Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O meu cantinho (de leitura) das férias

Olha só essa. Fui na Biblioteca do Sesc de Botafogo, a antiga Machado de Assis, para devolver um livro, atrasado (sempre!), e fui informado que o acervo ficaria fechado, para avaliação e cadastro, do dia 8 de dezembro a 12 de janeiro. Por conta disso, vejam a minha sorte, poderia emprestar até 5 livros com prazo até o ano que vem. Óbvio, aproveitei.

A pilha de para ler das férias, assim, só cresce. Só não sei se isso é bom ou ruim.

Sacanagem, sei, sim. É bom. 😉

As reformas e contrarreformas da Mitologia da DC Comics

Quando as mitologias (e as religiões), como a DC, se tornam Propriedades Intelectuais as coisas se complicam.

Porém, no início, tudo é festa. Os mitos e lendas se avolumam, sem controle, ou regra. Num dia as concubinas dos deuses estão grávidas, no outro, era tudo um sonho. Na manhã seguinte os filhos que não nasceram surgem do futuro, e, juntos com os pais, presumidos, salvam o mundo, até descobrir que seus pais eram de outra dimensão. Já viu onde isso vai dar…

Os fiéis antigos, confusos com essas múltiplas versões, param de participar dos rituais; novas religiões concorrentes seduzem as congregações abandonadas; as novas gerações não conseguem se inteirar da complexa cronologia ou entender as referências teológicas das crenças originárias; e, então, alguém descobre que mobilizar as pessoas em torno de narrativas é poder, político, financeiro, e cultural.  E, óbvio, ninguém quer abrir mão desse poder. É nesse momento de caos que a crença orgânica, quase animista, começa a ser encarada como propriedade de um grupo.

Aí vêm as reformas. As externas, daqueles que se apropriam dos conceitos iniciais por se acharem os verdadeiros crentes na palavra divina; e as internas, dos que comandam os grupos e instituições construídas ao redor dessas histórias, buscando manter os atuais fiéis e arregimentar novos.  Os reformistas, dizem que é tudo em nome da fé, mas, se não tivesse dinheiro envolvido, provavelmente nada aconteceria. Ou, pelo menos, não aconteceria dessa forma.

A DC vive isso há anos. Desde a Era de Prata, nos anos 50/60, quando recriou seus heróis originais; na Crise nas Infinitas Terras; na morte do Super Homem, e na quebra da coluna do Batman; nas reativações da Crise; no 52; e, enfim, agora, no universo Absolute. Li as primeiras edições de Batman, Super Homem e Mulher Maravilha. Não são ruins, tá, são até legais, mas a cada quadro, a cada página eu ficava me perguntando: “Pra quê, senhor? Pra quê?”.

Há de fato uma necessidade quase religiosa de rever os velhos mitos à luz dos novos tempos para novos públicos? A intenção puramente comercial justifica essas constantes recriações? Ou essa é uma tentativa sobrenatural dos mitos não morrerem manifestada pela vontade de sacerdotes/autores e fiéis/leitores? Ou, pelo contrário, uma insistência em manter vivo algo que já deveria ter morrido ou sido esquecido? Não sei, não sei, mas, nessas horas, acaba que a escolha preguiçosa e desleixada da Marvel de manter sua cronologia um caos completo parece até ser ética. (Cá entre nós, não é)

Ah, Super Homem, por que não ficaste morto nos anos 90? Senhor, eles realmente não sabem o que fazem…

Mas dessa vez, pelo menos, fizeram uma Mulher Maravilha com cara de grega.

 

Do fim da história ao fim da humanidade

Não faz muito tempo, ou faz, vai saber?, o povo estava angustiado com o fim da história. A Segunda Guerra e as ameaças fascistas e nazistas à democracia eram passado; a Guerra Fria e o risco de guerra nuclear iminente tinham sido esquecidas; e parecia que o mundo estava a poucos passos de se tornar uma comunidade global. Tinham inventado até um lance chamado Internet que ia facilitar a comunicação entre todas as pessoas do mundo. Na época, as séries de TV, tipo a Quantum Leap, estavam inclusive olhando para dentro invés de para os problemas geopolíticos mundiais. Afinal, num mundo estável, a gente podia se dar o luxo de se preocupar com as nossas pequenas idiossincrasias.

Hoje, 30 anos depois, parece que tudo virou do avesso. O nazismo e o fascismo voltam em nova roupagem; o mundo inteiro arde em guerras bélicas e comerciais; e todas os acordos e blocos internacionais se quebram nos tornando cada vez mais fragmentados. E até a internet, que tinha o propósito de nos ajudar a viver em harmonia, se tornou o epicentro do caos, quase uma verdadeira torre de Babel. Atualmente, não é surpresa que a série de TV (ainda existe isso?) de maior sucesso é uma fantasia nostálgica sobre pessoas sendo tragadas para um mundo invertido. Afinal, tudo o que queremos é voltar ao passado e fugir desse mundo que não faz mais o menor sentido.

Agora, nesse eterno e inescapável agora, o que nos angustia não é mais o fim da história, nem o fim da humanidade, mas, sim, a sua continuidade. Talvez por isso o final de Bugonia tenha parecido ao mesmo tempo tão confortante e tão assustador. Talvez por isso o sentimento de que não merecemos mais a história, mas, sim, o esquecimento seja tão mais fácil de aceitar.

Os benefícios de se arriscar

Parte do problema, pode crer, é do público. Somos mimados. Queremos que as coisas aconteçam como esperamos e, hoje em dia, quando avaliamos se gostamos ou não de algo, inevitavelmente complementamos com opiniões bestas sobre como tudo deveria ter sido. Porém, esquecemos o quanto o se deixar levar, a aceitação da ficção como realidade e a surpresa livre de análise racional marcam nossas memórias e nos fazem dar mais valor ao viver.

Por isso fico bem feliz de estar vendo filmes quebrando as nossas expectativas e nos (ou me) deixando com aquele gosto apurado de “what the fuck!”. Foi assim em O Agente Secreto, Bugonia e Morra, Amor.

Óbvio que tem gente reclamando de tudo. Sempre tem. Reclamam que os filmes não atendem a esse ou aquele padrão, que falta estrutura, ou que deixam pontas soltas. Sim, deixam; sim, falta; sim, não atendem. E daí? Quem disse que o cinema tem regras? Ah, sei, vários, mas o Syd Field foi um dos que começou com essa onda.

O pior é que o pessoal tá levando essa predisposição de achar que tudo precisa sair conforme suas expectativas, que tudo faça algum sentido ou que atenda a alguma regra escrita por sabe-se lá quem também para a vida real. Não, não atende; não, não faz; não, não sai.

Por isso estou começando a achar que não são os filmes que estão mudando, mas eu que estou mais livre para aceitar o que vier. Das telas, ou da vida. É frustrante? Sim, às vezes, mas, creia, essa pode ser uma maneira bem mais interessante de se viver.