Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Você vai receber uma carta

Segunda feira começa o Month of Letters. Não conhece? Explico. É um projeto que estimula que os participantes escrevam uma carta por dia (útil) no mês de fevereiro. E o mais o importante: que as enviem.

Parece simples, não? Mas, vou te falar, já participo desse projeto há dois anos e não é tão mole assim.

Em primeiro lugar as cartas devem ser escritas à mão, algo que, depois da primeira carta descobri, desaprendi. Quando cheguei na 10a. linha da primeira carta minha mão doía tanto que lamentei terrivelmente ter abandonado o hábito de escrever a mão. Além disso, só de olhar a minha letra, tinha cólicas de vergonha. Mas, depois da segunda carta, aceitei as minha limitações e mandava as cartas mesmo se a minha professora da primeira série não me desse uma estrelinha pela minha caligrafia. O mais importante era estar legível.

Lembre sempre da ergonomia quando for escrever suas cartas

O segundo problema é mudar o seu mindset. Estamos acostumados a uma comunicação telegráfica onde um diz “oi” e outro deve responder qualquer coisa para o papo continuar. Para escrever uma carta, se vocês não lembram do processo, é importante simular na sua mente o que o leitor estaria pensando enquanto a lê. Nessas conversas imaginárias, um assunto se liga no outro e precisamos continuar falando (ou escrevendo) sem ter o reforço de alguém estar a todo momento estar lhe dizendo OK ou HUM, HUM. Ao mesmo tempo que é libertador é um aterrorizante salto no escuro da sua própria consciência e do que você imagina sobre o outro.

A terceira coisa que mais me incomodou foi a pertinência. Quando nos comunicamos por IM ou por e-mail, é fácil jogar a isca para o outro e esperar que ele morda. E aí? Tudo bem? Tudo…. Tudo? É, mais ou menos… O QUE VOCÊ QUER DIZER COM ISSO? A pertinência é uma fé que o outro realmente se interessa pelo que você quer dizer. Para ter essa crença, é importante que em primeiro lugar você mesmo se importe pelo que você está passando para só então estar apto à e desejoso de compartilhá-lo com o outro. Logo, é impossível mandar imagens de gatinhos tocando piano ou mensagens de auto ajuda. Só conseguirá aparecer no papel aquilo que realmente fala ao seu coração. Doido, né? Para isso é importante que você esteja disposto a querer também saber dos outros. Afinal, mandar cartas é apenas uma consequência ou causa de recebê-las.

Em quarto lugar, o caminho até os correios. Mandar um e-mail é fácil. Investir a caminhada emocional aos correios é um salto de fé. Esperar que a sua mensagem chegue ao outro e ele, sensibilizado pela sua mensagem, lhe responda… é uma beleza abraçar esse mundo de incertezas. Escrever e esperar são coisas intrínsicas. Assim como escrever e não ser respondido. Acredite em mim, vai acontecer.

Está preparado para essa maratona emocional? Eu estou. Sei que só falei dos problemas, mas os ganhos são muitos.

Você troca a ansiedade pela expectativa. Fica mais aberto às experiências dos outros que deverão ser saboreadas e não imediatamente respondidas. Você cria um tempo diário para refletir sobre o que está vivendo e realmente descobrir aquilo que deseja compartilhar com o outro. Estimula a sua criatividade e reestabelece contato com o desejo de mostrar aos amigos o melhor de si. Enfim, é uma bela experiência fortalece seus laços com aqueles que ama e aumenta a sua percepção de si mesmo. E isso pelo preço de um selo (hoje em dia 1,25 para cartas de menos de 50g).

Então, vamos nessa?

Se quiser embarcar nessa insanidade missivista, mande seu endereço para o e-mail: lgaertner at gmail.com. E se quiser me conceder a graça de receber uma carta sua, aqui está o meu endereço.

Lisandro Gaertner
Caixa Postal 3290
Belo Horizonte – MG
30130-972

Te vejo na minha caixa postal!

Tesouradas

Oi, doutor, tudo bem? Ainda não abrimos, mas pro senhor claro que dá pra fazer uma exceção. Sente aí. Vai ser só o cabelo? Tudo bem. Vai querer ver aquela revistinha? Chegou uma ótima! Um filé! Ah, tá com livrinho? Eh, eh, eh. Desculpe a piada. Eu entendo, entendo. Vai que a patroa te pega aí, né? Com aquela revista na mão? A coisa não vai ficar boa pro seu lado, né? Mas vamos começar… Continue lendo

Descompromisso com a verdade?

Tava hoje pensando novamente aqui com os meus botões sobre essa febre de cursos de storytelling para executivos. A minha primeira coisa que me pareceu foi que construiram toda uma disciplina em cima daquele conselho mais velho do que andar pra frente:

– Quando for começar uma apresentação, comece com uma piada.

Como perceberam que, como todo senso comum, isso era uma furada, resolveram mudar o adágio:

– Quando for fazer uma apresentação, utilize uma anedota. Continue lendo

A arte de afrontar

Existem diversas maneiras de afrontar o outro, mas nenhuma funciona melhor que mostrar claramente que o está ignorando. Se você tem um estilo mais esquentadinho e gosta de desafiar ou diretamentar confrontar quem lhe incomoda, lamento dizer, você está fazendo isso errado. Toda vez que você confronta o outro e se mostra incomodado com ele ou suas ações, você já perdeu o jogo. Você mostrou que o outro tem o poder na relação. E afrontar não é confrontar. Continue lendo

Mais inteligente que você

Fábio chegou afobado para a entrevista de emprego. Depois de passar pelo escrutínio 11 de setembro style dos entediados guardas de segurança do prédio comercial, correu para o hall dos elevadores. Para a sua surpresa não existiam botões convencionais. Pequenos teclados numéricos substituiam os clássicos subir e descer. Malditos elevadores inteligentes, pensou. Continue lendo

Lendo boa literatura ruim

Quando era um pré adolescente sem nada pra fazer, costumava passar boa parte das férias num sítio de um amigo meu. Entre pescar de peneira nos córregos da região, invadir os sítios alheios para tomar banho nas suas piscinas e jogar RPG pelas madrugadas, sobrava muito tempo. Como não havia internet, essa máquina que te impede de ficar entediado, mas só te distrai, era necessário inventar o que fazer. Quando as invenções se esgotavam, aí é que as coisas ficavam interessantes. Continue lendo