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Meu vizinho, Arnaldo

Foi o porteiro quem me alertou do novo vizinho:

– Tá morando do lado de celebridade agora…
– Sério? É atriz? Modelo?
– Não, é homem.
– Ator? Jogador de futebol?
– Melhor você mesmo ver…

Cheguei em casa, e, para não parecer tão afobado, esperei até umas 8 da noite para tocar a campainha do vizinho.

JÁ VAI! – uma voz tenebrosa e sinistra soou do outro lado da porta.

A voz foi um prenúncio muito leve do que me esperava. A porta abriu e lá estava ele: o Major Pavor, o super “herói” da ditadura militar. Dois metros e meio de altura; o rosto putrefato, decorrente da experiência genética que lhe deu superforça e o poder de voo; o uniforme verde e amarelo que foi fundido ao seu corpo para lhe dar invulnerabilidade; acusado de milhares de crimes políticos, dos quais só escapou de ser preso por conta da lei da Anistia; e, pelo o que eu lembrava, tinha sumido no interior do Brasil arrependido de seu passado. Eu esperava que essa parte final fosse verdade.

SIM?
– Oi, er… tudo bem? Eu sou seu vizinho de porta e vim aqui pra me…. ahm…. apresentar. Tudo bem? Seja bem vindo. Bom, se precisar de alguma coisa, você sabe… ahm, é só avisar.
MUITO PRAZER– ele estendeu a mão enorme em minha direção.- PRA FALAR A VERDADE ACHO QUE VOCÊ PODE ME AJUDAR COM ALGO.
– Claro. O que posso fazer por você?

Ele me convidou pra entrar. A sua casa ainda estava cheia de caixas, mas já dava pra ter uma ideia da decoração meio hippie, meio krishnamurti.

AQUI– ele apontou para uma caixa marcada com um adesivo de frágil.- PRECISO PEGAR UM PORTA RETRATO NESSA CAIXA MAS ESTOU COM MEDO DE QUEBRAR TUDO AÍ DENTRO.
– Ok, deixa eu ver o que posso fazer.

Abri a caixa sem muito jeito, mas não quebrei nada. E do meio de folhas e folhas de plástico bolha tirei um porta retrato onde tinha uma foto do Major Pavor com o Betinho, sim, o irmão do Henfil, do Fome Zero.

Ele pegou o porta retrato com a ponta dos dedos e o colocou no rack da televisão.

– Você conheceu o Betinho?- tentei puxar assunto.
SIM. FUI VOLUNTÁRIO NO FOME ZERO. GRANDE SER HUMANO.
– É, eu imagino. Bom, então, foi um prazer. Qualquer coisa…
QUE ISSO. DEIXA EU TE RETRIBUIR. QUE TAL UMA CERVEJA?
– Bom, tá meio tarde…
NÃO ME FAZ ESSA DESFEITA. É UMA CERVEJINHA SÓ.
– Ok, se for uma só…

Não foi uma só. Só saí da casa do Major Pavor de madrugada, depois de ouvir toda a sua epopeia.

Apesar de ter o nome de Major Pavor, ele era um recruta que foi submetido a experiências coordenadas pelo Mengele, que vivia escondido no Brasil e protegido pelo governo militar. Sem muita perspectiva, confessou, fez muita coisa da qual hoje se arrepende. Com a Anistia, ele foi liberado de suas funções e, profundamente abalado pela sua consciência, foi morar numa comunidade hippie no interior de Minas. Lá começou a meditar e se tornou budista. Depois de 40 anos de reclusão voltou à cidade grande para ajudar a cuidar de uma tia nonagenária e fazer faculdade de serviço social. E, contando com as inúmeras cervejas que tomamos, isso terminava a sua história.

Quando fui pra casa, apertamos as mãos no corredor:

– Pô, Major Pavor, vou te dizer, realmente foi um prazer conhecer a tua história.
NÃO ME CHAMA ASSIM. JÁ DEIXEI ISSO NO PASSADO. MEU NOME É ARNALDO. ARNALDO.
– Blz, Arnaldo.

No dia seguinte, no botequim, o assunto era o Major Pavor. Um pessoal se dizia com medo da sua presença. Será que ainda era o reacionário que auxiliou o governo militar? Outro grupo queria se organizar para expulsá-lo do bairro. Onde já se viu dar guarida a um símbolo da opressão? Eu, como o tinha conhecido, me calei. Não sabia o que dizer. Realmente o que ele tinha feito fora imperdoável, mas ele me parecia ter mudado. Por mais que, concordo, ele não devia ter sido anistiado, até quando alguém deve pagar pelos seus crimes? Será que acreditamos de verdade que alguém pode se regenerar ou só dizemos isso da boca pra fora?

Enquanto os ânimos se exaltavam no botequim, de repente, precedido pelos seus ruidosos passos, o Major Pavor passou pela praça, com uma sacola de compras, indo em direção ao Hortifruti.

FALA, VIZINHO– ele acenou pra mim.
– Fala, Arnaldo- respondi.

O botequim todo se virou pra mim, assustado. Depois de um longo momento de espanto, alguém finalmente conseguiu quebrar o silêncio:

– Então, quer dizer que você conhece o Major Pavor?
– Não, quer dizer, eu conheço ele, mas o nome dele não é Major Pavor, é Arnaldo. É Arnaldo.

Part(ida)

Ainda era alta madrugada quando colocaram a canoa na beira d’água. A Lua iluminava parte do rio, mas, devido ao escuro, era impossível ver a outra margem onde deviam chegar.

– Será que é muito longe?
– Nunca veio nesse rio de dia?
– Não. Você?
– Não sei, não lembro. Mas não deve ser longe. Melhor atravessar o rio do que ficar aqui.
– Isso, sim.

Empurraram a canoa. O primeiro entrou nela e começou a botar tudo pra dentro: os baldes, as provisões, os remos.

– Não esquece das varas!

O segundo trouxe as varas de pesca e as entregou pro primeiro.

– Você realmente acha que a gente vai conseguir pescar?
– Não sei. Vai quê.
– Isso, vai quê.

O segundo empurrou a canoa e saltou pra dentro, enquanto o primeiro começava a remar. Na inércia a canoa se afastou da margem e, aos poucos, não conseguiam ver mais nada: nem um lado, nem o outro. A névoa da madrugada os cercou e não sabiam mais de onde vinham, nem pra onde iam. Na dúvida, remaram. Era tudo o que lhes restava.

– Que horas são?
– Não sei.
– O sol já devia ter nascido, não?
– Não sei. Para de pensar nisso, e vamos remar.
– Isso, sim.

Em breve ia amanhecer e tudo seria diferente. Eles, o rio, tudo. Pelo menos era o que esperavam. Sem passado, nem futuro, remaram em direção aos vapores do destino, que continuava, como sempre, uma incógnita. Pelos menos não tinham esquecido as varas de pesca. Vai quê, vai quê.

despertar

…dormiu.

acordou no quarto escuro e tentou acostumar a sua vista à falta de luz. aos poucos começou a perceber um raio de luz que vinha da janela. se levantou com cuidado para não acordar ninguém e tentou espiar de onde vinha essa luz. de uma janela que nunca tinha percebido, no prédio espelho, em frente ao seu, uma pessoa olhava de volta. se escondeu, num susto, e percebeu, de canto de olho, que a pessoa fez o mesmo.tentou olhar novamente, sem que a outra pessoa lhe percebesse, mas a pessoa imitou seus movimentos. ficou de quatro e, olhando para o raio de luz, engatinhou até à cama, esperando esquecer do outro alguém. quem seria essa outra pessoa? quem seria? será que poderia ser…melhor nem pensar nisso. fechou os olhos, torcendo para ter um sonho que apagasse todo esse medo e estranheza da sua mente. dormiu.

acordou…

O 1° Mergulho

Na primeira segunda-feira da sua aposentadoria, ele acordou no horário de sempre, mas, como não tinha compromisso algum, não soube o que fazer. Ficou uns momentos sentado na ponta da cama, até que ouviu a praia lhe chamando. Foi até a janela e, entre os prédios de Copacabana, conseguiu ver uma nesga de mar.

Estava nublado, ventando um pouquinho, mas não conseguiu resistir. Colocou a sunga e, enquanto procurava uma bermuda, percebeu que não precisava dela. Iria pra praia só de sunga. Ora, bolas, pensou, não preciso mais prestar contas pra ninguém.

Pra não dizer que foi totalmente largado, colocou 20 reais na sunga, botou uma toalha no ombro, calçou os chinelos e partiu.

No elevador, encontrou o vizinho do 802 todo de terno indo pro trabalho.

– Bom dia- cumprimentou com toda a naturalidade que só uma pessoa quase nua pode ter.
– Bom dia, tá indo pra praia?- o vizinho perguntou jocoso.
– Eu tô, e você?

No térreo, cumprimentou o porteiro e ganhou as ruas. Ao seu redor pessoas com suas fantasias de trabalho passavam na direção contrária, lançando olhares de surpresa e inveja. Venceu a multidão, e, no calçadão, frente a uma praia quase vazia, proclamou:

– Tudo meu.

Tirou os chinelos e aproveitou com calma a textura da areia fofa sob os seus pés. Na beira da água se aproximou de uma senhora que, como ele, ignorava o frio para curtir a praia. Jogou o dinheiro e os chinelos, enrolados na toalha, na areia e pediu à mulher:

– Olha pra mim, moça?

Sem olhar para trás, caminhou em direção ao mar. A água gelada tocou seus pés, mas ele não se retraiu. Como a criança que esqueceu que fora, correu em direção à arrebentação, saltando as ondas com as pernas tortas. No rosto, um sorriso enferrujado iluminou o dia nublado. Mergulhou.

Senhora

Senhora, tá me ouvindo aí dentro? Seja bem-vinda a esse mundo doido.

Mas como a senhora  é preguiçosa. Sua mãe já está tendo contrações há horas e a senhora não faz o menor esforço pra sair daí.

Muito prazer, senhora. É uma satisfação finalmente encontrá-la presencialmente.

Vai com calma! Assim a senhora vai deixar a sua mãe seca.

Isso, senhora. A senhora vai andando, se segurando pela parede, e pode mexer na estante, mas não conte pra sua mãe, senão ela me mata.

De todas as primeiras palavras que a senhora teria pra dizer a senhora vem e me escolhe “Batata”?

Não chore, senhora. Também acho o modelo educacional ocidental traumático e tirânico, mas precisamos viver em sociedade. Não é, mesmo?

Como é? A senhora vai querer que eu espere você brincar mais um pouco com seus amigos aí na escola? A senhora não tem respeito por mim, mesmo.

Concordo com a senhora: as provas não servem pra nada. Mas, guarda essa revolta, e termina de estudar essa tabuada de 7. Depois que se formar você muda o mundo.

Eu sei que a senhora é quaaaase uma adulta, mas se chegar depois das 10… bom, você sabe que não vai acontecer nada, mas, por favor, vê se a senhora se cuida.

A senhora realmente quer me apresentar esse senhorzinho que a senhora chama de namorado? Pra que perder meu tempo e memória tentando lembrar dele? Em duas semanas, a senhora nem vai saber como ele se chama.

Quem diria? Universidade… Logo a senhora que dizia odiar estudar. Não dizia? Então canta aí a tabuada de 7 para mostrar que eu estou errado.

Casar? No meio da faculdade? E com aquele senhorzinho que a senhora começou a namorar na adolescência? A senhora me perdoe, mas vou exercer meu poder de veto pela primeira vez na vida. Onde já se viu? Jogar sua vida fora por conta de uns e outros.

Parabéns, senhora bacharel. Agora, me diz, eu não tinha razão quando falei para a senhora não se casar no meio da faculdade? Como era o nome daquele senhorzinho, mesmo? A senhora não lembra ou não quer lembrar?

Se mudar de casa? Pra quê, senhora? Pode ficar por aí, ninguém está reclamando da sua presença. Se bem que, se eu morasse comigo, talvez também quisesse morar em outro lugar.

Que casa bonita a da senhora. Será que tem um quarto aí pra mim? Cansei de morar comigo mesmo e a senhora é uma excelente companhia.

Vou te dizer, que velocidade surpreendente pra casar, hein, senhora. Mas, não se preocupe comigo, só desejo boa sorte e todas essas bossas. Mas cá entre nós, tem algum motivo especial pra essa pressa toda?

Enfim a senhora traz os seus senhorzinhos para me conhecer. Começou logo com dois de uma vez. Conselho? Para por aí. Se forem como você, vai ser problema em dobro.

Não foi nada, senhora. Essa dor repentina é coisa normal, coisa de velho. Você não sabe o que isso, mas vai saber, vai saber.

Claro que eu vou melhorar, senhora. Onde já se viu? Tenha mais confiança em mim.

Sabe, senhora, se existir um lugar onde a gente pode sentir saudade das coisas desse mundo, a senhora vai ser a minha saudade principal.

Senhora, tá me ouvindo aí? Foi um prazer te conhecer.

A Eleição sem Fim

Na última segunda feira do mês de outubro foi realizada a 27a. reunião extraordinária do Edifício Sinceridade para a eleição do novo síndico.

A reunião se iniciou, como esperado, às 7 da noite. Os candidatos cumprimentaram os condôminos e apresentaram suas propostas. Primeiro, o concorrente disse que ia fazer tudo diferente da atual administração, mas não explicou como, nem o quê. Depois, o último síndico relatou que se sentia obrigado a se candidatar mais uma vez para evitar que o concorrente piorasse os atuais problemas do condomínio, os quais ele nem se dignou a enumerar. Com o fim da apresentação das pseudopropostas dos candidatos, a palavra foi passada aos condôminos com direito a voto.

A moradora que tem animais domésticos e apartamentos demais perguntou aos candidatos qual seria a sua política em relação a ter bichos nos apartamentos. Para não perder seu voto, ambos desconversaram. O militar da reserva que tem ocupação e inteligência de menos perguntou como iriam lidar com o problema das drogas e gangues do prédio. Os candidatos tentaram sem sucesso esclarecer que esse não era um problema real, mas, frente aos protestos raivosos do condômino reacionário, para não perder seu voto, ambos disseram ser pela pátria, pela família e pela propriedade. A professora universitária bem intencionada e bem pernóstica perguntou como seria a política de ESG dos candidatos. Sob os olhares de surpresa dos presentes, ela esclareceu que a sigla queria dizer “Enviromental, Social & Governance”, o que no fim das contas não ajudou a tirar ninguém da ignorância. Sem saber responder, e para não perder o seu voto, ambos disseram ser progressistas de carteirinha.

Terminadas as perguntas, os candidatos começaram a discutir, sem substância, sobre suas propostas. Atraídos pelo buraco negro de sentido, os demais condôminos começaram a expressar suas opiniões vazias num monólogo coletivo sem fim. Às 10 horas da noite, cansados do fútil exercício do poder, os candidatos concordaram em continuar com o debate numa data posterior onde a eleição poderia, finalmente, ocorrer.

Enquanto isso, por mais período, o Edifício Sinceridade continua sem governo e sem tirania. Pelo menos por enquanto.

Parece anarquia mas é simplesmente o real sentido democracia: uma eleição sem fim, onde quem ganha são os que não escolhem tolos vaidosos para liderá-los.

Seria perfeito, se não caísse nas costas de um idiota como eu a responsabilidade pelas atas dessas infindáveis reuniões.