Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

[oei#10] Um elogio à rabugice dos livreiros ficcionais e reais

Não sei se é de propósito, mas, em todas as obras cujo cenário principal é uma livraria ou um comércio de produtos culturais, as protagonistas invariavelmente são pessoas intratáveis e “fracassadas”. Não estou exagerando. Desde os moderninhos de Alta Fidelidade e Black Books, passando pelos inofensivos livreiros de Notting Hill e Mensagem para você, até o soporífero A. J. Fikry do livro e do filme de mesmo nome, todos são pessoas com vidas interiores razoavelmente ricas e de grande erudição, mas que estão passando por processos complexos de falência econômica e psicológica, enquanto se exasperam com a população ignara e o estado atual da cultura. Olhando dessa maneira, parece até não haver histórias de sucesso envolvendo livrarias, seus funcionários, e proprietários.

Tá bom, até na vida real essas histórias são raras, mas não é um pouco cruel só guardar esse tipo de propaganda do sucesso para cadeias de fast food, corretoras de ações, e vendas por telemarketing? Parece até que o fracasso, com brio e ética- sim, eu percebi esse detalhe paternalista que eles utilizam- é o único destino reservado aos livreiros ficcionais.

Sim, o problema não é sermos nichados, os clientes é que são ruins

Como já fui, quer dizer, sou livreiro- afinal livreiro, como fumante, a gente nunca deixa de ser, só fica na reserva- eu me pergunto o quanto a representação dessa classe profissional é acurada, ou se essa é só uma maneira velada da mídia expressar um julgamento de valor sobre o mercado cultural de varejo, ou, quem sabe, talvez, os dois. Pensando bem, infelizmente vou ser obrigado a dar o braço a torcer, os autores não estão tão errados de nos retratar dessa maneira. Esse é um daqueles casos em que a ficção quase acerta na mosca.

Eu, e os muitos livreiros que conheci somos bem parecidos com isso o que a ficção mostra: um povo sem grana e, tá, um pouco pedante. Pra não ficar ruim pra gente, vamos reformular: pessoas que não se alinham com os critérios de sucesso da sociedade capitalista, e têm opiniões radicais sobre assuntos herméticos, embasadas em fontes inacessíveis à população em geral. Somos, em resumo, depressivos e irritadiços; o que, no início do século XX ,os tratados psiquiátricos chamavam de neurastênicos, ou que, no linguajar corrente, a gente poderia chamar de chatos.

Sim, somos esnobes

Mas, deixe-me fazer aqui uma defesa da nossa classe: como poderíamos ser diferentes?

Somos, em geral, gente cheia de conhecimentos pouco úteis para a vida comum, e que, por isso mesmo, entendemos a farsa que vivemos em sociedade. Por pura proteção, nos escondemos do mundo em templos devotados não ao comércio, mas, sim, à reflexão e ao pensamento. É nesses espaços seguros, como salas do tesouro, que esperamos aqueles que vivem na roda viva do mundo real para lhes iluminar um pouco com a nossa sabedoria não acadêmica e não convencional, ou, quando eles não tem senso estético ou inteligência, discretamente mostrar-lhes o caminho da rua.

Sim, temos opiniões sobre seus gostos

Assim, na ficção e no mundo real, nos cabe o papel de ser os guardiões rabugentos do paraíso que irão questionar seus gostos e expor suas ignorâncias. Dentro do campo editorial, os livreiros são, por assim dizer, os únicos dotados do poder e da maldição de só dizer a verdade.

Talvez, por isso, quando as mega stores começaram a dominar o espaço das livrarias, se fez a escolha de precarizar esse trabalho. Ao invés de termos gente inteligente para conversar sobre o que realmente você deveria estar lendo, decidiram colocar uma força de trabalho robotizada, focada apenas em identificar se e onde o livro se encontrava na loja, e, em caso contrário, fazer a sua encomenda. Agora que o comércio é basicamente eletrônico, o livreiro virou uma figura quase mitológica, extinta, substituída de forma acintosa por sites de recomendação e booktubers que fazem publi de qualquer coisa, sem ao menos saber os títulos das obras que representam.

Sim, a sorte é que somos pacíficos

Mas nem tudo está perdido, há uma resistência. Especialmente nos sebos, ainda encontramos livreiros de verdade por aí, emitindo suas opiniões, fazendo troça dos nossos gostos, e nos ensinando a sermos melhores leitores. Por isso, nós, os livreiros, reais ou ficcionais, atuantes ou da reserva, nos reservamos o direito de sermos chatos, detalhistas, arrogantes, e rabugentos. Fazemos isso não por nós, mas porque os leitores precisam. Fazemos isso para que vocês tenham ainda mais prazer e deslumbramento em ler.

Mesmo com todos os nossos conhecidos e famosos defeitos, só me resta desejar longa vida a nós, livreiros insuportáveis e a nossas livrarias maravilhosas. E se você não gostar da gente, sem stress; há muita gente online e offline pronta a lhe atender nesse mundo mercenário, insípido, e obtuso em que você decidiu morar.

Sim, um dia a Internet vai rejeitar você também

O bom e o útil

Quando Carlão chegou na capela onde estavam velando meu pai, todo mundo veio me perguntar:

-Você chamou ele?!
-Não, eu não, claro que não. Vai ver só se eu ia chamar o Carlão. Eu? Não.

E, não; antes que alguém duvide, não, eu não chamei ele.

Apesar de ser o mais inconveniente e mal educado dos meus amigos, ele, sabe-se lá por que, desenvolveu algum tipo de amizade com o meu pai. Talvez fossem os maus modos, talvez fossem as observações despudoradas, talvez fossem as piadas sem graça das quais até ele mesmo tinha vergonha de rir; seja o que for que tenha motivado essa amizade, ele não era só amigo meu, ele também era, ou, pelo menos, se tornou amigo do meu pai.

-Alguém contou pra ele- eu me defendi.- Só pode. Alguém ligado ao meu pai deve ter contado pra ele. Só pode. Só pode.

Só podia.

Assim que chegou, depois de me cumprimentar, me suspendendo pela cintura e dando um sonoro tapa na minha bunda, ele fez a ronda da capela, batendo nas costas de todo mundo, e falando alto sobre comportamentos nada apreciáveis do meu pai. Ao fim de cada história impublicável, ele afirmava:

-Ela era um safado dos diabos, mas tinha um coração de santo. Sacou? Um santo dos diabos, né?

E desatava a rir.

Mesmo sem ninguém pedir, ou querer, ele se postou na porta da capela e fez as vezes de anfitrião, me apontando pra todo mundo que chegava:

-Não esquece de falar com o filho, né? Eles estavam meio separados nos últimos tempos, mas filho é filho, né?

E as pessoas vinham me abraçar e dar seus pêsames.

A hora do sepultamento foi chegando e, sabe-se lá como, ele começou a distribuir umas cervejas fingindo estar fazendo segredo:

-Olha, só, se não fosse o nosso amigo um beberrão contumaz, eu nem teria trazido essas brejas pra homenageá-lo. Toma uma, vai! Você não vai fazer essa desfeita pra ele, né?

Intimidadas as pessoas começaram a beber e, talvez influenciadas pelas tentativas frustradas do Carlão de puxar um coro de “Ele foi um bom companheiro”, a falar alto.

Quando o pároco chegou para conduzir a oração final, o povo já estava em festa. Quando perguntaram se alguém queria falar algumas palavras, óbvio, Carlão aceitou o convite e botou todo mundo pra cantar juntos “Jesus Cristo” do Roberto Carlos que ele jurou ser a música preferida do meu pai. Não, não era. Ou talvez fosse. Pelo jeito o Carlão conhecia meu pai melhor que eu.

Na saída, depois de tudo terminado, Carlão me abraçou, me deu um beijo na bochecha e me disse:

-Fica tranquilo. Você foi um bom filho. Apesar de tudo, você foi um bom filho.

Hoje, em que se completam 20 anos da morte do meu pai e, também, da última vez em que eu vi o Carlão, ainda me pergunto se essa participação dele no velório foi boa ou não; e, cá entre nós, ainda não sei o que responder. A única coisa que eu sei é que essa participação foi providencial e, melhor, foi útil. Sim, foi útil, foi muito útil.

Nanowrimo

Novembro
Página em branco
Cursor piscando
Contagem de palavras na tela vazia
ZERO

Mente enevoada
Coração pesado
Culpa contemporânea
mas de modelo antigo
quase Judaico Cristã
com notas de psicanálise
ou, quem sabe,
auto ajuda
vintage

O Tomate da produtividade sinaliza
hora de começar
Não sei o que escrever
Rezo à Julia Cameron
para guardar meu Caminho de Artista e
digito
“Eu
não
sei”

Três palavras
Já um começo de oferenda
ao meu amo e
senhor
Quando chegarei às mil
seiscentos e sessenta e seis?
Vamos começar?

Centro

Há centro nenhum.

No meio de tudo, há centro nenhum, apenas as margens existem.

Muito se engana, quem busca por uma causa central. No meio de tudo, há centro nenhum, apenas as margens existem. O contexto é feito de bordas, apenas as arestas seguram o mundo.

A ansiedade por uma explicação central é que gera a ilusão de que tudo emana de apenas um ponto. Esse ponto é uma fantasia que só atende à nossa segurança psicológica que busca simplificar a insustentável complexidade do mundo.

Muito se engana, quem busca por uma causa central. No meio de tudo, há centro de nenhum, apenas as margens existem. O contexto é feito de bordas, apenas as arestas seguram o mundo.

Essas arestas sem nodos, num balé constante de inequívoca mutação, dão as formas que atribuímos ao mundo. Porém não há um ponto nevrálgico, ou alvo que proverbiais balas de prata possam atingir para tornar tudo melhor.

Muito se engana, quem busca por uma causa central. No meio de tudo, há centro nenhum, apenas as margens existem. O contexto é feito de bordas, apenas as arestas seguram o mundo.

No meio de tudo, há centro nenhum, apenas as margens existem.

Há centro nenhum.

Centro.

Primaverar

Sem o conhecimento de seus devotos, os deuses, sob carnes mortais, uma vez a cada cem anos, viviam por um dia sobre a Terra para tentar entender o que experienciavam aqueles que os temiam.

Nessas oportunidades, eles sentiam calor e frio. Nessas oportunidades, eles sentiam medo e paixão. Nessas oportunidades, eles se extasiavam com a vida e se desesperavam com a morte; dois conceitos que nunca poderiam experimentar enquanto divindades.

Nessas oportunidades, com os pés nus sobre a terra, e as cabeças descobertas sob os céus, eles podiam entender como era não estar lá, nem cá; eles podiam entender a dor e o prazer de serem provisórios, efêmeros; de serem os que podem não ser e, ao mesmo tempo, são.

Nessas oportunidades, todos eles aproveitavam para lançar suas sementes sobre a Terra, na forma de monumentos, histórias, canções, ideias, ou, mesmo, descendentes. Criavam com isso os laços que não os deixariam esquecer que os palácios etéreos, de onde comandavam o universo, não passavam de construções emocionais cimentadas pelos grãos gerados pelo que a humanidade planta, todos os dias, com suas preces, súplicas e devoções.

Nessas oportunidades, aqueles que estavam além do tempo aprendiam a florescer, a primaverar. Contemos os nossos grãos.