Arquivo da categoria: Ensaios

Um dia de filhos e filhas

Estranhamente, depois de 11 anos da morte do meu pai, só consigo me recordar de um dia dos pais que passei ao seu lado. Logo eu, que tenho memória pra tudo que é besteira, não consigo me lembrar de mais do que um dia dos pais com ele. Dias das mães, Natais, Reveillons, lembro de muitos, mas, do dia dos pais, só esse.

Era um domingo frio mas de sol. Cruzei boa parte da cidade vazia de ônibus até a feira do livro para comprar o presente do meu pai, mais um volume das memórias de Churchill, e fui para a casa dele para almoçarmos. Ele estava, como quase todos os dias depois da operação do seu câncer, de pijama, sentado numa poltrona. Claramente deprimido. Algo que eu percebia, mas toda a sua família negava. Dei seu presente, que ele abriu sem muito entusiasmo, e nos abraçamos, também sem muita emoção, enquanto meu pai fazia sua imitação clássica do Chacrinha: “Aquele Abraaaaaaaço”. Fiquei ao seu lado assistindo à TV. Depois de almoçarmos brevemente, na época ele já não tinha muita vontade de comer, o que acabou por custar a sua saúde e sua vida, fui embora. Continue lendo

518 dias sem facebook

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Vou te dizer, facebook nunca me falou ao coração. Eu abri a minha conta em meados de 2007 e deixei sem atividade até a minha mulher fazer um intercâmbio no exterior em 2010. Naquela época, por conta das funcionalidades otimizadas de comunicação e compartilhamendo de fotos que outras ferramentas não agregavam, ele quebrou um galho. Calhou que na época o povo começou a abandonar o ORKUT e migrar pra lá. Nada mais natural que já estando por lá, e vendo os amigos chegarem, eu por lá ficasse. E lá fiquei. Até que começou a me encher.
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A arte que não se ensina

Popular, mas repetido como farsa

Popular, mas repetido até se tornar uma farsa

É impossível ir a uma exposição hoje em dia sem vê-los. Alí, em frente aos quadros, falando alto, correndo entre as obras, crianças, todas de uniforme, orbitam em volta das guias educativas dos museus.

– Tia, o que quer dizer esse quadro?
– Vamos ver se você adivinha.

Você espera. As crianças chutam, falam diversas loucuras, algumas bastante interessantes, até que uma delas dá parte da resposta que estava no livro de instruções da guia.

– Bingo! Você acertou. Parabéns.
– U-HU!- as crianças congratulam àquela que “entendeu” a arte. Continue lendo

Abaixo Spielberg e Lucas! Abaixo o cinema família!

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Bem intencionados, habilidosos, mas reacionários

Acho que grande parte da minha geração teve seu primeiro contato com ficção científica através dos filmes de Lucas e Spielberg. São espetáculos grandiosos e graficamente belos com heróis jovens ou mesmo infantis que em nada lembram os aterrorizantes filmes B dos anos 50 ou as fantasias eróticas, apocalípticas, sociais e/ou conceituais dos anos 60. São filmes limpos, inteligíveis, extremamente cativantes e aparentemente sem ideologia. Aparentemente. Continue lendo

A educação de Michael Scott

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Michael Scott, puro ID apoiado por um sistema falho que o empoderou

Michael Scott tinha um problema. E era exatamente aquilo que, na sua opinião, o fazia “melhor” que os outros. Alçado, sem razão clara, a uma posição de pequena autoridade, ele acabou por tornar todas suas idiossincrasias em leis, regras e ética. Era ID puro, sancionado por um super ego fraco e comprometido. Se ele tinha sido alçado a essa posição, tudo o que ele fizesse estaria certo, certo?
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