Arquivo da categoria: Ensaios

Acumular? Desculpe, não estou interessado

A gente tem uma mania esquisita de ver as coisas como processos acumulativos. Eu ia escrever evolutivos, mas não era exatamente o que eu estava pensando. No processo evolutivo as coisas mudam e, eventualmente, o passado é abandonado em prol da nova estrutura. No acumulativo, há uma sensação de mudança mas estamos apenas construíndo por cima algo que aparentemente substitui o anterior, mas em nada modifica o seu conceito original. É uma versão pretensamente aprimorada da anterior, mas nunca nos deixa esquecer de onde o conceito original veio. Temos carros mas continuamos nos referindo à sua potência em cavalos de força. Temos os e-books e ficamos eternamente os comparando aos de papel. É uma espécie de nostalgia obrigatória que nos impede de realmente dar saltos revolucionários. Continue lendo

O Ganhador

No dia seguinte à grande vitória, Ernesto acordou de cabeça cheia. Não era pra menos. Tinha de tudo alí: as infinitas cervejas do dia anterior; a ansiedade e a expectativa pelo resultado; a excitação da competição; a rivalidade aberta contra seus inimigos; e, óbvio, a grande consagração, sua e daqueles por quem torcia. Levantou devagar tentando equilibrar a cabeça mas a ressaca era forte. Mesmo com muita dor foi correndo tomar banho. Precisava gritar ao mundo que era um vencedor. Continue lendo

#occupytheoffice

8:16

Roberto chega ao escritório vazio esperando imprimir na surdina uns capítulos do livro da pós antes que o chefe chegue. Liga o computador, que demora 15 minutos para passar todas as diretivas de segurança, abre o arquivo em seu pen-drive e o envia para impressão.

Erro: Impressora não encontrada

Roberto se levanta e vai até o canto onde a impressora fica, ou, melhor, ficava. No lugar há apenas um cartaz:

Devido à redução de custos e em prol da sustentabilidade, essa impressora foi retirada. Para imprimir algo, favor enviar o arquivo e as páginas que devem ser impressas para a recepcionista do 14o. andar.

8:55

Cláudio chega ao escritório reclamando do trânsito gerado por mais uma manifestação que o fez se atrasar 50 minutos. Sem resposta, procura por Roberto e o encontra fulo da vida tentando ler apressadamente o livro da pós na tela do computador.

– Um absurdo, um absurdo- ele repete. Continue lendo

Os livros que me fizeram mal na infância

Um dos rituais que mais me agrada no início do ano é a limpeza das estantes. Confiando na velha máxima “comprar mais livros do que consigo ler é crer na imortalidade”, abarroto, todo ano, a minha pequena biblioteca com mais do que ela pode comportar. Com aquele livro que comprei pra falar mal, e nem li; com a biografia daquele sujeito com o qual fiquei obcecado por exatamente 34 horas; ou com os jogos e quadrinhos que readquiri numa tentativa infrutífera de reviver tempos que não passam mais. Acreditem, no final contas, somando aos livros que mereciam ser comprados, não é pouca coisa. Chega uma hora que todo esse suporte emocional de papel começa a causar um peso excessivo nas minhas finanças e na estrutura física da minha casa. Por isso, preventivamente, tiro das minhas estantes tudo aquilo que farei circular pelo mercado de usados. É quase como um cateterismo em que as obstruções das minhas veias de leitor vão parar na lanchonete da esquina para o prazer alheio.

O engraçado é que tem livros já lidos que sempre sobrevivem a essa limpeza. A maioria por utilidade de consulta, desejo de releitura ou simples valor afetivo. Alguns, especialmente alguns infantis, escapam há anos desse ritual por serem, além de tudo, simplesmente meus livros de formação. Ou melhor, má-formação. Continue lendo

Não vou Blogar mais

Todo final de ano é a mesma coisa. Pelos blogs sobreviventes e até pelos mortos vivos, os amigos avisam uns aos outros: “Em dois mil e (insira o ano) irei blogar mais”. O desejo é compreensível. Afinal, de 2001 a 2005, antes das redes sociais e afins, aquele foi um espaço de discussão muito bom. Um post por dia. Uma dúzia de pessoas para ler. Um viral por semana, e só. Uma vida mais calma e tranquila. Curtida mesmo. Quase cidade do interior de poema do Drummond. Continue lendo

Um feliz fim do mundo pra você

Enfim, o fim do mundo chegou. Já estava mais do que na hora. Desde os meus 5 anos, nos estertores da guerra fria, quando a situação esquentava com a invasão do Afeganistão e tal, eu esperava por esse momento. Minha mãe, do alto do seu treinamento paz e amor nas praias do Arembepe, me instruía:

– Meu filho, se tiver uma luz muito forte, não olhe para ela. Esconda-se atrás de algo de metal, de preferência, e, assim que o clarão acabar, tente juntar o máximo de comida enlatada e água engarrafada que conseguir. Ah, e não esqueça das pilhas, né? Como é que a gente vai viver depois do fim do mundo sem pilhas, não é mesmo? Continue lendo