Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

2027.07.22 – “And I’m giving you a longing look, everyday I write the book”

  • Uma Duas compridas semanas cumpridas. Não importa o resultado se chegamos no final. Isso já é resultado o suficiente. A ansiedade do início das férias está me fazendo me fez adiar todos os meus planejamentos e acelerar todas as tarefas de trabalho. O meu fica pra depois, o dos outros é pra ontem. Como sempre. Vamos ver se consigo chegar numa iluminação que faça essa balança se equilibrar melhor.
  • Como as edições mostram, não consegui. Não consegui nem terminar e postar esse texto iniciado 10 dias atrás. Pelo menos retomei. Pelo menos?
  • Sim, pelo menos, Pelo menos as férias começaram, como o tradicional especial do Cervantes Parada de Copa indica.

  • Mesmo assim nada se move. Tento abandonar, com muito esforço e pouco sucesso, pequenos comportamentos que hoje não fazem mais sentido. Ao mesmo tempo me surpreende e não me espanta que seja tão difícil. Me tornei um poço de excessos. Quando as coisas fizerem sentido não perderei o meu?
  • Por falar em comportamentos que deveria abandonar, comecei estou fazendo o curso da Marie DeClercq e tenho rateado nos desafios. Alguns não me interessam, outros são pessoais demais e não me parecem escrita; estão mais pra confissão. Tem gente que acha que confissão é uma espécie de escrita. Tá, até pode ser, mas a parte do verdadeiro artesanato é criar o distanciamento que gera identificação. Não é só desabafo. Ou será que é? Você me diz.
  • Uma discussão interessante sobre a importância do ecossistema do livro na construção do conhecimento. Um dos poucos pontos positivos da IA é nos fazer perceber (ou lembrar) que ler não se justifica apenas pela informação que se adquire na leitura mas pelo processo de reflexão durante a leitura. O mais importante não é o que nos dizem, mas o que descobrimos sobre nós mesmos (e o mundo) no contato com o texto. O mesmo se aplica ao processo de escrever. Não escrevemos para mostrar o que sabemos, mas para descobrir o que sabemos (e quem somos). O texto final, incensado produto da indústria editorial, é apenas um apanhado de restos mortais da experiência de escrever que será ressuscitado pelo leitor. 
  • Fui obrigado por compromissos paternais a assistir no cinema a uma comédia brasileira atual. Uma parte muito significativa dessa safra pós retomada dá saudades da época em que diziam que filme brasileiro só tinha palavrão e putaria. Hoje, além da falta de estrutura, proposital ou não, derivada da inescapável cultura de sketches bobos que vem do rádio, passa pela TV e chega até à internet, ainda precisamos aguentar a didimocozice do sentimentalismo barato de um Renato Aragão tentando imitar Chaplin num filme sobre doentes terminais. Pode pensar em qualquer comédia: a sensação é sempre a mesma. Depois de um bando de cenas quase engraçadas, os personagens desfiam rosários de lugares comuns para reforçar a importância de deus, pátria, família e todos os outros conceitos reacionários que cabem em uma hora e meia de cinema(?). Sabe o que realmente seria radical: trazer a nudez e os palavrões de volta pras telas. Ah, esqueci! A geração atual acha cenas de sexo desnecessárias… Valha-me, Deus. A humanidade realmente tá merecendo o que recebe.
  • Ou talvez nos falte saber quem somos. Isso nem as comédias, nem a IA vão conseguir responder por nós.

(Des)Crença

Eu (não) acredito que querer o que se quer seja um exercício de imitação e não a mais poderosa expressão de quem somos

Eu (não) acredito que as pessoas, tão cheias de regras para os outros, não consigam elas mesmas cumprir regras simples

Eu (não) acredito que tantos crentes no que não conseguem ver não consigam crer naquilo que está na sua frente

Eu (não) acredito que gastem tanto tempo pensando nos outros e tão pouco pensando em si mesmos

Eu (não) acredito que o dinheiro e o poder sejam a maior motivação da maior parte da humanidade

Eu (não) acredito que tantos queiram ser artistas e tão poucos realmente desejem fazer arte

Eu (não) acredito que países que se dizem civilizados lutem guerras e promovam genocídios

Eu (não) acredito que odeiem tanto os pobres mas adorem se aproveitar da pobreza

Eu (não) acredito que ainda haja razões para se ter esperança

Eu (não) acredito que ainda haja mais razões para lutar

Eu (não) acredito que (não) seja possível acreditar

Eu (não) acredito

 

Firmeza de Caráter

No meu último dia, segurei o choro e resolvi me despedir de todos. Não tinha como saber quem era o culpado pela minha demissão, mas não ia esmorecer. Por mais que a justiça dos homens tivesse falhado, a de Deus eventualmente prevaleceria. E não seria eu a perder a oportunidade de mostrar que a minha retidão de caráter, ao contrário do que os outros pensavam, era inquebrantável.

Vislumbrei pela última vez a vista ampla da minha janela, saí da minha sala e apaguei a luz do escritório, sem olhar para trás. Minha secretária se levantou da sua baia num susto e abriu seus braços me desejando sorte. Era sincera? Eu não tinha como saber. Porém lhe dei o benefício da dúvida, a abracei e lhe belisquei, como de costume, numa das muitas dobras da sua barriga, profetizando que na próxima vez que nos víssemos ela finalmente teria emagrecido. Mesmo não sendo mais sua chefe, não me custava nada lhe dar um último empurrão de motivação antes de ir. Não havia motivo para que ela, com o exemplo que eu lhe dava, insistisse em cultivar maus hábitos que tanto prejudicavam sua aparência e sua saúde.

Abandonei os poucos pertences que havia na minha sala, e resolvi confrontar todos os gerentes com o meu adeus. Eu precisava deixar claro para eles que mesmo sabendo que alguns, ou muitos, deles tinham, com suas acusações infundadas, me tornado alvo de tantas denúncias de assédio, eu não tinha ódio no meu coração. Eu entendia as suas limitações. Era preciso ser muito competente para aceitar sem medo os desafios que lhes propus. Se eles encaravam esse convite à excelência como uma violência, a eles só podia oferecer a minha pena. Assim, fui lhes desejar não só o melhor, mas que também se tornassem melhores.

Enquanto recebia seus abraços pouco entusiasmados, pedi a Deus em silêncio que o gerente de recursos humanos fosse mais honesto; a de finanças, mais atenta; o de operações, menos preguiçoso; a de comunicações, mais caprichosa; e que, enfim, todos superassem suas claras e óbvias limitações.

Terminada a fila de gerentes, para mostrar a importância do respeito à hierarquia, que os analistas e estagiários com certeza precisavam desenvolver, passei em direção à saída sem sequer oferecer meu olhar. Na falta da minha presença, eles encontrariam a consciência dos muitos defeitos que precisavam corrigir.

Entrei no elevador e, enquanto as portas se fechavam, sorri. O melhor para mim estava por vir. Quanto a eles, não posso ver o futuro, mas com certeza o deles nunca chegaria aos pés do meu.

Uma derrota atrás da outra

Meio-dia, segunda-feira, dia seguinte à sexta eliminação seguida e vergonhosa do Brasil numa Copa do Mundo. Agora completaremos pelo menos 28 anos sem levar o caneco. Mais tempo do que o hiato entre a Copa de 1970 e a de 1994, e exatamente o mesmo tempo que levamos para ganhar a primeira em 1958 desde o início do torneio em 1930. Significa que, se não levarmos a próxima, viveremos a maior seca de campeonatos mundiais que já experimentamos.

Meio-dia, segunda-feira depois da tragédia anunciada(?), temos direito a um almoço não exatamente especial, mas pelo menos autoindulgente. Uma comida honesta para nos ajudar a digerir o fracasso alheio que parece nosso. As opções são muitas, mas a náusea existencial e futebolística nos desanima de várias. Dentre as poucas restantes, apenas uma pergunta: que tal um galeto?

Decisão tomada, partimos para o tradicional e lotado bunda de fora. Enfim lá, num silêncio sepulcral, comemos nos equilibrando em banquetas bambas e apoiados melancolicamente sobre o velho balcão. Tentamos engolir, entre nacos de frango e garfadas de farofa de ovos, feijão, arroz e batata frita, os jogadores influencers que não jogam bola e a CBF (alegadamente) corrupta que não gere o futebol. Apesar do desolável quadro do futebol nacional, no momento, essa não é a nossa maior preocupação. O que realmente nos captura a atenção é o novo quadro ilustrado que “embeleza” o salão do restaurante.

Um grande quadro horizontal, tomando toda a parte superior da parede dos fundos da galeteria, impresso com uma arte genérica representando várias pessoas famosas, mas pouco reconhecíveis, do futebol, da política e das artes que ou são clientes ou (deveriam ser) figuras ilustres. Ah, mais um detalhe importante: o maior jeitão de imagem feita por IA.

Combinado ao enjoo da derrota de um país que deixa lenta e definitivamente a sua preponderância no futebol, ver aquela imagem horrível ornar as paredes de um restaurante com mais de 80 anos de história nos causa um embrulho no estômago, misturando anacronismo e desrespeito num coquetel insalubre.

Com muito esforço, terminamos o almoço, mas não deixamos o nosso incômodo passar em branco. Nos aproximamos do septuagenário dono do restaurante que nos recebe sempre sorridente na porta de saloon, e cavucamos a ferida:

— Oi, quadro novo, né?
— É, legal, né?
— É…- mentimos. — Sabe o nome do artista?
— Como assim?
— Sabe quem pintou o quadro?
— Ah, foi meu filho que fez! — revela orgulhoso.
— Uau! Ele é pintor?
— Não, ele fez lá de um jeito dele.
— De um jeito dele? Ele fez usando um computador?
— Acho que sim.
— Ele é designer?
— Não, não, imagine só…
— Você sabe se ele usou IA?
— É, é isso. Ele fez com IA!

Baixamos a cabeça, sorrimos com amargor para a história viva que aquele homem representa e olhamos com desprezo e de soslaio para o quadro que arrasta essa história pela lama.

— Ficou bom, não? — ele pergunta provavelmente sentindo o nosso descontentamento.

Partimos sem responder. Nessa segunda, depois da derrota de domingo, vivemos mais um 7×1 disfarçado de 2×1 com gol de pênalti do menininho Neymar fazendo birrinha com o goleiro da Noruega. Onde a tradição do futebol brasileiro, da nossa cidade, dos nossos almoços e da nossa história vai parar? Melhor deixar pra pensar nisso no próximo restaurante que a IA, um dia, também vai estragar.

Como (não) assistir a filmes de super heróis

Acho que eu desaprendi a assistir filmes de super herói. Ao contrário da grita que estou vendo aí pela internet, eu até achei Supergirl legal. Sério! Não acredito em avaliações absolutas e objetivas em relação à arte, e, assim, posso considerar que estamos eu e os detratores ao mesmo tempo certos e errados.

Olha só as minhas rugas de preocupação com as críticas

Tudo é uma questão de perspectiva e de expectativa. Ou seja, de onde vejo (ou vemos) algo, e do que espero (esperamos) ver acontecer na obra. A partir dessas circunstâncias, as demais pessoas podem ter toda razão para não gostar (odiar?) o filme, enquanto eu posso gostar ou mesmo amar. Dito isso, me deixa explicar de onde vejo (e não vejo) e o que espero (e não espero) de um filme de Super Herói.

Sou da época do formatinho, antes da popularização do conceito de Graphic Novel, edições de luxo e o diabo. Por isso, aprendi muito a curtir quadrinhos (e super heróis por tabela) dentro da simplicidade do que estava disponível. Isso me fez aprender a ler o que não havia nas entrelinhas, complementar histórias capengas com a minha imaginação, e alimentar as canaletas com o que imaginava que poderia acontecer (mas não aconteceu). O quadrinho, enquanto arte e diversão, para mim sempre foi mais incitador de uma criação compartilhada (entre mim, o desenhista, o roteirista, etc) do que um objeto de análise. Isso me tira, graças a Deus, do papel de fiscal da narrativa, da fidedignidade, e da reverência ao que, na boa, foi feito pra ser irreverente.

Por isso curti Supergirl. É, como o próprio Superman do Gunn, apenas uma história em quadrinhos. Daquelas que a gente comprava na banca pra matar o tempo, sem expectativas ou tensões. Daquelas que a gente abria e começava a ler pensando: “Vamos ver em que bagunça (insira o nome da(s) heroína(s) ou do(s) herói(s)) se meteu/meteram hoje”. E, como tal, tem de tudo. Tem fan service com a aparição bem sem propósito do Lobo (e quem disse que história de super herói tem propósito?), tem furos e inconsistências que fazem caridosamente pensar “que plano eles tem pra isso depois?”, e tem, claro, exageros e momentos fabulosos que justificam o papel dos quadrinhos de super heróis como nossa nova mitologia (confirma aí, Grant Morrison?).

Quem nunca comprou um quadrinho por uma participação sem sentido de um personagem que a gente curte, mas sabe que é meia boca?

Então, em vez de questionar quem não gostou, pois não atende a isso ou aquilo, ou por que não corrobora com os planos de negócios e expectativas financeiras da Warner Bros, vou respeitar suas opiniões, mas não posso deixar de dar uma dica: vá rever o filme. Seja no cinema ou streaming, dê uma segunda chance, mas o faça de coração aberto. Imagine que tem 11 anos, está deitado no sofá, num dia tedioso de férias, numa época pré internet, não tem nada de bom na TV, e a única coisa que tem à sua mão é uma história em quadrinhos de uma super heroína legal e que você nunca leu.

Despedidos de expectativas e de uma perspectiva bem mais humilde e acolhedora, tenho certeza que você irá curtir mais. Agora, concordo: pra ser uma história em quadrinhos que custou mais de 150 milhões de dólares pra produzir, tá meio puxado, mas e daí? Pra mim foi boa diversão e só custou uma meia entrada no cinema. Desse ponto de vista a vida e o filme da Supergirl são bem mais legais.

[oei#50] A revolucionária onipresença dos paratextos editoriais como a razão de ser dos livros


O mais comum é olharmos para o paratexto como tudo aquilo que orbita o texto. São a capa e o título chamativos, decididos pelo editor depois de muitas brigas com o autor sem noção; são a apresentação e o prefácio que tentam justificar um texto que, cá entre nós, deveria se sustentar sozinho; são o posfácio e as notas, espalhadas por capítulos, rodapés e fins de livros, que buscam explicar o que páginas e páginas de argumentação ou narrativa já deveriam ter deixado claro. Porém, são os epitextos imateriais que realmente fazem o livro cumprir a sua função na sociedade, indo além do que o texto sozinho (mesmo num perfeito e impossível entendimento do público leitor fantasiado pelo autor) nunca poderia atingir.

O texto, afinal, não se encerra em si mesmo. Seu papel é excitar, mover e transformar os leitores, e mesmo a audiência que não precisa lê-lo, mas deve sentir seus impactos, em direção aos seus objetivos e expectativas, tanto os conscientes como os inconscientes. Os livros são máquinas de transformação. Alguns nos deixam mais leves, felizes ou, pelo menos, temporariamente entretidos; outros nos fazem passar por experiências que nunca teríamos, mudando nossa maneira de pensar; e há aqueles que nos tiram de nossas poltronas e nos motivam a, com eles em punho, fazer revoluções, das mais pessoais às brutalmente globais.

Essas ideias, essas reflexões, essas paráfrases e essas conversas, todas essas ações paratextuais, inspiradas ou estimuladas pelas obras, são a sua razão de ser. É através da ação do texto na nossa cognição e em nossas identidades que nós, leitores, criamos novos textos e novas histórias, em nossas mentes ou na realidade, fazendo com que a imaginação dos autores se torne carne.

Nessas interações e no impacto que geram é que os livros atingem seu ápice, tornando-se mitos. Essas cargas simbólicas nem sempre intencionais podem ser desde preocupantes, como a de O Apanhador no Campo de Centeio (que inspirou, sabe-se lá por que, tantos assassinos), até mesmo jocosas, tal como a de O Pequeno Príncipe, que ganhou a alcunha de “livro das misses” por ser muito citado, mas pouco lido pelas “inocentes” rainhas da beleza.

O Mercado Editorial pode viver do e para o texto, preocupando-se primordialmente com a construção de todo o arcabouço necessário para a sua comercialização, incluindo aqui os peritextos que compõem a obra. Porém, o livro nasce, é escrito, concebido e criado para a marca que pode deixar na vida humana e na nossa civilização. A experiência e a história humanas são contadas a partir da escrita; não é surpresa alguma, portanto, que o que entendemos por realidade seja nada mais que uma série de reflexos paratextuais. Os livros, sim, foram feitos para serem lidos, mas cumprem seus destinos manifestos quando se tornam paratextos nos corações e mentes não só dos leitores, mas de toda a humanidade.

Essa ideia me parece algo que eu li em algum livro. Qual foi, mesmo? Não importa mais. Agora eu já me tornei o paratexto do texto que me formou. Missão cumprida.