Vou agradecer por ter voltado a nadar, mesmo que ainda  precise vencer a preguiça e nadar mais. Vou agradecer por ter lembrado de agradecer, o que prova que estou menos mal agradecido.

Que em 2023, tenhamos muito mais a agradecer.

Obrigado por me ler nesse e em outros anos. Agradecido. 😉

TT, superlativamente onipresente

Não lembro quando conheci a TT. Foi como se num momento ela não estivesse na nossa vida, e depois ela estivesse em, literalmente, todos os lugares. Uso literalmente sem exagero. Tínhamos amigos em comum aos baldes. Para onde nos virássemos ela estava lá. Na festa de um amigo de colégio, no chopp de despedida de uma amiga do prédio, num encontro na praça com um colega de trabalho. Ela não só parecia conhecer todo mundo, como também era amada por todos.

Era basicamente impossível desgostar dela, apesar das broncas, e olha que broncas, que ela nos dava. Com seu vozeirão rouco e seus gestos expansivos, ela, como a mãezona do grupo, puxava as nossas orelhas em público, sem o menor pudor. A gente até podia ficar puto, mas o problema é que sabíamos que ela estava certa. Sempre. Assim, quando caíamos na real, ou as profecias dela se cumpriam, a gente voltava com o rabo entre as pernas,cheio de vergonha, ao seu convívio. Ela, por outro lado, agia como se nada tivesse acontecido. Tanto sabia puxar nossas orelhas, como acolher.

E como acolhia. Mesmo numa sala com 50 pessoas, ela conseguia sempre passar a impressão de que éramos as pessoas mais importantes para ela, talvez porque fóssemos. Ela, tanto se alimentava das nossas presenças, como retribuía essa energia com carinhos personalizados. Para os de abraços, abraços; para os de beijos, beijos; para os de papo, papo.

E seus papos eram os melhores. Do mais banal ao mais esotérico, ela não só conhecia de tudo, como também tinha opiniões bastante sólidas a respeito. Opiniões que ela defendia com unhas e dentes, para no meio de um ataque de teimosia, mudar de opinião, ou quase, nos dando o seu precioso benefício da dúvida. Era forte, mas sabia ser vulnerável e, principalmente, apoiar os que precisavam de ajuda.

Todo mundo tem uma história de quando ela quebrou um galho, trouxe uma palavra amiga, ou moveu mundos e fundos para nos ajudar. A primeira vez, de muitas, em que colhi a sua generosidade foi quando meu sebo estava bem mal das pernas e ela levou o evento do BOST para ser feito lá, gerando uma puta publicidade gratuita. O que é BOST? Deixa eu explicar.

Ela, criativa pra danar, com seu enorme grupo de amigos, fãs de LOST, fez uma paródia em vídeo da série. Os vídeos, no distante ano de 2005, via o finado Orkut, viralizaram e acabaram na coluna do Tom Leão no Rio Show. Na época, pra dar uma bombada na loja sugeri que fizessem um evento de casting para a segunda temporada na minha loja que estava com certeza precisando de mais clientes. Ela abraçou a ideia e fez uma super bagunça na loja que encheu de gente pra ver ela dirigindo o seu elenco amador. Não lembro como agradeci na época, mas tenho certeza que não agradeci o suficiente.

TT esteve tão presente nas nossas vidas que achávamos que ela sempre iria estar. Quando minha loja faliu e arrumei meu primeiro emprego de carteira assinada, ela estava lá. Quando fomos pra BH, sempre que vínhamos ao Rio ela fazia o maior esforço para nos ver. Quando Gabi ficou 3 meses de intercâmbio, era ela com quem eu batia papo no facebook. Quando lancei meu livro, ela foi uma das primeiras a comprar, a ler, a divulgar e a aparecer na tarde de autógrafos. Óbvio que dando ordem:

– Escreve uma dedicatória bonita pra mim, pô!

Por isso, ontem, quando recebemos a notícia, foi difícil acreditar. Foi difícil aceitar que ela não estará mais entre nós. Não estará no chorinho, não estará na praia, não estará no chopp, nem na feira da Glicério. TT tornou o Rio de Janeiro um campo minado de memórias e sentimentos para nós. Um campo minado das melhores memórias, dos mais doces sentimentos.

Porém, se servir de algum consolo, TT agora estará literalmente por toda parte, em todos os lugares do universo, em todos os planos astrais, e continuaremos esbarrando para sempre com ela nas armadilhas que a sua enorme amizade deixou para nós. TT, sempre no superlativo, se tornou um onipresente presente para o mundo. Obrigado por ter feito parte das nossas vidas.

Nosso nome é Gal

O dia mais lento e mais agitado do sebo era sábado de manhã. Livreiros, ressaqueados dos abusos da sexta-feira, se escondiam, atrás do balcão, enquanto clientes solares e animados buscavam palavras, imagens e sons para lhes fazer companhia no fim de semana. Enfim, era exatamente o tipo de gente que queríamos receber todos os dias na loja, mas não naquele dia.

Numa dessas manhãs, por volta das onze horas, um jovem casal entrou na loja. Ele: magro, de bermuda social, camisa curta de botão, cavanhaque, e óculos de armação transparente. Ela: vestido de chita, cabelo preto e ondulado, preso por um lenço, indo até a cintura, bolsa de lã, sandália franciscana, e bochechas proeminentes e rosadas. Enquanto ela abria caminho dançando pela loja, ele vinha, discreto atrás, pegando o que ela derrubava pelo trajeto.

– Olha, amor, CDs- ela cantarolou.

Ele se colocou ao seu lado e começaram a ver os CDs um por um. Ela não conseguia se controlar e comentava sobre todos, sim, verdade, todos os CDs à venda. De 3 em 3 comentários, ela pedia para colocar um pra tocar:

– Será que a gente pode ouvir um pouquinho desse do Paulinho da Viola?
– E esse da Marisa Monte? A gente pode ouvir a música 3?
– Olha, Xuxa! Ah, esse eu preciso ouvir.

Depois do 3° ou 4° CD, me coloquei ao lado do som para atender aos seus intermináveis desígnios. Por volta do meio dia e depois de passarmos por 23% do cancioneiro popular brasileiro, ela pareceu achar o que queria:

– Amor, você não vai acreditar…Gal! GAL!

Ela nem precisou falar nada, me entregou um CD, daqueles baratos de coletâneas de maiores sucessos, e eu, no automático, coloquei ele pra tocar.

– Ai, pode tocar Chuva de Prata de novo?
– Vai, amor, dança Festa do Interior comigo.
– Olha, ela gravou Vapor Barato também, tipo O Rappa!
– Baby, baby, eu sei que é aaaasssssiiiiimmmm…

Quando terminamos a terceira audição, eu não resisti e perguntei:

– Então, vai levar o CD?
– Claro,- ela não titubeou- quanto é?
– 7 reais.
– Só isso?! Amor, paga ao moço.

O menino magro colocou as mãos nos bolsos, abriu a carteira e nada. Nem um tostão furado. Antes que ele falasse alguma coisa, ela se adiantou:

– Deixa que eu pago, amor.

Ela pegou a bolsa de lã e virou seu conteúdo sobre o balcão. Entre roupas e maquiagens; livros e papéis de seda; pacotes de biscoito e garrafas d’água vazias; ela mergulhava em busca dos 7 reais que lhes dariam o direito a levar Gal para casa. Quando já estava quase desistindo, ela achou um ticket refeição de papel.

– Olha, que sorte! E é um ticket de 7 reais. Vocês aceitam ticket refeição?

Não, a gente não aceitava, mas não me senti no direito de acabar com a felicidade deles.

– Eu dou um jeito- respondi.

Guardei o ticket comigo, peguei 7 reais da minha carteira e coloquei na registradora. Tirei o CD do som, coloquei na caixa e entreguei para eles:

– Divirtam-se.

Ela, como entrou, saiu dançando, enquanto ele seguiu atrás calado, não sem antes se virar pra mim e fazer uma reverência com as mãos em prece. Juro, quase ouvi ele falando Namastê na minha mente.

Logo depois que eles se foram, terminou o meu turno e eu saí pra almoçar. Parei num botequim perto da loja e achei no cardápio um prato que custava justamente 7 reais.

– Vocês aceitam ticket?- perguntei.
– Claro- o garçom estranhou.

Pedi o prato e enquanto tomava uma cerveja, esperando ele chegar, fiquei me perguntando quanto tempo mais aguentaria aquela rotina do sebo. O trabalho era divertido, mas as horas eram longas e o salário, curto. Por mais que pensasse em sair de lá, o que diabos eu poderia fazer para ganhar a vida? Como cantava Gal, eu precisava passar por um longo caminho até poder ir pra outro lugar:

Você precisa aprender inglês
Precisa aprender o que eu sei
E o que eu não sei mais
E o que eu não sei mais

Porém, não podia negar, mesmo com a falta de grana, o atendimento aos clientes, como a esse casal, sempre me lembrava que as coisas, por mais difíceis que fossem, iam bem, muito bem, por sinal. Na minha cabeça, Gal fazia coro:

Não sei, comigo vai tudo azul
Contigo vai tudo em paz
Vivemos na melhor cidade
Da América do Sul
Da América do Sul

Sim, a Gal tinha razão, tava tudo azul e vivíamos na melhor cidade da América do Sul. É, baby, é, baby, eu sei que era assim.

Os golpistas e os gaviões

Uma semana depois de tomarem o forte, o cansaço começou a bater nas tropas golpistas. Suas provisões também estavam acabando, mas a esperança ainda era forte. Segundo lhes informaram, o rei deposto, motivo da sua insurreição, sabia de seu esforço e em breve mandaria reforços. O povo escolhido pelo que se dizia o Messias não seria deixado de lado.

Quando a barriga roncava, na hora das refeições que pulavam para economizar alimento, eles se juntavam e rezavam, clamando que o rei deposto ouvisse suas súplicas, destruísse seus inimigos e garantisse seus lugares no paraíso. Se as forças faltavam, a fé compensava, mas até quando?

Na segunda semana, pessoas começaram a adoecer. Sem acesso ao conhecimento médico para salvá-las, afinal a ciência, assim como a arte, era proibida pelo seu rei, eles dispuseram os doentes do lado de fora do forte sobre a grama molhada e a terra nua para morrer logo e não competirem pelo alimento dos que ainda tinham saúde. Nas longas noites de fome e escuridão, era possível ouvir os lobos uivando em comemoração pelas presas fáceis entregues por aqueles que ainda se diziam cristãos.

Os sobreviventes mantinham a fé, mas a cada minuto cada vez mais pessoas se perguntavam se estariam vivas para ver os reforços do rei deposto chegarem para lhes resgatar. Mesmo oprimidos pelo sentimento da dúvida, eles se mantinham calados e vigilantes para afastar qualquer pensamento divergente. O seu rei demanda uma lealdade ferrenha do seu povo e eles não podiam lhe faltar.

Na terceira semana, as fugas começaram. Primeiro tentaram fugir os mais hábeis, depois os que ainda tinham traços de consciência. Para reforçar as crenças do grupo e promover a supressão do pensamento livre, os que eram pegos tentando fugir eram mortos com requintes de crueldade. Na miséria e na dor, apenas a obediência cega ao seu rei pretensamente divino lhes alimentava.

Os corpos das vítimas de suas próprias consciências, ao contrário dos doentes, foram guardados para servir de alimento no caso dos reforços demorarem. O canibalismo, antigamente abominado pela moral do reino, agora era aceito sem discussão em nome da sobrevivência da tropa voltada a garantir o retorno do rei deposto a um trono que não era mais seu.

Na quarta semana, a barbárie tomou conta do forte. Talvez gulosos pela carne humana à qual facilmente se acostumaram, os golpistas transformaram em alimento, não só os fujões e os doentes, mas qualquer um que os autoproclamados líderes considerassem traidores. Quanto maior fosse a fome, mais comportamentos eram considerados traição. Não rezar dez vezes ao dia, mostrar compaixão com os doentes, sentir medo ou reclamar de dor. Tudo estava se tornando motivo para condenar o próximo à morte e à panela.

Quando restaram apenas os líderes, finalmente foi feito um acordo para evitar, ou pelo menos, adiar as mortes. Eles precisavam estar vivos para a chegada dos reforços que iriam recolocar seu rei no poder e destruir as inimigos que ameaçavam o seu falso deus. Assim, continuaram canibais, mas passaram a se mutilar e comer pedaços de suas próprias carnes para se manter vivos.

Na quinta semana, algo surgiu no horizonte. As tropas, sem mãos, braços e pernas, cansadas de esperar, se regozijaram pela sua sorte. Tinham certeza: eram as tropas de reforço do rei. Agora faltaria pouco para ele voltar ao poder. Com muito esforço, abriram os portões do forte para recebê-los. Porém, quando os soldados se aproximaram, eles perceberam que não eram reforços golpistas, eram as tropas dos gaviões do novo rei.

Em desespero, os golpistas tentaram fechar os portões e defender o forte, mas foi inútil. Rapidamente, o pouco que restou das tropas rebeldes foi dizimada pelos verdadeiros heróis do reino que depuseram o tirano que se dizia Deus. Mas os seus seguidores até o fim acreditaram, que mesmo na morte venceriam, pois o paraíso seria deles.

Estavam errados, pois o céu sempre pertenceu à tropa dos gaviões. A eles, desumanos canibais golpistas, só restou o inferno, assim como ao seu rei.

Meu vizinho, Arnaldo

Foi o porteiro quem me alertou do novo vizinho:

– Tá morando do lado de celebridade agora…
– Sério? É atriz? Modelo?
– Não, é homem.
– Ator? Jogador de futebol?
– Melhor você mesmo ver…

Cheguei em casa, e, para não parecer tão afobado, esperei até umas 8 da noite para tocar a campainha do vizinho.

JÁ VAI! – uma voz tenebrosa e sinistra soou do outro lado da porta.

A voz foi um prenúncio muito leve do que me esperava. A porta abriu e lá estava ele: o Major Pavor, o super “herói” da ditadura militar. Dois metros e meio de altura; o rosto putrefato, decorrente da experiência genética que lhe deu superforça e o poder de voo; o uniforme verde e amarelo que foi fundido ao seu corpo para lhe dar invulnerabilidade; acusado de milhares de crimes políticos, dos quais só escapou de ser preso por conta da lei da Anistia; e, pelo o que eu lembrava, tinha sumido no interior do Brasil arrependido de seu passado. Eu esperava que essa parte final fosse verdade.

SIM?
– Oi, er… tudo bem? Eu sou seu vizinho de porta e vim aqui pra me…. ahm…. apresentar. Tudo bem? Seja bem vindo. Bom, se precisar de alguma coisa, você sabe… ahm, é só avisar.
MUITO PRAZER– ele estendeu a mão enorme em minha direção.- PRA FALAR A VERDADE ACHO QUE VOCÊ PODE ME AJUDAR COM ALGO.
– Claro. O que posso fazer por você?

Ele me convidou pra entrar. A sua casa ainda estava cheia de caixas, mas já dava pra ter uma ideia da decoração meio hippie, meio krishnamurti.

AQUI– ele apontou para uma caixa marcada com um adesivo de frágil.- PRECISO PEGAR UM PORTA RETRATO NESSA CAIXA MAS ESTOU COM MEDO DE QUEBRAR TUDO AÍ DENTRO.
– Ok, deixa eu ver o que posso fazer.

Abri a caixa sem muito jeito, mas não quebrei nada. E do meio de folhas e folhas de plástico bolha tirei um porta retrato onde tinha uma foto do Major Pavor com o Betinho, sim, o irmão do Henfil, do Fome Zero.

Ele pegou o porta retrato com a ponta dos dedos e o colocou no rack da televisão.

– Você conheceu o Betinho?- tentei puxar assunto.
SIM. FUI VOLUNTÁRIO NO FOME ZERO. GRANDE SER HUMANO.
– É, eu imagino. Bom, então, foi um prazer. Qualquer coisa…
QUE ISSO. DEIXA EU TE RETRIBUIR. QUE TAL UMA CERVEJA?
– Bom, tá meio tarde…
NÃO ME FAZ ESSA DESFEITA. É UMA CERVEJINHA SÓ.
– Ok, se for uma só…

Não foi uma só. Só saí da casa do Major Pavor de madrugada, depois de ouvir toda a sua epopeia.

Apesar de ter o nome de Major Pavor, ele era um recruta que foi submetido a experiências coordenadas pelo Mengele, que vivia escondido no Brasil e protegido pelo governo militar. Sem muita perspectiva, confessou, fez muita coisa da qual hoje se arrepende. Com a Anistia, ele foi liberado de suas funções e, profundamente abalado pela sua consciência, foi morar numa comunidade hippie no interior de Minas. Lá começou a meditar e se tornou budista. Depois de 40 anos de reclusão voltou à cidade grande para ajudar a cuidar de uma tia nonagenária e fazer faculdade de serviço social. E, contando com as inúmeras cervejas que tomamos, isso terminava a sua história.

Quando fui pra casa, apertamos as mãos no corredor:

– Pô, Major Pavor, vou te dizer, realmente foi um prazer conhecer a tua história.
NÃO ME CHAMA ASSIM. JÁ DEIXEI ISSO NO PASSADO. MEU NOME É ARNALDO. ARNALDO.
– Blz, Arnaldo.

No dia seguinte, no botequim, o assunto era o Major Pavor. Um pessoal se dizia com medo da sua presença. Será que ainda era o reacionário que auxiliou o governo militar? Outro grupo queria se organizar para expulsá-lo do bairro. Onde já se viu dar guarida a um símbolo da opressão? Eu, como o tinha conhecido, me calei. Não sabia o que dizer. Realmente o que ele tinha feito fora imperdoável, mas ele me parecia ter mudado. Por mais que, concordo, ele não devia ter sido anistiado, até quando alguém deve pagar pelos seus crimes? Será que acreditamos de verdade que alguém pode se regenerar ou só dizemos isso da boca pra fora?

Enquanto os ânimos se exaltavam no botequim, de repente, precedido pelos seus ruidosos passos, o Major Pavor passou pela praça, com uma sacola de compras, indo em direção ao Hortifruti.

FALA, VIZINHO– ele acenou pra mim.
– Fala, Arnaldo- respondi.

O botequim todo se virou pra mim, assustado. Depois de um longo momento de espanto, alguém finalmente conseguiu quebrar o silêncio:

– Então, quer dizer que você conhece o Major Pavor?
– Não, quer dizer, eu conheço ele, mas o nome dele não é Major Pavor, é Arnaldo. É Arnaldo.