Estranhamente, depois de 11 anos da morte do meu pai, só consigo me recordar de um dia dos pais que passei ao seu lado. Logo eu, que tenho memória pra tudo que é besteira, não consigo me lembrar de mais do que um dia dos pais com ele. Dias das mães, Natais, Reveillons, lembro de muitos, mas, do dia dos pais, só esse.
Era um domingo frio mas de sol. Cruzei boa parte da cidade vazia de ônibus até a feira do livro para comprar o presente do meu pai, mais um volume das memórias de Churchill, e fui para a casa dele para almoçarmos. Ele estava, como quase todos os dias depois da operação do seu câncer, de pijama, sentado numa poltrona. Claramente deprimido. Algo que eu percebia, mas toda a sua família negava. Dei seu presente, que ele abriu sem muito entusiasmo, e nos abraçamos, também sem muita emoção, enquanto meu pai fazia sua imitação clássica do Chacrinha: “Aquele Abraaaaaaaço”. Fiquei ao seu lado assistindo à TV. Depois de almoçarmos brevemente, na época ele já não tinha muita vontade de comer, o que acabou por custar a sua saúde e sua vida, fui embora. Continue lendo



