Down the hatch

Depois de quase duas semanas de quarentena, tenho percebido como a gente consegue se acostumar a muita coisa. A aparente anormalidade se torna rotina e revela mais sobre a gente do que sobre o mundo em que vivemos.

Os horários de dormir e acordar; as mentiras, boas ou ruins, que contamos pra nós mesmos; os hábitos, os costumes, as esquisitices que todos sempre reclamaram se tornam óbvias e irritantes. As necessidades repentinas; os tons, as pausas, as expressões idiomáticas que só nós utilizamos; as coisas, que nunca estiveram perdidas, encontradas nas contínuas rearrumações que nos tornam arqueólogos de nós mesmo.

Nesse momento, com limites de espaço e sobra de tempo, nos redescobrimos e voltamos a ser nós mesmos. Sobrevivendo, e tentando manter viva a nossa ilusão de identidade. Nesse momento onde é impossível discernir quem somos do que fazemos, é que nos libertamos da nossa escotilha.

Tenho percebido isso, e lembrado de Lost. É. De Lost.

Nas duas primeiras temporadas, o tema era o isolamento e a redescoberta da identidade em uma situação extrema. Não por acaso o início da segunda temporada se dá com a libertação de Desmond, que estava preso, do outro lado da escotilha, em quarentena, condenado a um home office sem sentido, onde precisava digitar continuamente uma misteriosa sequência de números.

Parece algo que vivemos?

Tenho lembrado disso e percebido que, apesar de toda a decepção com seu final, eu gostava; não, eu gosto de Lost.

Depois de quase duas semanas de quarentena, descobri que precisamos de mais simplicidade e honestidade a respeito de nós mesmos e que, com toda a certeza, a vida é muito curta pra ficar com raiva eterna de Lost.

Só espero que na próxima temporada, depois de abrirmos a escotilha, a gente descubra que os Outros somos Nós.

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