É impossível passar pela mesma Runway, quer dizer, passarela duas vezes

Dominado, como boa parte do público, por um sentimento de ansiosa urgência nostálgica e previsível desesperança exausta, me movi, em passos arrastados, até o cinema para assistir ao Diabo Veste Prada 2. Como podia evitar? Já assisti ao primeiro tantas vezes que sei não só suas falas, como também seus beats de cor: a introdução ao mundo alienígena; a resistência em se adequar; a lição de que o mundo é mais do que lhe aparenta; a tentativa de fazer parte; os erros não propositais e os erros bem intencionados; os testes impossíveis mas bem sucedidos; a participação equivocada numa conspiração nos altos escalões do poder; até a assimilação (quase) completa, seguida da descoberta da sua individualidade em meio ao monstro que parecia lhe engolir. Óbvio que esperava encontrar algo similar nessa continuação, porém torcia com uma fé difusa por algo diferente. Posso dizer que fui tanto atendido como surpreendido.

Ainda mais no celular, agora com redes sociais

Os beats, didaticamente acompanhados pela conhecida trilha sonora, são os mesmos. Porém, apesar de já ter passado por aquela passarela, aquela Runway, Andy a reencontra igual, mas em outro contexto. Tanto ela como o ambiente que abandonou há vinte anos mudaram. Agora temos Redes Sociais, as revistas físicas (basicamente) morreram, e a IA toma o emprego dos jornalistas e escritores que não passam, hoje, de criadores de conteúdo (seja lá o que for isso).

Sim, o glamour ainda existe, mas o antigo Império e sua Imperadora Miranda não têm o mesmo poder. Dessa vez, como da outra, cabe a Andy salvá-los. Inclusive, a narrativa da sua prepotência caindo por terra termina novamente com a constatação que não são os seus esforços que conseguem “salvar” sua antiga mentora e algoz. Com essa introdução funcional,  o plote se segue a mesma ordem e cadência de duas décadas atrás, com, óbvio, alguns personagens diferentes ensaiando entre as caras conhecidas nada mais do que uma velha novidade aborrecida.

A sensação de repeteco é tanta que até as interpretações dão a impressão de as próprias atrizes estarem se parodiando, tornando as falas, poses e trejeitos icônicos em pastiches de si mesmas. A tragédia, e a comédia, sabemos, só se repetem como farsa. Assim como seus figurinos, referências, marcas, cenários e maquiagens do mundo fashion.

Tudo muda, mas nada muda. Nada muda, mas tudo muda.

Mas mesmo em meio a tanta reinterpretação e paródia não(?) intencional, senti um certo frescor. Os conflitos se reciclam ou se exacerbam, as pessoas sobre as passarelas são as mesmas, mas suas intencionalidades são diferentes. Talvez por conta de um cansaço existencial, laboral e social, a repetição neurótica dos inescapáveis conflitos das personalidades e dos personagens consegue, com um pingo de maturidade, promover finais diferentes. Em meio às operacionalizações dos seus conhecidos trejeitos e tiques comportamentais, surge um fio luminoso de esperança de que algo será diferente no final. É um sinal da esperança de que, antes do derradeiro fim dos impérios e das nossas vidas, possamos aprender a sermos ao mesmo tempo outros e os mesmos. Não foi pra isso que fomos criados? Para mudar e sermos cada vez mais quem somos?

Revisitar o Diabo Veste Prada foi uma experiência familiar e alienígena, como voltar ao seio de uma família após um longo distanciamento. Tudo parece igual, mas tudo parece diferente. Assim subimos novamente com as sempre solitárias figuras de Miranda, Emily, Nigel e Andy nessa plataforma, cercada de novos personagens que não passam de reflexos de suas próprias personalidades, para tentar fazer algo de melhor com nossas vidas. Ao contrário do que eu, dominado pelo pessimismo que o mundo me alimenta todos os dias, esperava, dessa vez, conseguimos superar nossos hábitos tóxicos com tanto sucesso que deu até pra celebrar essa  inesperada mudança com uma bela e carinhosa lágrima de alívio pela aceitação da morte. Morte das nossas revistas, dos nossos impérios, das nossas imagens e das personagens nas quais depositamos os nossos desejos pessoais de mudança.

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