Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Morte à Comédia Romântica, Longa Vida à Comédia de Amor

Desculpa avisar, gente, mas o romantismo morreu. Sim, os aspectos de ingenuidade e paixão que ligávamos ao amor, desde os exageros mórbidos do ultrarromantismo até romances água com açúcar que caracterizaram o gênero por décadas e séculos, não passam mais pelo nosso teste de suspensão de realidade. Porém isso não quer dizer que não possamos ter excelentes obras que falem sobre o amor.

Amor e romantismo, é importante lembrar, não são sinônimos. Nós simplesmente encaixávamos tudo dentro de um mesmo gênero em prateleiras de livrarias, videolocadoras, serviços de streamings, e lojas virtuais, e passamos a acreditar que essa relação de proximidade era de identidade. Não, não é.

Por mais que o romance tradicional hoje possa parecer datado e seus tropos não façam mais sentido (afinal, quem ainda acredita, além da Glória Perez, em amor impossível ou “proibido”?), as histórias sobre amor, inclusive as comédias, continuam não só relevantes, como super atuais e necessárias.

Ontem encarei uma sessão dupla de comédias românti… quer dizer, de amor, que provam esse meu ponto.

A primeira foi a comédia espanhola Volveréis. O filme conta a história de um casal madrileno em processo de separação, saudável e amigável, eles não cansam de nos lembrar, que, seguindo uma ideia ao mesmo tempo estapafúrdia e sedutora do pai da moça, resolvem fazer uma festa de fim de relacionamento. Enquanto os preparativos da festa e os avisos de separação a amigos e familiares rolam, o quase ex casal tenta organizadamente tratar das partes práticas dos começos das suas novas vidas de solteirice. Em momento algum da história se discute a razão do fim do relacionamento, nem vemos qualquer animosidade realmente marcante entre eles. A relação parece apenas ter se esgotado. Talvez por isso, os amigos e familiares não aceitem tão bem esse fim quanto o casal aparenta aceitar, e propõem constantes questionamentos que eles evitam responder. O humor da situação vem justamente do pragmatismo do casal e da performance do fim maduro e equilibrado do relacionamento que é exacerbada pelo filme dentro do filme, estrelado pelo namorado e dirigido pela namorada que adentra a narrativa “real” do casal.

“Sim, estamos estamos nos separando, mas estamos ótimos”

O segundo foi Follamente, em português, O Primeiro Encontro, um filme italiano sobre, conseguem adivinhar?, o primeiro encontro de um possível futuro casal, num sábado à noite, durante uma final de futebol, para um jantar romântico(?) na casa da mulher. Apesar de estarem sozinhos em cena por quase todo o filme, as vozes em suas cabeças, quatro para cada um, representando diferentes aspectos de suas personalidades (o sexual; o racional; o romântico, olha quem apareceu por aqui; e o desequilibrado) discutem impelindo ou impedindo as suas ações. Além disso, em seu refúgio, o encontro também é invadido pelas vidas pregressas dos, torcemos, futuros namorados na figura de filhos e antigos relacionamentos fracassados. Apesar do protagonismo dos diálogos internos, aos poucos, a comunicação direta entre eles começa a acontecer, permitindo até que essas facetas de suas personalidades saiam de suas cabeças para falarem umas com as outras.

O diretor cercado pelas vozes das cabeças das protagonistas

Além de serem excelentes comédias muito atuais e realistas, dentro de toda a fantasia que propõem, os filmes ainda carregam uma outra similaridade: tratam o amor como um trabalho de construção. Seja no trabalho social e emocional do fim do relacionamento, como no trabalho psicológico e de autoanálise do seu início, ambos os filmes e casais explicitam que, mais do que paixões avassaladoras, os amores ou, se preferir, romances precisam de esforço, dedicação e delicadeza para funcionar ou, ao menos, existir.

Para quem já tinha achado que o amor era um fotograma fora dos cinemas, desde Como Perder um Homem em 10 Dias, a execrável comédia romântica(?) que transformou o amor num job precarizado, ver essas histórias em que se relacionar é, sim, um trabalho, mas um trabalho de amor, dá até um quentinho no coração. Quem diria que no final de 2025 poderíamos voltar a ter esperança no amor cinematográfico?

Meu desejo pra você em 2026

Que em 2026 você tenha clareza de pensamento. Afinal, como dizia o Spy vs. Spy, “Reality’s a matter of a clarity of mind”. Ou seja, não importa se as coisas vão bem ou mal, a clareza de pensamento sempre vai te ajudar a lidar melhor com a vida.

Been years gone byI’ve just abused my mindMy body’s paid the priceCome to a forkI can go up and downOr use my mouth too muchOh lord, protect my words(…)All the things I’ve saidYou know they don’t all addNow who’s a moddle head

Prospectiva 2026

Toda virada de ano (e, dependendo da minha ansiedade, de semestre) eu chamo a minha taróloga pra bater um papo sobre minhas expectativas e temores a respeito do futuro. A parte mais difícil do processo não é encarar o que (de ruim) pode acontecer, mas saber o que perguntar. Normalmente essa dificuldade vem de uma falta de honestidade comigo mesmo. Como assumir o que eu quero, não só para os outros, mas para mim mesmo?

Sim, sou desses; tenho vergonha das minhas parcas ambições. Mas esse ano fui até melhor nesse quesito e cutuquei o problema na raiz: como entrar em contato direto com os meus desejos em vez de ficar me satisfazendo com a ajuda que presto na resolução dos problemas alheios?

A resposta não foi, como esperado, algo que eu esperasse. Invés de dispender mais esforço ou me debruçar racionalmente sobre o problema, minhas formas usuais de encarar quase tudo, o recado foi: deixa rolar. Sério? Pra um sujeito como eu, acostumado a evitar a possível fadiga futura trabalhando antecipadamente, é um exercício cruel.

Confesso que relutei em aceitar. Como simplesmente mudar a chave e viver de forma livre, como o Louco do Tarot, dando voltas por aí, sem me preocupar com os precipícios que nos cercam? Óbvio que precisei de ajuda pra encontrar um caminho intermediário. Lembrei logo e resolvi reler o The Happiness Project da Gretchen Rubin, em que ela, uma control freak, como eu, entrou numa jornada de 12 meses  para ser conscientemente mais feliz. Tá, eu sei que estou burlando o tal do “deixar rolar”, mas foi o que deu para eu permitir, ordeiramente, as coisas me surpreenderem mais na vida, sem que as minhas fantasias de ruína tomem conta da minha mente.

Leitura iniciada na praia. Mais relaxada que isso impossível!

No primeiro mês, o foco é ter mais energia, tornando o caminhar uma prática, enquanto se livra dos pesos extras que carrega, pra prestar mais atenção ao que está na sua cara e você se venda pra não ver. Hoje, já senti que o lance está funcionando. De manhã, na volta de umas compras aleatórias, atravessando uma rua pela qual passo sempre em modo automático, esbarrei com um veículo impossível de ignorar no qual deveria estar fazendo essa viagem de liberdade por 2026.

Isso não é um automóvel, é um sinal divino.

Agora vem a pergunta: ele simplesmente cruzou o meu caminho ou sempre esteve lá e só consegui vê-lo agora? Tá, eu sei, é exagero, mas não custa nada dar uma moral pras surpresas que bestificam a nossa razão. É, pelo jeito, o inesperado chegou com tudo. Seja bem vindo!

Da New Yorker ao SNL: Os 100 (ou 50) melhores (e mais élitistas*) anos da nossa cultura

2025 se vai com dois marcos: os 100 anos da New Yorker e os 50 anos de Saturday Night Live. Curioso que ambas as criações estejam ligadas a um humor inteligente (e, em algumas épocas, élitista*); tenham um forte e bem intencionado (mas atrapalhado) criador por trás (Harold Ross e Lorne Michaels); e são localizadas na cidade de Nova York (a nossa Roma moderna, ou, quem sabe?, Roma seja a nossa Nova York antiga).

Óbvio que a comemoração dessas datas não passou em branco no cinema. Tivemos um belo documentário sobre os 100 anos da New Yorker, The New Yorker at 100, onde, por meio dos preparativos para o seu centenário, vemos a importância da publicação para, sem exagero, o mundo, enquanto resgatam todas as demais mudanças que a revista impulsionou na sociedade americana e, por que não?, na cultura ocidental. Já para celebrar os 50 anos do SNL, Jason Reitman roteirizou e dirigiu Saturday Night, um retrato caótico e revelador (porém proposital) da primeira exibição e da descoberta da vocação do programa icônico.

Ambos os filmes são, qual remédio?, peças de propaganda, mas, com a finesse que a inteligência que representam pede, não economizam nos problemas enfrentados por essas revistas semanais (impressa e televisiva). E é justamente nos seus aparentes erros que se encontram seus maiores acertos.

Tanto a New Yorker como o SNL surgiram de agremiações de “desconhecidos” sem um claro propósito que não fosse produzir algo interessante, bem humorado, e pertinente para os seus tempos. E esses tempos, devido às suas longevidades, souberam lhes ser tanto cruéis como benevolentes.

Com o passar dos anos as empreitadas e os envolvidos nelas foram mudando, mas souberam manter vivas as essências mínimas que as constituem: estrutura e design simples e reconhecíveis; forte pegada contra-cultural; formação de uma comunidade quase hermética de leitores e espectadores; contribuidores emergentes, especialmente do cenário underground; e um esmero displicente com a mudança do que aí está.

Talvez a longa vida da New Yorker e do SNL fale mais sobre esse último século do que sobre elas mesmas. Vivemos de 1925 pra cá, com todas as dificuldades, uma era razoavelmente democrática onde era possível ser inteligente e engraçado fazendo troça com o establishment, enquanto ensaiávamos propostas de novas formas de viver em sociedade. É impressionante o poder que essas revistas tiveram para mudar nossos costumes, nossas formas narrativas, e até a nossa política.

Por mais incrível e maravilhante que isso possa parecer, é impossível não pensar: o que estaremos comemorando nos próximos 100, ou, sendo mais realista, 50 anos? Continuaremos tendo essas duas instituições sólidas para agradecer e congratular? Teremos novas criações em 2025 que conseguirão provocar o mesmo tipo de impacto e sobreviver por tantos anos?

Não sei, não sei. Mas, infelizmente, temo que não.

Semana passada numa conversa com Maurício Gouveia, proprietário e livreiro da Baratos, discutimos a inabilidade da nova geração em se posicionar de forma rebelde frente ao que há. Ao contrário do deboche e da ousadia do SNL e da New Yorker, na opinião do Maurício, o que vemos hoje são jovens conformados, usando apenas as ferramentas procedurais que lhes foram oferecidas pra tentar lutar por uma normalidade falsa que nunca existiu, mas que eles parecem acreditar que funciona.

A princípio não concordei, mas, depois de ver os dois filmes, me caiu uma ficha: onde estão os movimentos contra-culturais de 2025?

Tanto a New Yorker, como o SNL, surgiram como obras contra o que vigia na época: a América rural para a New Yorker, representada pela velhinha de Dubuque, e o Pesadelo no Ar Refrigerado, tornado carne no Impeachment de Nixon, para o SNL. O mesmo pode se dizer de muitos outros movimentos: a Nouvelle Vague, que comemorou os 65 anos de Acossado com um filme sobre a produção dirigido pelo Richard Linklater; os quadrinhos punk com Love & Rockets; os Beatniks; e por aí vai.

O fato é que Saturday Night Live e The New Yorker tiveram e tem importância pois são mais do que simples revistas, são movimentos ou reflexos das expectativas de mudança da sociedade. Por isso ainda tem impacto, ecoam as suas mensagens além de seus espaços midiáticos, e permanecem até hoje, na vida real e na nossa memória, como salvaguardas de ambientes criativos para as lutas artística e social.

E.B. White, se liga: não se pede demissão de um movimento.

Olhando para o nosso deserto conceitual onde o máximo de movimento com o qual conseguimos nos comprometer é um twittaço (ou seria Xiszaço?) ou um fim de semana sabático das redes sociais, eu lamento pelo nosso futuro. Será que a distopia que vivemos é tão inescapável que não sabemos ou não temos mais como tirar sarro da cara dela seja por texto, imagem, vídeo ou áudio? Será que há saída para essa nossa impotência contra-cultural?

Espero sinceramente estar errado, mas, pelo andar da carruagem, é bem capaz que em 2075 e em 2125 não haja mais nada a se comemorar. Os nossos movimentos parecem ter cessado e a nós e às futuras gerações só restarão a escuridão e o silêncio.

A não ser que você tenha alguma ideia doida a compartilhar. Bom, sou todo ouvidos, e, cá entre nós, tenho umas também pra te mostrar. Então, vamos nos juntar pra falar besteira e reclamar dos outros e da vida? Pera lá! Posso estar enganado, mas não é assim que os movimentos começam?

*Seguindo a regra da New Yorker e respeitando a origem francesa da palavra elite, quer dizer, élite, a mantive acentuada, mesmo que vocês não gostem. A revolução também se faz com acentos, sabia?

A prova cabal que desmonta a própria investigação

Acho mega curioso que boa parte dos comentários sobre o uso de IA, Algoritmos e afins para criar conteúdo de entretenimento (não vou entrar na seara da “Arte” por motivos de cansaço conceitual), começa falando que essas estratégias vão contra o propósito humano da criatividade humana, da geração de conexão pela “arte” (putz, não escapei 🙁 ) mas sempre terminam a argumentação com algum caso onde a vontade e o desejo dos criadores humanores, contrariados pela lei do mercado, foram melhor na “arte” (agora é irônico) de atender ao mercado.

Gente, vamos nos decidir. Ou defendemos a arte (sim, sem aspas) como uma atribuição humana, na falta de qualquer outra razão melhor, porque SIM, ou fazer o coro de que o bom é o que vende e faz público. Não vamos esquecer da melhor definição de arte, a que o Scott McCloud faz no entendendo quadrinhos: arte é tudo o que não atende a reprodução ou sobrevivência.

Arte não tem bom ou ruim. Épocas diferentes vão ter diferentes visões de qualificação pra essa expressão humana, mas nada deixa de ser arte.