Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

[oei#15] A comoditização do livro feito para não ser lido e do consumidor não leitor


Chegou Novembro e com ele a sua infame e interminável Black Friday. Seduzidos pelas aparentemente vantajosas ofertas, os compradores de livro enchem as sacolas de livros (físicos e virtuais) que esperam (virtualmente) ter tempo (virtual?) de ler. Enquanto eu fazia o mesmo, me lembrei de uma série de LPs dos quais a gente costumava fazer troça quando adolescente: os LPs com músicas para ouvir.

O importante não é ouvir, mas pra quê ouvir a música

Na época, ignorando o que vinha escrito depois do “ouvir”, toda vez que esbarrávamos com algum desses, a galhofa era geral. Como bons adolescentes, sabedores dos segredos do universo, e críticos contumazes da sociedade construída pelos adultos, ríamos do pleonasmo sugerido pelo título pouco inspirado. Não cabia na nossa mente que houvesse um disco com músicas para fazer outra coisa que não serem ouvidas. Era como se houvesse todo um mercado de livros feitos para não serem lidos.

O tempo passou e, hoje, como um dos adultos que trabalha na construção de um mundo mais incompreensível e com cada vez menos sentido, a ideia do disco de músicas para ouvir, ou não, é tão tranquila pra mim como a ideia de um livro feito para ler ou para não ser lido. O que realmente importa, mercadologicamente, é justamente o propósito que vem tanto depois de ouvir, como depois de ler, ou de simplesmente de comprar, sem a obrigatoriedade de se ler ou se ouvir. Complicou? Deixa eu tentar me explicar.

Quando vamos a um sebo conseguimos ver com facilidade a multiplicação dos livros feitos para não serem lidos. Por exemplo, no fim do século XX, toda vez que um jornal criava uma coleção de clássicos, não dava seis meses para eles aparecerem em lotes nas nossas portas. As pessoas que compravam essas coleções, ou pelo menos seus primeiros volumes, buscavam atender a muitos objetivos que podiam passar bem longe de ler, tipo ter uma coleção, estimular outros a ler, ou mesmo só seguir uma onda.

Hoje, um fenômeno similar acontece com os livros dos clubes de assinatura. Adquiridos por impulso, para atender a vontade de ler, ou de parecer estar lendo, o tipo de livro que o clube oferece, eles muitas vezes acabam ainda embalados nas estantes das livrarias de usados. Inclusive, tem um sebo aqui perto de casa que recebe tantos desses livros que criou até uma prateleira separada para eles.

Não conta pra ninguém, mas é na Beta de Aquarius

Quando esse tipo de fato surge na minha frente é impossível não me perguntar como nos tornamos presas tão fáceis da comoditização do livro. A princípio, o livro não é, ou não poderia ser, uma commodity. Um livro é sempre diferente do outro, mas, apesar dos preços, o aumento da comodidade na sua aquisição baixou uma régua difícil de ignorar. Antes, para se comprar um livro, mais do que dinheiro e tempo para ir à uma livraria e encontrá-lo, o que nem sempre era fácil, era preciso querer lê-lo de verdade.

Hoje, no caso dos digitais, não é preciso nem espaço para armazená-lo e, quando os preços baixam, quase criminosamente, é difícil resistir a tentação. Mesmo que você saiba, mas finja que não, que nunca os lerá, o desejo de os ter supera a lógica. Afinal, quem disse que todos os livros foram feitos para ler? Muitas vezes o desejo de ler, de parecer ter lido, ou mesmo de proclamar publicamente que um dia pretende lê-lo, é suficiente para estimular a compra.

Por isso é importante fazer uma distinção: as editoras e livrarias atendem não só a leitores, mas principalmente aos compradores de livros, que, não raramente, não tem interesse ou intenção de ler. Os livros, como objetos, virtuais ou físicos, atendem a objetivos que vão muito além da leitura. Não é de espantar que nos vídeos de booktubers seja comum ver seus “influenciadores” tratando a audiência como colecionadores e não como leitores. Já que a atividade de ler não depende do livro, assim como o livro, enquanto produto, não depende da leitura para se justificar, fazer a defesa da leitura não é condição sine qua non para defender o mercado editorial.

Por isso, glamourizar o livro não é um caminho muito produtivo para estimular a leitura ou promover a cultura. O caminho passa pelo objeto, mas não termina nele. Enquanto continuarmos fazendo essa confusão cada vez mais trataremos aqueles que são ou poderiam se tornar leitores, apenas como consumidores de conteúdo ou produtos. Pelo jeito, não apenas os livros podem ser commodities, mas os seus consumidores, sejam eles leitores ou não, também podem ser tratados como produtos sem distinção a serem acumulados em volumes e nunca verdadeiramente apreciados.

[oei#14] A leitura sem retorno do preparador de textos

Talvez nenhuma imagem represente melhor o trabalho editorial que a atividade, de preferência analógica, de preparação de textos. Uma imagem em preto e branco de uma pessoa com os punhos das camisas enrolados até os cotovelos, à sua frente pilhas de papéis rabiscados espalhadas sobre uma mesa, no seu rosto um olhar concentrado e um tanto quanto enlouquecido que prenuncia o nascimento de ideia que irá reformular o mundo.

Robert Gottlieb transformando mais um texto em uma obra prima

Um texto antes de se tornar um livro, passa por várias leituras: no recebimento de originais; na escolha do investimento do publisher na obra; na definição do projeto e de sua equipe pelo editor; mas é na mão do preparador que temos o point of no return em que o texto irá passar o limiar do manuscrito indecifrável e desconhecido para definitivamente se tornar um livro. É o trabalho transformador e aparentemente solitário do preparador que coaduna a vontade de poder do autor com a expectativa de receptividade do público para tornar esse encontro numa experiência, se não mítica, pelo menos memorável.

Gertrude Stein não precisava ser editora para transformar textos

O texto está conforme às expectativas do investimento e de imagem da marca da editora? O texto fala de forma, ao mesmo tempo, adequada e surpreendente com o seu público? De que alterações o texto precisa para atender as ambições do autor que o concebeu? As respostas a todas essas perguntas que o preparador se faz e faz ao autor por meio do seu texto irão definir o destino da obra e de como ela irá alcançar seus leitores.

Por ser o palco do encontro de tantas expectativas, o trabalho de preparação não é uma simples revisão ou leitura crítica, é um trabalho de relacionamento. É necessário, como uma casamenteira, se colocar em diversos papéis diferentes e mediar, através das sugestões sobre o texto, as conversas entre autor e editor, entre editor e público, e, finalmente, entre o objeto de todo processo editorial, a relação entre o autor e o público. Preparar textos é se mimetizar e se relacionar, tornando-se um com a editora, com o leitor, com o autor, e, nessa intersecção entre tantas identidades, encontrar o espaço e o texto exatos onde tudo se alinhará.

Max Perkins cuidando dos textos através da pescaria

A verdade é que toda leitura é uma preparação de texto, porém apenas o preparador de texto a faz no momento certo de sugerir as mudanças que de fato irão impactar na obra final. As demais, podem ser ricas e profícuas, mas não darão a quem as faz o papel secreto, cheio de responsabilidades, mas honroso de co-autor. Se o editor é invisível, o preparador o é em dobro. E é a sua invisibilidade que concede ao texto e ao autor a visibilidade que merecem. Há trabalho mais gratificante que esse?

Gottlieb editando os Muppets, porque sim.

Consecutio Mortis

Não tinha dúvidas. Toda morte era um suicídio. Talvez não planejado, mas definitivamente intencional. Afinal, toda morte- sua data, sua forma, sua ocasião- era consequência direta das ações das suas próprias vítimas.

Fumou, câncer de pulmão; bebeu, cirrose; escolheu uma vida de stress, infarto; evitou tudo, morreu de medo de viver. E mesmo quando, dentro da sua lógica, a causa mortis não seguia o caminho óbvio que o suicida escolheu, isso não deixava de ser um suicídio, ou, pelo menos, uma tentativa. Mal sucedida, mas uma tentativa.

Mesmo os acidentes mais aleatórios não escapavam dessa sua conjectura. Por que resolveu passar naquela rua perigosa naquela hora? Por que atravessou fora do sinal? Por que resolveu morar no Rio de Janeiro? Por que decidiu torcer para aquele time de futebol? Por que não mandou seu chefe enfiar o emprego naquele lugar?  Por que não prestou atenção e desviou do carro desgovernado vindo na sua direção? Por que nunca fez nada para se proteger do azar? Porquê? Porquê? Porquê?

Por ser um fiel crente de uma lógica tão fatalista, é de se imaginar que ele fosse um medroso, vivendo escondido, martirizado pela culpa gerada pelas ações que promoviam o fim da sua própria vida, mas não. Ele era um cara consciente das escolhas que fazia e das consequências que teriam na sua vida, era apenas um sujeito livre que vivia em paz.

Por isso, sempre que a dúvida do que fazer surgia, avaliava qual  o custo e a consequência que a ação ou decisão que tomaria teria no seu tempo ou na sua qualidade de vida. Mesmo que algo aparentasse ser inócuo ou saudável, ele sabia, em parte poderia estaria tomando a sua oportunidade de ter uma vida mais rica, mais divertida, enfim, melhor. Enquanto algumas decisões consumiam tempo, ele sabia, outras restringiam experiências.

Assim viveu. Contrabalançando os abusos com os cuidados, sempre equilibrando duração e satisfação, da maneira mais harmoniosa que podia imaginar. Porém, como todo os humanos, suicidas, conscientes ou inconscientes, ele, um dia, morreu. Mas soube estender a sua vida nas histórias que deixou, na sua filosofia bizarra, e na lápide que planejara. Na fria placa de mármore, não quis que fosse gravado nem seu nome, nem as datas que marcaram a sua passagem sobre a terra. Sobre ela, pediu que fosse escrito apenas:

TUDO É SOMA ZERO
MAS HÁ ZEROS E ZEROS

Sim, era um suicida, como todos nós, mas sabia viver.

[oei#13] Super Cortez contra o baixo astral do monopólio amazônico

Semana passada, a discussão que mobilizou os book tubers foi a aprovação da lei Cortez na Comissão de Educação do Senado. Por incrível que pareça, apesar de todos eles começarem seus discursos alertando o público para não acreditarem nos falsos “paladinos” que estão se propondo a salvar as livrarias pequenas contra o monopólio da Amazon, só ouvi comentários contrários à lei. Onde estão os tais defensores da lei de quem eles tanto falam?

Aparentemente não no You Tube, já que os próprios influenciadores do livro não teriam como se colocar contra quem é o maior financiador dos seus próprios negócios. Apesar desse óbvio conflito de interesses, não dá pra negar que eles tem razão em parte dos seus argumentos. O projeto de lei não é uma solução boa para o problema que ele se propõe a resolver, pois o paciente (a cadeia de valor do livro) pode estar doente demais para receber o tratamento, não ter uma estrutura sólida que consiga ser salva, e o suposto remédio vai gerar impactos que virão como um boleto cruel para o próprio público leitor pagar. Em suma, a lei tem tanto efeito colateral que pode até matar o paciente que diz querer curar.

Mas isso não quer dizer que o problema não exista. Sim, a Amazon tem o monopólio da venda de livros, aqui e em outros países, alcançado por práticas de dumping e pela excelente cadeia de distribuição com a qual consegue atender lugares onde não há (e não haverá) livrarias por muitos anos. Por isso, sim, é importante fazer algo a respeito, mas defender a lei como ela está é atender a uma bolha privilegiada que tem acesso a livrarias e dinheiro para comprar nelas.

Eu sou um desses privilegiados. Só no meu bairro temos 4 sebos e uma livraria. No quarteirões em volta do meu trabalho tenho acesso à quase 10 livrarias, tanto de novos, como de usados. Para mim não seria esforço aderir a lei, sendo que já faço conscientemente a escolha de comprar nesses espaços, em detrimento da Amazon, que só uso quando não encontro os livros nelas.

Porém, como dizem, a lei deveria ser para todos e, como a tendência dessa é prejudicar a maioria, em especial o público de baixa renda que gosta de ler, vive longe dos grandes centros, e não tem acesso a livrarias, ela não é uma boa lei. Ou seja, a lei Cortez não resolve o problema e ainda pode afastar leitores, gerar queda de renda para editoras, prejudicar seu fluxo de caixa, e promover a pirataria no caso dos livros digitais.

O que fazer? Não sei. Ações globais e “radicais” num país desigual e de proporções continentais nunca dão resultados bons ou duradouros apesar de serem bons alertas para problemas reais. Sei que pode parecer ingenuidade, mas ainda acho que as ações pequenas e localizadas, mesmo que de alcance menor e mais lentas, podem resolver melhor a questão a longo prazo.

Na minha opinião, o erro da lei é tentar competir com o monopólio no que ele é melhor: preço e distribuição. O que deveríamos, lei ou não, é nos esmerar no que as livrarias tem de melhor e de essencial: a construção da comunidade, algo que a Amazon, apesar de todo dinheiro gasto com book tubers, book tokers e avaliações, nunca conseguirá fazer.

As livrarias à minha volta fazem isso. Elas se aproximam dos seus leitores, com shows de samba e de rock, cursos de reparo de livros e filosofia, eventos de contação de histórias e debates com escritores locais. Afinal, o negócio da Amazon é vender (e entregar) o livro como commodity, enquanto a função da livraria é, ou, pelo menos, deveria ser, apoiar e fomentar a comunidade de leitores.

E o que você pode fazer a respeito? Quando chegar o dia 4 de novembro e seu dedo nervoso estiver ansioso pra consumir o que quer que seja que a Amazon esteja vendendo com descontos predatórios na Black Friday, vá às livrarias da sua cidade, às suas bibliotecas, e, se não houver nada disso, se reúna com seus amigos leitores, e celebrem o que nos une: o amor pela leitura. Afinal o que nos torna leitores não é comprar, é ler. Deixe o consumo desenfreado motivado por aparentes preços baixos para os acumuladores, nós merecemos mais.

O eterno ciclo

Renascimento

O império, enfim, renasceu. Porém isso não foi surpresa. Seu destino auspicioso já estava escrito na sua origem. Seus fundadores, egressos do império anterior, com o qual tinham aprendido tudo de bom e de mal que o poder pode proporcionar, estavam, desde seus primeiros passos, destinados à gloria. Evitando os erros do passado, e almejando repetir os acertos dos seus antecessores, ele construíram uma versão melhorada e, alguns dizem, definitiva de como o poder deve se estabelecer de maneira justa e igualitária entre todos os que são verdadeiramente iguais. Sob a aclamação do povo, os fundadores, já idosos, passaram, assim, a tocha às novas gerações que iriam perpetuar a sua grandeza. Essa era a exaltação não só desse, mas de todos os outros impérios que antes dele vieram e dos quais eram descendentes, diretos e indiretos. Nas praças públicas, nas igrejas, nas montanhas e planícies, a voz das pessoas ecoava o momento histórico. Diziam, cantavam, oravam, com fé e esperança, que o Poder, na forma como fora originalmente concebido pelos deuses para ser exercido pelos seres humanos, enfim, renascera.

Vita imperium aeternum!

Morte

O império, enfim, morreu. Porém isso não foi surpresa. Seu destino trágico já estava escrito na sua origem. Seus fundadores, egressos do império anterior, com o qual tinham aprendido tudo de bom e de mal que o poder pode proporcionar, estavam, desde seus primeiros passos, destinados ao fracasso. Se esmerando em reciclar os erros do passado, e evitando repetir os acidentais acertos dos seus antecessores, ele construíram uma versão piorada e, alguns dizem, verdadeira de como o poder é: sempre injusto e desigual, privilegiando alguns canalhas, dentre todos os que deveriam ser verdadeiramente tratados como irmãos. Sob as vaias do povo, os fundadores, já mortos, foram amaldiçoados, e as últimas gerações que perpetuaram sua maldade, punidas. Esse era o expurgo final, não só desse, mas de todos os outros impérios que antes dele vieram e dos quais eram descendentes, diretos e indiretos. Nas praças públicas, nas igrejas, nas montanhas e planícies, a voz das pessoas ecoava o momento histórico. Diziam, cantavam, oravam, com fé e esperança, que o Poder, na forma como fora pervertido pelos humanos para ser exercido em benefício de poucos e no malefício de tantos, enfim, estava extinto.

Mors imperium aeternum!

[quod vita est]
[repetere]