Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

2026.06.12 – “Hey, Lord, you know I am tired”

Hey, Lord, you know I’m tired Hey, Lord, you know I’m tired of tears Hey, Lord, just cut me loose Hey, Lord, you know I’m fighting I’m sure this world is done with me Hey, Lord, you know it’s true Now the tide is rolling in, I don’t wanna win Let it take me, let it take me I’ll be on my way, how long can I stay In a place that can’t contain me? Hey, Lord, you know I’m tired Please, don’t say you need me Release me, believe me One day, you will see me 

  • Como Euphoria tinha tantas coisas boas e conseguiu ao mesmo tempo ser tão ruim? Não sei como responder isso. Vai ver até sei, mas, cá entre nós, estou cansado. Deu pra perceber?

2026.06.11 – “You’re still here? It’s over. Go home.”

  • A quebra da quarta parede é um alívio. Não só para o público, que descobre contar com um cúmplice na sua percepção da vida (ou da ficção) como uma farsa, como para os personagens que conseguem quebrá-la, por não se sentirem sozinhos num mundo cheio de atores interpretando inconscientemente papéis que não escreveram. Às vezes, sinto falta dessa válvula de escape. Amizades verdadeiras são construídas por e nessas quebras. As pessoas nas quais confiamos de fato são aquelas para as quais podemos olhar durante a exibição do teatro da vida e sussurar “isso não pode ser real”.
  • E, não, não é.
  • Tive um longo sonho sobre isso. Eu voava (odeio voar) num DC-10 e ele tinha que fazer um pouso de emergência na quina do telhado de uma vila italiana numa encosta num morro do bairro da Urca. A Samanta Alves, pra não dizer que nunca sonhei com influencer, me ligava de vídeo pra me zoar do meu medo de voar e eu retrucava: “Se ferrou você que eu estava certo. Ninguém morreu, mas o avião caiu”. Bom, talvez não seja exatamente sobre isso, mas tem a ver com quebras de quarta parede. Quebrar a quarta parede é entender que no final, mesmo que todos morram, todos se salvam, e nada é realmente importante, não? Se for, todo sonho é uma quebra gratuita de quarta parede no nosso dia a dia.
  • Talvez seja esse a razão do sucesso da IA como companheiro de conversa. Ela serve de destinatária da piscadela que a gente não confia dar pra mais ninguém. Tá bom, isso até explica, mas, na boa, é triste pacas.
  • Saudades da piscadela do Ferris. Hoje faz 40 anos. Ao mesmo tempo parece que foi e que tem séculos que pudemos tirar essa folga com ele.

  • E você? Tá indo pra onde? Ah, não vai, não. Fica. Vai ter bolo. Ou, talvez, vamos levar um. Não sei o que é melhor.

2026.06.10 – “The Human Race is becoming a DisgRace”

  • O ser humano é o único animal que por suas características neurofisiológicas é suscetível a ficar assombrado pelo passado e obcecado pelo futuro. E/ou vice-versa. E, pra piorar, ainda acha que viver na gangorra da depressão e da ansiedade é “evolução”. Fala sério!
  • Muito me espanta que, nessa época em que, se a gente se organizasse direitinho, dava pra toda a humanidade viver com paz e conforto, a gente continua se matando por aí por medo e ganância. É uma pena termos tão poucos virginianos no mundo pra cuidar dessa tarefa.
  • Tá bom, não vamos estereotipar. Também tem um bando de virginianos terríveis e cruéis.
  • O pessoal fala que estamos muito próximos da Idiocracy, sim, estamos, mas, na minha opinião, a proximidade é no retrovisor, pois já passamos dessa época. Estamos nos aproximando mesmo é do mundo de A Máquina do Tempo. O problema é que nessa briga em Elois e Morlocks (existe diferença, afinal?), sorry, acabo torcendo pra briga.
  • Pós-pós-apocalypse, vivemos num constante desintegrar do pior em direção a um “vocês não vão acreditam, mas piorou”. Nesse cenário, não sei se o Afrika Baambata ter se mostrado uma desgraça tira ou aumenta o mérito de World Destruction como peça profética. O John Lyndon, a gente sempre soube que não prestava.
  • Enfim, não há mais salvação. Ou há. Vai saber? Tudo depende do próximo fim de semana.

2026.06.09 – “Hot Topic is the way that we rhyme”

  • Quem curtia reclamar das produções usando Stock Photo e Video está mordendo a língua depois de ver tanto AI Slop por aí. O que incomoda não é a qualidade das imagens, que, sim, está melhorando, mas como essas ferramentas denotam não só uma falta de criatividade, mas especialmente uma completa falta de paixão pelas coisas. É como receber um cartão genérico no dia dos namorados, meias no dia dos pais ou flores da banquinha da esquina no dia das mães. Pouco esforço pra um resultado pífio que não interessa a ninguém. Proforma às vezes pode ser pior que o esquecimento inconsciente ou a inação deliberada.  No erro existe ainda um resquício de humanidade. Agir de forma protocolar é simples automação sentimental.
  • Talvez a pior parte da IA é que ela não só se tornou o único tópico como tudo o que vemos desconfiamos (pelo menos, eu desconfio) ser produção de IA. São Tomé, nos proteja.
  • Outro problema é que não somos só nós que estamos treinando a IA, mas ela que também está nos treinando. Ô Cride, fala pra mãe que a IA, quer dizer, a televisão me deixou burro, muito burro demais.
  • We are the robots?  We wish.

2026.06.08 – “I wish I was the King of Wands (But really, I’m Cassandra)”

  • Tem momentos na vida em que as coisas vão se repetindo e surgindo na sua frente como sinais. Pode ser uma puta conjunção cósmica, simples sincronicidade ou, pior, um surto psicótico. Tudo depende do ponto de vista, tudo depende da camisa que você vai estar vestindo ao final do processo: a social, a havaiana, a listrada (do preso ou daquele saiu por aí) ou a de força?
  • Muito interessantes os insights que essa revisita a Curb your Enthusiasm tem me trazido. A distância de 26 anos transforma a experiência numa comédia histórica. As duas torres (de NYC e não do Tolkien) ainda estavam de pé, as pessoas se ligavam (de voz), a internet (ou as redes sociais?) não era(m) ubíqua(s), e o politicamente correto poderia ser ainda criticado pois não havia o risco(?) iminente de uma tomada de poder pelos fascistas. Hoje em dia, tudo virou crítico e o chato do Larry David seria considerado Woke, como até rola na última temporada.
  • O mais interessante é que as críticas exageradas dele se tornaram super justificáveis, pois o excesso de convívio com as incivilidades da humanidade agora é a norma. Assim ele deixa de ser um velho resmungão e, como Cassandra, simplesmente se adiantou a inferno social(?) que vivemos hoje. Ele não é mais um misantropo, mas, como um verdadeiro Rei de Paus, é apenas uma pessoa que exerce a sua vontade totalmente baseado na sua percepção ou na sua certeza da verdade. Afinal, ele, por incrível que pareça, tem amigos e uma vida social bem saudável. Pros padrões de hoje, pelo menos.
  • King of Wands -He indicates a strong-minded person, able to dominate others by strength of will. His power derives from a firm belief in his own rightness. He knows the truth; he knows his method is best. He considers it only natural for others to follow him. He is naturally honest, seeing no reason or value in lies. He is positive and optimistic for much the same reason; the Wands energy burns so strongly in him he does not understand why anyone would express negative attitudes. Such a strong personality can tend towards intolerance, unable to understand weakness or despair because he has not experienced these things himself. This impatient side of the King might bear the motto, ‘If I can do it you can’.”Rachel Pollack
  • Boa parte dessa percepção também vem da leitura do intrigante Prophecy de Carissa Véliz, livro do mês do Clube do Livro da Catharina Dória sobre IA. A Profecia, enfim, mais do que uma percepção (sobre)natural do futuro, é uma forma de exercer seu poder para tornar a sua profecia verdade. Fica a questão: o quanto Larry David, desde Seinfeld, agiu para construir a (percepção da) vida comunal(?) insuportável que temos hoje?

2026.06.07 – “Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow…”

  • Sonhos longos e estranhos em que eu morava em Paquetá e os caseiros queriam me expulsar da casa no domingo pra poderem usar a piscina. Bom sinal? Mal sinal? Vai saber… mas é sempre bom lembrar que tenho um lugar para onde quero fugir, mesmo que eu precise urgente mudar de caseiros. Logo depois, óbvio, de comprar uma casa.
  • O pessoal já tá reclamando do frio com razão, mas confesso que viveria mais tempo nesse clima. Vai entender…
  • Importante e interessante discussão no Blue Sky sobre o fim do movimento manicomial e como a cultura e a população abraçaram os diagnósticos psiquiátricos como ferramentas de identificação, aceitação e busca por benefícios em detrimento da liberdade.
  • O “plot” de Below Deck que assisto, enquanto passo roupa, corrobora com a ideia de que boa parte dos Reality Shows não passam de cópias (na estrutura) de Sonhos de uma Noite de Verão. Personagens jovens (ou nem tanto) presos numa fina fatia de tempo, espaço e contexto esbarrando atabalhoadamente e sexualmente entre si enquanto situações fantásticas e confusões mundanas acontecem ao seu redor. Engraçado. Essa também é uma excelente definição pra boa parte do Teatro, que, como a vida, quase sempre não passa de uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria. Sentido? Fica ao gosto do freguês.
  • É um pouco cruel ter sido obrigado a trocar o falecido Sílvio Santos pelas maratonas de SVU como anestesia pré-segunda-feira. Por mais que eu adore as aventuras de Benson e companhia, é muito mundo cão pra dar início na semana. Ou não. Talvez Sílvio Santos fosse pior. Vai saber…
  • Por falar em fim de domingo, uma nova temporada de Curb your Enthusiasm seria uma boa alternativa também. Enquanto isso não rola, deixa eu ir lá assistir tudo de novo. De novo. De novo.
  • ” Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow, creeps in this petty pace from day to day, to the last syllable of recorded time; and all our yesterdays have lighted fools the way to dusty death.” – Larry David, quer dizer, Macbeth