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A Alta

Depois de 74 dias internado, meu pai recebeu alta. Mesmo afastado da família, por razões longas demais para esse texto curto, acompanhei o processo. Minha irmã fazia questão de me dar informes de hora em hora por áudio, texto e vídeo. Eu ignorava a maioria.

A notícia da saída do meu pai do hospital foi mais difícil de ignorar: 34 mensagens e 7 ligações em menos de 2 horas. A última, eu atendi. Recebi essa nova informação com a mesma animação que recebi as outras: nenhuma. Minha irmã, por outro lado, estava esfuziante. Considerava que essa seria uma oportunidade ótima para uma reconciliação:

– Vem receber ele em casa. Deixa essas amarguras no passado e vem dar um abraço no papai. Vai ser uma surpresa muito legal. Aposto que ele vai adorar.

Tinha certeza que não, mas menti e disse que ia pensar. Acabou que não pensei e, talvez por isso, fui recebê-lo.

Cheguei no prédio na hora combinada, cumprimentei alguns porteiros da velha guarda, e subi com muita resistência para o apartamento dos meus pais. Todas as memórias evocadas pelos corredores escuros do edifício me diziam que eu não deveria ter vindo. Era tarde demais para ouvir os seus conselhos.

Toquei a campainha e minha mãe abriu a porta. Jogou os braços ao céu como se estivesse recebendo Jesus no domingo de Ramos.

– Agora, sim, esse é um dia abençoado. A família estará unida! Finalmente, unida.

Ela me abraçou apertado e me deixou sentado no sofá, enquanto resolvia as últimas providências para a chegada do meu pai. Na sala, a TV passava um programa sensacionalista que se pretendia noticioso. Espirrei enojado. O mofo e a poeira continuavam os mesmos. Assim como os seus péssimos gostos e posições políticas.

Barulho na porta. Minha irmã surgiu empurrando meu pai numa cadeira de rodas.

– Ele chegou! Ele chegou! – ela gritava.
– Louvado seja o Senhor- minha mãe respondia.- Ele ouviu as minhas preces. Louvado seja Deus.

Fiz menção de me levantar, mas quando vi meu pai, com o rosto caído, desisti. Ele não me percebeu, ocupado em não ouvir as louvações das duas; o que era basicamente impossível. Para piorar, do corredor do prédio, surgiram várias pessoas estranhas, provavelmente vizinhos, de chapéus de festa, carregando bolas de encher e soprando pequenos apitos.

– Ele é um bom companheiro, ele é um bom companheiro, ele é um bom companheeeeeeirooooo! Ninguém pode negar.

Depois do coro improvisado, forçando uma intimidade inexistente, os vizinhos passaram pela cadeira rodas cumprimentando meu pai com beijos e abraços.

– Que susto, hein?
– Que bom te ter de volta.
– Não faz mais uma dessas, não.
– Você ficou em qual hospital, mesmo?

Excitadas, minha mãe e minha irmã jogavam os braços pro alto, entremeando detalhes vexatórios sobre a internação e os problemas de saúde do meu pai com gritos de “Aleluia”.

Os vizinhos, quando me notaram, me cumprimentaram à distância e de forma tímida, mas não sem tentar me constranger:

– Olha, quanto tempo?
– Você engordou, hein.
– Tá ficando a cara do seu pai.
– Por que você sumiu por tanto tempo?

Naturalmente, aos poucos, a festa improvisada se transferiu para a cozinha e todos esqueceram de mim. E de meu pai. Ele, na sua cadeira de rodas, eu, no sofá. Abandonados. Como sempre.

Finalmente, na sala vazia, meu pai achou seguro levantar os olhos e me viu. Não esboçou nenhuma reação, assim como eu, acho, não esbocei. Nos olhamos por alguns momentos trocando telepaticamente ofensas e memórias ruins, até que eu desisti de participar desse jogo.

Fiz menção de levantar do sofá para escapar da sala, mesmo temendo as conversas e gritos que vinham da cozinha, mas meu pai me impediu. Em silêncio, balançou a cabeça em negativa e baixou os olhos. Ele tinha razão, lá ia ser pior. Eu assenti com a cabeça, sentei novamente no sofá e peguei o controle remoto para aumentar o volume da televisão e tentar abafar os sons da cozinha. Foi inútil, mas ninguém pode dizer que não tentamos.

4:33

O sinal fechou.

Ele freou o carro em cima da faixa. Por pouco não conseguiu passar. Bufou e checou o celular. Ainda nenhuma mensagem, mas ele sabia que ela ia mandar uma. Ou, pior, ligar. “Cadê você? Você não vem?”. “Sim, sim. Eu vou, eu vou” ele responderia.

Olhou pro relógio. Sete e onze da noite. Pelo que lembrava, e já tinha cronometrado, esse sinal demorava quatro minutos e trinta e três segundos para abrir. Porquê? Não tinha a menor ideia. Só sabia que esse era o sinal mais demorado da cidade. E, o pior, numa rua escura e cheia de árvores. Um perigo.

Por que não arredondar o tempo de espera para baixo ou mesmo para cima? Quatro minutos e meio ou cinco fariam mais sentido. Mas para que as coisas precisam fazer sentido mesmo?

Aproveitando a longa espera, dois meninos surgiram do nada e se posicionaram em frente ao seu carro fazendo malabarismos com bolas. Um terceiro surgiu do lado do carro e bateu no vidro lhe pedindo dinheiro. Ela ligou. Sete e doze. Ele fez sinal para o menino esperar e atendeu:

– Alô.
– Alô, você tá vindo?
– Tô, tô.
– Tá, tá. Só queria saber. O pessoal tá esperando bolo.
– OK. OK. Eu sei.

Desligou. O menino bateu novamente na janela do carro. Ele olhou pra conferir o bolo no banco de trás e percebeu que era o único carro parado no sinal. O show era particular. Fez um sinal para o menino continuar esperando enquanto procurava uns trocados nos bolsos. Os meninos na frente do carro, agora, tinham deixado os malabares de lado, e faziam acrobacias pulando uns sobre os outros e por dentro de bambolês.

Ele achou uma nota amassada no bolso, abaixou o vidro, e a entregou ao menino que foi em direção aos amigos sorrindo excessivamente satisfeito. Ele desconfiou. Tentou mesmo à distância ver de quanto era a nota que tinha entregue. Tinha se enganado, tinha dado dinheiro demais.

Colocou a cabeça pra fora e acenou para o menino voltar. Os três acenaram de volta agradecendo. Estavam sendo sonsos? Ele acenou mais vigorosamente e um dos meninos veio em sua direção enquanto os outros dois buscavam uma garrafa de querosene e tochas.

– Menino, acho que te dei dinheiro demais.
– Deu não, tio. Brigadão.
– Você não entendeu, menino. EU DEI dinheiro demais. Deixa eu trocar essa nota com você.

O celular tocou. Era ela. De novo. Sete e treze. Ele fez sinal pro menino esperar e atendeu:

– O que é?
– Tô só ligando pra te lembrar das velas.
– Não esqueci. Eu sei. Tá comigo.
– Tá, eu só queria dizer…
– Eu sei. Eu sei.

Desligou o telefone e enfiou a mão no bolso, de onde tirou umas moedas, e as entregou ao menino.

– Aqui, ó. Agora me dá a nota.
– Dou, não, tio. Não é justo. Isso é muito pouco.
– É justo, sim. O dinheiro é meu.
– Não é mais. Você me deu.

Enquanto eles discutiam, os meninos na frente do carro, talvez empolgados pela gorjeta polpuda, se preparavam para fazer um show de cuspir fogo. O celular deu um toque. Ela mandara uma mensagem de texto. Sete e quatorze. “Amor, não fica chateado. Só falo pelo nosso bem”. Ele se irritou:

– Aqui, ó, menino, não quero mais discutir. Me dá a nota e fica com essas moedas.
– Quero, não. Eu te devolvo,se você me der pelo menos metade da nota.
– Tá doido? Você não vê que eu tô com pressa?
– O sinal demora, tio. Pode procurar.

Os meninos começaram a cuspir labaredas um em direção ao outro e queimavam as pontas das folhas das árvores da rua que desciam sobre o asfalto como vagalumes. Ele procurou nos bolsos, abriu a carteira e nada. Não tinha nenhuma nota pra oferecer pro menino.

– Achou, tio?
– Não achei, não…
– Então, tio, nada feito.

O menino sorriu e, debochado, fez uma mesura de agradecimento. Isso não caiu bem. Ele fez menção de gritar pela janela do carro, mas se assustou com as línguas de fogo que saíam das bocas dos meninos. O menino com a nota agora a exibia aos amigos vitorioso, dançando entre eles enquanto cuspiam fogo como dragões. O telefone tocou. Era ela de novo. Sete e quinze. Faltava pouco pro sinal abrir. Ele atendeu:

– Que diabo! O que você quer agora?
– Amor, você tá chateado comigo? Você sabe que eu te amo…

Na frente do carro os três meninos dançavam como menestréis medievais cuspindo fogo e exibindo o dinheiro que tinham ganho.

– Amor, tá tudo bem? Por que você não me responde? Você comprou o bolo de sorvete que a gente combinou?

Ele chegou ao seu limite. Revoltado, atirou o celular pela janela em direção ao menino que dançava com o dinheiro. O menino, com presteza, se abaixou e o celular foi direto no queixo do outro menino que cuspia uma labareda para o céu. O fogo, como uma fênix, fez uma curva atingindo a copa das árvores e retornando para a cabeça do menino que começou a arder como uma das velas do bolo que ela esperava receber.

À distância, paralisado, ele ouviu o telefone tocar insistentemente, enquanto galhos em chamas caíam sobre o carro, derretendo o bolo de sorvete, e os meninos tentavam acudir o companheiro que pegava fogo. Não atendeu.

O sinal abriu.

Raiva

Durante um período de 2010, eu viajei pelo interior do país visitando diversas obras e plantas industriais para entender quais eram a cultura e o processo de aprendizagem da empresa onde trabalhava. A equipe era pequena. Além de mim, tinha um coitado que cuidava do curso dos “líderes”; o gerente, que vivia em pânico de ser demitido; e um espertalhão, que usava o dinheiro da empresa para fazer contatos nos exterior e empurrar a sua carreira acadêmica.

Enquanto eu estava amassando barro nas obras, o gerente e o espertalhão contrataram uma consultoria caríssima dos Estados Unidos para fazer o plano de ação da área. Sempre fui contra. Se eu fui contratado para um trabalho, minha missão era cumprir, e não terceirizar, a minha responsabilidade. Mas eu não era o gerente, então…

Calhou que o último dia da consultoria bateu com uma sexta-feira, quando voltei ao escritório de uma dessas inúmeras viagens, e me chamaram para a reunião de fechamento. Reunião em inglês, numa sala com acolchoamento até nas paredes, num hotel chique, com coffee break e o escambau.

Quando os consultores começaram a apresentar os resultados, me espantei. Eles estavam pintando um mundo dos sonhos, onde havia respeito pelas opiniões alheias, tolerância ao erro e diálogo em todas os níveis. Um mundo completamente diferente do que eu conheci: um ambiente de medo, hierarquia pesada e acobertamento de informações. Do alto da minha inocência, fui obrigado a me manifestar:

– Sorry, mr. consultor, mas quem vocês entrevistaram para fazer esse retrato?

Eles explicaram a metodologia e os públicos trabalhados, e aí entendi de onde vinha a distorção. O espertalhão, querendo fazer bonito, botou eles pra falar só com as lideranças que nunca iam dar a real. Do alto da minha inocência, fui obrigado discordar:

– Sorry, mr. consultor, mas não é bem assim que a banda toca…

E relatei o que tinha descoberto nos meus seis meses de viagem de campo. O ruim e o bom, as barreiras e as oportunidades, a realidade e as fantasias. Os consultores ficaram em polvorosa e começaram a dizer que os resultados da pesquisa tinham que ser revistos com essa nova informação e que o plano, criado, considerando uma maturidade muito maior da empresa, ia precisar ser mudado. Ao invés das diversas viagens ao exterior para fazer benchmarking na NASA, no Google e nos diabos que os carreguem, ia ser preciso intensificar o trabalho de campo e base que eu já estava fazendo.

O espertalhão viu seus sonhos caírem por terra. Sem apresentações de trabalhos em congressos internacionais, sem contatos com gente que aparecia na Você S.A., seus planos de carreira iam atrasar uns 10 anos, e, pior, ele ia ser obrigado a fazer o trabalho para o qual foi contratado. O horror, o horror.

Os consultores começaram a me pedir mais informações e no meio de uma explicação, o espertalhão tentou reverter o rumo da prosa:

– Ele não sabe o que está dizendo pois é novo na empresa- me diminuiu.

Não costumo ser dessas coisas, mas, no calor do momento, respondi:

– E ele, que está aqui há muito tempo, conduziu o trabalho de forma desonesta pois já está institucionalizado.

O sangue subiu à cabeça do espertalhão e ele, sedento do meu sangue, partiu na minha direção gritando:

– Shut up. Shut UP! SHUT UP!

Óbvio que a reunião foi encerrada na hora e todos voltamos ao escritório em silêncio. Não sei o que passava na cabeça de cada um, mas sabia que o gerente agora tinha certeza absoluta que seria demitido.

Deu o horário de sair e corri pra ir pra minha análise. No hall dos elevadores, esbarrei com o espertalhão. Ele sorriu pra mim, deu um tapa nas minhas costas e me perguntou sobre a minha camiseta. Respondi:

– É de um web comic sobre um Xamã detetive na época de Genghis Khan.
– Legal, legal. Bom fim de semana.

Quando saí do prédio algo se alterou em mim. Senti meu rosto aquecer, minha cabeça doer e minhas extremidades começarem a ficar dormentes. Ao mesmo tempo que queria me sentar, queria andar por horas, sem parar. Era como se estivesse tendo um surto psicótico, um ataque cardíaco e um derrame cerebral ao mesmo tempo.

Por que diabos aquele cara tinha me abalado tanto? Um sujeito oportunista, incompetente e desrespeitoso, jogando por terra todo o trabalho que eu tinha feito por conta de caprichos e desejos egoístas. E, para ele, todo aquele embate escandaloso não tinha passado de uma luta de telecatch, um teatro para fazer valer as suas vontades sobre as necessidades da comunidade. Ele representava tudo o que eu abominava e abomino. Era o maior exemplo do que eu não quero ver no mundo: mau-caratismo, falta de educação e desonestidade moral e intelectual. Por que diabos aquele cara tinha me abalado tanto? Eu tinha minhas razões.

Eu não saquei na hora, mas estava sentindo raiva. Uma coisa com a qual até hoje não estou acostumado. Sem saber o que fazer com esse ódio, parei numa lanchonete, pedi uma coca cola bem gelada e a bebi quase num só gole. A bola baixou um pouco, peguei meu celular, mandei uma mensagem pra um colega do meu antigo trabalho pra ver se tinha como me contratarem e, de repente, passou. Acontecesse o que acontecesse, o problema estava endereçado.

Fui para a minha análise e, como o espertalhão desejou, tive um bom fim de semana. Como dizem, a vida é muito curta pra ser passada com gente que te incomoda. E pra sentir raiva.

O Guia de Retorno à Normalidade para Antissociais

Eu sei que ainda falta um pouco(?) mas é importante estar preparado.

A pandemia, especialmente no Brasil, foi algo terrível, mas, dentro de toda essa tragédia, algumas coisas acabaram sendo corrigidas. Descobrimos e descartamos de nossas relações aqueles que não tem compaixão ou humanidade, a.k.a., eleitores da besta-fera; revimos os nossos hábitos, ou, pelo menos, pudemos encarar com mais clareza aqueles que nos prejudicam e tentar recuperar os que nos fazem bem; e nos permitimos viver um processo de recolhimento e autorreflexão com aqueles que nos são mais caros.

Para nós, os antissociais, foi, sim, uma oportunidade única: diminuir nosso círculo social, nos aprofundar em nossas obsessões solitárias, e conviver com as pessoas com quem realmente nos sentimos à vontade, nós mesmos. Quando em condições normais isso seria possível sem sermos vítimas da censura dessa sociedade excessivamente gregária?

Porém, agora que a vacina vai, graças a Deus, diminuindo o risco de contágio e de morte, os instintos primais de aglomeração do ser humano começam(?) a renascer ou, pior, se intensificar nos colocando no imenso risco de, não só voltarmos à normalidade do convívio social, mas de sermos obrigados a experienciar uma versão exacerbada desse hábito deplorável.

Então, a pergunta é: depois de nos livrarmos da pandemia, como podemos manter o lado bom do isolamento social?

Seguem cinco dicas que poderão nos auxiliar nessa transição.

1. Não aceite desculpas e não perdoe

Quando a poeira baixar e finalmente estivermos perto de nos livrarmos do projeto de genocida do Vivendas da Barra, aqueles que apoiam esses proto machos desde Fernando Collor voltarão com o rabo entre as pernas pedindo perdão pelo que fizeram. Dirão que estavam vivendo em bolhas que distribuíam informações erradas ou sofrendo de stress pós traumático por conta da crise sanitária e econômica. Não acreditem, não é de coração.

E mesmo se for, quem liga? Você não precisa devotar seu tempo a quem o aborrece, ou mesmo o aborreceu apenas uma vez.

Como proceder? Ignore seus contatos ou, ao menos, seja lacônico em suas respostas, contando os emojis e caracteres de suas mensagens.

Importante: evite os contatos presenciais a todo custo, mas, se eles forem inevitáveis, finja ouvi-los falar, responda às suas perguntas com outras perguntas, e corte o papo no meio alegando um compromisso qualquer com pessoas que eles não conhecem para fazer algo que eles não entendem, tipo curso de reiki online ou grupo de leitura virtual das obras de Georges Perec . Isso vai fazer cair a ficha deles.

Se mesmo assim não funcionar, é melhor ser direto. Seguem algumas sugestões de resposta.

2. Faça um compromisso consigo mesmo

E no caso daqueles que não nos incomodam demais, os que chamamos de amigos? Mesmo que a sua presença seja desejada esporadicamente, é sempre importante controlar essa nossa interação.

Para eles, mantenha sua agenda sempre cheia. Cheia de tempo pra você. Sábado de manhã sua agenda está bloqueada para reorganizar a coleção de VHS que achou no armário da despensa. Domingo de tarde? Nem pensar! Você se comprometeu a reler as edições do Novo Universo da Marvel. E nas noites durante a semana, me perdoe, você precisa descansar. A vida não é só diversão.

Lembre-se: se você não controla o seu tempo, alguém vai controlá-lo para você.

3. Prestigie as suas atividades solitárias

Na pandemia você deve ter sentido o gosto de fazer aquelas coisas que ninguém te permitia pois diziam ser chato ou exclusivas demais, tipo pintura em aquarela sobre fotos de jornal ou compilar regras opcionais de livros de RPG dos anos 80. Quando as coisas estiverem normalizando, tenha certeza, esses seus prazeres serão novamente questionados.

Para evitar essa pressão social, transforme as suas atividades em algo maior. Esse povo com dependência social morre de medo de status e trabalho. Então, não diga que vai ficar pintando aquarelas sobre a cara da Anitta na revista Ela de O Globo, diga que está produzindo uma obra de arte utilizando técnicas mistas. E se te questionarem sobre o caderno cheio de pequenas regras malucas de jogos de rpg obscuros, retruque: é pesquisa para um livro sobre game design com foco na experiência dos jogadores.

Seus hobbies são importantes, dê a eles o devido respeito. Afinal, quem esse povo que vai a Micareta e assiste jogo de futebol na TV acha que é pra julgar os seus divertimentos?

4. Aumente a sua presença virtual (nos lugares certos)

Se você caiu nessa falácia de redes sociais, sim, todos caímos em algum momento, e ainda não conseguiu se livrar, não se desespere. Sim, você, no momento, está desprotegido e é um alvo fácil para investida de qualquer um que tenha o seu número de celular ou saiba seu nome completo, mas dá pra resolver.

A primeira providência é mudar a sua “operação” para ferramentas de comunicação menos conhecidas. Porquê? Explique: privacidade, venda de dados, exploração de sua força de trabalho voluntária para venda de propaganda. Tá bom pra você? Assim, você pode alegar que só usa Whatsapp pro trabalho e que as pessoas vão poder encontrar você com facilidade no Signal, Skype ou Google Hangouts.

Para as redes sociais, o ideal seria abandonar tudo, mas isso provoca uma aporrinhação contínua. Por que você não está no instagram? Já leu isso no twitter? Por que você não entra n@ [insira o nome da rede social]? El@ é tão legal.

Minha recomendação é fazer como eu: criar sua plataforma pessoal onde não vai interagir com ninguém, mas dará a impressão de abertura que acalmará essa gente arroz de festa. Afinal, a melhor maneira de não saberem de você é escrever artigos num site, disponibilizar anotações num microblog exclusivo ou povoar uma versão particular do instagram. Se não vier na colher, o povo não consome.

5. Alegue estar sofrendo de síndrome da caverna

Tem vezes que não dá. Você tentou de tudo e eles continuam pressionando. Aí você tem que apelar pra uma síndrome. E não dá pra ser as de verdade que você tem e ninguém respeita. É preciso usar alguma coisa que esteja na moda, tipo a síndrome da caverna. Sim, depois de tanto tempo isolado, claro que você precisa se reacostumar ao convívio social. Então, se eles puderem respeitar o seu tempo e esperar só um pouquinho, já, já você volta… ou não.


Espero que essas dicas venham a ajudá-los a manter o isolamento social, sem pressões ou questionamentos, após a pandemia. Enquanto isso, e até depois, fiquem em casa, sozinhos, seguros, saudáveis e felizes. E não precisam me mandar mensagens de agradecimento. A sua distância e silêncio já são suficientes. Obrigado.

A noite em que (quase) transgredi a quarentena

Tô sendo bem estrito nessa quarentena. Passo quase todo tempo dentro de casa e só saio pro essencial: levar a menina na escola, um supermercado ocasional e dar uma caminhada às 5:30 da matina. Sempre de máscara e com um banho de dar inveja a Silkwood na volta. Mesmo assim me sinto culpado. Deveria estar mais isolado. Todos que podem deveriam.

Já cheguei a desfazer amizades com gente que insistia em fazer pouco da pandemia. Tenho uma mãe triplamente no grupo de risco, vi pais de amigos queridos falecerem, e não estou alheio às notícias. O troço é e está brabo. Se o sujeito leu a orelha de um pocket do John Stuart Mills e vem discutir liberdade comigo pra defender seu direito de ir aglomerar ou não usar máscara pois não combina com seu uniforme de integralista, já fico com ranço. Sou desses.

Na minha opinião, o grande desafio dessa pandemia não é descobrir se você conseguiu se proteger, mas saber até onde você foi para proteger os outros. Ah, a máscara tem baixa eficácia… Mano, a máscara não é só pra proteger você, é pra você não passar pros outros. Se todo mundo usar, o lance funciona. Essa é a ideia. Não é valorizar o egoísmo mas, sim, o seu senso de comunidade. Pelo que me consta, isso aqui não é (ainda) filme de zumbi, mas, pelo menos deveria ser, uma coletividade.

Mesmo assim tem um bando de gente inconsequente que insiste em deliberada e continuamente afrontar a quarentena citando os dois textos xerocados que leu na matéria de economia do primeiro semestre de faculdade. Mas ninguém é perfeito e às vezes até o sujeito mais caxias anda no fio da navalha ou cai mesmo do outro lado. Meu dia de pecar foi ontem.

Ontem, depois do “rome-ofisse”, resolvemos tomar uma cerveja enquanto fazíamos o jantar. Eram poucas, acabaram rápido e ficou aquela vontade de quero mais, pero no mucho que sugere só mais uma. Pedir delivery ia demorar e aí a vontade ia passar. A saída seria descer e comprar uma gelada, mas já eram 7 da noite e os bares estavam fechados. Porém talvez no supermercado tivesse. Fui conferir. Máscara, chinelo da rua, tudo preparado para fazer um bate volta rápido.

Pra não perder tempo, resolvi ir logo ao supermercado de autoatendimento. Chegando lá, surpresa: o freezer não tinha uma só cerveja. Perguntei a uma atendente e ela explicou:

– Depois das 5 a gente tem ordem de não vender mais gelada.

Confesso que entendi. Já vi muita gente na praça bebendo cerveja que compraram gelada nos supermercados pra escapar do fechamento dos bares. Entendo a razão e apoio. Mas não tem uma gelada nem pra levar pra casa?

– Nem pra levar pra casa.

Óbvio que nessa hora a vontade aumentou. O que eu podia fazer pra saciá-la? A banca! Na banca de jornal teria uma gelada. Rumei pra lá e tinha. Quando ia pegar no freezer, o jornaleiro, ainda usamos esse termo?, me impediu:

– Desculpa, amigo. Depois das 5 a gente não vende mais cerveja.

Achei que ele ia dar a mesma explicação do supermercado, mas dessa vez foi diferente:

– A guarda municipal quase multou a gente ontem por conta disso.

Essa eu não sabia. Eu sabia que era proibido ficar de bobeira na rua das 11 da noite às 5 da matina, mas comprar cerveja pra levar? Que eu lembre isso não era crime. Como da outra vez, eu entendi, mas a cada “não” a vontade só aumentava.

Sem saída, achei melhor dar a triste notícia logo, antes de chegar em casa de mãos vazias. Minha companheira de copo estranhou e sugeriu uma última tentativa: “e a mercearia?”. E lá fui eu pra mercearia.

A essa altura eu já estava me sentindo um contraventor, um viciado na fila do pó. A vontade de cerveja já tinha até passado, mas encontrar uma gelada tinha virado uma questão de honra. Aí que, no caminho da mercearia, passei por um hortifruti e vi um freezer cheio de garrafas. Não titubeei.

Entrei no hortifruti e fui direto pro freezer para pegar as cervejas. Estavam lá. Todas elas. Não todas, não tinha, por exemplo, a que estávamos tomando, mas tinha umas outras boas opções. Sem pensar peguei logo seis long neck, apesar de que a gente só queria tomar duas, e passei pelo caixa tenso esperando que a qualquer momento alguém fosse interromper minha compra. Não interromperam.

Fui pra casa em passo rápido, com medo, como se alguém estivesse me vigiando. E estava. Era eu mesmo. Eu e a minha consciência.

Por que diabos eu não fiquei em casa ao invés de me arriscar nessa aventura inconsequente só porque o jantar não ficou pronto antes da cerveja acabar? Me sentia como um daqueles caras que ficam aglomerando na Dias Ferreira ou um dos convidados da festa da Pugliesi gritando “Foda-se a vida”. Quer dizer, se eles tivessem consciência.

Meu passo ficou mais lento e cheguei em casa me arrastando. Eu tinha me tornado um daqueles que eu tanto odiava. Como me liberar dessa culpa? Será que eu podia me auto cancelar? Ou eu precisaria fazer um vídeo de desculpas pra mim mesmo dizendo que aprendi muito com a experiência, sou uma nova pessoa, e nunca mais farei isso?

O jantar ainda estava no fogo e dava pra tomar uma antes. Já que tinha cometido o crime, melhor aproveitar os seus frutos malditos. Abri uma pra mim e uma pra ela. Na primeira golada, senti algo estranho. Ela também. Olhamos o rótulo: era sem álcool. Uma bela punição para o meu deslize.

Esse erro ficou me atormentando a noite inteira. Cheguei a ler e reler o decreto de medidas emergenciais para ver se tinha cometido alguma infração- não tinha-, mas não fazia diferença: crime ou não crime, a culpa estava lá. Veja como por uma coisa tão banal eu botei todo mundo em risco. Bom, nem tanto assim: tava de máscara, distante das pessoas e não fiquei confraternizando com ninguém. Mas é como se fosse. Era como me senti e como me sinto.

Agora, acordado de madrugada, espero que esse meu erro, esse momento de ceder a um capricho, não traga consciências. Tá, eu sei, sou exagerado, mas não estou errado. Afinal, se errei pequeno, posso um dia errar grande. E não tem nada mais fácil que inventar justificativa furada pra fazer o que queremos. Por isso é importante nos mantermos sempre alertas pra continuar protegendo os outros e a nós mesmos. Nesse caso, a eterna vigilância, que um dia nos tornará livres, é sobre nós mesmos.

Enquanto isso, o que me resta é tratar essa culpa com muito isolamento, álcool gel e psicanálise. Afinal não há desejo ou idiossincrasia, ou, como chamam hoje, saúde mental, que valha colocar aqueles que a gente ama em risco. E quando esse risco se realiza não tem vídeo pedindo desculpas do fundo do coração, de camiseta branca e sem maquiagem, que dê jeito.

A última pizza carioca

O que o paulista(no) não entende é que a pizza carioca precisa ser ruim. E, por isso, ela é boa.

Em primeiro lugar, pizza carioca não é a primeira opção da noite. Pelo menos não cronologicamente. Não me lembro de ter começado uma noite por ela, mas não é uma situação totalmente impossível. Por outro lado, era certo que, quando a noite terminasse, mal, como sempre, a gente fechava os trabalhos com ela.

Pra comê-la tem várias opções, mas um lugar icônico que deixa saudades é o Cine Ópera, um lugar daqueles que não se faz mais. Um misto de restaurante, pé sujo e lanchonete que servia refeições um tanto quanto suspeitas em mesas na calçada ao mesmo tempo em que vendia salgados num balcão. Ao contrário das lanchonetes, eles serviam chopp e, ao contrário dos restaurantes, vendiam coxinhas e joelhos. Um saco de gatos anacrônico que, se ainda funcionasse, seria fechado pelos pseudo especialistas em marketing do SEBRAE.

O engraçado é que vivia cheio e não tinha nada demais. A vista da praia de Botafogo era até legal, o chopp nem fedia, nem cheirava, e a pizza era aquela massaroca carioca de pão macio e queijo mussarela com ketchup e calabresa. Mas a gente gostava, comia e pedia bis. E se a pizza estivesse difícil de descer, o chopp auxiliava a deslizar o pão pela goela.

Não era o lugar mais chique do mundo mas tinha lá a sua mística e ficava aberto até o sol nascer. O que a gente podia pedir mais?

O Cine Ópera, como a pizza carioca, surgia como um sinal de que era hora de encerrar a noite. Fim de madrugada, já tínhamos gasto quase tudo nas boates e bares de Ipanema e Leblon, ou jogado nossa dignidade fora nos inferninhos de Copacabana, e no ônibus da volta, derrotados, alguém avistava o Cine Ópera e convocava:

– Saideira no Ópera!

Sem pestanejar, o bando descia na praia de Botafogo pra comer aquela fatia gordurosa e massarocuda de calabreza com o(s) último(s) chopp(s). E era alí, mascando e molhando a pizza com cerveja que a gente fazia o nosso debriefing: falávamos das tristezas da noite e da falta de sentido da existência; tentávamos extrair alguma sabedoria dos nossos fracassos; e nos entorpecíamos o suficiente para conseguir ir a pé pra casa e dormir sem pensar na nossa falta de propósito. E para isso a pizza carioca era a companhia perfeita.

O que o paulista(no) precisa entender é que a pizza carioca não é simplesmente comida. Ser massuda, sem gosto e necessitar de litros de ketchup é uma forma divina de punir o carioca pelos fracassos que viveu na madrugada; é o ápice de uma noite ruim. E, nisso, ela é insuperável e perfeita.

Mas, não podemos esquecer, a pizza carioca pra ser realmente aproveitada requer contexto e setting. Pode ser comida, quer dizer, engolida de manhã, após uma ressaca moral ou física; à tarde, após uma notícia ruim ou no processo de reconhecimento da sua própria incompetência; ou mesmo no começo de noite, em casa,  em frente à TV, enquanto os pratos sujos de duas semanas lhe lembram que você não sabe cuidar de si mesmo. A pizza carioca, repito, não é só(?) comida, é terapia.

Há boas pizzas no Rio? Sim, claro, e a elas chamamos de pizzas paulistas, pois a verdadeira pizza carioca não pode ser boa, já que a sua missão não é gastronômica e, sim, espiritual.

Por isso, não vale ficar nessa comparação, já que estão em categorias diferentes. A pizza paulista satisfaz a matéria, enquanto a carioca conforta a alma. E saiba que eu estou pronto a defender essa ideia até a última fatia de pizza com meu tubo de ketchup contra sua garrafa de azeite.

En garde?