Meio-dia, segunda-feira, dia seguinte à sexta eliminação seguida e vergonhosa do Brasil numa Copa do Mundo. Agora completaremos pelo menos 28 anos sem levar o caneco. Mais tempo do que o hiato entre a Copa de 1970 e a de 1994, e exatamente o mesmo tempo que levamos para ganhar a primeira em 1958 desde o início do torneio em 1930. Significa que, se não levarmos a próxima, viveremos a maior seca de campeonatos mundiais que já experimentamos.
Meio-dia, segunda-feira depois da tragédia anunciada(?), temos direito a um almoço não exatamente especial, mas pelo menos autoindulgente. Uma comida honesta para nos ajudar a digerir o fracasso alheio que parece nosso. As opções são muitas, mas a náusea existencial e futebolística nos desanima de várias. Dentre as poucas restantes, apenas uma pergunta: que tal um galeto?
Decisão tomada, partimos para o tradicional e lotado bunda de fora. Enfim lá, num silêncio sepulcral, comemos nos equilibrando em banquetas bambas e apoiados melancolicamente sobre o velho balcão. Tentamos engolir, entre nacos de frango e garfadas de farofa de ovos, feijão, arroz e batata frita, os jogadores influencers que não jogam bola e a CBF (alegadamente) corrupta que não gere o futebol. Apesar do desolável quadro do futebol nacional, no momento, essa não é a nossa maior preocupação. O que realmente nos captura a atenção é o novo quadro ilustrado que “embeleza” o salão do restaurante.
Um grande quadro horizontal, tomando toda a parte superior da parede dos fundos da galeteria, impresso com uma arte genérica representando várias pessoas famosas, mas pouco reconhecíveis, do futebol, da política e das artes que ou são clientes ou (deveriam ser) figuras ilustres. Ah, mais um detalhe importante: o maior jeitão de imagem feita por IA.
Combinado ao enjoo da derrota de um país que deixa lenta e definitivamente a sua preponderância no futebol, ver aquela imagem horrível ornar as paredes de um restaurante com mais de 80 anos de história nos causa um embrulho no estômago, misturando anacronismo e desrespeito num coquetel insalubre.
Com muito esforço, terminamos o almoço, mas não deixamos o nosso incômodo passar em branco. Nos aproximamos do septuagenário dono do restaurante que nos recebe sempre sorridente na porta de saloon, e cavucamos a ferida:
— Oi, quadro novo, né?
— É, legal, né?
— É…- mentimos. — Sabe o nome do artista?
— Como assim?
— Sabe quem pintou o quadro?
— Ah, foi meu filho que fez! — revela orgulhoso.
— Uau! Ele é pintor?
— Não, ele fez lá de um jeito dele.
— De um jeito dele? Ele fez usando um computador?
— Acho que sim.
— Ele é designer?
— Não, não, imagine só…
— Você sabe se ele usou IA?
— É, é isso. Ele fez com IA!
Baixamos a cabeça, sorrimos com amargor para a história viva que aquele homem representa e olhamos com desprezo e de soslaio para o quadro que arrasta essa história pela lama.
— Ficou bom, não? — ele pergunta provavelmente sentindo o nosso descontentamento.
Partimos sem responder. Nessa segunda, depois da derrota de domingo, vivemos mais um 7×1 disfarçado de 2×1 com gol de pênalti do menininho Neymar fazendo birrinha com o goleiro da Noruega. Onde a tradição do futebol brasileiro, da nossa cidade, dos nossos almoços e da nossa história vai parar? Melhor deixar pra pensar nisso no próximo restaurante que a IA, um dia, também vai estragar.
