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A vassoura atrás da porta

Receber é uma arte. Expulsar também. E nisso meu pai era um mestre; na segunda arte, quero dizer.

Quando as visitas passavam do tempo que ele considerava regulamentar, ele se recolhia no quarto sem falar com ninguém. Algumas vezes, no caminho para a cama, depois de levar copos e pratos ruidosamente para a pia, ele varria a sala, esbarrando de propósito nos pés dos convidados, e depositava a vassoura atrás da porta, como mandava a superstição. Mas, para ele, isso nada tinha de místico, era apenas um sinal para que os convivas se ligassem, se levantassem e nos deixassem em paz.

Se mesmo assim eles não se tocassem, ele ia dormir. Ao invés de colocar o seu pijama, ele, nesses dias de festa, preferia dormir de cueca. Tentava tirar um pequeno cochilo e se as vozes dos convidados ou o som da música continuassem a incomodá-lo, ele ia tomar um copo de leite quente para tentar atrair o sono. No caminho da cozinha, passava de cueca pela sala como se estivesse sozinho em casa:

– Opa, não imaginava que vocês AINDA estivessem por aí- dizia, fingindo surpresa, e seguia para cozinha para esquentar o leite que o faria dormir.

Quando chegava nesse ponto, ninguém insistia em continuar na festa e todos partiam. Como disse, meu pai era um mestre.

Às vezes, quando caio na asneira de convidar alguém para a minha casa, vejo como herdei a intenção, mas não a técnica do meu pai.

Enquanto as pessoas tendem a se alimentar do contato humano, eu tendo a me exaurir. Depois das 10 da noite ou depois de 2 horas de interação, o que vier primeiro, sinto vontade de me recolher. Cá entre nós, já foi o suficiente. Depois desse tempo, em geral, as conversas se tornam mais altas, mais repetitivas e mais esquecíveis. Ou seja, não há nada que vamos falar hoje que não possa ser silenciado ou deixado para amanhã.

Nessa hora, se estou na rua ou numa casa alheia, eu simplesmente parto, sem avisar a ninguém. Algumas vezes, mesmo com pessoas à minha frente, eu simplesmente viro as costas e vou embora, sem dar nem tchau, o que, eu sei, é feio a beça.

Se o encontro é na minha casa, eu, ao contrário do meu pai, não tento expulsar ninguém. Eu simplesmente começo a agir como se estivesse sozinho. Coloco a TV numa série que estou assistindo; vou pro escritório trabalhar; abro um livro e fico lendo na sala; ou vou pro quarto, me deitar para assistir um VHS ou um DVD. Em geral, uns 10 minutos depois de entrar nesse modo, eu durmo e deixo a casa na mão dos convidados. Como tenho sono pesado, ao contrário do meu pai, não preciso de leite quente nem de passar de cueca na sala para ignorar as pessoas que insistem em socializar comigo.

Hoje em dia, em algum momento- não sei exatamente quando, afinal já estou dormindo-, o pessoal se liga e vai embora por conta própria. Quando eu era mais novo ainda tinha a surpresa de encontrar gente conversando na sala ou na cozinha quando eu acordava perto do amanhecer ou de esbarrar com alguns corpos esparramados pelo chão e pelos sofás com o sol já alto. Sei que pode parecer um abuso que se aproveitem da minha casa dessa forma, mas não tenho ninguém a culpar a não ser eu mesmo que, sabendo como sou, ainda me submeti a essa ideia idiota de que teria a habilidade e a arte de receber.

O fato, eu descobri, é que não existem visitas chatas, mas anfitriões relutantes. Então a culpa é toda nossa por insistir em fazer algo que não queríamos fazer desde o primeiro momento. Por isso, como os proverbiais filhos de Vinícius, agora eu sei, visitas, melhor não tê-las, mas, se não tê-las, a quem vamos expulsar para exercitar nossos vis instintos anti sociais?

Ainda há vida inteligente na Internet

No início da internet, quando não havia buscadores para encontrar anúncios vagamente relacionados ao que a gente procurava, nem mídia social para nos empurrar lixo pela goela, a gente comprava livros e revistas para descobrir para onde ir pelos mares nunca dantes navegados do ciberespaço. Uma das referências mais legais da época era o Net Guide, publicado nos anos 90, e do qual eu tenho a edição de 1994. Nas 360 páginas dessa edição, indo desde grupos de mensagens de Star Trek e Dungeons & Dragons, até o site da Casa Branca e da Universidade de Harvard, passando por fóruns de bestialidade e fantasy baseball, o Net Guide traz mais de 4000 dicas interessantes ou piradas sobre uma internet que (quase) não existe mais.

Sim, isso existiu. Tenho provas.

Ontem, me pediram algumas dicas de sites com projetos criativos legais na internet e, confesso, fiquei com dificuldade para lembrar de nomes de pronto. Nesse mundo virtual onde somos alimentados à força por tantas fontes insignificantes, as coisas realmente boas acabam ficando escondidas da nossa atenção e da nossa memória sob pilhas intermináveis de lixo e ódio informacional.

Dormi encafifado com isso, mas hoje de manhã me bateu uma luz: ao contrário da internet antiga, onde havia sítios e lugares legais para visitar; a internet de hoje é um mar de lixo tóxico com linhas de vida suspensas que nos permitem nos ligar a pessoas e não a espaços. Ao invés de um destino, a internet se tornou um caminho, cercado de florestas e becos perigosos, que nos levam a encontros com outros seres humanos, dos piores aos melhores, com os quais, sem ela, dificilmente iríamos esbarrar. Por isso não lembrava de sites, só me lembrava das pessoas.

Assim, como uma forma de serviço público, do alto da minha empáfia, respondendo a pergunta que me fizeram, vou deixar público o meu net guide, versão 2022, de pessoas legais com as quais você pode (e deve) esbarrar na internet:

Adilson Pereira é jornalista, desenhista e proprietário do bar mais legal do Rio de Janeiro, o Salvatore Café. Publica contos e crônicas no estilo beatnik intercalados por desenhos com uma pegada bem contracultural. Site

Aline Valek é escritora, desenhista, podcaster e fanzineira. Vai da ficção científica à fantasia, passando à reportagem gonzo com elegância e maestria. Site / Newsletter / Podcast

Anne Mendes é professora e designer. Faz colagens e experimentos tipográficos geniais. Não à toa a procurei para fazer a capa do meu livro. Site / Portfolio

Ariela K é uma ensaísta e escritora brasileira radicada nos Estados Unidos que está publicando online um estudo sensacional sobre o antigo testamento sob uma perspectiva judaica não-religiosa. Newsletter

Austin Kleon é escritor e desenhista, autor da trilogia Roube como um Artista, Mostre seu Trabalho e Vá em Frente. Dá dicas sobre criatividade e criação artística. Site

Bárbara Bom Angelo, jornalista e editora de política da TV Globo, escreve crônicas e críticas literárias. Newsletter

Bráulio Tavares é compositor, poeta e escritor de ficção científica paraibano. Publica críticas literárias e crônicas quase diariamente há mais de 10 anos. Site

Clara Averbuck é escritora, lançada nos primórdios dos blogs. Hoje, além de continuar escrevendo literatura, tem um podcast com a artista plástica Bruna Maia. Medium / Podcast

Edith Zimmerman é quadrinista memorialista e relata sua vida através de diários visuais. Newsletter

Gaía Passarelli é escritora, jornalista, ex-repórter da MTV e autora do livro de viagens “Mas você vai sozinha?”. Criadora do Projeto Guia Paulicéia de jornalismo cultural alternativo paulistano. Newsletter

Kevin Kelly, futurista e fundador da revista Wired, é o autor da teoria dos 1000 fãs e do livro O Inevitável. Site

Leandro Assis foi roteirista da Conspiração, onde fez as séries “A Mulher Invisível” e “Magnífica 70”. Hoje é desenhista e coautor das séries de quadrinhos do Instagram “Confinada” e “Os Santos. Instagram

Marília Café é poeta, escritora, especialista em auto publicação e novos formatos. Fundou e dirige a editora independente Pedregulho. Site

paulamaria é psicanalista e escritora. Minha parceira no projeto de desafios criativos Toranja. Site / Newsletter

Ricardo Coimbra é cartunista e publica na revista Piauí e na Folha de São Paulo. Site

Ted Gioia é jornalista musical e cultural e autor do livro Music: A Subversive History. Atualmente está publicando um livro em capítulos através da sua newsletter no substack. Newsletter

Warren Ellis, roteirista de quadrinhos e TV, é autor de Transmetropolitan, sua obra mais famosa, protagonizada pelo jornalista gonzo cyberpunk Spider Jerusalem. Newsletter

Se quiser pesquisar sobre outras pessoas, existem uns lugares legais para descobrir novos criadores, como o Uses This e o Como Eu Escrevo, onde são discutidos métodos e ferramentas criativas em entrevistas com gente interessante e, na maioria das vezes, pouco conhecida. Mas, óbvio que, como as melhores coisas da vida, uma das maiores forças para encontrar gente legal, na Internet ou no mundo real, é o incontrolável acaso.

Por acaso, conhece alguém que merecia estar nessa lista? Pode falar, sou todo ouvidos. É sempre bom encontrar portos seguros nesse mar tóxico loteado comercialmente que a Internet se tornou.

O discurso final

Agora que a janela de filiação partidária fechou e os quadros eleitorais estão quase fechados, vamos focar no que interessa: o discurso de fechamento dos debates eleitorais. Com a perspectiva de que os principais candidatos fujam deles, ainda resta a esperança de que, aos moldes de Leonel Brizola, alguém faça um discurso histórico para fechar esse terrível período da nossa história. Afinal, até os fãs do Iron Maiden sabem, discursos históricos são eternos e nos fazem ganhar guerras. Assim, como contribuição, segue a minha sugestão de discurso para qualquer candidato que queira tirar a besta fera do poder:

Povo do meu Brasil,

Agora encerramos mais uma etapa do processo eleitoral e vamos às urnas para decidir o destino da nossa coletividade, daquilo que chamamos Brasil.

Nos últimos quatro anos vivemos sob o terror de um governo que proclamava “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”. E o que menos vimos foi a defesa da nossa nação ou o respeito a um poder superior.

Vimos:

A transformação do Brasil num pária mundial, um país de milicianos, desmatadores e grileiros
O desrespeito aos seres humanos, de todas as etnias, credos e orientações
O aumento do desemprego, da precarização do trabalho; a volta da fome e da inflação
E a exaltação da violência armada contra as minorias e as populações mais vulneráveis

O que esse discurso populista e falso escondia é que ele queria um Brasil de criminosos armados acima de tudo, um Deus do ódio acima de todos, e Bolsonaro, e seus familiares e asseclas, acima de Deus.

Afinal, nos últimos 4 anos, nessa tirania fascista tivemos um desgoverno que zombou da pandemia mundial, da morte e da dor de doentes e enlutados; que virou às costas a nossos irmãos da América Latina e do mundo, pra promover a destruição da natureza e dos povos indígenas e ignorar as mudanças climáticas; que atacou a democracia e promoveu a mentira e a desinformação; que trocou favores, em detrimento da saúde e da educação, com as piores pessoas desse país, em troca da sua manutenção no poder, de favores pessoais, de dinheiro e até de ouro, usando o nome de Deus em vão.

Nessa tirania fascista e corrupta, fomos vítimas da vaidade e da incompetência de um homem fraco e desequilibrado que nos afastou da comunidade global e dos valores que ele fingia apregoar. Nos últimos quatro anos fomos um Brasil abaixo de todos e esquecido por Deus.

Mas você pode mudar isso. Nessa eleição, a sua escolha pode nos tornar melhores. Não um país acima de tudo, mas um país irmão em uma comunidade mundial; um país com respeito a todas as pessoas e a todos os credos; um país onde ninguém esteja acima dos outros e em que o presidente seja alguém escolhido para atender à sua população, ao invés de seus interesses escusos.

Por isso, no seu próximo voto, escolha a paz, escolha o respeito, escolha o amor. Vote num Brasil, não acima de tudo, mas um Brasil formado por nós. Pois o Brasil somos nós.

Muito obrigado e bom voto. O Brasil somos nós.

Enfim, não importa em quem você queira votar, vamos dizer o não abafado de nosso peito contra tudo que está aí.  Como dizia Belchior, ainda não é hora de levar flores à cova do inimigo. É hora de lutar.

Começou.

Dona Vanna e eu

Comecei a frequentar a Leonardo da Vinci cedo. Tinha de uns 7 para 8 anos quando minha mãe, na saída das suas aulas do IFCS, me levava na livraria para deixar boa parte do seu dinheiro em troca de livros que ela não encontraria em qualquer outro lugar.

A loja era imponente. Um corredor largo e comprido, cheio de estantes com livros de diferentes tamanhos e cores, em todas as línguas do mundo. Ao contrário das livrarias que conhecia, não havia um balcão. Dona Vanna e seus funcionários se sentavam em cadeiras de espaldar alto, atrás de uma longa mesa. Não havia sinal de caixas registradoras ou qualquer outra coisa que lembrasse a troca de mercadoria por dinheiro. Lá você não deixava nem levava bens materiais. Lá, você deixava a sua vida e alimentava a sua alma.

Os colegas de faculdade da minha mãe costumavam repetir, quase como uma parábola, a história de um aluno de filosofia que tinha furtado os 24 volumes das obras completas de Freud, um volume por semana, nas barbas da dona Vanna. Por azar, foi pego furtando o sumário da Imago, que era vendido separadamente. Banido para sempre da loja, dizem, perdeu a vontade de viver, abandonou a filosofia e foi cursar economia que estava mais próximo dos seus instintos vis.

Os anos passaram, cresci e passei a frequentar a loja sozinho. Em busca de quadrinhos e RPGs.

Com 11 anos fiz minha primeira reserva: o primeiro volume de L’Art de la BD de Duc. O preço era um acinte. Especialmente por causa do câmbio paralelo que dona Vanna criou com o tal dólar Da Vinci. Pedi para segurarem o livro por 15 dias, prazo máximo de reserva, para conseguir juntar 2 mesadas e pagar pela obra que, acreditava, iria me tornar um roteirista de quadrinhos. Com muita dificuldade e sendo obrigado a vender alguns quadrinhos nos sebos da Tiradentes para completar o valor, consegui honrar meu compromisso.

A segunda reserva foi mais complicada. Pedi para separarem para mim a caixa do Star Frontiers, um rpgzinho espacial da TSR, mas não sabia se ia conseguir pagar. Estava tentando fazer uma espécie de ação entre amigos para dividir o custo, mas não estava dando certo. A minha ansiedade era tal que ia na Da Vinci todos os dias só pra ver o RPG reservado. Dona Vanna, sádica leitora de mentes, me pressionava:

– Se não comprar no prazo, vou vender pra outro.

Vendeu.

Quando consegui o dinheiro, tinha passado uns dois dias do limite da reserva e ela, como prometido, vendera o jogo para outra pessoa. Fui obrigado a comprar a caixa azul do expert do D&D BECMI, o que, no fim das contas, foi uma melhor opção e, agora, pensando bem, mudou a minha vida.

Do alto da sua pretensa maldade, dona Vanna nos fazia o bem.

Um dia, no caminho pro colégio, entrei na loja no horário que estava abrindo. Não sei por que só o faxineiro estava lá e me deixou largado enquanto esperava os vendedores chegarem. Não percebi na hora, mas fiquei sozinho e de mochila na loja. Poderia ter levado, sem ninguém saber, todos os RPGs e quadrinhos que desejava, mas isso, confesso, nem me passou pela cabeça. Fiquei, como um bom servo de dona Vanna, apenas apreciando o que não conseguiria comprar e buscando na minha mente maneiras de honrar as reservas que tinha feito. No colégio, quando contei essa história, fui chamado de otário pelos meus colegas, mas, graças à dona Vanna, descobri que era apenas honesto.

Me tornei um jovem adulto e a minha relação com ela, ou com a loja, melhorou.

Aprendi a garimpar e a pedir livros que não tinham na loja, o que me dava mais tempo para guardar o dinheiro necessário para quitar minhas dívidas. Passei dos RPGs pro Tarot, do Tarot pros pocket books, dos pockets pros livros de filosofia, psicologia e ciências sociais, e, enfim, me tornei um cliente de todas as seções da loja.

Dona Vanna, tenho certeza, me ensinou a ser um melhor leitor.

Acabei me tornando eu mesmo um livreiro, e, apesar de ser um colega de profissão, continuei a respeitar e a temer dona Vanna. O medo talvez fosse exagerado, mas o respeito sempre foi devido.

Nessas voltas que a vida dá, acabei, após sócio de duas livrarias, indo trabalhar num prédio próximo à Da Vinci. Um colega do trabalho, apreciador de Cultura Cervejeira, sua História, suas Circunstâncias,  estava procurando livros realmente especiais sobre o tema e o levei na dona Vanna.

Ao contrário de mim, que cresci sob o regime de terror de dona Vanna, ele se sentou à sua frente com naturalidade, bateu altos papos com ela em francês sem o menor pudor e saiu de lá com uma lista de livros e revistas encomendados.

Um dia seu telefone tocou no trabalho e eu atendi. Tremi, era a voz da dona Vanna:

– Por favor, avise ao seu Luís Guilherme que estou em Paris e achei quase tudo que ele me pediu.

Foi isso mesmo que você leu: dona Vanna estava em Paris procurando os livros que ele encomendou. Naquele momento eu descobri quem eu queria ser quando crescesse.

Meio sem aviso, após uma grande expansão, a Da Vinci definhou, Dona Vanna sumiu da nossa vista, e colocaram no lugar da loja um pastiche de comércio que não merece o nome do templo criado por ela.

Ontem fiquei sabendo do seu falecimento e, sinto, uma parte de mim também se foi. Ela não sabia meu nome, nossos contatos foram poucos e comerciais, mas é realmente espantoso como a sua figura icônica foi tão importante na minha formação como leitor. Nesses tempos em que a cultura está sendo destruída no país, a sua falta será ainda mais sentida. Que todos nós tocados pelo seu rigoroso amor pelos livros consigamos seguir o seu exemplo de honestidade intelectual e paixão pela cultura.

Arrivederci, maestra!

Deixe de ser patriota, pergunte me como

Todo país é uma farsa. Você prende um bando de gente num território; estabelece fronteiras artificiais para “impedir” o uso dos recursos naturais dessa terra por gente que você não gosta; define um modelo de governança que lhe dê vantagens sobre o restante da população; controla a circulação de valores inventando um dinheiro que só você pode imprimir; e tira da cartola uma fantasia romântica sobre essa conjunção de povo e terra, desenha uma bandeira pouca imaginativa, escreve uma marchinha safada, que chama de hino, e dá a isso o nome de cultura. Presto! Temos um país.

Pessoalmente, prefiro o método Marina Lima “você me abre seus braços” de criação de país, mas esses passos acima normalmente são os que as pessoas seguem para criar essas fantasias patrióticas que dividem o mapa-múndi como um livro de colorir para adultos com baixa capacidade cognitiva.

Nenhum problema em acreditar em coisas que não existem. Religião e Super Heróis fazem sucesso até hoje e são, pelo menos no segundo caso, fantasias basicamente inócuas. O problema é que os países, assim como os relacionamentos românticos, na acepção do Miguel Falabella, são como submarinos: até bóiam, mas são feitos para afundar. E o seu fracasso se dá justamente pela fantasia romântica que gera aquele sentimento patológico de submissão chamado patriotismo. Se encararmos a nossa relação com os países, e até com as pessoas, com mais pragmatismo, só teremos a ganhar. Em vez de ficar sofrendo com problemas que achamos decorrentes da “cultura” ou do “jeito de ser” do “brasileiro”, por que não resolvê-los deixando as emoções de lado?

Exemplo? Dou até dois.

Primeiro: o país é ingovernável. OK, divide o território. Pra que ter um país desse tamanho? Porque a gente fala português? Valha-me, Deus. É só manter uma estrutura compartilhada mínima de relacionamentos, definir constituições estaduais respeitando os grupos populacionais mais próximos, suportar sistemas educacionais e de saúde compartilhados, e montar um mercado comum entre esses estados para organizar e pronto. Ah, e aproveitando podemos acabar com as forças armadas, que, no nosso caso, são apenas um tipo de decoração que só atrapalha.

Segundo: os governantes se locupletam e não pensam no bem estar da população. OK, vamos transformar o poder em ônus e não em bônus. Em vez de basear a concessão das chaves do reino nesse concurso de popularidade disputado por gente feia e burra, vamos sortear os cargos atualmente eletivos. Tenho certeza que seria impossível sair com um presidente pior do que o que temos atualmente. Ah, e a democracia? Relaxa, o povo vai votar. De 2 em 2 anos, votamos se esses sorteados estão fazendo um bom trabalho ou não. Os que fazem um bom trabalho são retirados do governo e do sorteio para sempre, os que não fazem são exterminados em praça pública. Duvido alguém mais querer ser político.

Viu? Facinho de resolver. É só deixar as fantasias megalomaníacas ou paranóides de lado que rapidinho a gente acha uma solução pra tudo.

Se a gente tivesse menos romantismo com essa construção torta, essa colônia passada de pai pra filho, e movida aos trancos e barrancos através de sucessivos golpes de estado capitaneados por forças armadas ociosas e com fantasias de poder, a vida seria mais fácil e melhor. Abandonar a fantasia de futuro brilhante para esse conjunto de território e população é o melhor caminho para aprendermos a viver confortavelmente com a nossa mediocridade. E isso se aplica a todos os países do mundo.

Afinal, o Brasil, como o restante da comunidade mundial, não tem um destino manifesto. Isso é só conversa de vendedor de carro usado pra te empurrar um acordo ruim, contando com a ideia que você sente orgulho por algo que não existe: ser brasileiro. Patriotismo é uma fantasia tão fora da realidade quanto discutir se o Capitão América é melhor que o Homem de Ferro. Viver em comunidade, sem firulas e com autocrítica, é que são elas.

Agora, se você não concorda com nada do que eu disse, fique à vontade para sair de camisa do brasil, fazendo arminha com a mão, e apoiar um genocida que se diz um Messias para se apropriar do erário nacional e favorecer sua família de incompetentes e seus amigos milicianos. No seu futuro, como no do Brasil, eu só vejo remorso e dor. Eu, por outro lado, decidi viver com consciência, sem sujar as minhas mãos de sangue defendendo gente que não merece meu respeito. Eu preferi ser pragmático a ser patriota. É a maneira mais ética e mais racional de se viver, pode acreditar.

Aqui e ali

Hoje sonhei que estava ao mesmo tempo aqui e ali. Havia um futuro ali, com cores, beleza e movimento; mas o passado, ou melhor, ou pior, o presente do aqui ainda me prendia, com seus alarmes e alertas, suas mensagens de celular e videoconferências sem fim. No sonho, era como se eu estivesse à caminho do ali, mas ainda sem tirar um pé do aqui.

Quando acordei, anotei o sonho num caderno que tenho aqui, cheio de fantasias e desejos que imagino realizados ali, e percebi que, ao mesmo tempo que quero ir para ali, tenho medo de deixar aqui.

Ali representa satisfação, amor e emoção. Aqui representa dor, marasmo e humilhação. Mas ali é incerto, e tenho medo de me frustrar. Aqui é menos incerto, mas tenho medo de me afogar.

Não lembro de quando fiquei sabendo que havia ali. Talvez já tenha vivido ali, antes de viver aqui, mas já não sei mais. Durante um tempo, longo demais, não fiquei nem aqui, nem ali, e pedi a Deus que me levasse para algum lugar. Ele me trouxe para aqui, e agradeço por não estar mais em lugar algum. Porém, agora, não me canso de sonhar com deixar aqui e chegar ali.

Ali eu teria liberdade e diversão. Aqui é só medo e opressão.

Ali eu poderia ser mais eu mesmo. Aqui eu preciso esconder quem sou por medo de retaliação.

Ali as coisas crescem e se transformam. Aqui as coisas morrem e tentam ser salvas por ganância e sede de poder, não por merecimento.

Ali é a juventude que eu tive; a alegria de viver. Aqui é a decrepitude alheia, o formalismo, os velórios; o medo de morrer.

Ali não é aqui. E aqui não é ali. E isso já bastou pra eu quase me decidir.

Parece fácil escolher entre aqui e ali, mas não é. Afinal, um dia, aqui já foi ali e representou tudo o que o novo ali hoje representa. Ali e aqui não são só uma questão de espaço, também de tempo. Todo lugar é ali quando não se está lá. E assim que se está lá, ali ele se torna aqui.

Mais importante do que o aqui e o ali, é quem sou lá, quer dizer, lás. Quando sou novo e cheio de promessas, para o aqui eu sou um ali. Quando o tempo passou e me tornei antigo e repetitivo, sou o espelho do aqui para o qual ninguém mais quer olhar.

Como um papel de parede bonito e vistoso, que chama a atenção logo após a sua aplicação, aos poucos vou me confundindo com a parede e sumindo naquilo do que eu achava que não fazia parte.

Mas dentro do meu coração, eu sei que não pertenço aqui e, talvez, nem pertença ali.

Fico buscando, em sonhos e medos, razões para ir e pra ficar. Pois, sempre resta uma esperança que eu possa, ou algo possa, transformar o cansado aqui num excitante ali. E, assim, eu não precise me mudar.

Indeciso, com medo e angústia, ponho um pé pra fora do aqui, nos meus sonhos, nas minhas conversas, em desenhos e palavras cruzadas feitas escondido. Mas não saio inteiramente, nem me comprometo com o caminho para o ali, pois não sei se vou chegar.

Hoje, como ontem, e, espero diferente de amanhã, a decisão é não decidir entre o ali e o aqui. Mais uma vez, a decisão é ficar nem cá, nem lá. Melhor voltar a dormir e sonhar com mapas que venham me salvar.