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Desfiando

Quando ele morreu, não foi surpresa. Não era velho, nem doente, mas todo mundo via que ele não se cuidava. Como pra todo mundo, era só uma questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde ia/vai acontecer; calhou de ser mais cedo. Fazer o quê?

Por essas e outras não foi uma tragédia muito grande. A família foi amparada por conta de seguros e reservas financeiras; os amigos tinham histórias boas o suficiente para exercitarem uma memória positiva da breve sua existência; e, no trabalho, como dizem no mundo corporativo, ninguém é insubstituível.

Porém, quando ele se foi, um pequeno nodo de uma grande rede começou a se desfazer. Sem as conversas sobre as agruras da vida que tinha na banca de jornal, o fardo do jornaleiro ficou pesado demais, ele voltou a beber e morreu num acidente de carro onde atropelou três crianças; a dona do botequim, parece até piada, tomou um baque muito grande nas finanças quando perdeu seu melhor cliente, e o espaço tradicional fechou para deixar no lugar uma, cruz credo, hamburgueria gourmet; e o filho meio maluquinho do vizinho de baixo perdeu o seu amigo de trocar revistas em quadrinhos e, ao invés de se tornar um artista, foi estudar economia como seu pai.

Como eu disse, não foi uma tragédia muito grande, mas foi maior do que aparentou. E, como sempre, o mercado corporativo mais uma vez errou: todos são insubstituíveis.

Adoção

– Onde você comprou esses gatos?
– Não comprei, adotei.
– Ah, tá.
– Porquê? Você não gosta de gatos?
– Acho que gosto, não sei, mas eu já tive cachorros.
– Mas de gatos? Você gosta?
– Não desgosto. Tem as coisas pra eles?
– Que coisas?
– Sei lá, pote pra água, comida, aquele lance pra eles fazerem xixi…
– Areia?
– Isso, areia.
– Tem, não. Tem que comprar.
– Deixa que eu vou lá.

30 minutos depois ele volta com tudo.

– Ó, tá aqui.
– Ai, que ótimo. Obrigada. Já, já, eu arrumo tudo.
– Não. Deixa que eu arrumo.
– Tá bom. Obrigada.

10 minutos depois tá tudo arrumado. Os gatos bebem, comem e fazem cocô.

– Cara, vou te falar. Até fiquei cansado.
– Sério?
– Sério. Vou dar uma deitada.
– Beleza.

Ele deita e em 5 minutos está roncando. Os gatos deitam em cima dele e ele nem se abala. Adoção finalizada.

Acima das nuvens

Quando Luna o expulsou do quarto, no meio da noite, seu primeiro pensamento foi ir embora, ir embora de Copacabana.

Ele subiu ao terraço do hotel e acionou o aplicativo para chamar um dos táxi voadores que cortavam os céus da cidade.

Apesar da chuva torrencial, para a sua sorte, os táxi voadores ainda estavam em atividade. E, mesmo sendo tarde da noite, os preços indicados pelo aplicativo estavam, senão baratos, justos. Na verdade, qualquer preço seria barato para ir para longe dalí, para ir para longe de Luna.

Mais rápido do que esperava, o carro voador varou a parede de nuvens e, trazendo uma penca de gotas e umidade, estacionou suavemente bem na sua frente.

O piloto abriu a porta e o convidou a entrar. Ele, com o rosto molhado de chuvas e lágrimas, entrou no táxi, sem cumprimentar o aviador. Sentou-se no banco de trás, amuado, e contou os segundos até o carro decolar.

– A noite está linda- o aviador puxou conversa.
– Onde? Onde está essa beleza toda? – ele respondeu reativo.
– Acima das nuvens. Acima das nuvens dá até pra ver a Lua.
– Cansei da Lua. Cansei do Luar.
– Então, o senhor prefere ir pelo meio das nuvens?
– Pode ir. Não é essa turbulência que vai me derrubar.

Dr. Molon e Mr. Moro

No caminho para o trabalho, Marco esbarrou com um bando de gente balançando bandeiras de apoio à candidatura de André Ceciliano ao senado. Bem ciente das contradições do PT carioca, ele, só de zoação, resolveu gritar “Molon!” pra dar umas boas risadas. Para seu espanto, quando abriu a boca, do fundo da sua garganta saiu um longo e sonoro:

– Mooooro!

As pessoas à sua volta se viraram procurando quem poderia ter dado esse grito tão sem propósito em pleno Largo da Carioca. Profundamente envergonhado, e sem entender como esse engano podia ter acontecido, ele tampou a boca com a mão e, de cabeça baixa, foi para o trabalho quase em marcha atlética, esperando não ter sido reconhecido.

O dia no trabalho foi bem pesado, mas o ato falho da manhã não lhe saiu da cabeça. Por que diabos teria gritado “Moro”? Fazia tempo que nem pensava no ex-juiz curitibano mezzo-bolsonarista mezzo-soprano. O que esse engano podia significar? Pensou em comentar com alguns amigos do trabalho, mas ficou com medo de escandalizar os progressistas ou, pior, aproximar os liberais na economia e conservadores nos costumes que escondiam seu fascismo atrás do discurso “não converso sobre política”. Segurou a onda, ficou quieto e guardou o assunto para falar com a Suzette quando chegasse em casa.

Durante o jantar, enquanto comiam os restos de pizza do dia anterior, ele finalmente tirou do seu peito o peso do acontecimento da manhã:

– Pô, Suze, nem imagina o que aconteceu hoje. Eu vi uns caras apoiando o André Ceciliano e resolvi gritar o nome do Molon pra tirar uma com eles, mas acabei gritando Moro. Que louco, né?

Suzette interrompeu a mordida da pizza no meio, pousou ela no prato e balançou a cabeça desconsolada.

– Tudo bem, Suze? – Marco estranhou.

Ela sorriu forçado e levantou um dedo, como se pedisse pra falar em sala de aula:

– Tudo, amor. Só um minutinho que eu preciso fazer uma ligação.

Suzette saiu da mesa, digitou algo no celular e começou a falar no canto da sala:

– Sim, doutor. De novo. Começou. Não, não. Foi só um sintoma pequeno. Sim, sim. O que eu faço, então? Hum, hum. Vocês chegam aqui quando? Ótimo, ótimo. E, enquanto isso, o que eu faço? OK, OK. Vou tentar, vou tentar. Venham logo, por favor. Muito obrigada, muito obrigada.

Intrigado, Marco a questionou:

– Suze, com quem você estava falando?
– Com ninguém, amor. É que eu lembrei de uma coisa e…
– O que é isso? Vai impor sigilo de cem anos aqui em casa? Olha só, não quero ninguém aqui em casa compactuando com essa postura de comunista.

Suzette arregalou os olhos e o próprio Marco percebeu que havia algo errado. Ia falar bolsonarista e da sua boca saiu “comunista”.

– Suze, você viu? Aconteceu de novo. Amor, me ajuda. Não sei o que está rolando comigo.
– Calma, amor. Senta aqui no sofá e vamos assistir algo pra você relaxar. Isso, senta. Respira fundo. Deixa eu ligar a TV. Daqui a pouco começa Pantanal…
– Ótimo, estou mesmo precisando relaxar. Pode botar aí na Globolixo, amor.

Ao ouvir aquela palavra brotar da sua boca, Marco teve certeza de que estava tendo um derrame ou algo parecido. Só isso podia explicar essa troca de palavras. O que mais podia justificar ele estar falando como um fascista?

– Suze! Me ajuda, acho que estou tendo um treco. Suze, o que está acontecendo comigo?

Suzette, muito séria, não se moveu.

-Suze, vem cá! Por que você não me ajuda?

Suzette suspirou e se encaminhou para a estante de onde tirou um celular escondido por trás da coleção de livros do Chico Buarque.

– Marco, fica calmo, você não está morrendo, nem nada. Mas se prepara pro que eu vou te mostrar. Pode ser um bruta choque pra você.

Ela sentou ao seu lado e começou a mostrar para ele um álbum de fotos onde Marco, vestido de camisa do Brasil, daquela amarelinha, sorria extasiado.

– O que é isso, Suze? De que Copa é isso? Tem anos que eu não uso essa camisa, porque….
– Exato, Marco. É exatamente o que você está pensando.

Ela continuou avançando pelas fotos e ele começou a identificar a praia de Copacabana, as faixas pedindo o Impeachment, e, surpresa total, numa delas ele mesmo carregava um cartaz pedindo intervenção militar e o fim do STF.

– O que é isso? Isso só pode ser fake news- se indignou.- Eu nunca…
– Calma, Marco. Eu também caí nessa.

Nas próximas fotos ele e Suzette apareciam abraçados com uma bandeira do Brasil fazendo arminha com a mão.

– NÃO! Isso não! Tudo menos isso. ISSO NÃO.
– Marco, a gente errou. Eram tempos complicados. A economia tava uma bosta, tinha a lava a jato, aquela série do Padilha no Netflix, e no Jornal Nacional toda hora aparecia aquele cano cuspindo dinheiro. A gente foi na onda. Eu já aceitei isso e mudei de ideia, mas você parece que não aceitou essa inconsistência política e, vez outra, tem esses surtos quando relembra que foi…
– Fui o que, Suze?
– Bolsonarista.
– Bolsonarista? Logo eu que fiz campanha pro Lula?
– Em 2002, sim. Mas em 2014, olha só…

Na próxima foto lá estava Marco abraçado com Aécio Neves.

– Para, Suze! Você está me assustando.
– Calma, amor. Fica calmo. Vez ou outra você tem esses surtos mas eles passam e você esquece de tudo e volta a ser uma pessoa normal.
– Mas por que isso acontece?
– Bom, tem algumas teorias. Dizem que pode ter a ver com a economia. Quando ela vai bem, você apoia qualquer governo que estiver rolando; quando vai mal, você segue na direção oposta. Mas ninguém tem certeza do que causa isso. Alguns dizem até que é uma doença crônica. Uma espécie de característica comum da classe média…
– Mas eu sou de esquerda, Suze. Gosto de Chico Buarque, tenho todos os discos do Caetano, li até os livros da Márcia Tiburi.
– Não leu, Marco. Assim como não leu os do Olavo, quando ficava de direita.
– Eu nunca tive livros do Olavo.
– Não?

Suzette se levantou e abriu uma gaveta no rack da TV. Lá dentro, sob um fundo falso, estava exatamente o que Marco não queria ver: livros do Olavo de Carvalho, DVDs de versões estendidas de Tropa de Elite e um bando de CDs de cantores sertanejos.

– NÃO! EU NÃO POSSO SER BOLSOMINION! NÃO, NÃO POSSO! ISSO É MENTIRA. MENTIRA!

Enquanto Marco gritava de joelhos lamentando a própria sorte, a campainha tocou e Suzette abriu a porta de entrada. Dois enfermeiros enormes entraram na casa, sem pedir licença, agarraram Marco, lhe deram uma injeção e o levaram embora numa camisa de força. Uma médica, que ficou parada na porta, deu algumas indicações para eles e se aproximou de Suzette. Vendo o celular com as fotos de Marco sobre o sofá, ela perguntou:

– Por que você mostrou as fotos para ele?
– Não tive saída. Ele começou a surtar achando que ia morrer.
– Entendo, mas, atenção, só use isso em último caso.
– OK, OK. Será que ele melhora rápido? Esses surtos estão ficando cada vez mais comuns.
– É, parece que o quadro está evoluindo negativamente, mas vamos torcer que ele demore pra ter outro episódio.
– Quando ele volta pra casa?
– Acho que antes do fim de setembro ele já estará em casa.
– Antes de 2 de outubro ele já vai estar aqui? Quer dizer que vai ele poder votar?
– Bom, votar, ele até pode, o problema é em quem. O problema é em quem.

Amanhecer

Ontem, a gente via o nascer do sol do outro lado, do lado daqueles que ainda não tinham dormido. Voltando de boates e bares, encharcados de álcool e conversas essenciais, seguíamos de carona em carros de desconhecidos em direção a casas que não fossem as nossas. Abríamos janelas e geladeiras na busca vital por ar e pela última dose; ligávamos televisores e cd players como trilha sonora para nossas últimas investidas amorosas; nos esparramávamos em futons e camas estranhas dando boas-vindas ao sono do qual necessitávamos; fumávamos cigarros e começávamos conversas tentando nos manter acordados para sempre. Não sabíamos o que queríamos, não sabíamos de nada, e estava tudo bem. E estava tudo bem.

Hoje, a gente vê o nascer do sol pelo outro lado, do lado daqueles que acabaram de acordar. Despertando assustados de sonhos estranhos dos quais não conseguimos lembrar, encharcados de suor e solidão, vamos arrastando os pés doloridos até cozinhas silenciosas em busca da cura inexistente para a ressaca da vida. Abrimos janelas e geladeiras para contemplar nossos desejos e lembrar dos nossos erros; entramos na internet em celulares e computadores tentando buscar a impressão de um amor que um dia achamos já ter sentido; nos enrolamos em cobertores e abraçamos travesseiros, tremendo, tomados pelo medo de dormir, mas com o terror de acordar; sentimos vontade de fumar e lembramos que precisamos parar, com isso e com tudo mais que já nos fez felizes; começamos monólogos em redes sociais tentando capturar a atenção de alguma alma que possa salvar a nossa. Save Our Souls, SOS, escrevemos repetidamente sem resposta em muros digitais. Esquecemos, sim, o que é querer; e nem lembramos da última vez em que quisemos algo verdadeiramente, e isso é tudo que nos resta. Sim, é pouco, é ruim, mas é tudo o que sempre merecemos. O que sempre pedimos para acontecer.

Amanhã, como será o amanhecer? Amanhã, como será amanhecer?

Esotérico

Sempre, quando a festa começava a chegar ao fim, os amigos pediam:

– Toca esotérico. Esotérico. Toca esotérico.

E o pedido nunca era para um, nem para o outro. Era um pedido pros dois.

Eles, mesmo brigados, por motivos dos quais não lembravam mais, sorriam pros amigos, com sinceridade, e um pro outro, com falsidade, e buscavam seus violões. Sentavam-se um ao lado do outro, mas afastados, e tocavam.

Não precisavam de deixas ou marcações. Sabiam a hora de começar a solfejar juntos, a hora de um cantar e de o outro calar. Sabiam até quando um devia assoviar e o outro simplesmente sorrir. Faziam primeiras e segundas vozes, intercalando os versos em perfeita harmonia. Uma harmonia que há muito não existia.

Quando a música terminava, com um acorde longo, síncrono, quase infindável, todos se levantavam e aplaudiam, homenageando uma amizade que não era mais real. E eles, como pedia o figurino, se abraçavam, e agradeciam ao público, fingindo serem os jovens velhos amigos que a memória lhes dizia: nunca fomos.

E por um breve momento, nesse fim de música, os amigos e eles mesmos acreditavam nesse pastiche de amor fraternal, irreal, surreal.

O nome da música, que parecia lhes unir, ser “esotérico” não era uma simples coincidência. Era ao mesmo tempo uma afronta e um destino. Amizade era exatamente um conhecimento hermético do qual eles tinham feito questão de esquecer.